Considerando aspectos gerais, o Centro de Educação Infantil em que o processo de construção de dados se deu contava com dezesseis trabalhadores: duas merendeiras, dois auxiliares de serviços gerais, uma auxiliar administrativa, um porteiro, duas estagiárias, seis professoras (duas delas com contratos temporários), além da diretora e da coordenadora. Em 2012, o CEI atendeu aproximadamente a 200 crianças, distribuídas entre os turnos da manhã e da tarde, contando com uma sala para crianças de 3 anos, uma para crianças de 4 anos e duas para crianças de 5 anos. Havia uma professora titular para cada uma dessas salas e duas docentes de apoio.
No tocante à análise documental, um dos principais achados foi um manual produzido pela Secretaria de Educação do Estado denominado de “Orientações curriculares para a educação infantil”. Ao que consta, esse documento era a principal fonte de prescrição sobre as práticas pedagógicas implementadas. Nele, lê-se que
O objetivo e expectativa maior é de que esse documento chegue às mãos de diretoras(es), coordenadoras(es) e professoras(es), e se transforme em fonte viva de consulta e orientação para a construção das propostas pedagógicas direcionadas ao pleno desenvolvimento das crianças cearenses. A intenção é estabelecer com as(os) professoras(es) um diálogo claro, a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais, para expandir a compreensão de todos acerca de seus conceitos e fundamentos, e favorecer a sua incorporação no cotidiano de cada sala de aula, tendo como base planos e rotinas, metodologias, atividades e materiais (CEARÁ, 2011, p. 6).
Foram realizadas duas entrevistas semiestruturadas que, somadas, totalizam 2 horas e 41 minutos. Uma delas contou com a participação de duas das três integrantes da equipe de coordenação de educação infantil da Secretaria Municipal de Educação. Da outra entrevista, participaram a coordenadora e a diretora do CEI em que os dados foram construídos, além de uma das integrantes da coordenação de educação infantil.
A instrução ao sósia contou com a colaboração de 4 professoras, de modo que houve representantes de docentes responsáveis por todas as faixas etárias atendidas pela escola (3, 4 e 5 anos), além de uma professora de apoio. Tais entrevistas foram realizadas individualmente. O primeiro momento, no qual cada professora relatava um dia de trabalho supondo o pesquisador como seu sósia, durou, em média, 1 hora e 32 minutos. Todas
receberam a transcrição deste encontro e lhes foi solicitado que a lessem e tecessem comentários. Contudo, diferente do que prescreve a Clínica da Atividade, não foi requisitada a formulação de um texto com observações. Em conversas com as professoras, viu-se que, diante dos afazeres cotidianos, elas não teriam tempo para produzir tal material. Acordou-se que os comentários seriam feitos verbalmente.
O segundo momento, também efetivado individualmente, durou 2 horas e 7 minutos em média. Na ocasião, além de escutar as considerações das professoras sobre o texto transcrito, o pesquisador requisitou que elas fizessem observações sobre momentos específicos, previamente recortados do texto, por considerá-los relevantes para a compreensão da atividade docente.
A autoconfrontação cruzada teve início com uma reunião para a apresentação do método. Nesse mesmo encontro, após os debates inciais, também foi realizada uma discussão a partir de dados levantados nas entrevistas de instrução ao sósia. O grupo foi confrontado com trechos das falas das colegas e travaram-se análises a partir deles. Na ocasião, que durou 3 horas, estavam presentes todas as docentes do CEI.
Feitos os esclarecimentos sobre como a autoconfrontação deveria se dar, debateu- se a disponibilidade das professoras em colaborar com este momento da investigação. O grupo, de um modo geral, se mostrou muito reticente em ter seu cotidiano filmado. Afirmaram que se sentiriam intimidadas diante de uma câmera, de modo que não ficariam suficientemente a vontade para agir espontaneamente. As falas transcritas a seguir retratam esse questionamento:
1 Renata3: Não é nem pelo fato da gente não aceitar o seu convite, imaginar assim, que
seriam umas pessoas ruins, mas, realmente, essa questão de filmar, pra falar a verdade... 2. Rose: Intimida. Não fica à vontade.
3. Renata: Eu não teria coragem de fazer as coisas que eu faço [com] alguém filmando. 4. Lurdes: Eu não gosto de câmeras.
5. Renata: Não, eu acho assim, por exemplo, nós, eu tenho certeza, todas nós aqui fazemos coisas na sala que quando chega alguém na porta a gente já fica toda assim, porque torna-se um pouco constrangedor alguém filmando, às vezes você não sabe nem como agir.
[…]
6. Ana: Na realidade, deveria ser uma coisa natural, né, como o dia a dia. 7. Lurdes: Não!
8. Rose: Não!
3Todos os nomes citados são fictícios, assim como todos os rostos presentes em fotos foram desfocados, a fim de garantir o anonimato das participantes da investigação.
9. Ana: Vai ser mascarado, com certeza.
Há questões teóricas relevantes nesses apontamentos. As professoras esperam que o pesquisador aja como um naturalista, interessado em ver comportamentos cotidianos não enviesados por qualquer interferência externa, contudo, a Clínica da Atividade (CLOT, 2007a) propõe o contrário. O ato de ser observado leva o sujeito a observar a si próprio, a considerar suas ações, a procurar entender os seus movimentos para tentar produzir a melhor performance possível diante de um estranho, para atender às expectativas que imagina ter o observador ou qualquer outro motivo que possa a surgir. Conforme discutido previamente, é por esse movimento de retroação, do agir do pensamento sobre a própria ação, e, posteriormente, por uma possível modificação dos modos de proceder já adotados, que se interessa a Clínica da Atividade. É com ações como essas que se espera colocar em movimento estruturas cristalizadas e poder compreender seu processo de desenvolvimento. Tal entendimento foi explicitado às professoras, de modo que fosse possível compreender que, quando o pesquisador se aproxima de um contexto de trabalho, se espera esse efeito “desnaturalizante” que as retirasse do “conforto” proporcionado pelas operações já consolidadas em seus modos de agir e proceder.
A estada do pesquisador nas classes para realização das filmagens também foi questionada. Considerou-se que a presença de um terceiro poderia conturbar a dinâmica das aulas e trazer prejuízos aos alunos. Avaliou-se que as crianças, devido à sua de tenra idade, poderiam se amedrontar com um estranho, como pode ser visualizado no excerto a seguir:
1 Carla: Até as crianças vão ficar inibidas.
2 Renata: Eu tenho certeza que na minha sala você vai ver choro. Independente de ser uma coisinha pequena ou uma coisinha grande. Eu sei disso pelas visitas do dentista. Porque eles têm medo, eles ficam “tia, o que é isso aí?”. Por mais que seja uma coisa natural, isso que eu faço no dia a dia não vai ser a mesma coisa, porque eu sei que os meus meninos vão ficar: “por que que esse moço tá aqui?”. Pode até não sair da maneira tão que você esperava ver, pois eu sei que, meus alunos, eles não vão reagir da mesma forma. Só em ter uma pessoa diferente na sala, o desejo deles é ficar igual aqueles gatos, entre as minhas pernas: já é tudo se roçando, perguntando quem é, o que não é, o que vai fazer.
3 Rose: E assim, outras crianças podem ficar mais agitadas, então assim, já atrapalha muito o momento do grupo, então é algo que a gente tem que amadurecer e ver essa proposta e...
em sala, cabe dizer que as previsões explicitadas nas falas citadas acima não se concretizaram. Ao contrário do que as professoras antecipavam, a recepção dos alunos transitou entre calorosa e indiferente. Vários deles interagiam espontaneamente com o pesquisador enquanto outros continuaram seus afazeres sem, aparentemente, se importar com sua presença na sala. Não se notou qualquer prejuízo ao desenrolar das aulas, excetuando-se pela eventual curiosidade de algumas crianças em relação aos equipamentos utilizados. Obviamente, houve um cuidado por parte das docentes em preparar as crianças, informando-as previamente sobre o que aconteceria. Tal desfecho foi comentado por uma das professoras:
1 Renata: Foi. Nós, nós, a Rose e eu, nós estávamos preocupada quando… Eu tava mais ainda com a tua presença, de tu fizer os meus meninos chorar. Porque eu vou te dizer uma coisa que eu não te disse, mas eu disse pras meninas, né? Se os meus meninos tivessem chorado contigo na sala, eu tinha te botado pra correr.
2 P.: Não, mas eu era o primeiro que saía, também.
3 Renata: Eu tinha dito com todas as letras: “Pablo, não dá. Por favor, rua!”. [Risos]. 4 P.: [Risos].
5 Renata: Não, eu juro pra ti, se eles tivessem chorado, tivessem ficado com medo… Porque, assim, eu tinha conversado com eles, né, na segunda-feira, que tava a, a Conceição, que é meu Planejamento aqui. Eu fui lá, né? Aí eu disse que a gente ia ter um amigo na sala, que ele não era dentista, que ele não era doutor. Porque eles têm um medo tão grande de doutor. Eu acho que é a família que faz isso, sabia?
6 P.: [Risos]. Aí é?
7 Renata: Eu acho que é. Ave-Maria, quando o dentista veio, Pablo, era tanto menino chorando, tanto menino chorando, tanto menino chorando, tanto menino chorando. Aí eu olhei pra ele: “doutor, num dá certo o senhor ficar na sala não”. As meninas, eu digo, ficaram bestinha pra mim na janela oh, sabe, botou a mão na cabeça.
8 P.: Uhum.
9 Renata: Porque eu disse pra ele: “doutor, num dá certo o senhor ficar aqui não”. 10 P.: [Risos].
11 Renata: Porque, Pablo, eu tinha quatro crianças num clamor de choro tão grande e ele fazendo uma palestra na sala de três anos e os meus menino tudo morrendo de chorar. E eu: “não, num dá certo não. Vai pra lá”. Botei ele pra ir simbora. [Risos] Nem! 12 P.: Mas eu atrapalhei foi no sentido contrário, eles gostaram de ficar interagindo comigo. [Risos].
13 Renata: Foi. Graças a Deus, os meus menino nem “thuiu” pra tu, tu viu? 14 P.: Depois eles tavam tudo, tudo querendo brincar comigo, tudo...
[...]
15 E.: É. Pronto. Porque, né, eu disse: “ele não é médico, ele é um amigo da tia, aí ele quer ser professor, e eles querem olhar, ele quer olhar como é que vocês ficam na escola”. E aí, quando você chegou, ainda bem que foi assim, porque se tivesse sido ao contrário, né?
participar dos momentos de filmagem pertinentes à autoconfrontação cruzada, duas professoras, que atuavam em turmas com alunos de 3 e 4 anos, destoaram do consenso que se estabeleceu inicialmente. Apesar de manterem a posição negativa sobre as filmagens, afirmaram não haver problema em ter suas atividades observadas. Diante dessa abertura, o pesquisador lhes perguntou se ficariam desconfortáveis em ter suas falas registradas em áudio, bem como os momentos em sala fotografados. Ao fazer uso deste procedimento, a confrontação com a atividade poderia ser feita por meio de imagens e som. Não houve objeções por parte delas quanto a estes procedimentos.
Com esta anuência, o pesquisador usou o seguinte expediente em cada momento em que acompanhava as aulas: solicitava que as professoras portassem junto a si um
smartphone, no qual suas falas seriam gravadas, e, simultaneamente, com o auxílio de um tablet, tirava uma longa série de fotos. Por meio de um aplicativo, era possível temporizar o
intervalo entre cada foto, de modo que os registros acontecessem a cada 3 segundos, por exemplo. Na medida em que ambos os aparelhos utilizados registravam o horário inicial das gravações e das fotos e admitindo-se que estas últimas estavam separadas umas das outras por intervalos fixos, foi possível sincronizar as sequências de imagens com o áudio correspondente com o auxílio de um aplicativo de edição. Produziu-se, desta maneira, uma espécie de vídeo stop motion de cada atividade registrada. Esses “vídeos” improvisados foram, assim, utilizados para que as confrontações necessárias fossem realizadas.
Considerando os períodos de observação simples e de registros de imagens e áudio, o pesquisador permaneceu por 45 horas nas salas de aulas das 2 professoras que se voluntariaram a participar. Com cada docente foi realizado um encontro no qual foram apresentadas as imagens de sua atuação. Tais momentos de confrontação simples, nos quais elas teciam comentários sobre suas próprias atividades, duraram, em média, 2 horas e 30 minutos. Realizou-se, ainda, uma reunião, com duração de 2 horas e 40 minutos, no qual as duas professoras estiveram presentes e fizeram observações sobre o desempenho uma da outra, caracterizando a autoconfrontação cruzada. Por fim, houve mais uma reunião no qual também estavam presentes as demais docentes da escola. Nesta ocasião, que se estendeu por 1 hora e 50 minutos, as discussões realizadas previamente foram levadas ao grupo como um todo. As professoras que tiveram as atividades observadas permitiram que as demais também pudessem ver os registros produzidos, de tal maneira que este material serviu como mediador para o debate que ali se registrou.