• Sonuç bulunamadı

Mütercim-Tercümanlık (İngilizce) - III

Belgede Ağız ve Diş Sağlığı - I (sayfa 75-84)

O direito de resistência pode ser identificado a partir da experiência da ocupação Raízes da Praia como um direito, implícito no ordenamento jurídico constitucional, fundado no exercício de atos de descumprimento de determinadas ordens jurídicas por sujeitos organizados politicamente, que se encontram em um conflito social do qual emerge uma reivindicação popular pela materialização de direitos fundamentais. Essa resistência baseia-se na compreensão de que esses direitos somente podem ser efetivados por meio de uma atuação pública, política, dos destinatários daqueles direitos. A resistência, nessa perspectiva, representa um método essencial para os

108 processos de avanços das conquista e da formulação de novos direitos proporcionados pelo desenvolvimento das lutas sociais.

O direito de resistência determina-se, então, como ferramenta de efetivação do princípio democrático na medida em que aprofunda as contradições do regime democrático, no sentido de contribuir para sua verdadeira efetivação. A dinamicidade do ambiente democrático mostra-se como condição essencial para o estabelecimento da normatividade de tal princípio para a concretização da democracia na sociedade moderna.

O Estado Democrático de Direito consolidou sua legitimidade principalmente a partir do que Habermas define como interação entre autonomia privada e autonomia pública. Ao analisar o processo de reconhecimento de direitos e de poder político das mulheres, o autor afirma que, nesse Estado, o processo democrático tem a função de garantir direitos subjetivos que possibilitem a alguns grupos oprimidos, como as mulheres, soberania frente as suas vidas privadas. E esses direitos são concebidos mediante a organização política desses sujeitos em espaços que estimulem sua participação na sociedade. (HABERMAS, 2010, p. 197).

Essa autonomia gerada no seio da movimentação coletiva reflete-se no modo de funcionamento do sistema jurídico-político porque os indivíduos passam a se identificar como sujeitos e autores do próprio direito. Segundo o próprio autor, do ponto de vista normativo, não pode haver Estado de Direito sem democracia. Um Estado que se afirme como garantidor de direitos fundamentais capazes de preservar a equiparação jurídica, social e econômica dos cidadãos e o reconhecimento de grupos que se diferenciam culturalmente por sua tradição, modo de vida, etnia etc. não pode subsistir sem a noção democrática a respeito da forma como se desenvolve o direito na sociedade.

A validade da norma jurídica nesse Estado Democrático de Direito encontra-se centrada na concepção de que o regime democrático garante, ao mesmo tempo, a aplicação fática do direito e a sua criação (e efetivação) de forma legítima, pelo povo. Neste processo de criação, a diversidade de interesses (que resulta em conflitos e protestos) em jogo concebe aos atos de resistência papel central para o desenvolvimento da lógica democrática.

Diante do pensamento habermasiano, questiona-se o fato de que, na realidade concreta, os grupos sociais oprimidos não conseguem construir o sistema jurídico- normativo estatal, o sistema dominante na sociedade. Os mecanismos da Assembléia Nacional Constituinte na elaboração do texto constitucional mostraram as diversas

109 contradições dos grupos políticos e os embates em relação ao caráter do Estado Democrático de Direito brasileiro. Apesar das vitórias do movimento popular em relação à conquista de vários direitos, a realidade demonstra que o sistema institucional vem sendo determinado pelas outras forças que também compõe os interesses da ordem legal vigente, os setores do capital.

Nessa perspectiva, a resistência mostra-se ainda mais eficaz e necessária, tendo em vista a inversão da lógica que deveria conduzir o regime democrático, já que o povo, especialmente os oprimidos, no Estado Democrático brasileiro, não se sente como sujeito construtor das leis, mas como vítima do sistema institucional, conforme se pôde verificar por meio da pesquisa de campo na comunidade Raízes da Praia.

A resistência entendida como um direito no ordenamento jurídico vigente aponta também uma série de limitações, referentes às possibilidades de essa mesma resistência representar um mecanismo de superação da ordem jurídica vigente na perspectiva de construção de um novo sistema jurídico-político.

A emergência de situações em que o próprio povo se veja impelido a realizar atos de resistência ao ordenamento para propor e fazer parte do processo de efetivação de direitos fundamentais demonstra a falência da maneira como vem sendo efetivado o sistema institucional, pois não tem capacidade de concretizar certos valores sociais do Estado Democrático de Direito (o já comentado abismo entre o direito positivo e a realidade factual da maioria da população).

Neste contexto de privações de direitos e de consolidação de um sistema jurídico político que reproduz as opressões mantidas pelo sistema capitalista, a resistência mostra-se como último recurso à população, tanto para garantir a efetivação de seus direitos básicos, quanto para a proposição de uma outra prática política pautada pela organização popular. Esta proposição pode se dar dentro da ordem legal, por meio da interpretação constitucional do direito de resistência como forma de efetivação do princípio democrático, ou fora dela, em circunstâncias determinadas pelo grau de acirramento das lutas sociais.

Na conjuntura atual tal grau de acirramento não se verifica e, não estando a superação do sistema capitalista na ordem do dia para a organização e a atuação do movimento popular e das demais organizações políticas, pode-se considerar a admissão do direito de resistência como uma ferramenta capaz de explorar as contradições do atual modelo de produção e efetivar direitos fundamentais já garantidos. A resistência está, portanto, no limite entre a luta dentro e fora da ordem estabelecida. Ela pode ser

110 concebida, na atual conjuntura da luta de classes, como uma fronteira tênue entre esses dois “momentos” da luta social.

Na busca pela materialização do princípio democrático, as disputas relativas às prioridades do sistema jurídico-político podem emergir e o poder estatal pode ser influenciado mediante a intervenção popular, a chamada “hiperpotentia”, conforme propõe Dussel. Enquanto o regime democrático atual não aprofunda os mecanismos de participação e intervenção direta da sociedade no poder político do Estado, serão necessários atos de resistência para que a população consiga construir uma lógica de efetivação, e não de supressão de direitos fundamentais. A pressão popular no caso da ocupação Raízes da Praia forçou a atuação da instituição, para que efetivasse de alguma maneira o direito à moradia daquelas famílias.

Todas las instituciones, todos los sistemas institucionales, a corto, mediano o largo plazo deberán ser transformadas. No hay sistema institucional imperecedero. Toda la cuestión es saber cuándo debe continuar una institución, cuando es obligatoria una transformación parcial, superficial, profunda o, simplemente, una modificación total, de la institución particular o de todo el sistema institucional. (2006, p. 126)

Existem entraves, entretanto, para a consolidação da resistência como forma autônoma de concretização do princípio democrático. O principal deles constitui-se na concepção de legalidade para o atual sistema jurídico político. Conforme se evidenciou na análise do caso concreto, o aparelho oficial sequer inquiriu a autoria das ilegalidades (dos despejos forçados) cometidas contra a população. Enquanto que a ocupação do terreno e a resistência da população à ordem de reintegração de posse, na análise do Judiciário, trataram-se de ações criminosas.

Os indivíduos que ocupam os cargos de decisão estatal, especificamente em relação ao Judiciário, passam por determinados crivos sociais que os impedem de serem provenientes das classes trabalhadoras. Isso faz com que o Estado, em diversos aspectos e por conta de sua própria estrutura organizativa, sirva aos interesses de uma determinada classe, a dos proprietários.

O modelo democrático representativo e as atuais formas de efetivação da democracia participativa consistem igualmente em um obstáculo para essa consolidação. Por desenvolver-se no bojo de uma sociedade capitalista, a delegação de poder por meio do voto bianual reforça valores individualistas e afasta os cidadãos da possibilidade de se enxergarem como construtores do direito e do poder político. Este

111 modelo reduz a importância da autonomia pública, da necessidade de os cidadãos, a partir de sua própria organização e atuação política, empreenderem o significado dos direitos elencados na Constituição Federal. Os mecanismos atuais de democracia participativa, as Conferências, os Orçamentos Participativos, etc. apresentam uma série de limitações, porque representam em sua grande maioria espaços de legitimação de políticas já definidas no âmbito do Governo, restando à participação popular a condição de mera espectadora.

3.5 O direito de resistência da ocupação Raízes da Praia: a construção do

Belgede Ağız ve Diş Sağlığı - I (sayfa 75-84)

Benzer Belgeler