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Este capítulo trata das imagens dos dois países após as viagens de Robert Abbott para a América do Sul (1923) e a Europa (1929). Portanto, depois de ele ter representações consolidadas sobre ambos. A discussão sobre o lugar do negro na sociedade norte-americana e as imagens sobre o Brasil e a França marcaram as primeiras décadas do jornal e da vida do seu editor. Ainda que o jornalista se esforçasse para ressaltar as positividades dos países que considerava oferecer outro lugar para o negro, a força dos fatos fez com que ele fosse do entusiasmo ao desapontamento. A ascensão de Getúlio Vargas, o destino da Frente Negra no Brasil e a cultura imperial na França fizeram com que aos poucos o jornalista diminuísse o número de reportagens sobre os dois países no Defender.

Para compreendermos como o Brasil e a França vão aos poucos deixando as páginas do jornal, é imprescindível que destaquemos a situação política dos países aqui tratados, inclusive dos Estados Unidos.

5.1- Reconstruindo uma nação e marginalizando uma “raça”

Ao mesmo tempo em que investia no Brasil e na França como modelos alternativos ao padrão norte-americano de relações raciais, Abbott lutava pela integração social dos negros nos Estados Unidos. O objetivo neste subcapítulo é o de contextualizar o Chicago Defender no período posterior à onda de violência que tomou o país no Verão Sangrento de 1919, acompanhando a situação da população afro- americana durante a prosperidade econômica na Era da Normalidade e posteriormente durante a Grande Depressão, já nos anos 30.

No início da década de 1920, o país superava uma recessão que assolava a economia no final da administração do presidente Woodrow Wilson. Após dois mandatos do presidente democrata, os cidadãos norte-americanos elegeram um republicano para que o país pudesse retornar a um caminho de crescimento econômico e reviver a mitologia de singularidade da nação. Esta década, geralmente tratada como um espaço breve de tempo entre a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão, ficou

188 conhecida nos Estados Unidos como a era da Normalidade.245 A expressão foi cunhada pelo presidente Warren G. Harding, eleito em 1921, para se referir de maneira genérica ao seu projeto para retomar o crescimento econômico.

O diagnóstico era o de que para o cenário político e econômico conturbado, seria necessária, então, uma administração com novos ares, capaz de reestabelecer uma ordem, uma normalidade imaginada como essencialmente “americana” com a diminuição do Estado e o subsequente fomento da indústria e do comércio combinados com a valorização de virtudes como simplicidade, fé e trabalho duro.246 A era da Normalidade não ficou restrita à administração de Warren G. Harding, que faleceu antes de terminar o seu mandato, em 1923. John Calvin Coolidge, que teve grande apoio do Chicago Defender durante sua reeleição, governou entre 1923 e 1928, liderando os Estados Unidos durante o ápice econômico da década de 1920.

Já em 1923, os Estados Unidos apresentavam um crescimento econômico com a taxa de desemprego caindo para cerca de 5 por cento e com um aumento de 8 bilhões no PIB. O reaquecimento na economia produziu ganhos materiais para muitos cidadãos norte-americanos, principalmente em termos tecnológicos. Cerca de 80 por cento das casas com eletricidade tinham ferros elétricos e 37 por cento tinham aspiradores. Alguns dos bens domésticos já estavam disponíveis no mercado anteriormente, mas as vendas cresciam em grandes proporções, as de refrigeradores chegaram a 150 por cento. O crescimento do mercado energizou a publicidade com investimento de 250 milhões de dólares, reforçando a cultura do consumo entre diferentes segmentos sociais.

Nesse período, também acompanhamos a consolidação de uma das indústrias que simbolizariam o capitalismo norte-americano, a automobilística, representada pela figura de Henry Ford, ícone de self-made man nos Estados Unidos. O carro modelo Ford –T, das indústrias Ford, se tornava cada vez mais acessível para os consumidores com renda dentro da média nacional. Em 1926, cerca de 4.300.000 automóveis deixaram as plantas industriais da Ford, e de suas concorrentes General Motors e Chrysler, possibilitando o deslocamento cada vez maior de pessoas pelo território norte-

245Normalcy foi o termo utilizado pelo presidente, mas que não existia naquele momento, se configurando

como um neologismo. Somente posteriormente normalcy se transformou em sinônimo de normality. Algumas pessoas diziam que Warren Harding havia se confundido no discurso, porém seus detratores afirmaram que o erro era consequência do diminuto apreço do presidente pelo exercício intelectual. Ver PALMER, Niall. The Twenties in America politics and History. Edinburg: Edinburg University Press, 2006.

189 americano.247 Os carros, mais do que apenas meios de transportes, simbolizavam a prosperidade e a modernidade dos Estados Unidos. Nos principais centros urbanos do país, congestionavam as principais avenidas cercadas por arranha-céus que ostentavam a riqueza de uma nova “América”.

Essa era de prosperidade e de emergência de uma cultura consumista norte- americana foi acompanhada por mudanças profundas no estilo de vida, é necessário recordar que, em 1920, as mulheres conquistaram o direito de voto nos Estados Unidos, acentuando transformações já em curso nas relações de gênero em diversas esferas sociais.248 No cotidiano, as mudanças foram percebidas na vestimenta, no ingresso de jovens estudantes em instituições de ensino superior.

Enquanto isso, na música, o Jazz, com nascimento atribuído à população negra de New Orleans, se tornou o gênero musical que simbolizou a mudança de comportamento dos norte-americanos nos espaços lúdicos.249 Através da popularização do aparelho de radio, as canções criadas majoritariamente por músicos negros, grande parte deles migrantes do sul, embalaram uma nação que se imaginava como o grande centro da modernidade.

As expressões culturais negras, no entanto, não ficaram limitadas à música, na literatura uma geração de intelectuais refletiu sobre as experiências da população negra na sociedade norte-americana e procurou estabelecer uma estética capaz de traduzi-las nesse momento de transformações. A Grande Migração não promoveu somente o surgimento de uma classe trabalhadora negra nos grandes centros urbanos no norte dos Estados Unidos, o fenômeno, que também contou com o deslocamento de migrantes qualificados, ajudou a formar uma classe de artistas engajados no retrato de um New Negro. Portanto, a ascensão de um novo ativismo que abordamos no primeiro capítulo, foi acompanhada da articulação de intelectuais como Alain Locke, Zora Neale Hurston, Jesse Fauset, Langhston Hughes e Claude Mckay, que produziram uma literatura preocupada em retratar as experiências negras em um ambiente urbano e industrial.

247 Idem, Ibidem, p.114.

248 Se no mundo da política o período ficou conhecido como “Normalcy”, em termos culturais o termo

utilizado para se referir à década de 1920 é “Roaring Twenties”, que expressa a percepção de uma época com transformações extraordinárias. Ver KYVIG, David E. Daily Life in the United States, 1920-1940:

how Americans lived through the "Roaring Twenties" and the Great Depression. New York: Ivan R. Dee,

2004.

249 Sobre a controvérsia sobre a origem do Jazz, parece haver um consenso de que o gênero musical foi

concebido no sul dos Estados Unidos. New Orleans não foi o berço do Jazz, mas se tornou uma das principais ou principal cidade onde a música foi desenvolvida. Ver PERETTI, Burton W. Lift every voice:

the history of African American music. New York: Rowman & Littlefield Publishers, 2009 e

190 Esses escritores, baseados principalmente no cotidiano das classes populares negras no bairro do Harlem, na cidade de Nova Iorque, capturaram elementos capazes de forjar uma nova cultura negra para além das imagens associadas à escravidão e ao universo rural dos Estados Unidos. A proposta do grupo, que anos depois seria identificado como Harlem Renaissance, era a de responder à narrativa do melting pot, tratada anteriormente, impregnada por um anglo-americanismo assimilacionista.250 A intenção, contudo, não era pensar a experiência negra independente da cultura mainstream norte- americana - grande parte dos leitores e financiadores eram brancos -, mas estabelecer um espaço identitário em diálogo com a identidade nacional.

Assim como Robert Abbott imaginava um novo negro integrado à política e à modernidade norte-americana, o Harlem Renaissance procurou estabelecer autoridade para a criação de um negro urbano no campo da cultura. Entretanto, esse contexto tomado pelo entusiasmo em torno de uma prosperidade no país demonstrou limites políticos e econômicos, sobretudo para a população negra, ainda que o deslocamento do sul para os estados do norte tenha propiciado avanços importantes para os negros nos Estados Unidos. Ao deixarem o trabalho nas fazendas para se juntarem aos operários de grandes cidades como Chicago, Detroit e Nova Iorque, eles triplicaram os seus ganhos em relação às ocupações relacionadas com a agricultura sulista.251 Porém, a mobilidade social ficou restrita a poucos trabalhadores, as ocupações de prestígio continuaram a ser oferecidas aos brancos e os negros tiveram dificuldades para quebrar as barreiras que os mantinham em atividades domésticas e industriais que requeriam pouca qualificação.252

Os clamores dos ativistas negros desse período foram quase que ignorados pelos presidentes da era da Normalidade. Warren G. Harding ficou marcado por um discurso controverso em que considerou o linchamento de negros um problema ao mesmo tempo em que legitimou a segregação racial no país ao reafirmar as diferenças “inconciliáveis” entre as “raças”. O presidente teve inúmeras reuniões com os membros da NAACP, National Association for Advancement of Colored People, de William Dubois, mas as

250 Alain Locke é tratado pela historiografia como o principal articulador do grupo, principalmente por

organizar a antologia The New Negro, em 1925. O movimento envolveu também fotógrafos e artistas plásticos engajados na criação de uma imagem moderna dos negros norte-americanos. Ver HUTCHINSON, George (org.). The Cambridge Companion to Harlem Renaissance. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. Ver também BLOOM, Harold (org.). The Harlem Renaissance. Philadelphia: Chelsea House Publishers, 2004.

251 ZIEGER, Robert H. For jobs and freedom: race and labor in America since 1865. Lexington:

University Press of Kentucky, 2007, p.75.

252 GREENBERG, Cheryl Lynn. To ask an equal chance: African-Americans in Great Depression.

Benzer Belgeler