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Se para os que morrem a proximidade à morte é um forte sinalizador de aumento de gastos, para os que sobrevivem as morbidades elevam os gastos de uma forma menos intensa, mas prolongada. A questão da instalação das morbidades à medida que se envelhece tem sido objeto de estudo de muitos pesquisadores (por exemplo: Fries, 1980, 2000; Cutler e Meara, 2001; Hubert et al., 2002; Payne et al, 2007) que criaram algumas teorias sobre o tema.

Interessa saber se, com o envelhecimento da população, os conveniados a planos de saúde apresentarão mais morbidades à medida que avancem em idade, caracterizando uma expansão do período vivido com morbidades, se as morbidades serão apenas adiadas para idades mais avançadas, ou se haverá redução do período vivido com morbidades devido a uma possível melhoria de estilos de vida.

Fries (1980, 2000) sugere que o período de morbidade que precede à morte irá encolher com o tempo devido aos ganhos com a esperança de vida advindos da melhoria dos estilos de vida, condições socioeconômicas e avanços médicos que possam reduzir condições crônicas considerando um período de vida relativamente fixo. As medições feitas por vários autores em muitos países desenvolvidos comprovam essa previsão (Fries, 1988; Hubert, et al. 2002; Vita et al. 1998 apud Cai & Lubitz, 2007; Payne et al., 2007) e advertem que a compressão da morbidade evidenciada na crescente esperança de vida livre de incapacidades não significa menores gastos com saúde já que isso pode ser devido a uma combinação de fatores como: maior utilização dos serviços de saúde, cuidados mais eficazes com a saúde e estilos de vida mais saudáveis o que impede fazer, sem estudos mais aprofundados, uma ligação no sentido de que essa compressão de morbidades acarretará menores gastos. Todavia Cutler e Meara (2001) salientam que as incapacidades estão sendo reduzidas entre os idosos e como os que as possuem gastam mais com cuidados médicos do que os que são livres delas, os gastos relativos com saúde dos idosos parecem que estão caindo ao longo do tempo. Dessa maneira, os idosos gastam mais, porém esse maior gasto está caindo.

Gruenberg (1977); Olshansky et al. (1991); Cai e Lubitz (2007) conjecturam que a maior longevidade que se observa está associada a uma expansão dos anos vividos com morbidade, considerando que a idade de instalação das morbidades e incapacidades se mantenha a mesma. Essa teoria tem tanto o efeito de predizer um aumento da esperança de vida dos que sofrem de doenças crônicas e incapacitantes como admitir que as pessoas atinjam idades mais avançadas, ocasião em que o risco de doenças crônicas e não fatais associadas ao envelhecimento são maiores, elevando então os gastos com o envelhecimento.

Ainda sobre a duração das morbidades há uma terceira teoria, a do equilíbrio dinâmico (Manton, 1982), que sustenta que a mortalidade e as morbidades não são

independentes e que as mesmas forças que reduzem a mortalidade também reduzem a taxa de progressão e gravidade das doenças crônicas. Nesse caso, se a esperança de vida aumenta, também aumentam os anos vividos sem incapacidades. Há evidências que atestam essa teoria (Freedman e Martin, 1999 apud Cai e Lubitz, 2007) assim como a da compressão da morbidade. Outros estudos evidenciam que pessoas de alto nível educacional apresentam uma esperança de vida ativa (livre de incapacidades) crescente (Robine et al., 2003), corroborando a teoria do equilíbrio dinâmico. Na França e Estados Unidos a prevalência de doenças incapacitantes aumentou enquanto a gravidade das incapacidades diminuiu (Crimmins e Saito, 2000; Robine et al., 1998 apud Cai e Lubitz, 2007).

De modo geral existe um paradoxo entre as incapacidades apresentadas por homens e mulheres. Nos primeiros, as incapacidades são em menor número e mais severas. Nas mulheres as incapacidades são menos graves, porém apresentam maior incidência (Crimmins et al., 1996; Ferrucci et al. 2003, Oman, et al., 1999 apud Cai e Lubitz, 2007).

Outros autores (Singer e Manton, 1998 apud Miller, 2001), supondo que as morbidades estão fortemente correlacionadas com as incapacidades, concluem que os altos gastos gerados pelo grande contingente de pessoas vivendo mais são compensados pela economia de gastos devido ao declínio das incapacidades.

Gonzaga (2008) medindo a mortalidade de adultos no Estado de São Paulo, conclui com base em três indicadores utilizados para analisar as mudanças da variabilidade de idade à morte, que tem havido uma tendência à compressão da mortalidade naquele estado com as mortes concentrando-se mais para o final do ciclo predito pela esperança de vida ao nascer. Ou seja, os gastos ocasionados pela mortalidade não prematura10 estão também sendo comprimidos para o final da amplitude esperada de vida. Gonzaga (2008) mostra que, na população estudada, o ponto da curva de sobrevivência de maior declínio coincide com a idade modal à morte, mostrando que tem havido redução da variabilidade dessa idade modal o que sinaliza a retangularização11 da curva de sobrevivência. Como há uma correlação entre

10 Mortalidade prematura é a que não está relacionada com a senescência.

11 A curva de sobrevivência de uma coorte de n pessoas dada em sobreviventes por idade, decai desde o período inicial da coorte até a morte dos últimos sobreviventes, no limite, toda a coorte morreria ao mesmo tempo numa

os fatores que levam à morte e às morbidades (Manton, 1982), tal retangularização estaria sinalizando uma redução dos anos vividos com morbidades e, portanto uma redução dos gastos que acompanham o envelhecimento. Rodrigues (2010) referenciando-se às PNADs de 1998 e 2008 mostra como os brasileiros, ao auto-referenciarem seu estado de saúde, relatam que ela melhorou em todas as faixas etárias. É mais um indício da hipótese da compressão da morbidade aventada por Fries (1980) o que fortalece a tese de que os gastos com saúde não deverão crescer exageradamente com a longevidade prevista para a população brasileira o que também deverá favorecer a sustentabilidade dos planos de saúde. Os gastos com saúde irão crescer com o envelhecimento, mas os estudos citados (Fries, 1980, 2000; Manton, 1982; Gonzaga, 2008) estão mostrando evidências que esse envelhecimento tende levar a gastos menores no futuro.

Benzer Belgeler