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MANZONI, Alessandro. Os Noivos. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1969. Tradução de Marina Guaspari. 333 páginas.

No fim dos anos 1960 a Edições de Ouro (atual Ediouro) relança a tradução de Guaspari em formato de bolso. Analisemos seu paratexto.

A capa em cartolina envernizada branca é emoldurada pelos seguintes dizeres: “CLASSICOS DE OURO (sic) — ITALIANOS”. No canto superior esquerdo, um selo indica que essa publicação é classificada como “COROA”, num sistema organizado

pela editora e explicado na última página: “AS EDIÇÕES DE OURO são classificadas, de acordo com o custo industrial, nas seguintes categorias: Selo, Estrela, Copa, Coroa,

Leão, Águia e Palma de ouro”. Já no canto superior esquerdo, o nome do autor,

“Alessandro Manzoni”; logo baixo a informação “Tradução e prefácio de MARINA GUASPARI”. No centro da página encontra-se o título da obra, “OS NOIVOS” e, ocupando a metade inferior da capa, uma “ilustração de Pinotti para a edição de ‘Os Noivos’, de 1830”, como se lê na quarta capa, proveniente de uma das muitas edições ilustradas não autorizadas por Manzoni25.

A lombada simples traz sobre um fundo branco, na parte de cima, o símbolo da coroa e o sobrenome do autor em azul, “MANZONI”. Já na parte inferior os nomes da obra noutro tom de azul, “OS NOIVOS”, e um número de controle da editora, “1038”, restando o centro (e maior parte da lombada) em branco. Já a quarta capa traz uma reprodução do famoso retrato de “Alessandro Manzoni por [Francesco] Hayes”, de 1841, seguido do selo da “EDIÇÕES DE OURO” e o crédito à ilustração da capa.

Abrindo o livro, lê-se na página de guarda o título do romance, “OS NOIVOS”, e na página de rosto, do alto para baixo, o nome do autor, “ALESSANDRO MANZONI”, nome da obra, “OS NOIVOS”, a informação “tradução e prefácio MARINA GUASPARI” e o nome da empresa responsável pela publicação, “EDIÇÕES DE OURO”. Na página seguinte figuram informações de caráter legal e técnicas, como “Título do original italiano: ‘I PROMESSI SPOSI’”. “Direitos cedidos por IRMÃOS PONGETTI EDITORES”, primeiros editores dessa publicação, como vimos há pouco. “Revisão tipográfica de ERNESTO B. F. DE LACERDA”, seguido da sentença “As nossas edições reproduzem integralmente os textos originais” (grifo da edição). Informação que, no mínimo, levanta dúvidas e provavelmente refere-se ao texto “original” traduzido e cedido pela editora Pongetti, visto se tratar da tradução de Marina Guaspari que, como visto acima, não traduz integralmente I Promessi Sposi. Há ainda um endereço postal para onde se podia pedir o “CATÁLOGO GERAL” da editora e, por fim, o endereço carioca da gráfica responsável pelo volume e o ano de impressão em algarismos romanos, “MCMLXIX” (1969).

25 Sobre assunto, recomendamos FERRERO, Rut Francia. La Editorial Ricordi y su aportación a la publicidad italiana de principios del siglo XX. Tese de Doutorado. Universidad Complutense de Madrid. pp. 120-121.

A página seguinte traz a reprodução de uma litografia que representa Alessandro Manzoni na época em que escrevia seu romance, ocupando quase a totalidade da folha. Seguem o mesmo prefácio e a mesma tradução de pouco mais de trezentas páginas que Marina Guaspari havia preparado para a Pongetti.

Já em 1993, a agora Ediouro relança o romance manzoniano como um de seus “Clássicos de bolso”, utilizando-se da mesma tradução de Guaspari. Observemo-la atentamente.

O volume de 247 páginas ao todo é bastante modesto, sendo sua capa confeccionada em cartolina envernizada, na qual imprimiram uma espécie de papel de parede com folhagens azuis sobre um fundo branco. Sobre ele, dois quadros azuis ocupam a metade superior da página, sendo que o menor deles (em verdade um retângulo), ocupando a parte de cima, traz a inscrição, em letras amarelas, “CLÁSSICOS DE BOLSO”. Entre os dois quadros situa-se o atual logotipo da editora Ediouro, responsável pela publicação. Por fim, o segundo quadro traz três previsíveis informações, quais sejam o nome do autor, “ALESSANDRO”, curiosamente sem o sobrenome famoso mundialmente. Completa o quadro o nome do romance, “OS

NOIVOS” e “Tradução e prefácio de Marina Guaspari”. Antes de prosseguirmos com a

análise do paratexto desta edição, reflitamos, com o auxílio de Genette, sobre as implicações da intrigante decisão de omitir, nas capas e lombada, o sobrenome do autor:

(...) as inscrições do nome na página de rosto e na capa não têm a mesma função: a primeira é modesta e por assim dizer legal, em geral mais discreta do que a do título; a segunda tem dimensões muito variáveis, conforme a notoriedade do autor e, quando as normas da coleção impedem toda e qualquer variação, uma sobrecapa lhe dá campo livre, ou uma cinta permite repeti-lo em caracteres mais chamativos e, por vezes, sem o prenome, para mostrar como é famoso. O princípio dessa variação na aparência é simples: quanto mais o autor é conhecido, mais seu nome é exibido (...). (GENETTE, 2009, p. 40. grifos nossos)

Qual seria, pois, o intuito da editora? Não obstante a difícil explicação, nos é forçoso realizar duas reflexões. A primeira é que a Ediouro utiliza-se de uma estratégia editorial questionável e provavelmente equivocada ao deixar de explorar o notório sobrenome daquele que escreveu o “supremo romance histórico” segundo Lukács, ou “o maior romance histórico que jamais se escreveu”, para Carpeaux. Ou, ao contrário, concluir, por oposição ao que afirma Genette, que não se trata de um nome capaz de, por si só, seduzir e convencer o leitor a adquirir seu livro. O descuido negligente com o nome seria apenas um sintoma disso.

A quarta capa, sobre o mesmo fundo, possui um grande quadro azul com diversas informações, mas acima deste, uma pequena tira branca identifica o volume como “LITERATURA ESTRANGEIRA”. Já no quadro lê-se o nome da coleção “CLASSICOS DE BOLSO” (sic) e uma pequena definição desta:

Grandes clássicos universais de todos os tempos. O melhor do teatro, romance, filosofia, história e poesia. Textos integrais, tradutores renomados e estudos introdutórios por especialistas. Obras de relevância tanto para estudantes e professores quanto para o grande público.

Entretanto, pelo menos no que concerne ao romance manzoniano, a chancela de “texto integral” não se aplica.

Em seguida o nome do autor, “ALESSANDRO”, e o título da obra, “OS

NOIVOS”, precedem uma apreciação de Goethe:

Anuncio-lhe que o romance de Manzoni excede tudo o que se conhece nesse gênero. Basta que eu lhe diga isto: a essência, tudo o que vem da alma do escritor, é perfeita; a forma, toda descrição do ambiente e coisas análogas, não destoa das suas grandes qualidades intrínsecas. Isto é alguma coisa. A impressão da leitura é de tal sorte que passamos continuamente da emoção à admiração e vice-versa... E há, no uso e na exposição dos pormenores, uma clareza límpida como o próprio céu da Itália. (Goethe)

O trecho é retirado do prefácio tecido por Guaspari, mais especificamente dos “Colóquios de Goethe com Eckermann”, no qual o sobrenome de nosso autor aparece, porém de forma casual. Ademais, desse prefácio já tratamos no item 2.5.

A página de guarda, assim como a edição de 1969, traz o título do romance, “Os Noivos”. A novidade é a seguinte declaração da editora ao pé da página:

Um livro EDIOURO é incomparável! Fazemos tudo que é possível para oferecer livros da mais alta qualidade. Nosso papel é de primeira. A composição eletrônica e computadorizada garante letras sem defeito e um acabamento perfeito. O sistema de encadernação é o moderno método “perfect-binding”. Todo este esforço é recompensado: só oferecemos livros de alto padrão por um preço mínimo. (grifo da editora)

Já a página de rosto, contendo igualmente as mesmas informações que trazia na edição dos anos 1960, é o lugar no qual aparece, pela primeira vez, o nome completo do autor, “Alessandro Manzoni”. Vale salientar que a empresa em 1969 se chamava “Edições de Ouro” e, atualmente tem o nome de Ediouro, cujo logotipo encontra-se ao pé da página de rosto.

As páginas seguintes repetem as informações de outrora, com sutis modificações. Mantem-se a menção legal aos direitos cedidos pela Pongetti, bem como a informação do título original em italiano. Permanece, também, a questionável afirmação de que “As nossas edições reproduzem integralmente os textos originais” e, no lugar do endereço, a editora exibe orgulhosamente uma imagem de seu complexo industrial, contendo o escritório, parque gráfico, depósito, etc. Por fim, a mesma imagem da litografia de “Alessandro Manzoni” também é mantida, esta é a terceira (e última) vez que o nome completo do autor aparece no paratexto da edição.

Benzer Belgeler