1.2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE LİTERATÜR TARAMASI
1.2.7. Mükemmeliyetçilik
1.2.7.1. Mükemmeliyetçilik İle İlgili Kuramsal Açıklamalar
Pesquisa realizada pela FCTH (ABCP & FCTH, 2012, 2012a) sobre as boas práticas da gestão em drenagem urbana no exterior e no Brasil apresenta uma relação de casos de sucessos e iniciativas inovadoras em drenagem urbana e manejo de águas pluviais em 26 cidades. Todas as soluções implantadas, ou a serem implantadas, procuram envolver vários grupos de interesse para o sucesso da intervenção. Alguns dos exemplos são mencionados a seguir:
Ku-ring-gai – Austrália: foram construídos jardins de chuva acoplados a filtros de areia em três ruas. Moradores estão envolvidos, voluntariamente, na manutenção dos jardins.
Chicago – EUA: Plantio de árvores; Programa de Telhados Verdes com incentivos para as residências e comércios pequenos; Implantação de pavimentos permeáveis em mais de 100 vielas da cidade; Programa de Ruas Sustentáveis, que integra medidas de controle na fonte na revitalização e no melhoramento de projetos de ruas. Dentre as medidas utilizadas, podem-se citar pavimentos permeáveis, filtros de infiltração e jardins de chuva, ações que exigem o envolvimento da comunidade em contato com empreendedores.
Lenexa – EUA: Para manter a qualidade de seus corpos d‟água, a municipalidade estabeleceu mudanças regulatórias que favorecem práticas de infiltração, reuso e evapotranspiração. Terras foram compradas em áreas prioritárias para promover a mitigação de enchentes, proteção de córregos, melhora da qualidade da água e criação de espaços de lazer. Para estas obras e aquisições, a cidade criou um fundo mantido por pagamentos de taxas e impostos pela população.
Olympia – EUA: Regulação para novos empreendimentos: Infiltração de 91% do escoamento superficial; Incorporação das práticas de controle na fonte nas novas políticas e programas da cidade; Revitalização de áreas públicas próximas a corpos d‟água; Monitoramento e avaliação das práticas em lotes privados; Revitalização de ruas e calçadas com pavimentos permeáveis.
Filadélfia – EUA: Melhoria do manejo de águas pluviais através da institucionalização de práticas de infraestrutura verde padronizadas em todos os novos empreendimentos; Cobrança pelo sistema de drenagem e regulação para águas pluviais, com o intuito de incentivar a população a reter água no lote, diminuindo os custos do município com sistemas de drenagem.
Portland – EUA: Construção de túneis com capacidade suficiente para armazenar e direcionar a água para sistemas de tratamento; Aplicação da descentralização de medidas em diversos programas; Financiamento da maioria dos programas por fundos de capital privado. Em 2008, foi anunciada a iniciativa Grey to Green, que provê um orçamento de 50 milhões de dólares para cinco anos. Além dessa iniciativa, para motivar donos de propriedades privadas, é oferecido um desconto na taxa de águas pluviais. O Programa de Portland foi objeto de estudo especial (FCTH, 2012a) por ser experiência complexa, que exigiu o desenvolvimento integrado da drenagem com os demais sistemas de infraestrutura da cidade, como as redes de água e de esgoto. Incentivos foram oferecidos aos moradores para que desconectassem suas estruturas (calhas) das redes de esgoto, o que significou importante melhoria para o sistema de drenagem. Num outro programa, o proprietário que
realizasse o manejo do escoamento superficial gerado pelo seu lote pode abater em até 100% a taxa de drenagem cobrada pelo município para a prestação dos serviços de manejo e gestão das águas pluviais. Além desses, os programas de Ruas Verdes e Telhados Verdes envolvem os moradores para o sucesso do projeto. Um canal de assistência técnica para a população é oferecido pela Prefeitura em sua página na internet além de oficinas adaptadas para moradores e comerciantes.
San José, Califórnia –EUA: De acordo com leis federais, foi feita a adoção de medidas regulatórias e incentivos de créditos para empreendimentos na cidade; Priorização de medidas de retenção e infiltração no lote e ampliação das áreas verdes urbanas.
Seattle – EUA: Implantação de infraestrutura verde e de diversas políticas internas que requerem práticas de medidas de controle na fonte em padrões de construção de espaços públicos, como projetos de ruas, e em espaços privados.
Manuais sobre o envolvimento de atores sociais e grupos de interesse em bacias hidrográfica reconhecem a importância de trabalhar desde o início do projeto com aqueles mais afetados pelos problemas (TETRA TECH INC. s. d.).
São também várias as experiências no Brasil, onde o envolvimento de moradores e do setor privado é recomendado.
Porto Alegre – Brasil: Além do Plano Diretor de Drenagem, o desenvolvimento do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental – que se tornou lei municipal em 2000 – torna obrigatório para todos os novos empreendimentos (loteamentos) que as vazões de pré-desenvolvimento sejam mantidas. Essa lei incentivou diversas iniciativas descentralizadas de medidas de manejo de águas pluviais sustentáveis.
O Programa DRENURBS, lançado pela Secretaria Municipal de Política Urbana de Belo Horizonte tem os objetivos de promover a despoluição dos cursos d‟água, reduzir os riscos de inundação, controlar a produção de sedimentos e integrar os recursos hídricos ao cenário urbano. Dentre outros princípios, o Programa exige a inclusão das comunidades beneficiadas na sua gestão da implantação e na conservação das intervenções propostas. É um programa que busca reverter a degradação dos cursos d‟água ainda em leito natural no município e inovar conceitualmente no tratamento do saneamento ambiental e de processos participativos de gestão, através, sobretudo, de alianças de aprendizagem (COSTA, et al
2008)50. Envolve também a renovação urbanística da área, esta usualmente ocupada por população de baixa renda que veio a se assentar nas margens dos cursos d‟água urbanos. Para enfrentar o desafio da despoluição de suas águas, o Programa busca projetos que possam integrar serviços urbanos como a coleta de lixo e de esgotos ao serviço de drenagem das águas pluviais. Portanto, a área de trabalho deixa de ser apenas o leito do córrego para abranger toda sua bacia de drenagem. Três bacias já foram saneadas representando o total de 2.430 metros de cursos d‟água, livres de lixo e esgoto. No total já foram investidos mais de R$ 38 milhões. Após o saneamento, o entorno das nascentes foram transformados em parques ecológicos oferecendo áreas de lazer e descontração para a população moradora da região. Os parques levam os nomes dos córregos51. Avanços mas também retrocessos são documentados relativamente ao DRENURBS. São muitas as dificuldades encontradas. A gestão participativa proposta pelo DRENURBS tem o intuito de valorizar as peculiaridades de cada bacia/sub-bacia e de interagir com todos os segmentos sociais envolvidos, construindo conjuntamente os planos de educação ambiental e de mobilização e comunicação social, para o envolvimento e fortalecimento comunitário. Nesse sentido, o programa criou a Comissão Comunitária Local (Comissão DRENURBS), a qual participa da elaboração e do acompanhamento das diversas atividades e produtos propostos pelos planos. Entretanto, há conflitos de interesses existentes entre gestores públicos, sociedade civil e setor privado, e seria de se indagar se eles seriam capazes de perseguir objetivos coletivos, cada um do seu jeito, mas navegando na mesma direção, e se esses esforços convergiriam para um propósito comum (BONTEMPO et al 2012).
Em Brasília, o programa Esgoto Condominial, amplamente documentado, inclusive internacionalmente, tem se mostrado fiel à incorporação do sociopolítico. Aqui, arranjos institucionais favorecem o envolvimento de moradores no desenvolvimento e gestão da intervenção. Além de contribuir com a construção do sistema, moradores selecionaram o nível do e serviço que desejavam em sua rua ou „condomínio‟ – a rede sob a calçada, no meio do lote ou atrás do mesmo – para o esgotamento sanitário. Esta participação é imprescindível para o funcionamento adequado. Engenheiros foram contratados para
50 Evidência do resultado positivo das bacias saneadas pelo DRENUBS estão relatadas em http://portalpbh.pbh. Gov.
Br/pbh/ecp/comunidade.
Do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=programaseprojetos&tax=12065&lang=pt_BR&pg=608 0&taxp=0&
51 Http://portalpbh.pbh. Gov. Br/pbh/ecp/comunidade.
Do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=politicasurbanas&tax=16906&lang=pt_br&pg=5562&ta xp=0&
trabalhar junto às comunidades no projeto de esgoto condominial mais por seu perfil de atenção aos moradores do que por sua especialidade técnica.
Em São Paulo, o Programa Córrego Limpo52
exigiu a participação da comunidade beneficiada e há evidência da maior sustentabilidade das melhorias onde houve a colaboração da comunidade. A primeira evidência é a colaboração necessária da população no entorno imediato ou indireto do córrego para coibir ligações clandestinas de esgoto e o não descarte de resíduos sólidos na drenagem ou córrego. Sem este compromisso, não há qualquer projeto de limpeza de córrego que possa ser bem sucedido. Outro aspecto é a ocupação irregular ás margens do córrego. Portanto, não só moradores e demais atores sociais devem assumir compromisso como também o órgão público de fiscalização, a agência encarregada de construir e operar a rede coletora de esgoto e o órgão municipal incumbido de projetar e implantar áreas ao redor do córrego limpo53. Trata-se da gestão compartilhada entre o Poder Público, a agência e seus gestores e técnicos e a sociedade civil organizada, proposta pela „gestão adaptativa‟, descrita no relatório anterior e ainda a ser aprofundada sobre seu apoio a esta relação. Em contato com gestores do Programa Córrego Limpo, a pesquisadora obteve a confirmação da evidência do maior sucesso da intervenção (o córrego permanece limpo depois de 5 anos de iniciado o projeto), como é o caso do Córrego Charles de Gaulle54. Os indicadores da sustentabilidade do projeto (o resultado obtido com a intervenção é sustentado) podem ser monitorados pelos próprios moradores. Indicadores são: a ausência de odor fétido das águas, o aspecto visual das águas e seu entorno aceitável pela comunidade, assim como a presença dos elementos urbanos como passeios, áreas arborizadas e gramadas, gradis, iluminação pública, bancos e outros A permanência de níveis aceitáveis de DBO55 são constatados in loco pelos técnicos da agência operadora do projeto. Esse envolvimento de moradores em articulação com técnicos é o resultado não só de reuniões de informação e planejamento, mas também da obtenção do compromisso da comunidade para determinadas funções. A primeira delas foi a limpeza do Córrego pelos próprios moradores
52 “A principal questão não envolve a engenharia tradicional e muito menos a economia. Envolve a engenharia social e a articulação com a sociedade”, palavras do então presidente da SABESP Gesner Oliveira durante reunião sobre a sustentabilidade da empresa em 2009. “O Programa Córrego Limpo foi um dos pontos abordados por Paula Montero, presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), para ressaltar a importância da chamada gestão colaborativa. “A população não se sente responsável pelo córrego. Aquilo não lhe pertence”, alertou a professora. “A ação técnica da Sabesp não é o bastante. Sem o envolvimento das pessoas, tudo volta para trás rapidamente.” É aqui que entram os líderes comunitários: “Eles precisam aprender a definir metas, a falar numa reunião”, pontuou.” http://site.sabesp. Com. Br/site/interna/Default. Aspx?secaoId=407 53 http://www. Abes-dn. Org. Br/eventos/saneamento-rural/palestras/PIII_SABESP_Governanca_Colaborativa.pdf
54 Córregos que permanecem limpos após a intervenção, com maiores diminuições dos índices de DBO:
http://www.sabesp. Com. Br/sabesp/filesmng.nsf/61DE181E78FA31AD832572FA00757E0F/$File/situacao_corregos.pdf
55
Um alto índice de DBO(Demanda Bioquímica de Oxigênio) significa que há um grande número de material orgânico no corpo da água. Valores acima de 70 mg/l servem de parâmetro para dizer que o córrego está poluído.
e a constância do monitoramento (SABESP, s. d56.). O Programa Córrego Limpo segue os princípios da Governança Colaborativa e é totalmente baseado nesta metodologia. Outra metodologia de articulação entre moradores e agências operadoras de sistemas de água urbana é descrita em „Monitoramento por moradores para maximizar os benefícios da solução técnica‟ (BORBA, 2009).
Pesquisa desenvolvida por Mendonça (2009) no Município de Goiânia comprova desempenho ótimo de sistemas de drenagem mediante o emprego de técnicas compensatórias, uma delas a inclusão de micro-reservatórios nos lotes para auxiliar o sistema tradicional de drenagem urbana. São medidas que exigem a participação de moradores já que podem envolver desapropriação de áreas, o comprometimento da população das áreas afetadas, estimativas de risco e vulnerabilidade à saúde pública, o controle da poluição. Para o melhor desempenho dos sistemas, sugere a adoção de medidas não-estruturais como o investimento na orientação e capacitação da sociedade para atingir o maior nível de educação ambiental e contribuir para a manutenção adequada do sistema, contribuindo, especialmente, com a sua limpeza.