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Tratou-se de uma pesquisa correlacional, ex post facto, e transversal.

Hipóteses referentes ao poder preditivo dos valores humanos frente às práticas maternas alienantes

Hipótese 1. A subfunção valorativa realização irá predizer práticas maternas de alienação. Isto pode ser explicado por esta subfunção caracterizar pessoas que buscam constantemente poder, prestígio e êxito (Gouveia, 2013). Portanto, estas pessoas tendem originalmente a ser mais egocêntricas, com foco intrapessoal (Gouveia, 2013), preocupando-se primeiramente consigo mesmo. Assim, já que o progenitor que realiza práticas de alienação tenta propiciar ao máximo um ônus ao outro progenitor, não demonstrando preocupar-se com a prole, desta forma, avalia-se que seja pertinente considerar esta relação;

Hipótese 2. A subfunção valorativa normativa irá predizer práticas maternas de alienação. Isso se justifica por este ser um marcador que reflete normas e conveniência social (Pimentel, 2004). Esta subfunção pode ser representada por marcadores como: obediência, religiosidade e tradição, portanto, parte da condição de disciplina, sugerindo respeito aos padrões e harmonia social (Medeiros, 2011). Deste modo, já que as práticas de alienação podem ser apontadas como algo que quebra regras e foge ao padrão da

normalidade e tradição, avalia-se que seja pertinente apontar uma correlação negativa entre estas variáveis;

Hipótese 3. A subfunção valorativa suprapessoal irá predizer práticas maternas de alienação. Pois a subfunção suprapessoal caracteriza pessoas mais centradas e com decisões mais pautadas em questões concretas (Inglehart, 1991). Pessoas guiadas por este valor tendem a apresentar satisfação consigo mesmas, percebendo-se útil na vida, e encontrado um sentido existencial (Medeiros, 2011). Assim, já que as práticas de alienação não podem ser tidas como comportamentos adequados a criação de um filho, avalia-se que seja pertinente esta encontrar esta relação negativa;

Hipótese 4. A subfunção valorativa interativa irá predizer práticas maternas de alienação. Isto se justifica por esta subfunção caracterizar pessoas afetivas, de forte apoio social e com características ligadas à convivência (Gouveia, 2013). Além disto, esta subfunção é orientada para relações íntimas estáveis (Milfont, Gouveia, & Costa, 2006). Assim, já que indivíduos que realizam práticas de alienação tendem a não estabelecer boas relações com o outro progenitor, ou mesmo o vínculo afetivo estabelecido com a prole, chegando a utilizar os filhos como ferramenta de vingança, o que caracteriza o alienador como pouco afetuoso e de difícil convivência. Deste modo, avalia-se que seja justificável tal hipótese.

Hipóteses referentes ao poder preditivo dos traços de personalidade frente às práticas maternas alienantes

Hipótese 5. O traço de personalidade conscienciosidade irá predizer práticas maternas de alienação. Pois este traço caracteriza indivíduos cautelosos, dignos de confiança, organizados e responsáveis (Friedman & Schustack, 2004). Deste modo, tendo em vista que a prática de alienação é uma conduta desviante e irresponsável

realizada por um progenitor, avalia-se que seja pertinente encontrar uma relação negativa entre estas variáveis;

Hipótese 6. O traço de personalidade amabilidade irá predizer práticas maternas de alienação. Esta correlação se justifica por este traço caracterizar indivíduos agradáveis, amáveis, cooperativos, como também afetuosos (Andrade, 2008). Assim sendo, já que indivíduos que realizam práticas de alienação tendem a ser menos agradáveis e afetuosos, com uma preocupação mais individual e egocêntrica, avalia-se que seja pertinente encontrar uma correlação negativa entre estas variáveis;

Hipótese 7. O traço de personalidade neuroticismo irá predizer práticas maternas de alienação. Isto se justifica pois este traço caracteriza indivíduos nervosos, altamente sensíveis, tensos e preocupados, além de possuírem baixo controle de seus impulsos, uma vez que a frustração de possíveis desejos pode perturbá-los muito (Andrade, 2008). Assim, tendo em vista que as práticas de alienação estão corriqueiramente associadas ao conflito de separação, acredita-se que esta correlação seja pertinente.

Hipótese 8. O traço de personalidade extroversão irá predizer práticas maternas de alienação. Este traço de personalidade é marcado pela quantidade e a intensidade das interações interpessoais. Pontuações altas podem indicar indivíduos sociáveis, ativos, otimistas e afetuosos (Silva & Nacano, 2011). Assim, entende-se que pessoas que pontuem alto neste fator realizariam menos comportamentos alienantes devido a características mais sociáveis associadas a este traço, pois uma pessoa que pratica alienação parental tende a ser socialmente mais reprimido e menos afetuoso.

8.1.2 Amostra

Contou-se com uma amostra não-probabilística por conveniência de 188 mães separadas ou divorciadas com filhos. A idade variou de 17 a 61 anos (M = 32,2 anos;

DP = 9,17). Grande parte destas mães relatou possuir ensino superior (53,2%). Com relação à profissão, destacaram-se as seguintes: a maioria (42%) da amostra foi composta por mulheres que atuam em serviços dos mais diversos (zeladoras, manicures, caixas, domésticas, motoristas, seguranças, vendedoras etc.), em 18,6% as mães relataram trabalhar como professoras. Participaram também algumas mulheres que atuam na área de saúde (6,5%) (médicas, enfermeiras, técnicas em enfermagem, psicólogas e nutricionistas), as demais (32,9%) participantes possuem profissões variadas (engenheiras, advogadas, educadoras físicas, assistentes sociais, administradoras, bancárias, funcionárias públicas etc.). Destaca-se, ainda, que 80% desta amostra declararam ser da classe média.

Quanto ao número de filhos, concentrou-se em um único filho (60,1%). O tempo médio das separações foi de cinco anos (DP=2,8). 54,68% das participantes declararam que o término da relação se deu de maneira consensual. Quanto à guarda dos filhos, 75% declarou ter a guarda unilateral do filho. Na atual conjuntura, a maioria declarou estar solteira com namorado (40,4%). No que concerne à relação com o pai de seus filhos, as mães declararam manter um convívio amigável com os mesmos (28,2%). Além de acreditarem, em sua maioria (64,4%), que uma boa relação dos filhos com o pai é importante.

8.1.3 Procedimento

Diferentemente dos Estudos anteriores, o presente estudo foi realizado inteiramente on-line, pelo método bola de neve. As participantes foram convidadas a participar da pesquisa por meio de redes sociais, sendo solicitadas a acessar um link do

google docs

0A/edit?usp=drive_web). Este continha um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que explicitava os direitos das participantes, além de informações acerca da pesquisa. As participantes foram informadas que a participação era voluntária e que suas respostas seriam tratadas em conjunto, de modo a garantir sua confidencialidade e anonimato. Assim, foram respeitados todos os critérios éticos de pesquisas a serem realizadas com seres humanos (Resolução 466/12). A pesquisa iniciava após o consentimento das participantes, que eram direcionadas a uma outra página para responder ao IPMA e a um questionário sociodemográfico.

Todos os instrumentos foram autoaplicáveis, contendo as instruções necessárias para proceder às respostas. O tempo para participação na pesquisa teve duração média de 15 minutos. Vale ressaltar que a presente pesquisa foi aprovada pelo Comité de Ética do Cento de Ciências e Saúde da Universidade Federal da Paraíba por meio do CAAE: 31689114.0.0000.5188.

8.1.4 Instrumentos

Foram utilizados os seguintes instrumentos: Inventário de Práticas Maternas Alienantes (IPMA), Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (EDSMC), Questionário de Valores Básicos (Gouveia, 2013), Inventário dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade (Barbosa, 2008), além de um questionário sociodemográfico, descritos a seguir:

Inventário de Práticas Maternas Alienantes (IPMA): desenvolvido e validado psicometricamente nos Estudos 1 e 2, esta medida objetiva identificar práticas maternas alienantes. Esta deve ser respondida por meio de uma escala do tipo Likert de cinco pontos, variando de 1 (Nunca) a 5 (Sempre). Contou-se com um índice de consistência interna, alfa de Cronbach, de 0,78.

Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (EDSMC) (ANEXO V). Desenvolvida na língua inglesa por Crowne e Marlowe (1960) e validada para o contexto brasileiro por Gouveia et al. (2009), expressa condutas que podem indicar uma necessidade de aprovação por parte dos outros, contendo 33 itens retirados de escalas de personalidade [por exemplo, Se pudesse entrar em um cinema sem pagar e ter certeza de que não seria visto(a), provavelmente eu o faria; Sou sempre cuidadoso(a) com meu jeito de vestir]. Para respondê-los, o participante deve assinalar verdadeiro (1) ou falso (2), segundo descreve seu comportamento cotidiano.

Questionário dos Valores Básicos (QVB) (ANEXO VI): Este instrumento foi elaborado por Gouveia (1998; 2003; 2013), composto por 18 itens (valores básicos). Os participantes são solicitados a avaliar cada item em uma escala Likert que varia de 0 (Sem importância alguma) a 7 (De suprema importância), considerando a importância, de cada valor, como princípio-guia para suas vidas. Os itens são distribuídos igualmente em seis subfunções: interativa (afetividade, apoio social e convivência; α = 0,65) e normativa (obediência, religiosidade e tradição; α = 0,67), existência (estabilidade pessoal, saúde e sobrevivência; α = 0,68) e suprapessoal (beleza, conhecimento e maturidade; α = 0,60), e experimentação (emoção, prazer e sexualidade; α = 0,53) e realização (êxito, poder e prestígio α = 0,54). Com índice de consistência interna alfa de Cronbach para os 18 itens de α = 0,78.

Inventário dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade (ICGFP) (ANEXO VII): Originalmente elaborado em língua inglesa por John e Srivastava (1999), este instrumento foi composto por 44 itens. Porém, no presente estudo foi utilizada sua versão reduzida e adaptada para o contexto brasileiro, sendo composta de 20 itens (Barbosa, 2009) que questionam como o indivíduo se percebe, com a seguinte frase: Eu me vejo como alguém que ... (Item 2. É minucioso, detalhista no trabalho; Item 7. É

inventivo, criativo; Item 18. Gosta de refletir, brincar com as ideias), sendo respondidos em escala de cinco pontos, com os seguintes extremos: 1 = Discordo Totalmente e 5 = Concordo Totalmente, agrupados em cinco fatores, a saber: extroversão (α = 0,67), amabilidade (α = 0,56), conscienciosidade (α = 0,57), neuroticismo (α = 0,75) e abertura à mudança (α = 0,64). O total de 20 itens tem para esta pesquisa um índice de consistência interna alfa de Cronbach de 0,70.

Questionário sociodemográfico: Os voluntários também responderam um questionário sociodemográfico, composto pelas seguintes questões: idade, sexo, classe social, profissão, estado social, além de perguntas como: Quantos filhos você tem?; Como é sua relação com o pai de seu(sua) filho(a)?.

8.1.5 Tabulação e análises de dados

Utilizou-se, para analisar os dados, os softwares: AMOS e SPSS (ambos em suas versões 21). O SPSS permitiu avaliar dados descritivos (média, desvio padrão, etc.) e inferenciais (correlações de Pearson) com a finalidade de verificar possíveis relações entre os construtos (traços de personalidade, valores humanos e práticas maternas de alienação), bem como análises de regressão múltiplas para estimar a contribuição de cada uma das variáveis na explicação das práticas maternas alienantes. Já o AMOS permitiu a realização de uma pafh análise para verificar um modelo explicativo, foco de atenção principal da presente pesquisa (Byrne, 2001, 2004).

8.2 Resultados

A princípio, embora não tenham sido elaboradas hipóteses correlacionais, avaliou- se possíveis correlações entre as variáveis estudadas, fazendo uso do r de Pearson. Correlações dos Valores Humanos e Traços de Personalidade com Práticas Maternas Alienantes

Com o propósito de verificar em que medida as subfunções valorativas e os traços de personalidade estariam correlacionados com as práticas maternas alienantes, procedeu-se ao cálculo de coeficientes correlacionais parcial de Pearson, admitindo prova unicaudal. Como variável controle, foi utilizado o fator geral da EDSMC para tentar controlar a variável desejabilidade social. Os resultados são apresentados na Tabela 11.

Tabela 11. Correlação das subfunções valorativas e traços de personalidade com práticas maternas alienantes controlando a desejabilidade social

Subfunções valorativas IPMA

Realização 0,08

Normativa -0,06

Suprapessoal -0,18*

Interativa -0,11

Traços de personalidade IPMA

Concienciosidade 0,05

Amabilidade -0,24*

Neuroticismo 0,04

Extroversão -0,01

Como se pode observar na Tabela 11, não foi possível encontrar correlação entre a subfunção realização e as práticas maternas alienantes (r = 0,08; p = 0,25), assim como com a subfunção normativa (r = -0,06; p = 0,44) e subfunção interativa (r = - 0,11; p = 0,14). Contudo, a subfunção suprapessal apresentou correlação negativa com as práticas maternas alienantes (r = -0,18; p < 0,05). Já em relação aos trações de personalidade, somente o traço de personalidade amabilidade apresentou correlação negativa e significativa com as práticas maternas alienantes (r = -0,24; p < 0,01), apresentando inexistência de correlação com os outros traços (conscienciosidade, r = 0,05; p = 0,77; neuroticismo, r = 0,04; p = 0,20 e; extroversão, r = -0,01; p = 0,83).

Isto posto, tendo como referência os testes correlacionais realizados, resolveu-se testar o poder preditivo destas variáveis frente às práticas maternas alienantes. Por se tratar de construtos distintos, optou-se por testar o poder preditivo de maneira separada. Assim, a princípio, testou-se o poder preditivo da subfunção suprapessoal (Hipótese 3). Deste modo, tendo em vista que as demais subfunções não apresentaram correlação com as práticas de alienação, foram desconsideradas as demais hipóteses (Hipótese 1, Hipótese 2 e Hipótese 4). Para tanto, fez-se uso de uma regressão linear múltipla, com método enter, tendo como variável dependente o fator geral do IPMA e como variável independente a subfunção suprapessoal. O resultado pode ser visualizado na Tabela 12.

Tabela 12. Poder preditivo da subfunção valorativa suprapessoal frente às práticas maternas alienantes r2 B se β t p Constante 1,79 0,19 Suprapessoal 0,03 -0,08 0,03 -0,18 -2,54 0,05 r = 0,18 r²= 0,03 F (1,187) = 6,44; p = 0,01

Nota. r = correlação r de Pearson; B (Unstandardized Coefficients) = inclinação da reta de regressão; se = erro padrão (Std. error); β (Standardized Coefficients) = indicador da relação entre VD e VI; r² = Proporção de variância explicada; Razão F = Probabilidade associada ao r²; p = significância.

Os resultados observados na Tabela 13 demonstram que a subfunção suprapessoal foi capaz de predizer as práticas maternas alienantes, explicando 3% desta relação.

Quanto ao poder preditivo dos traços de personalidade, após verificar a correlação das práticas maternas alienantes e o traço amabilidade, resolveu-se testar o poder preditivo desta frente às práticas maternas de alienação (Hipótese 6), por meio de uma regressão linear múltipla, com método enter, tendo como variável dependente o fator geral do IPMA e como variável independente o traço de personalidade amabilidade. O resultado pode ser visualizado na Tabela 13.

Tabela 13. Poder preditivo do traço de personalidade amabilidade frente às práticas maternas alienantes r2 B se β t p Constante 2,06 0,23 Amabilidade 0,05 -0,17 0,05 -0,22 -3,19 0,01 r = 0,23 r²= 0,05 F (1,187) = 6,44; p = 0,01

Nota. r = correlação r de Pearson; B (Unstandardized Coefficients) = inclinação da reta de regressão; se = erro padrão (Std. error); β (Standardized Coefficients) = indicador da relação entre VD e VI; r² = Proporção de variância explicada; Razão F = Probabilidade associada ao r²; p = significância.

Como pode-se observar na Tabela 13, o traço de personalidade amabilidade foi capaz de predizer as práticas maternas de alienação, explicando 5% desta relação. Este resultado corroborou a Hipótese 6, as demais 5, 7 e 8 foram desconsideradas, haja vista que os traços de personalidade nas quais estas hipóteses fazem referência não apresentaram qualquer relação com as práticas maternas alienantes.

Modelo Hierárquico na Explicação da Importância das Práticas Maternas Alienantes Finalmente, o ponto chave do presente trabalho de dissertação tem como propósito principal propor um modelo explicativo para práticas maternas alienantes por meio dos traços de personalidade e dos valores humanos. Neste sentido, foram realizadas análises de modelagem por equações estruturais, considerando o resultado das análises de regressão múltiplas realizadas anteriormente. Os resultados da testagem do modelo apresentaram os seguintes valores: χ² (1) = 8,778, p = 0,03, χ² / gl = 8,778, GFI = 0,97, AGFI = 0,83, RMSEA = 0,20 (0,09 – 0,33) e PCLOSE = 0,01, estando dentro das recomendações da literatura.

Figura 6. Traços de Personalidade e Valores Humanos explicando praticas maternas alienantes

Como é possível observar na Figura 6, o modelo proposto demonstra que, para esta amostra, o traço de personalidade amabilidade foi capaz de predizer a subfunção valorativa suprapessoal, que de maneira conjunta conseguiram explicar práticas maternas de alienação. Cabe ainda destacar que todos os índices encontrados podem ser considerados satisfatórios e as saturações (Lambdas – λ) diferiram estatisticamente de zero (λ ≠ 0; t > 1,96, p < 0,05).

Benzer Belgeler