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Podemos refletir a respeito das inúmeras influências teóricas na construção da área. É importante citar que a divisão destas influências tem um sentido didático, na prática, ocorre uma junção das diversas influências para a construção, tanto do universo teórico como de suas implicações práticas. Neste sentido, os dados do Quadro B fornecem uma visão panorâmica

sobre o que vamos discutir, a seguir.

Quadro B: Enfoques e áreas de atuação da Psicologia Comunitária

Tendências Educação Popular Institucionalista Marxista 1 Marxista 2

Vida cotidiana sócio - histórico

Principais Desnaturalização, Grupo sujeito/objeto Análise da Vida Cotidiana Aspecto afetivo na construção

Contribuições Conscientização Relações de poder Espaço de Transformação Social dos significados da vida comunit.

Contribuições Ciclo de educação política Vivências grupais para Construção de espaços

Vivências grupais de desvitimização

metodológicas/ Especialista a serviço da construção de atores socias dialógicos para reflexão dos Trabalhos de fortificação da

Interventivas transformação da comunidade mobilizados determinantes sócio-históricos identidade pessoal e social

Tendências Psico-política Psicologia da saúde Ecologista 1 Ecologista 2

autogestão ecologista cultural - EUA

Principais Mobilização coletiva, redes com. Estudo das co-construções de Autogestão, cooperativismo Busca de qualidade de vida

Contribuições relações de poder, lideranças, sentidos sobre saúde e doença relações solidárias desenvolviemnto sustentável

cidadania e participação política

Contribuições foco na mobilização comunitária Análise das práticas discursivas baseada no desenvolvimento de semelhante à ecologista 1 metodológicas/ e no desenvolv. De identidade Não oferece proposta específica práticas autogestionárias, no trei

Interventivas coletiva para intervenção namento, profissional para uma

A educação foi a primeira área a construir algum tipo de referencial para intervenção em comunidades brasileiras. A prática da alfabetização conscientizadora de adultos de Paulo Freire propõe, antes de tudo, trabalhar com a desvitimização dos povos oprimidos com o apoio da educação. Baseia-se amplamente nos processos de desnaturalização e de conscientização dos determinantes sociopolíticos da opressão.

Há também a influência dos sócio-analistas franceses, como Lapassade, Loureau, Boreau, entre outros. Psicólogos comunitários, por exemplo, Barbosa (1999);Góis (1999) e Rodrigues (2002) utilizam tais autores como base teórica e de orientação para suas análises e intervenções comunitárias.

Há a influência de autores, como Heller (2000), Lefebvre (1991) e Gramsci (1979), na linha dos analistas marxistas e neomarxistas e de Melucci (1999), na linha da democratização da vida cotidiana ao enfoque em intervenções que busquem construir espaços de conscientização na cotidianeidade vivida em comunidades, caso da obra de Reboredo (1983; 1995), entre outras.

Há, ainda, os teóricos que vêem na experiência comunitária uma possibilidade de desenvolver estratégias de pesquisa e intervenção que semelhantes a Paulo Freire privilegiem aspectos de desnaturalização das desigualdades e injustiças sociais baseadas no processo de conscientização das lutas entre classes e das formas individualizadas da ideologia pautadas em um olhar sensível às emoções (o pensar, o sentir, o sonhar, o planejar) e da re- significação do valor da vida dos sujeitos da comunidade (ZONTA, 2005) visando à construção de uma comunidade mais consciente de si e dos sentidos de complementaridade para a criação de um espaço de ação comunitária. Lane

(1988, 1989, 1996); Bonfim (1999); Araújo (1999) e Zonta (2005) foram influenciados pela teoria sócio-histórica.

Na compreensão dos processos comunitários, há a compreensão de teorias que compreendem o campo da Psicologia Política, buscando especificamente compreender os processos de mobilização política, conscientização e participação política. Teóricos latino-americanos, como Serrano-Garcia; Martín González; Martin-Baró e Montero foram se concentrando nesta área da Psicologia Social Comunitária.

No Brasil autores como Salvador (1989 a, 1989b, 1994 e 1999) e Camino (1987, 1997, 1998 e 2000) já se preocupavam com as questões comunitárias ao tratarem da dinâmica dos movimentos sociais, ao introduzirem a reflexão das ciências políticas no campo da investigação comunitária, sendo seguidos por outros vários pesquisadores, como: Martins (1987); Merisse (1987); Joaquim (1990); Prado (1994), entre outros, que investigaram os processos políticos em comunidades diversas.

Ao refletirmos sobre os conceitos e técnicas em Psicologia Social Comunitária, a área da Psicologia da Saúde é bastante atual e responde ao panorama histórico da institucionalização da Psicologia de ação comunitária no campo da saúde pública.

Esta visa a atender ao enfoque social (interpessoal e individual) necessário ao desenvolvimento de técnicas para o psicólogo que atua na rede pública de saúde, utilizando como instrumental teórico, a Teoria de Representações Sociais de Moscovici e Jodelet, as Teorias de Práticas Discursivas, de perspectiva construcionista sobretudo de Bakhtin, a teoria de Foucault, entre outras. Os trabalhos de Jovchelovich (2000) e Spink (2003) são representantes dos estudos

sobre saúde e espaço público e o trabalho de Zonta (1997) dos estudos das representações sociais em comunidades de periferia.

Outra área de atuação de psicólogos em comunidade tem se dado na área dos trabalhos de organização e gestão de movimentos autogestionários, como cooperativas ou mesmo associações, formação do trabalhador nos SEBRAEs, em entidades não-governamentais, autores como Tomazetta (1972); Gomes (1987); Singer (1996, 2000a, 2000b); e Leon Cedeño (1998) são representantes desta área.

A intervenção está relacionada às mudanças nas relações de poder que devem ocorrer para construção de organizações sustentáveis democráticas, que visam a instituir espaços diferenciados de organização do capital e dos recursos humanos da organização.

Podemos ainda ressaltar o enfoque de ecologia humana, proposta por Newbrough (1973) e Kelly (1986), com intervenções na qualidade de vida e desenvolvimento sustentável, assemelhando-se à corrente ecológico-cultural norte-americana que propõe desenvolver capacidades individuais com programas de formação e qualificação profissional, entendendo que a intervenção comunitária deve objetivar oferecer aos indivíduos formas de ascensão profissional e social.

Após ter apresentado os três períodos da formação da Psicologia Comunitária, os autores em que se baseiam as tendências das teorias e intervenções da atuação, bem como as áreas que as ações em comunidades têm se concentrado, buscamos analisar os principais enfoques teórico-práticos da Psicologia Comunitária brasileira.

Como bem nos lembra Spink (2003), duas pesquisas podem nos fornecer dados: a de Freitas (1986, 1994) no Brasil e Palmonari (1989), na Itália. Ambas trabalharam com a visão que os próprios psicólogos tinham de sua atuação, embora a de Palmonari tivesse ampliado seu foco ao campo da Psicologia Geral e Freitas só com os Psicólogos que atuam em comunidades.

Buscarei aqui realizar uma intersecção dos resultados dos dois pesquisadores, já que seus resultados são bem semelhantes. São quatro os grupos de psicólogos com base na prática que desenvolvem:

Grupo 1 – Ativista Político (Palmonari) ou de Orientação Social (Freitas)

Benzer Belgeler