4. LUCAS POL˙INOMLARI ˙ILE KES˙IRL˙I MERTEBEDEN D˙IF ¨ UZYON
4.3. Lucas Polinom Y¨ ontemi
Os discursos dos nossos entrevistados sugerem que a noção de crítica e de sanção social está sempre presente, caso não sejam os familiares a cuidar da pessoa idosa. A crítica social é referida pelos sujeitos, independentemente do género, da idade, de ter o apoio informal e formal. Considera-se, mais uma vez, que a obrigação e o dever de cuidar são dos familiares e não do Estado. Apesar de todos os cuidadores sentirem dificuldades no
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O Papel do Cuidador Informal do Idoso em Contexto Domiciliário
acto de cuidar, todos consideram que é um acto familiar (para alguns pode haver o apoio formal, mas por si só não é válido).
Os próprios cuidadores também criticam, caso não sejam familiares a cuidar. Mais uma vez, parece-nos haver aqui a noção da reciprocidade familiar, do ciclo geracional, referido anteriormente, de que dos familiares cuida a família, independentemente de existirem condições efectivas para tal. Não podemos, também, negligenciar o facto de o presente estudo ter sido realizado no meio rural, numa comunidade em que todos se conhecem e onde estão enraizados os valores da família tradicional, ainda que com alterações.
5.2.4.1. Crítica social
Os cuidados prestados aos idosos no meio rural são maioritariamente prestados pelos familiares, ainda que auxiliados, algumas vezes, pelo apoio formal. Quando questionados acerca de como as pessoas na comunidade olham o acto de cuidar por parte dos familiares ou por não familiares (por opção destes), 9 dos nossos entrevistados referem que:
“ (…) dizem, como crítica, que devem ser os filhos a cuidar dos pais eu também digo, os filhos têm obrigação de cuidar dos pais” E1.
“ (…) as pessoas iamcriticar-me muito. Isto é um meio muito pequeno, se
metesse os meus pais num Lar, nunca pensei metê-los, mas só o tempo o poderá dizer, não sei, sinto-me cansada (…), isso tudo é complicado, é um meio pequeno e as pessoas também não entendem o lado de ninguém, não entendem se a pessoa precisa ou se não precisa, não entendem a minha posição, ninguém se põe na minha pele” E4.
“ (…) há muita crítica, as pessoas criticam quando não são os filhos a cuidar, até criticam quando pensam que não são bem cuidados, ouve-se sempre críticas. Eu acho que os filhos têm obrigação de cuidar, se não for os filhos, que sejam as mulheres deles” E8.
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“ (…) acho que se critica muito quando não são os filhos a cuidar dos pais. Eu, um dia, também espero ser cuidada pelos meus” E11.
“ (…) eu acho que se critica muito quando não são os filhos a cuidar, mesmo estas filhas que não cuidam da mãe são muito criticadas aqui na aldeia, falam muito delas, porque no fundo elas têm obrigação, quem tem obrigação são as filhas e não as noras” E5.
“ (…) acho que se critica muito quando não é os familiares a cuidar, diz-se sempre que os filhos é quem têm obrigação, e eu também acho que é os filhos e o marido ou esposa que têm obrigação” E12.
“ (…) as pessoas mais antiquadas criticam ainda muito quando não são os filhos a cuidar. Ainda há uma visão muito negativa dos Lares e da obrigação dos filhos em cuidar. Em França, já há muito tempo que não é assim. Se calhar, eu tive esse choque lá e, depois, percebi que a vida nem sempre permite que sejam os filhos a cuidar e que a maior parte das vezes estão muito mais bem cuidados nos Lares, as pessoas têm os seus empregos, não os podem perder, têm de arranjar quem cuide, ou leva-los ao Lar, e qual é melhor? Ter quem cuide todo o dia, ou estarem sozinhos e só à noite verem os filhos e, muitas vezes, estes já sem tempo e disposição?” E3.
Claramente, está aqui subjacente a ideia de reciprocidade e de dever em cuidar. A este propósito Riospabé (1996 cit. in Portugal, 2007) distingue dois significados da obrigação familiar de cuidar. No sentido jurídico e técnico, a obrigação define uma relação legal entre duas pessoas, em virtude da qual uma pessoa pode exigir algo da outra. Para além do desse sentido restrito, há obrigação no sentido “lato. Esta consiste na obrigação moral que resulta de um compromisso, que não é obrigatório, no sentido jurídico do termo, dado que não está sujeito a sanções deste tipo, mas que funciona como um imperativo.
No entanto, 4 dos nossos entrevistados também alegam que a sociedade tem falta de informação e, por isso, criticam quando não são os familiares directos a cuidar:
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“ (…) nem imagino isso, nem imagino o que se falaria por aí, se fosse alguém de fora a cuidar do meu marido, era um falatório” E1.
“ (…) por vezes, há comentários muito negativos, porque muitos filhos não querem cuidar dos seu pais, é que é uma comodidade muito grande ter a mãe ali guardadinha no Lar e vai de férias e vai para onde lhe apetece” E7.
“ (…) a sociedade não imagina o que é cuidar de uma pessoa assim, não têm noção, a maioria das pessoas pensa que é fácil, mas não é” E12.
“ (…) acho que as pessoas não sabem o que é cuidar de alguém assim dependente, não sabem o trabalho que dá, só quem passa por elas” E14.
1 dos nosso entrevistados refere mesmo que:
“ (…) as pessoas de fora não sabem o que custa, não percebem a minha vida, estão sempre a convidar-me para fazer isto ou aquilo, não percebem que não posso ir e esses convites fazem-me mal, revoltam-me muito” E2.
Denote-se que este sujeito entrevistado, também é idoso e cuida da esposa, também está semi-dependente e sempre foi um homem que viveu na diferenciação de papéis, sempre esteve habituado a sair, para a lida da lavoura, a conversa no café da aldeia com os outros homens, tudo o que sempre fez como norma. Com a alteração do estado de saúde da esposa, modificou a sua forma de viver.