As barreiras de primeira ordem, também chamadas de barreiras internas, são aquelas
que delimitam ou inibem completamente o trabalho docente por razões externas à formação inicial do mesmo. A falta total de equipamentos tecnológicos no ambiente escolar, como laboratórios de informática sucateados, falta de projetores multimídia ou notebooks para uso docente, problemas de hardware ou software nos equipamentos tecnológicos existentes e internet inexistente ou muito lenta. Nas palavras de Ertmer (1999, p. 02) “são aquelas que são externas ao professor e inclui recursos (software e hardware), treinamento e suporte”.
Em um estudo de revisão da literatura sobre as barreiras, Bingimlas (2009) identificou e categorizou quatro barreiras de primeira ordem encontradas em um maior número de trabalhos:
a) Falta de tempo: Justifica-se como uma característica externa por estar relacionado ao pouco tempo que o professor dispõe de planejamento das aulas ou para desenvolvimento os projetos relacionados a integração tecnológica.
b) Falta de treinamento efetivo: Segundo o autor, possivelmente a barreira externa com maior número de trabalhos. Um problema sério que acomete desde a graduação, passando pelas secretárias de educação e culminando em políticas públicas nas várias esferas relacionadas ao letramento digital de professores de línguas.
c) Falta de acessibilidade: Envolve desde a expressão consagrada ‘acessibilidade’ ligada as diversas deficiências e especificidades dos alunos e professores, como também tem relação com tornar acessível tudo aquilo que o professor necessita para um bom planejamento e uma boa prática.
d) Falta de suporte técnico: Essa barreira é importante nessa pesquisa que lida diretamente com tecnologias, pois engloba desde o uso de laboratórios de informática, a equipamentos que o professor tem e não tem suporte ou necessitaria ter. E ainda há
questões práticas como problemas de eletricidade, falta de internet (ou internet muito lenta) e suporte de profissionais de TI (Tecnologia da Informação).
Em seu trabalho de conclusão de especialização, Valadares (2016) destaca a
importância do uso de TIC nas salas de aula do ensino fundamental e médio, mas percebe uma resistência e uma falta de manuseio em práticas eficientes em seu uso. Segundo o pesquisador, a realidade do professor público municipal, realidade em que ele também está inserido, é desmotivadora, e faz uma análise de alguns fatores externos que são preponderantes para isso:
(...) um ambiente extremamente ligado as políticas locais, a falta de qualificação e motivação causada por vários fatores, sendo um dos principais, os desgastes diários provenientes da violência, apatia, falta de interesse de nossos alunos que são abandonados em sua maioria por suas famílias sem o devido acompanhamento de seu desempenho escolar. Aliados a esses fatores, encontramos professores desmotivados e robotizados em suas práticas e confortáveis em sua situação de funcionários públicos efetivos que perderam o interesse em uma formação continuada e inovadora. (VALADARES, 2016, p.16)
Esse retrato é realmente comum nas escolas públicas do Brasil e da cidade desta pesquisa e vai muito além da estrutura precária encontrada em muitas escolas e dessa forma inibem um uso mais criativo e constante de quaisquer práticas pedagógicas, não necessariamente as que se utilizam de recursos digitais. E quanto ao aspecto tecnológico per si? Quais são as barreiras de primeira ordem mais comuns? Pelgrum (2001) conduziu um estudo qualitativo que envolveu 24 países (em sua maioria europeus) sobre o nível em que escolas de ensino fundamental e médio detinham na integração do uso das tecnologias. Os dez maiores obstáculos encontrados segundo os próprios agentes educacionais foram27:
1. Número insuficiente de computadores;
2. Falta de habilidade/conhecimento dos professores; 3. Dificuldade de integrar na instrução;
4. Agendamento de tempo nos computadores;
27 No original em inglês:1. Insufficient number of computers 2. Teachers lack knowledge/skills 3. Difficult to
integrate in instruction 4. Scheduling comp. Time 5. Insufficient peripherals 6. Not enough copies of software 7. Insufficient teacher time 8. WWW: not enough simultaneous access 9. Not enough supervision staff 10. Lack of technical assistance. (tradução minha)
5. Periféricos28 insuficientes;
6. Cópias insuficientes de software; 7. Tempo insuficiente do professor;
8. Acesso simultâneo ao www insuficiente; 9. Funcionários de supervisão insuficientes; 10. Falta de assistência técnica;
Pelgrum fez essa lista há mais de 15 anos e é impressionante como ainda se identifica à realidade brasileira em muitas (ou em todas) essas barreiras mencionadas. A verdade é que a realidade econômica é outra nesses países e muitas dessas dificuldades já devem ter sido superadas. Em um dos estudos mais completos e recentes sobre a realidade brasileira, Filho et
al. (2017) identificaram após pesquisa nos cursos de licenciatura, nos professores do ensino médio e em análise documentais as barreiras estruturais, epistemológicas e didáticas. As conclusões no que tange a questão estrutural (e de primeira ordem) foram as seguintes:
os resultados que apontam para os obstáculos estruturais na inserção das práticas docentes, demonstram a fragilidade e o descompasso das políticas públicas, propostas por meio de legislação e das situações reais de Instituições e escolas no enfrentamento do dia a dia escolar. Acreditamos que a situação só poderá ser resolvida com ações governamentais que extrapolem o discurso político, para ações imediatas, que consolidem as necessidades inerentes às situações de ensino.( FILHO et al. p.12)
Ainda segundos autores, muitos docentes “conhecem e reconhecem” a importância das TIC nas suas aulas, mas “na maioria das vezes ela se apresenta de forma rara na prática docente”.
Também dentro da realidade brasileira, mais especificamente em escola pública, os autores Pontes & Davel (2016), que também são professores da rede pública, fazem um resumo de fatores externos - e peço licença para uma citação mais longa - que se mostra necessária ao relatar a realidade dura dos professores da esfera municipal e estadual:
“Como professores da rede pública de ensino, enfrentamos alguns obstáculos durante a prática em sala de aula, como a falta de tempo hábil para a aplicação de qualidade de todos os conteúdos previstos no currículo, a indisciplina, grande número de alunos em sala, má qualidade do material didático. Outro obstáculo crescente é a desmotivação dos alunos e falta de
28 Periféricos são equipamentos ou dispositivos que estão ligados a CPU (unidade central de processamento) ou
ao computador em um sentido mais amplo. Como exemplo, temos: mouse, teclado, scanner, cartão de memória, gravadores de CD e DVD etc.
acesso à informação e a tecnologia (nos referimos aqui às nossas experiências nas escolas em que trabalhamos, não podemos generalizar, visto que não temos dados que comprovem essa afirmação) Enquanto alguns têm plena acessibilidade a recursos como computador e internet, além de filmes, músicas e jogos (esses fatores são muito motivadores, já que despertam o interesse deles e acabam por motivá-los em sala) outros não possuem nenhum tipo de acesso e apresentam dificuldades na utilização desses recursos. Sem mencionar as questões sociais nas quais esses alunos estão inseridos, muitas em situação de pobreza extrema e ambiente familiar hostil. Esses fatores extrínsecos influenciam muito a aprendizagem dos alunos. Precisamos ter o maior cuidado ao abordar suas experiências para não expor alguns alunos a situações constrangedoras, pois muitas desses recursos e tecnologias que fazem parte do nosso cotidiano, para eles pode ser totalmente desconhecido” (p.13).
Em uma pesquisa de 2015 chamada de “O Ensino de Inglês na Educação Pública Brasileira, encomendada pela fundação British Council em parceria com o Plano CDE”, foi retratada a realidade dos professores de inglês nas cinco regiões do Brasil. Nesse relatório, 81% dos professores afirmaram que “a maior dificuldade enfrentada em sala de aula é a falta de ou a inadequação dos materiais didáticos” (p.15). Sendo, desses 81%, 43% relacionada a falta de recursos tecnológicos, tais como: projetores, aparelhos de som e notebooks. Na região Nordeste, segundo o mesmo documento, apenas 50% dos professores tem qualquer nível de acesso a um simples projetor. Outro dado particularmente alarmante é que apenas 24% dos professores tem acesso a internet em sala de aula.
Apesar de todos esses problemas mencionados, ainda assim no Brasil, em escolas públicas, houve também um tímido avanço em alguns aspectos. A realidade dos institutos federais que oferecem ensino médio integrado, das escolas de ensino profissional em regime integral no Ceará e políticas semelhantes de escolas integrais em todo o Brasil, as políticas educacionais, tais como o “um computador por aluno” (UCA), a disponibilidade ou aumento da velocidade na internet em algumas regiões distantes da capital são alguns exemplos ainda parcos diante da realidade extensa das nossas escolas públicas de ensino fundamental e médio.