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O noivado católico encontra suas bases no direito romano clássico. Contudo, segundo Ribordy (2001) se a Igreja e a nobreza medieval concordavam sobre a forma do noivado e a importância de seus ritos, quer fossem profanos ou religiosos, eles não

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concordavam com o seu significado. Para a nobreza do fim da Idade Média, o noivado constituía um juramento que confirmava o acordo concluído quando das negociações de casamento, assim como assegurava a sua realização. Representavam, por conseguinte uma etapa fundadora do casamento e não somente o anúncio de um casamento futuro, como o considera a Igreja Católica hoje.

Cronologicamente situado no final das conversações que selavam o tratado, o noivado anunciava o casamento futuro e comprometia toda a família. Era igualmente uma promessa, uma garantia de que a aliança iria realizar-se. Esta dupla função conferia-lhe um lugar central no processo matrimonial dos fins da Idade Média.

Segundo Del Priore,

Variando regionalmente, segundo tradições e culturas dos povos europeus, os ritos matrimoniais espelhavam sempre uma aliança que atendia, antes de tudo, a interesses ligados à transmissão do patrimônio, a distribuição de poder, a conservação de linhagens e ao reforço de solidariedades de grupos. Simplificando, diríamos que eles mais eram associação entre duas famílias – diferentemente de hoje, que é associação entre duas pessoas – para resolver dificuldades econômicas e sociais, sem padre nem altar. Mais importante do que as uniões abençoadas eram as “promessas de casamento” feitas pelo homem à família da noiva – os chamados esponsais ou desponsórios. Comemorados com grandes festas e troca de presentes, eles autorizavam aos olhos da comunidade a coabitação dos futuros cônjuges. A intervenção eclesiástica nesse processo tornou-se crescente a partir do século XIII, mas se adaptou, em geral, aos costumes de cada lugar (2007, p. 122).

A atenção dada a esta questão pelos historiadores, porém, não reflete a importância do noivado, excetuando o fato do componente eclesiástico que tem sido amplamente estudado por historiadores como Gaudemet (1987), Molin e Mutembe (1974). Segundo estes, o noivado é parte de uma criação romana.

No direito da época romana clássica, eles precediam normalmente o casamento, às vezes por vários anos. Celebradas com mais freqüência para as crianças pequenas, pelo pai ou aquele que tinha poder sobre elas, estas eram acompanhadas de cerimônias familiares, sociais e religiosas. Sem grande conseqüência jurídica, podiam ser rompidas.

No direito romano tardio, o noivado adquirira um lugar mais importante e sua quebra tornou-se mais difícil. Em particular, a Igreja quis assegurar a sua publicidade e solidez e não admitia mais sua ruptura por qualquer motivo. O noivado era acompanhado da entrega de um anel, de presentes e, depois do século IV, de um depósito de noivado, o que posteriormente deu origem ao , os quais confirmavam a promessa e serviam de garantia para o casamento.

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Por seu lado, o mundo germânico não conhecia o noivado. O termo , parente de , usados do séc. VI ao séc. XII eram, sobretudo, utilizados para descrever a primeira das duas etapas do casamento germânico. Esta etapa representava mais que uma promessa de casamento; constituía o primeiro gesto fundador da união matrimonial. Acompanhado do pagamento de uma soma em

dinheiro, o criava um . Ele implicava o

consentimento ao casamento e dava ao homem a autoridade sobre a mulher. Só então, após um intervalo não muito longo, é que o casamento era completado pelo

, onde a mulher era entregue ao seu marido, o casamento consumado e a vida comum estabelecida.

Durante todo o início da Idade Média, o casamento por etapas dominava tanto na teoria como na prática. Até ao século X, os canonistas não utilizavam sequer a expressão . Referiam-se antes ao equivocado termo , sem deixar claro se consideravam isso como uma promessa de um futuro casamento ou a conclusão de um acordo matrimonial.

É no século XII, durante a elaboração da doutrina matrimonial, que os teólogos franceses reencontram a romana. Estas simples promessas de casamento, batizadas de " por Pierre Lombard (apud GAUDEMET, 1987), não

criavam mais um ; representavam apenas o anúncio de um

casamento. Ao incorporar esses noivados ao ritual eclesiástico, os teólogos franceses, por conseguinte, não aprovavam mais o casamento por etapas. Consideravam antes que uma união realizava-se unicamente pela troca dos no momento do casamento.

Embora rejeitada pelos teólogos italianos, esta concepção de noivado e casamento termina por se impor no século XIII. Doravante, o noivado, simples compromisso de casamento, não deixava de ser obrigatório. Sugeria, contudo, um tempo para que os futuros cônjuges refletissem sobre as obrigações e a indissolubilidade da sua união.

Se a evolução das regras que cercam o noivado é bem conhecida, não se pode dizer o mesmo do seu real lugar no desenrolar do casamento na Idade Média. O noivado constitui, no entanto, um tema de estudo relevante para os historiadores. Uma compreensão do seu funcionamento, o seu papel e o seu significado podem contribuir para o melhor conhecimento da história do casamento no ocidente e, em especial, das relações entre dois modelos de casamento: o laico e o eclesiástico. Segundo Ribordy

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(2001), por exemplo, os casamentos da nobreza francesa, ao mesmo tempo muito preocupada em respeitar as prescrições da Igreja e extremamente ligada aos seus rituais matrimoniais tradicionais, refletem particularmente as tensões entre os dois tipos de casamento. Após séculos de luta com a Igreja, nos quais esta procurou impor os seus princípios de monogamia, de indissolubilidade e exogamia, a nobreza do fim da Idade Média conservava ainda o seu próprio modelo matrimonial. Este modelo, descrito por Georges Duby entre os séculos X e XII, subsistiu aos séculos XIV e XV, período em que as famílias e os desafios econômicos e políticos envolvidos na trama matrimonial deixavam os casais a expensas de seu casamento, assim como os seus sentimentos e a doutrina eclesiástica do consentimento dos cônjuges.

É desse conflito entre os valores da nobreza e a doutrina católica que nasce, por exemplo, a concepção de que o noivado é um ritual flexível e menos importante durante a modernidade. Para Coulmont (2002) essa característica se deve à “maleabilidade histórica” que é intrínseca ao noivado e que também pode ser descrita através do conflito entre as concepções jurídicas e litúrgicas após a Revolução Francesa.

Vê-se, por exemplo, que, do ponto de vista jurídico, os noivados desaparecem do direito no meio do século XIX para reaparecerem perto do fim deste. Após a Revolução Francesa os noivados não são mais amparados pela legislação interna do Estado. Ficam fora do código civil e são declarados “nulos e sem efeito” pelo Tribunal da Cassação em 1838: a jurisprudência francesa ratifica assim a nulidade das promessas de casamento. Mas, perto do fim do século XIX e no início do XX, pode-se ler em certas teses de direito uma re-espiritualização dos noivados, uma insistência sobre o seu caráter religioso, que se deve principalmente ao fato de o direito canônico não ser mais percebido como anti-moderno, mas como uma das inspirações do próprio direito moderno. No campo jurídico, nasce, portanto, o interesse em se codificar as relações de compromisso. Um número considerável de teses de direito e de artigos são consagrados ao noivado (e mais particularmente ao problema da ruptura do noivado) na virada do século XIX para o XX. Algumas teses mostram, por exemplo, que os noivados “continuam a ser produzidos”, ou que os mesmos são produto da “natureza humana” ou que ele é “o prelúdio obrigatório” e necessário para a realização do casamento. O noivado é, então, reintroduzido no Código Civil Francês de 1912.

No domínio litúrgico, tende-se a observar estes mesmos fenômenos de desaparecimento e reaparecimento. Os rituais diocesanos – nos quais eram dadas bênçãos ao noivado - desaparecem na segunda metade do século XIX, quando do ritual

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romano. Até meados do século XIX, uma parte dos rituais diocesanos inclui uma “ordem para a comemoração do noivado”. O ritual usado pela Diocese de Mans em 1798 descreve, por exemplo, o comportamento e os gestos do celebrante: “O padre, vestindo uma estola branca, após ajoelhar-se em oração, deslocou-se as partes que estão de pé, o rapaz que está à direita da menina, fez uma breve exortação e em seguida seu pedido...”. A unificação litúrgica do meio do século XIX faz rapidamente desaparecer estes rituais diocesanos em proveito do ritual romano, que não possui agenda para a celebração dos noivados.

Por volta dos anos 1860, portanto, os compromissos católicos tornaram-se uma cerimônia sem ritual, um rito sem suporte escrito oficial, o que de alguma maneira encarna o Código de Direito Canônico de 1917.

A ausência do noivado no ritual romano – doravante utilizado em toda a França – não faz desaparecer o rito do compromisso. Numerosos são os sinais que indicam um uso real, porém raro. Vários discursos de casamento, conservados na Biblioteca Nacional de Paris, fazem menção aos compromissos no fim do século XIX, num quadro religioso. Lá está escrito, por exemplo, que o noivado desfruta da “simpatia” da igreja. E se certos manuais de 9 (etiqueta) julgam esta prática fora de moda, é um sinal da sua utilização.

Progressivamente, graças ao seu desaparecimento e sua reaparição, o noivado é reinvestido de sentidos: é doravante objeto percebido como quase desaparecido, raro, mas que pode ser reformulado para ser adaptado à modernidade. Os compromissos podiam, por exemplo, ajudar no casamento, lutar contra o divórcio, ajudar no re- povoamento da França. A partir do início do século XX desenvolve-se assim a idéia de que os compromissos – compreendidos como uma prática tradicional – são a essência da modernidade. Albert Robida (1892) publica, por exemplo, uma notícia intitulada I no auge dos anos 1900, na qual os compromissos serviam para valorizar a idéia de que o futuro casal de jovens é uma entidade autônoma, a fusão de duas individualidades, fusão que necessita de um tempo de preparação.

Atualmente, com o declínio do número de casamentos católicos e da proporção de casamentos católicos, em comparação com casamentos civis, dois eventos simultâneos têm lugar: (1) o enfraquecimento do caráter católico do casamento e (2) a folclorização do que resta dos casamentos católicos. Dois movimentos parecem combinar-se: ao mesmo tempo uma baixa do número de casamentos católicos e um grande número de casamentos na Igreja que não são casamentos católicos, mas

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casamentos de não-praticantes e não-crentes. A resposta de uma parte da Igreja foi assimilar o casamento a uma demanda crente e fazer dele um modo de re-socialização religiosa (através de pastorais familiares e cursos de noivos). Assim, o caráter sacramental do casamento católico não se encontra mais na cerimônia (desvalorizado), mas no que precede esta mesma cerimônia.

Sendo assim o noivado católico, pouco sujeito a codificações jurídicas e litúrgicas, permanece como um rito frouxo50, pouco praticado, de existência incerta, o que torna possível sua adaptação permanente às mudanças sociais. E por serem percebidos como uma “tradição” é que seu caráter “antigo” não é questionado, permitindo assim que certas transformações sociais, como coabitação, seleção individual e não mais familiar do/da noivo/a como no início do século, sejam aceitos pelos grupos sociais.

A idéia corrente de noivado ilustra, portanto, o conteúdo cultural de nossas instituições, nos ajudando a entender e identificar o imaginário presente no processo de constituição dos arranjos familiares, assim como a produção de uma demanda matrimonial assentada no critério patriarcal que, segundo o modelo brasileiro, baseia-se em concepções de raça, classe, etnia e cor, representadas por diversas leis, como a Ordem Régia de 1726, estudada por Sérgio Buarque de Holanda, que vedava a qualquer mulato, até a quarta geração, “o exercício de cargos municipais em Minas Gerais,

tornando tal proibição extensiva aos *

(HOLANDA, 1995, p. 55) [grifo nosso]

Prado Jr. (1971), por outro lado, enfatiza que um dos principais instrumentos utilizados durante a época pombalina (1750 a 1777) para o assentamento de cidades era o incentivo aos casamentos entre europeus e indígenas. Fontenelle (2008), buscando retratar a atuação da Metrópole portuguesa, mostra que esta chegou a oferecer benefícios, como cargos públicos, àqueles “brancos” que voluntariamente celebrassem casamentos com “não-brancos”. Vale lembrar que os casamentos efetuados pela Metrópole portuguesa neste período, em conjunto com a Igreja Católica, visavam legalizar um fenômeno bastante amplo e que ocorria em grande escala: a miscigenação.

Portanto, a parca literatura sobre o noivado no Brasil indica estarmos diante de um rito cuja fonte é o nosso patriarcado e, embora ‘" & ’, é, para Azevedo (1986), um

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O termo frouxo é o que mais se aproxima da definição de Coumoult (2003) no que se refere à do rito do noivado: “rite ”. Cf. Avolio (2002): mou mole, fofo, flácido, frouxo. molenga

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elemento fundamental à compreensão da totalidade de nossa sociedade, dado expressar a maneira como são realizados os ajustes e entendimentos entre os cônjuges ou entre suas famílias. É assim uma etapa no processo de arranjo conjugal, posterior à verbalizada pelo e anterior ao rito matrimonial. Semelhante concepção é a de Wagley (1977), que entende o ‘noivado’ como uma série de preparativos formais que levam ao casamento (WAGLEY, 1977, p. 233).

Versando sobre um Brasil caracteristicamente rural, estes autores chamam atenção para a escolha de cônjuges sob o regime patriarcal e familista do Brasil colonial; um privilégio quase exclusivo do " 5 . Na monografia I

/ , P;P (2008 [1964]), matriz de + 9Q R ,

Gilberto Freyre mostra que, geralmente, o casamento no Brasil não resultava de galanteios românticos, mas de mecanismos menos líricos presentes no sistema patriarcal. O homem com quem a moça, de pouco mais de treze anos, se casava, raramente era de sua própria escolha. A escolha era de seus pais ou simplesmente de seu pai.

Mas já no século XIX o antigo padrão começou a ser substituído pelas exigências do amor romântico, ainda que este continuasse a depender bastante das obrigações morais e até jurídicas do privatismo familiar e das tradições patriarcais. Vale lembrar que, de acordo com Bozon (1991b), a própria noção de escolha nasce neste século em decorrência do aparecimento da literatura romântica – cujo principal expoente é Stendhal – espalhando novas idéias de amor e sentimento (o amor-paixão, o carinho, a atenção) cuja verdade afetiva, segundo Levy (2009), se encontra no fundo do coração e contrasta com a verdade racional dos séculos XVII e XVIII (LEVY, 2009, p. 122). A literatura romântica aqui corresponde ao que Giddens (1993) chama de “via potencial para o controle futuro”, ressaltando a relação entre liberdade e amor contido num complexo de idéias que, associadas, faziam emergir a reelaboração das condições de vida pessoal (principalmente femininas). Assim, o nascimento do romance, discutido anteriormente (Cap. 3) reflete uma ruptura com os antigos padrões de moralidade sexual e emocional que, na concepção de Wall (1998), corresponde à homogamia patrimonial e ao consentimento paternal, expressas particularmente nas classes abastadas, onde a escolha do marido para a filha era determinada pelo " , algumas vezes com a colaboração da mãe da moça (ver também LEVY, 2009, p. 121).

Quando se trata do Brasil, a análise de Azevedo (1986) sobre as regras do namoro à antiga da elite brasileira do final do século XIX e início do XX, nos mostra

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como essas mudança estão relacionadas aos novos padrões de relacionamento pautados na liberdade de escolha do cônjuge. Estes substituíam o antigo conjunto de normas onde os casamentos eram típicos de uma sociedade tradicional, sendo muito mais um arranjo entre famílias com o objetivo de manter a ordem social, a estabilidade econômica, os conchavos políticos, pautado, veementemente, nos princípios de solidariedade e integridade, do que uma escolha dos próprios indivíduos em questão (MEDINA, 2004). Nessa fase de transição é correto afirmar, de acordo com Vainfas, que o casamento no Brasil era “um ideal a ser perseguido, uma garantia de respeitabilidade, segurança, e ascensão a todos os que o atingissem” (1989, p.93). Contudo, não podemos esquecer que a atração mútua entre dois indivíduos não era desprezada, mas contribuía apenas na criação de laços mais sólidos entre aqueles que já satisfaziam os fatores determinantes: prestigio e posição sócio-econômica. Somente com o advento do século XX é que essa escolha adquiriu um novo aspecto, tendo os interessados uma voz mais ativa. Firmava- se a norma do consentimento individual condicionado, elegendo-se os candidatos ao casamento de modo imediato pela simpatia, pela atração física, pela correspondência afetiva, tudo subordinado a critérios de estamentos ou de classes sociais. Para Azevedo esse modelo refletia a revolução sexual que já vinha ocorrendo na Europa desde os fins do século XVIII, pois

Até então o sexo e o casamento tinham um objetivo mais social, da comunidade e da família; àquela altura começaram – entre outros motivos, por força do crescente individualismo – a ter um sentido mais afetivo. Os jovens vieram a atribuir maior atenção às suas inclinações interiores e, cada vez menos, a considerações estranhas aos mesmos, como a prioridade, a estabilidade das instituições, os desejos dos pais. Ali pelo ano de 1850 essa tendência se havia fixado, em definitivo, com o surgimento do namoro romântico e o casamento por amor: esses movimentos se haviam “privatizado”, tendo a felicidade do casal deixado de subordinar-se unicamente aos interesses da família como antes. No Brasil, essa mudança se teria verificado mais claramente, de fato, quase ao mesmo tempo que no Velho Mundo: a literatura de ficção da época revela essa eclosão de rebeldia romântico-individualista que inaugura o novo tipo de relação pré-matrimonial (1986, p. 08).

Verifica-se, desde então, o nascimento de diversos manuais de etiquetas (guias de namorados), que tinham como objetivo a conquista do/a parceiro/a. As finezas, as boas maneiras, a etiqueta, o modo de “praticar com pessoas” eram inculcados, por exemplo, em compêndios de civilidade cristã (ver Capítulo 1).

Desse modo a concepção de escolha e noivado presentes em nossa sociedade, longe de ser resultado de um dado objetivo, é fruto de um processo sociológico que se baseia em trajetórias individuais culturalmente inculcadas pelo modelo patriarcal de

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casamento. Portanto, a concepção de casamento, caracterizada pela versão monogâmica da união entre parceiros sexuais e a interferência dos genitores em sua constituição, encontra-se determinada pelo sistema de gostos, perfis e valores produzidos por nossa cultura.

O cônjuge preferencial51 é, pois, resultado de gostos e preferências e, mais que um ideal, é a representação de práticas sociais indicativas das escolhas coletivas e individuais que fazemos, tal como sistemas de disposições (e pré-disposições) à prática, nos mesmos termos de um condicionado por condutas regulares (BOURDIEU, 1986). Ou seja, os indivíduos, na singularidade de suas experiências, servem-se de aparelhos de produção e reprodução simbólica que os ajudam a constituir suas linguagens e representações amorosas, de modo que elas possam, assim, ganhar uma realidade própria através de escolhas bem acertadas e segundo procedimentos performativos característicos de determinada sociedade.

Alguns dos noivos interrogados em minha pesquisa se admiravam com o caráter performativo dos seus noivados. O casal Ana e Érick destacou, por exemplo, percebeu que muita coisa havia mudado no intervalo de algumas semanas entre dois casamentos realizados pela família da noiva – que à época ainda era namorada. Érick, o até então namorado, não havia sido convidado para o primeiro casamento, uma vez que até o presente momento eles ainda não estavam noivos, mas foi convidado para o segundo, já que haviam noivado dias antes do mesmo ocorrer. Para Érick o noivado foi uma “entrada” na família de sua noiva, e o convite a participar da cerimônia de casamento era a prova.

Em parte, a legitimação dos noivos como casal é um aspecto muito importante no processo de escolha do cônjuge e ser aceito é algo fundamental. Uma rejeição ou manifestação de desagrado por parte dos familiares dos pretendentes pode comprometer seguramente o relacionamento. Em nossa sociedade, todavia, homens e mulheres diferem quando da aceitação pelos parentes do noivo. Verifica-se que o homem assume o papel de pedir a mulher em namoro, noivado e casamento, e de acordo com o grau de envolvimento e do tempo de relacionamento dos mesmos depende também da avaliação que os parentes de

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A concepção de cônjuge preferencial à qual me refiro fundamenta-se na análise de Lévi-Strauss, ou seja, baseado no principio de reciprocidade, a noção de escolha presente em seus escritos é delimitada automaticamente por um grupo de parentes (“classe de parentes”) ou pela “determinação de uma relação, ou de um conjunto de relações, que permitem dizer em cada caso se o cônjuge considerado é desejável ou excluído” (LÉVI-STRAUSS, 2008, p.159).

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sua parceira fazem de sua proposta. A mulher, muito pelo contrário, na maioria dos casos

Benzer Belgeler