alteração observada nos estudos de biópsia renal realizados nas espécies domésticas, independentemente do tipo de técnica empregada (Osborne, 1968; Grauer et al., 1983; Nash et al., 1983; Naoi et al., 1985; Rycke et a, 1999; Chiesa et al., 2006). Os principais pontos a este respeito foram discutidos nos itens 2.2.3 e 2.2.6.
Outra alteração observada em alguns estudos foi o decréscimo dos valores do hematócrito (Nash et al., 1986; Bigge et al., 2001). Ao analisar o valor do hematócrito de cães e gatos antes (48 horas) e depois (dentro de 36 horas) das biópsias hepáticas e renais, verificou-se que em 72,1% dos casos não houve modificação significantiva do hematócrito ou comprometimento do estado geral do animal. Em 21,9% dos casos houve decréscimo do hematócrito superior a 10%, sem que houvesse alterações do estado geral. Já em 6% dos casos, houve alteração do estado geral e necessidade de terapia de suporte (transfusão sangüínea e fluidoterapia) ou morte do paciente. Destes
6%, 3,5% foram relacionados
especificamente com a realização de
biópsias renais (Bigge et al., 2001). Houve também oscilação do hematócrito em gatos biopsiados, com queda do hematócrito da maior parte dos animais no período de 24 horas pós-biópsia, mas a flutuação foi pequena e não atribuível ao procedimento (Nash et al., 1983). Resultados similares foram observados em estudo posterior, com a realização de biópsias seriadas em felinos (Nash et al., 1986). A contagem de leucócitos aumentou de forma marcante em dois dos oito gatos biopsiados, mas na necropsia não foi identificada associação de infecção com o procedimento (Nash et al., 1983). Além disso, não foram observadas alterações nos níveis de uréia e creatinina, o que demonstrou a falta de associação entre as biópsias renais com as disfunções maiores do órgão (Nash et al., 1986).
Nos estudos realizados em ruminantes domésticos, as alterações observadas incluíram hematúria, proteinúria e hemoglobinúria (Naoi et al., 1985). Não foram detectadas alterações significativas do número de hemácias, de leucócitos, ou de outros parâmetros hematológicos em bovinos biopsiados pela abordagem laparoscópica (Naoi et al., 1985) ou de bubalinos pela técnica cirúrgica (Ramkumar et al., 1972). Tampouco houve modificações consistentes do nitrogênio urêico (Naoi et al., 1985)..
O nitrogênio urêico (BUN) é uma das principais ferramentas disponíveis para se avaliar a função renal. O aumento desta substância é influenciado pela produção de uréia hepática e pelas taxas de filtração glomerular e de excreção de uréia extra- renal. A produção de uréia hepática aumenta à medida que se eleva o aporte protéico da dieta ou por enfermidades que cursam com hemorragia do trato digestivo superior ou com intensificação do catabolismo endógeno de proteínas. Caso a quantidade de aminoácidos disponíveis supere as necessidades do animal, esse excesso será desaminado no fígado para ser utilizado em
processos de neoglicogênese e lipogênese. As aminas resultantes dão origem à uréia. Ao reduzir a taxa de filtração glomerular observa-se também o incremento dos níveis do BUN. Dentre as principais causas deste decréscimo figuram as enfermidades que cursam com desidratação, as lesões renais e os processos obstrutivos distais do trato urinário. Além do efeito direto da menor taxa de filtração, a redução na velocidade de fluxo favorece também uma maior reabsorção da uréia (Thrall, 2007).
De maneira similar, os níveis séricos da creatinina são influenciados pelas mesmas possibilidades de alterações da taxa de filtração glomerular, sejam elas pré-renal, renal ou pós-renal. Todavia, como a creatinina é formada a partir do catabolismo da creatina muscular, a sua produção diária é relativamente constante, e não sofre influencias extra-renais relacionadas com maior aporte de aminoácidos, através da dieta ou determinado por enfermidades, como ocorre com a uréia (Thrall, 2007). Os valores de referência de uréia e creatinina em ovinos estão dispostos no quadro 4. 2.2.8. Avaliação das amostras
A representatividade histológica das biópsias renais tem sido medida através do número de glomérulos contidos nas amostras em estudos realizados em humanos. Verificou-se que a presença de quatro glomérulos foi suficiente para avaliação histológica e que o aumento deste número não ampliou a precisão diagnóstica da amostra. Em adição, outros estudos apontam a necessidade de sete a dez glomérulos para a adequada avaliação histomorfológica (Laufer-Amorim et al., 2002). Apesar de não existir parâmetro semelhante na prática veterinária, alguns autores consideram adequadas as amostras que apresentam tecido medular e pelo menos cinco glomérulos (Hoppe et al., 1986; Wise et al., 1989). Para Osborne (1971), entretanto, este tipo de critério arbitrário adotado é cercado de incoerências. De acordo com o autor, as
informações contidas nas amostras de tecido não dependem diretamente do número de glomérulos. Exemplifica que em determinadas situações o diagnóstico não pode ser estabelecido mesmo com um número ilimitado de glomérulos, ao passo que em outras circunstâncias pode-se sugerir ou confirmar diagnósticos com apenas um glomérulo. Em estudo retrospectivo demonstrou-se que diagnósticos corretos podem ser realizados a partir de amostras com número reduzido de glomérulos (zero a quatro). Por fim pondera que, apesar de não haver correlação direta entre o aumento do número de glomérulos e o aumento na acurácia da técnica no diagnóstico de enfermidades, as amostras com grande número de glomérulos são úteis na avaliação da severidade de algumas doenças.
De qualquer forma, o número de glomérulos obtidos através de biópsias renais percutâneas tem sido relatado em diversos estudos de cães e gatos com o uso de técnicas e instrumentais distintos (Jeraj et al., 1982; Nash et al., 1983; Hoppe et al., 1986; Wise et al., 1989; Laufer-Amorim et al., 2002). Em biópsias percutâneas cegas ou através da técnica “keyhole” foram descritos números de glomérulos que variaram de 0 a 19 (28% de 0 a 4 e 72% de 5 a 19) (Osborne, 1971) e de 0 a >11 glomérulos (51% de 1 a 10; 47,5% > 11 e 1,5% sem glomérulos) (Jeraj et al., 1982) com o uso de agulhas Franklim-Silverman.
Em felinos as biópsias percutâneas cegas com agulhas Tru-cut resultaram em amostras com médias de glomérulos de 6,4 (Nash, 1986), 9,7 (Nash et al., 1986) e 13,8 (Nash et al., 1983). No primeiro estudo foi testada uma agulha Tru-cut com mandril mais curto, com modificações na extremidade da cânula externa. No segundo, foram realizadas biópsias seriadas, com maior cautela em manter o eixo da agulha limitado ao córtex renal do que no último estudo (Nash et al., 1983). Em outro estudo em cães, em que foi comparada a qualidade das amostras obtidas
do rim direito com a do esquerdo através da técnica “de janela” com agulha Vim tru-cut, verificou-se equivalência estatística entre o número de glomérulos obtidos (17,53 e 15,93, respectivamente), mas com maior número de amostras sem glomérulos entre as biópsias realizadas no rim esquerdo (Laufer- Amorim et al., 2002).
O uso de dispositivos automáticos com agulha de biópsia 18G guiados por ultra- sonografia resultou em amostras com média de 7,5 glomérulos para o rim direito e 6,6 para o esquerdo (Rycke et al., 1999). Além disso, o uso deste tipo de dispositivo guiado por ultra-sonografia foi mais eficiente em obter amostras com maior número de glomérulos do que com a técnica manual com a agulha Tru-cut (13,2 e 4, respectivamente) (Hoppe et al., 1986). Por fim, não foram observadas diferenças significativas na comparação da representatividade das amostras (presença de tecido medular e 5 glomérulos) entre as técnicas de biópsia percutânea por laparoscopia com duas variações da técnica “keyhole”. Também não foram identificadas diferenças entre as técnicas quanto à presença de tecido pélvico ou de arteríolas arciformes nas amostras (Wise et al., 1989). Nos estudos conduzidos em bovinos, ovinos, e bubalinos não há citação de avaliações da qualidade das amostras similares. Nestes trabalhos avalia-se, sobretudo, o tamanho e o peso das amostras, já que nestas espécies os estudos são mais voltados para a dosagem de substâncias (Brow e Baird, 1988; Chiesa et al., 2006) do que para as análises histopatológicas. Entre as técnicas empregadas, os melhores resultados descritos foram obtidos com as técnicas cirúrgicas, com pesos de 5 a 10g em bovinos (Garner et al., 1968) e de 95 a 1670mg em bubalinos (Ramkumar et al.,1972). Já com o uso de pinças de biópsia Blakesley por laparoscopia verificou-se pesos da ordem de 100mg por amostra em bovinos (Chiesa et al., 2006), ao passo que nas biópsias
percutâneas com agulha Franklin-Silverman foram necessárias usualmente três tentativas para se obter pesos próximos a 40mg em ovinos (Brow e Baird, 1988). O peso obtido neste último estudo foi suficiente, entretanto para dosar gentamicina no tecido renal através do sistema automático de imunoensaio de fluorescência polarizada.