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123141 M Gökberk, s 147; ayrıca bkz K Aysevener, s 53.

louvor é inadequado! Com efeito, por que não repetimos agora aquela alta louvação, já mencionada aqui, segundo a qual nós somos superiores aos animais em um único aspecto? Por que nós não podemos, por exemplo, louvar o riso bem alto e assim expressarmos a nossa gratidão à Natureza por ela ter concedido unicamente a nós, não apenas a alegria, mas também o choro e as lágrimas? Apesar de que Virgílio atribuiu poeticamente as

109 Aristoxeno (século IV a.c.), filósofo e músico grego, foi discípulo direto de Aristóteles e professor no Liceu de Atenas. Nascido em Tarento, na então Magna Grécia (sul da Itália), trouxe consigo conhecimentos e influências pitagóricas na música, psicologia e ética.

110 Aulo Gélio, Noctes Atticae (Noites Áticas), IV, 11, 4.

111 Para a desgraça de Orfeu, ver Ovídio, Metamorfoses, X, 79-85

112 História de Filoxeno, poeta paródico-gastronômico. Cf. Artistóteles, Ética a Nicômaco, III, 10; Ética a

105 lágrimas ao cavalo de Palante, pela morte de seu mestre113; e Homero ao cavalo de Aquiles, pela morte de Pátroclo114. Eu não posso negar que unicamente ao homem as lágrimas tenham sido concedidas a fim de aliviarem as suas mágoas; e a risada para demonstrarem alegria. Porém, eu, particularmente, sou muito mais agradecido à Natureza por outros presentes ainda mais grandiosos, uma vez que a experiência do riso é tão idêntica à das lágrimas. (2) Portanto, eu agradeço muito calorosamente à Natureza pelas coisas as quais mencionei e que eu gostaria agora de reuní-las e louvá-las com a mais alta e exaltada voz. Em certo sentido, os homens são superiores a todos os outros animais de duas maneiras: ao expressarmos os nossos sentimentos e ao bebermos vinho - expelindo o primeiro e introduzindo o segundo. E, embora falar não seja sempre agradável - mesmo quando a ocasião assim o requerer -, beber sempre é; a menos que o vinho ou o palato estejam defeituosos. Tais presentes são a nós providos pela Natureza de tal modo que a habilidade de falar não pode ser concedida à infância antes da habilidade de beber vinhos, e a velhice desaprende a arte de falar bem antes daquela de beber bem. O prazer por este presente cresce dentro de nós dia após dia, razão pela qual encontramos em Terêncio a expressão: “a velhice da águia”115. (3) Tendo mencionado este pássaro, me ocorre que algumas pessoas podem se perguntar: “mas não são alguns pássaros acostumados ao vinhoς”. Do mesmo modo, respondo: “mas não podem alguns pássaros também falarς”. Eu acredito que sim. Porém, assim como eles o fazem com dificuldade e imperfeitamente, e não são conhecidos por discursar, igualmente eles também não são conhecidos por beber. Portanto, o vinho e a linguagem são coisas apropriadas e naturais apenas ao homem. Qual elogio seria suficientemente digno de tal bem? (4) Ó vinho, autor de prazeres, mestre de divertimentos, companheiro nas horas felizes e consolo nas adversidades! Tu és sempre o chefe dos banquetes; líder e guia das núpcias; árbitro da paz, concórdia e amizade; pai do mais doce sono; restaurador da força nos corpos cansados, como diz teu amigo Homero116; libertador da ansiedade e das preocupações. Finalmente, tu nos fazes transformarmo-nos de fracotes em homens corajosos, de covardes em bravos, de mudos em eloquentes. Assim, nós te saudamos, seguro e constante prazer de todas as idades e sexos!

113 Virgílio, Eneida, XI, 89-90.

114 Pátroclo, amigo de Aquiles, morto, por engano, em seu lugar. Homero, Ilíada, 806. 115 Terêncio, Heautontimorumenos, III, 2, 10,

106 É verdade, embora eu o admita contra a minha vontade, que alguns banquetes nos empanturram, despertam a nossa aversão por manter-nos saciados por longo tempo, produzem má digestão e, certamente, não agrada muito aos mais idosos. Bebendo, pelo contrário, não importa o quanto, quando ou quantas vezes tu bebas, o processo será sempre inofensivo (como se diz) e prazeroso para todas as idades; e ainda mais particularmente para os mais velhos. (5) O que mais tenho a dizer? Enquanto observamos que quase todas as coisas pioram à medida que envelhecem, estes sagrados presentes de Baco melhoram a cada dia. E, se acreditarmos em Tibulo:

(...) este licor nos ensina a harmonizar nosso canto e a mover os nossos inábeis membros no ritmo117.

Mas não apenas poetas ofertaram honras a Baco, também os filósofos o honraram: enquanto o monte Parnaso é dedicado a Apolo, o outro é destinado a Baco. Por isso Juvenal nos diz:

(...) exaltados pelos mestres de Nisa e Cirra118.

Até mesmo Platão, o líder desses filósofos, no primeiro e no segundo livro das Leis e no Simpósio, expressa a idéia de que o vinho desperta e encoraja na mente a inteligência, e no corpo, os poderes de ação119. (6) Levaria um grande tempo para listar quantos homens grandiosos, tanto na paz, quanto na guerra, na vida privada e na pública, foram lembrados pelas gerações futuras nobremente como bons bebedores; como, por exemplo, Agesilau120, Alexandre e Sólon, o verdadeiro fundador das leis e dos bons costumes. Equiparado a estes, entre nós latinos, podemos citar Catão, o Censor, sobre quem Horácio dizia nas Odes:

117 Tibulo, Elegiae, I, 7, 37-38.

118 Juvenal, Sátiras, VII, 64. Os dois montes de Nisa e Cirra foram consagrados à Apolo e às Musas. 119 Platão, Leis, II, 627d; Timeu, 60a.

107 (...) o bom e o velho Catão é lembrado muitas vezes por ter

excitado a sua coragem com vinho121.

(7) No que me diz respeito, olho ansioso para o vinho como o único refúgio para a

velhice e, quando a idade tardia chegar, onde a comida, a busca por amor e todas as outras coisas devem ser renunciadas, eu irei devotar-me completamente à administração desta província. Para este fim, escavei adegas sob a gruta que aqui vedes, próxima à minha casa e, o que me agrada mais, a preenchi com os melhores vinhos de diferentes cores, sabores e aromas. E com relação a este último sentido, o qual inadvertidamente omiti (afinal, quem pode dar conta de grandes assuntos com poucas palavras?), existe uma generosidade surpreendente na Natureza: (8) se vós procurardes por toda a terra, como eu disse, não encontrareis nada com igual variedade de cores, gostos e odores. Acrescento ainda que, ao bebermos vinho, o prazer deriva também da cor e do odor, algo que não acontece com a comida. Por isso, devemos aprender a usar cálices largos e profundos, como era o costume freqüente dos reis antigos, de acordo com os poetas. Caio Mario costumava usar um grande cálice após as festividades do pai Líber122. Já nos banquetes mais alegres, especialmente no fim, usavam-se os cálices mais largos. Conheço bem, por ampla experiência, as qualidades e dimensões apropriadas dos recipientes de bebida. Se aprovardes o meu plano de ação, tereis alguém para seguir. E apesar de eu ser considerado vosso discípulo em todos os demais assuntos, eu me comprometo fielmente a ser, se vos agradar, vosso resoluto e experiente professor neste assunto.

XXV. (1) Todos sorriram a essa idéia e, então, Catone disse:

- Seria mais admirável e oportuno se tu convidassses essas pessoas para as tuas opulentas e felizes “adeguinhas”. Mas, continua, eu não devo, se quero seguir nosso acordo, interromper o teu discurso.

A que Vegio respondeu:

- Fazei inteiramente como quiserdes e eu espero que vos agrade. Minha alma já esteve com pratos e cálices de libação por muito tempo e, além disso, já estou cansado de

121 Horácio, Odes, III, 21, 11-12.

108 ouvir e falar. Após me recuperar e me revigorar, completarei o meu discurso dizendo o que falta para concluí-lo. (2) No entanto, temo não conseguir atrair para o meu banquete de homem epicuriano uma pessoa tão severa e estóica como tu, Catone. Especialmente porque suspeito que temas que eu, ao beber consideravelmente e me aquecer com vinho, torne-me mais eloqüente, tal qual nosso Ênio, depois da festa. Como disse Horácio:

(...) nem Ênio, nosso famoso pai, nunca começara os cânticos em louvor das armas sem estar bêbado123.

Temes que estes nossos juízes, ao se verem rodeados por um grande banquete, como acontece na minha casa, e por grandes cálices transbordando, irão unanimemente aprovar a minha causa, ou seja, a do prazer, e condenar a tua. (3) Mas, cuidado! Se tu os proibires de jantarem comigo hoje, toma cuidado para que, depois de ter-lhes mostrado a fonte e despertado a sua sede, tu não ganhes o seu ódio tácito (seguramente merecido) por tê-los mantido longe dessa fonte. Tu me insultarás se não te levantares prontamente e não te dirigires à minha casa. Já se passaram três horas do meu habitual tempo de beber e os dias de verão já começaram. E, porque não queres vir, imitarei a abstinência dos estóicos; em parte por vontade própria, pois desse modo, depois de uma longa sede, beberei com muito mais prazer; e em parte porque vejo que tu decidiste brincar tal qual nosso costume epicurista e contra a tua severidade, quando tiraste um sarro das minhas felizes “adeguinhas” - a menos que estivesses falando sério, para não dizer com desdém, ao invés de fazendo uma pilhéria.

(4) Tendo dito isto, discretamente sussurrou ao pé do ouvido do garoto parado atrás

de si para que este se retirasse silenciosamente e providenciasse, o mais breve possível, um jantar para nós em sua casa.

- Vai! Vai em frente - disse Catone - e siga com as tuas estupidezas que não interessam em nada ao argumento que transcorre. Responderei, eu espero, por toda a minha culpa a estes excelentes homens que não requerem prazeres epicuristas hoje. O teu discurso, se entendido bem, ridiculariza, não a mim, mas a ti mesmo.

Benzer Belgeler