LUSAS 14.3 PROGRAMI İLE MODELLEME VE OPTİMİZASYON
3.1 Lusas 14.3 Analiz Programı 1 Lusas Hakkında
A Igreja Metodista, através do seu Gabinete Geral, havia planejado primeiramente dois livros de história para comemorar seu centenário. O primeiro, solicitado a José Gonçalves Salvador, deveria ser um livro nos moldes de Júlio de Andrade Ferreira contendo uma densa pesquisa documental com novos dados a respeito do metodismo no Brasil. O autor tinha um perfil parecido com o de Ferreira pois era professor de história na Faculdade de Teologia e também o diretor do Arquivo Geral Metodista377
. Um segundo livro, encomendado ao professor, pastor e escritor Isnard Rocha,378
deveria ser uma obra que resumisse as principais realizações metodistas para o grande público numa linguagem mais acessível e
377 O Gabinete havia lhe concedido uma dispensa remunerada “para dar andamento ao trabalho, por um período
de seis meses”. Além disso, o rev. Salvador teria os custos da pesquisa pagos pela própria instituição. Diferentemente dos anos 1930, no caso específico desta obra, existe um tentativa de equipar melhor o seu pesquisador, mas também, controlar o conteúdo da obra. O Gabinete Geral formou uma sociedade histórica responsável “pela aprovação do esboço da obra e para opinar sobre a matéria de cada capítulo”. Gabinete Geral planejou centenário do metodismo brasileiro. Expositor Cristão, São Paulo, n.18, 15 set. 1966.p.4.
378 Isnard Rocha foi pastor metodista (191? -1995) formado pelo Instituto Grambery, em Juíz de Fora (onde foi
também professor e reitor). Dos poucos dados disponíveis sabemos que ele ocupou cargos na cúpula metodista e o pastorado em inúmeras cidades (até 1967 já havia pastoreado 27 igrejas). Conhecia a história metodista como testemunha (participara desde os anos 1930 das principais reuniões conciliares) e como pesquisador voluntário. Na igreja ficou mais conhecido por seus textos autobiográficos que contemplaram sua formação pastoral (os anos no seminário), os anos de pastorado, as memórias a respeito da sua vida conjugal e a escrita de poemas. A escolha de Rocha pelo Gabinete Geral para escrita de um livro de história ocorria devido a sua influência política e pela sua habilidade de escritor de memórias. Seus textos constituem uma boa fonte a respeito do exercício pastoral, da forma pela qual um pastor constrói a si mesmo e se constrói para outros através de autobiografias. Informações obtida nas contracapas dos seguintes livros do autor: ROCHA, Isnard. Dona Zita. São Paulo: Imprensa Metodista, 1981; Histórias da História do Metodismo no Brasil. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1967; Pioneiros e bandeirantes do metodismo no Brasil: bispos, ministros, pregadores locais e leigos da Igreja Metodista do Brasil. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1967; Pepitas do meu Garimpo (Memória de um Granberyense). São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1980.
simples.379
Devido à crise do seminário de 1968, quando alunos, funcionários e professores discordaram abertamente da cúpula metodista, muitos foram demitidos, dentre eles o principal (e único) historiador metodista, José Gonçalves Salvador380
. Dos dois livros planejados pelo Gabinete Geral apenas Histórias da História do metodismo no Brasil381
(1967) de Isnard Rocha foi publicado no centenário. A pesquisa de Salvador, iniciada nos anos 1960, só foi concluída e publicada em 1982, ou seja, 15 anos depois do centenário, com o título de História do Metodismo no Brasil382
.
Além de Histórias da História do Metodismo no Brasil, dois outros textos contendo a História metodista foram publicados: uma pesquisa independente do pastor Isnard Rocha intitulada Bandeirantes e Pioneiros do Metodismo no Brasil383
; e, em 1968, a pedido da Junta Geral de Educação Cristã, a escritora Eula Kennedy Long publicou Do Meu Velho Baú Metodista. Estes dois últimos livros foram publicados pela Imprensa Metodista, numa espécie de consentimento ao empreendimento não planejado. Posto que a mais esperada obra do metodismo foi concluída em 1982 e que, devido aos infortúnios, ela não foi publicada no mesmo ambiente do centenário metodista, tivemos um grande dilema resultante da nossa opção de comparar livros das três denominações.
379
Gabinete Geral planejou centenário do metodismo brasileiro. Expositor Cristão, São Pauo, n.18, 15 set. 1966.p.4.
380 SALVADOR, José Gonçalves. História do Metodismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Metodista, 1982.p.10.
O autor descreve que no ano de 1968, depois de esforço na coleta de bibliografia e fontes, foi exonerado “sem que, todavia, saiba até hoje os motivos para isso”. Em alguns artigos do Expositor Cristão não eram raras as queixas dele relativas a falta de livros, documentos e a falta de cooperação na coleta documental.
381 O livro não é uma reflexão historiográfica que questionava o local de produção da escrita da história
metodista no Brasil. Trata-se de um texto que resumia, em linguagem simples, os feitos metodistas a partir do livro já analisado de James Kennedy, Cincoenta anos de metodismo no Brasil. É um livro curto (167 páginas, com letras grandes e espaçadas) que privilegia os primeiros anos do metodismo no século XIX e o processo de autonomia nos anos 1930. Um texto com poucas citações de documentos, notas de rodapé, nomes, lugares, datas, contidas nos textos de “história oficial.” Estão postas diversas ilustrações (no total são vinte e uma) que retratam fases do metodismo no Brasil tais como, uma semente sendo regada por uma senhora (representando o começo), uma grande árvore que mostra o desenvolvimento da semente, desenhos e fotografias do primeiro templo, da faculdade de teologia, e também imagens que representam a teologia metodista como, a cruz, a bíblia, a imagem de Wesley, um homem num cavalo (pregador itinerante) e a família nuclear (pai, mãe e filho) que vai à Igreja.
382 O livro escrito por Salvador é o mais bem feito livro de história eclesiástica metodista. O autor que naquele
momento era professor no departamento de Historia da USP faz uma história nos moldes institucionais, contudo, com uma contextualização muito bem feita dos primeiros anos do metodismo no Brasil. Diferentemente dos autores eclesiásticos, ele não procura a isenção na citação exaustiva de documentos, mas procura uma análise global da sociedade brasileira quando o protestantismo chega e se desenvolve no Brasil. Ele procura os elementos que os metodistas poderiam ter contribuído para a sociedade brasileira, que na opinião dele era, os colégios, a atuação evangelística dos metodistas e a difusão própria dos evangélicos de então de centrar sua mensagem e prática religiosa na conduta exemplar e na disciplina.
383 O embora publicado pela Imprensa Metodista, não havia sido “encomendado pela Igreja”. Trata-se de uma
pesquisa de Isnard Rocha a partir de notas de falecimento de pioneiros do metodismo publicados no jornal
Expositor Cristão. Quando os dados eram insuficientes, ou queria ele destacar atuação de alguém, consultava
documentos da burocracia metodista para complementar o texto. Dos 100 pioneiros biografados todos são homens de cargos de liderança como os bispos ou pastores pioneiros. Os leigos aparecem no “apêndice” do livro, e mostram que, tal qual mostrara Júlio Ferreira, incluir neste período tais personagens resultam em uma “quebra” da narrativa “oficial”.
Mesmo correndo o risco de fugir do eixo do nosso texto, incluímos o texto de Eula Long na análise pela singularidade da obra em relação ao visto até agora. A Junta Geral de Educação Cristã sugeriu a ela uma nova forma de escrita da história que visasse menos ao rigor documental, à cientificidade, à imparcialidade, e mais a sensibilizar seus fiéis sobre a importância dos pioneiros metodistas. O resultado foi uma narrativa da instituição romantizada, dotada de muitos heróis e eventos exemplares, sem o excesso de números, nomes e datas existentes nas obras de história eclesiástica. Ao tentar sensibilizar o leitor e atingir o grande público, ela incluiu, na sua narrativa, personagens e temas pouco vistos nos livros de história eclesiástica, em especial, a decisiva contribuição das mulheres na construção do metodismo no Brasil. Por utilizar uma documentação pessoal para construir o livro, ser de uma família pioneira e ser uma escritora habilidosa, podemos dizer que seu empreendimento é singular e inclassificável, porque mescla o romance histórico, o gênero biográfico e auto- biográfico, o aconselhamento pastoral, e um rigor na veracidade das informações veiculadas próxima dos historiadores eclesiásticos protestantes. Além da singularidade da obra e da autora, pretendemos mostrar o esforço, nesse momento, de tornar a história denominacional palatável aos leitores e, nesse exercício, veicular modelos de homens e mulheres metodistas em um momento de crise identitária denominacional.
Eula Lee Kennedy Long nasceu em Taubaté em 1891 e era filha do casal missionário James Kennedy e Jennie Wallace. Casada com o pastor metodista Frank Long, morou no Rio Grande do Sul entre 1914 e 1934, onde foi professora e publicou crônicas nas edições dominicais do Diário de Notícias de Porto Alegre. No Brasil, ela exerceu atividades de liderança junto com o esposo na Associação Cristã de Moços (ACM), foi presidente da Sociedade Feminina no Sul do Brasil, secretária fundadora da revista evangélica destinada ao público feminino, Voz Missionária e atuou em obras assistenciais. A partir dos anos de 1920 ganhou notoriedade como escritora publicando, em especial, textos de aconselhamento familiar destinados ao publico feminino como, os problemas no lar, a educação e a instrução religiosa dos filhos, conselhos a jovens casadas, dicas de administração do lar, economia doméstica, etiqueta, culinária e a velhice. Os títulos dos textos são sugestivos: O Companheiro do Lar384, Conselho as Mães, Corações Felizes385, Mães de Homens Célebres, Exercícios Bíblicos386, Do Meu Velho Baú Metodista, e O Arauto de Deus387 (biografia sobre
384 LONG, Eula Kennedy. O Companheiro do Lar. São Paulo: Imprensa Metodista, 1924. 385 LONG, Eula Kennedy. Corações Felizes. 8. ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1960.
386 LONG, Eula Kennedy. Exercícios bíblicos: Úteis a escolas dominicais, sociedades da Igreja. São Paulo:
James Kennedy). Sua habilidade na escrita fez dela membro da Academia Sul-Rio Grandense de Letras e, mais tarde, nomeada correspondente da Academia Brasileira de Letras nos Estados Unidos. Corações felizes tornou-se uma obra que, no ano de 1968, ganhou a nona reedição, um fato raro para aquele período levando-se em conta, ser escrita por uma mulher.
A partir dos anos de 1934, ela voltou aos Estados Unidos de onde escreveu como correspondente. Em 1959, Eula Long ganhou homenagem do Estado norte-americano da Virgínia como “a mãe do ano” devido as suas realizações no campo assistencial, religioso, e a projeção social dos seus filhos. Dentre cinco herdeiros, o primeiro morreu na Segunda Guerra Mundial, dois ocupavam postos administrativos em grandes empresas, e duas filhas dedicavam-se a tarefas de assistência social sendo uma delas, Edith Schiler, missionária no Brasil. Segundo a articulista da Voz Missionária, Eula Long merecia o título de mãe do ano porque ela “realmente o merece. Mãe de cinco filhos soube criá-los e conduzi-los de modo cristão e amigo e tem o privilégio de vê-los todos no rol de cidadãos dignos e úteis à família, à pátria e à Igreja”388. Por fim, outro dado marcante da escritora é o fato de ter introduzido o Dia das Mães no Brasil. Uma homenagem promovida na Associação Cristã de Moços (ACM) de Porto Alegre, em 1918, às mães ganhou proporção estadual e depois nacional. Em 1922, já se tem notícias da mesma celebração em São Paulo e, em 1932, Getúlio Vargas instituiu Dia das Mães como data oficial do calendário brasileiro. A autora chegou a ser homenageada pela prefeitura de Taubaté, sua cidade natal, com uma placa em um centro assistencial, graças à iniciativa dela instituir a data das mães.389
Eula Long era a própria mulher metodista ideal, companheira do marido, ativa liderança feminina, conselheira, mãe exemplar, vinha da linhagem do pioneiro missionário e historiador metodista James Kennedy e tinha uma projeção tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Dadas essas particularidades, segundo consta reportagem veiculada pela Imprensa Metodista no Expositor Cristão, coube a Long, a “festejada autora metodista”, escrever no ano do centenário metodista um texto que “retratará de forma humana e emocionante a
387
LONG, Eula Kennedy. O arauto de Deus - Kennedy: vida de James L. Kennedy, missionário pioneiro do metodismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Metodista, 1960.
388 Boas Novas!..., Voz Missionária, São Paulo, n.4,1959.p.10.
389 Procuramos dados relativos a biografia de Eula Long mas não obtivemos sucesso. Gostaríamos de ter mais
dados disponíveis para fazer uma biografia que não valorizasse justamente os aspectos que a tornaram mulher exemplar. A autora viveu no Brasil até os anos 1930, quando foi morar em definitivo nos Estados Unidos onde faleceu. Fazia visitas esporádicas ao Brasil para visitar parentes e mantinha contato com amigos e as revistas eclesiásticas através de correspondência. O fato dela ter falecido nos Estados Unidos impediu que encontrássemos dados mais consistentes. Sua única filha residente no Brasil, Edith Schiler foi missionária junto com o esposo e possui um educandário no Sul do Brasil. Por repedidas vezes tentamos contato via telefone e e- mail mas não obtivemos resposta. As informações biográficas contidas dela são baseadas em contracapas dos livros publicados por Long e pelo artigo na Revista Voz Missionária de 1959.
história das venturas e desventuras, expectativas e derrotas do passado.”390 A autora, portanto, era uma escritora de prestígio, mas não se enquadrava no perfil até agora analisado dos historiadores eclesiásticos. Diferentemente do próprio pai, ela não tinha intimidade com os arquivos da igreja, sobretudo as atas e documentos principais, conhecimento profundo sobre querelas e personagens, ou alguém que durante anos se dedicara à coleta e arranjo documental para a Igreja. A escritora trazia consigo a vivência de anos entre os pioneiros, sua pena habilidosa, o seu pertencimento familiar, a sua capacidade de aconselhar o público feminino, e a vontade de ter reconhecida, naquele momento, a obra da sua família e dela mesma. Trata- se de uma historiadora de ocasião, uma conselheira capaz de visualizar, através do passado metodista eventos e personagens que pudessem instruir e motivar os fiéis do presente. Reiteramos que não se trata de eleger uma mulher para rever fontes e trazer novos dados, mas de atingir um novo público e tornar acessível a história da instituição, principalmente, para as mulheres. Nesse caso, o próprio título do livro mostra que mesmo publicada pela editora metodista, não constitui ela uma obra que contém o precioso título “A História da Igreja...”.
Ilustração 2: Capa do livro Do Meu velho baú Metodista
A capa do livro possui uma chave que abre o “velho baú” e a partir dele, parte da história metodista no Brasil se desenvolve. O livro possui 253 páginas e é dividido em cinco partes com 31 capítulos irregularmente distribuídos. A primeira parte (28 páginas) retoma a iniciativa dos pioneiros metodistas entre os anos 1835 a 1841; a segunda (42 páginas) retrata a
iniciativa dos colonos norte-americanos que chegaram ao Brasil; a terceira aborda o metodismo no sul do Brasil (30 páginas); a quarta referente ao metodismo no Norte e Nordeste ocupa apenas 9 páginas. A quinta e última (103 páginas) ocupa quase a metade do livro e nela a autora retoma a história das instituições educacionais metodistas, a imprensa, a ação social, a atuação feminina, o combate ao álcool, os novos campos evangelísticos e uma dura reflexão a respeito do centenário metodista. Em linhas gerais, observa-se a mesma organização cronológica e temática dos textos de história eclesiástica que contém uma narrativa minuciosa sobre os primeiros missionários, o nascimento e o desenvolvimento das instituições, como os colégios, as obras assistenciais, a evangelização.
Em termos de fontes, o baú é uma metáfora relativa a documentação utilizada pela autora. Tratava-se de uma documentação familiar, ou seja, os muitos diários, as correspondências, retratos antigos, matérias de jornais, livros, panfletos, polêmicas (travadas entre católicos e protestantes) recolhidas e deixada por uma geração dos Kennedy. A disposição documental chamada pela autora de “uns retalhinhos preciosos” contemplava o material utilizado pelo pai na escrita de Cincoenta anos de metodismo no Brasil acrescido do acervo pessoal da autora. Nesse sentido, a obra dela é muito diferente das demais analisadas, para os quais os historiadores recolhiam material diverso, em diferentes suportes, visando ao maior acervo possível para a sua narrativa. Aqui, o escopo documental é fundamentalmente pessoal o que acaba conferindo uma centralidade da narrativa em torno da família Kennedy, em especial, James Kennedy e Eula Long391.
Na introdução do livro, Long mostra que o objetivo do seu texto era convencer o leitor que história metodista era composta de homens e mulheres exemplares os quais passaram por muitas dificuldades. Tratava-se de escrever sobre “eventos e personalidades inspiradoras, de estímulo para hoje e desafio para amanhã.”392Ela não se difere nesse quesito dos autores
evangélicos até agora analisados, mas a sua forma de construir esses personagens e os eventos é muito diferente. Long faz uma espécie de “resumo” de Cincoenta anos de metodismo no Brasil e retira o excesso de dados, datas, nomes, tabelas e transcrições. Mesmo colocando as instituições metodistas em primeiro plano, ela procura uma ênfase emocional na criação de cada instituição, mostrando as dificuldades que os homens e mulheres tiveram para estabelecer uma igreja ou um colégio. Ela prefere enfatizar poucos eventos e personagens ao
391 Embora ela se utilize primordialmente da documentação familiar, ela demonstra ter bom conhecimento de
cultura geral e versada em bibliografia secular. Ela cita ao longo do texto frases de vários autores como Pascal, Alexandre Herculano, Comte, Pe Antonio Vieira e de estudiosos acadêmicos como Vianna Moog e principalmente, Gilberto Freyre.
invés de tentar, tal qual fizeram os historiadores eclesiásticos, colocar o máximo de dados e eventos possíveis no livro. Ao comentar sobre a história dos educandários metodistas, ela enfatizava o seguinte:
Não é coisa seca e somente estatística a história dos nossos estabelecimentos educacionais. Dentro e atrás de cada história, há estórias de sacrifício, dedicação, de alegria e tristeza- há um testemunho intimamente pessoal e humano.393
Do Meu Velho Baú Metodista procura estas estórias de “sacrifícios, dedicação, de alegria e tristeza”, sendo uma espécie de “outro lado” de Cinquenta anos de Metodismo no Brasil onde a autora recorta, dentre inúmeros personagens e números, histórias de forte apelo emocional. Ao invés de escrever o número de templos abertos por determinado pastor, prefere ela narrar e romancear esse pastor, mostrando alguns eventos que, porventura comovessem o leitor. Vejamos por exemplo como ela descreveu o missionário James Kennedy:
Visitava de casa em casa para pessoalmente distribuir convites para os cultos, sendo freqüentemente insultado ou rechaçado. Pregava nas ruas, sendo às vezes atingido por batatas e tomates podres; outras vezes, só pela graça de Deus, escapou à fúria de assaltantes fanáticos, como em Bangu, perto do Rio.
Organizou igrejas em cidades grandes e em vilas remotas do interior. Viajava a cavalo ou no lombo de mula, suas longas pernas quase arrastando no chão, debaixo de sol ardente ou de frios aguaceiros, subindo montanhas escabrosas por “trilhos-de- bicho”, como se chamavam os estritos caminhos socados pelas patas dos animais. Às vezes andava em carros-de-boi, em penosas viagens que lhe deixavam o corpo doído, de solavanco em solavanco pelas estradas esburacadas. Ainda outras vezes quando não conseguiam condução, caminhava a pé. Caminhou vinte quilômetros com seu colega de trabalhos, e filho espiritual, o consagrado Ver. Antonio Cardoso da Fonseca. Alcançando o seu destino: uma choupana humilde, um vilarejo, entrava então em lutas terrível com mosquitos e pulgas famintas por sangue novo, que pareciam devorar-lhes as carnes. De dia lutava contra os micuins, carrapatos e borrachudos. Tal foi a vida de Kennedy durante quase sessenta anos, se incluirmos aqueles em que, aposentado e perto dos seus oitenta anos, contribuiu para a extensão da obra metodista nos bairros de São Paulo.394
Observa-se que, ao invés de citar o número de cidades visitadas, igrejas organizadas, número de fiéis convertidos, tal qual faziam os livros de história eclesiástica, ela prefere ambientar o “lado humano” do personagem, em especial, os momentos de sofrimento e privações. Reforça a identidade institucional da necessidade de evangelização em um país católico, hostil às investidas protestantes, a abnegação desses missionários pioneiros dotados
393 LONG, op.cit., p.162.