Em 1500, menos de 20% da área terrestre do nosso planeta tinha estados delimitados por fronteiras, dirigidos por burocratas e governados por leis. Hoje, toda a terra, menos a Antártica, está assim dividida. As sociedades que chegaram antes a um governo centralizado e à religião organizada acabaram dominando o mundo moderno.
Dessa forma, tendemos a achar que o que chamamos “civilização” é o correto modelo a ser seguido e significa necessariamente o melhor, entretanto, trata-se de um modelo relativamente recente, quando comparado aos 13 mil anos de história após a descoberta da agricultura.
DIAMOND (2003:267), se utiliza de uma classificação simples para entender as sociedades: bando, tribo acéfala, tribo centralizada e Estado.
Bandos são as menores sociedades, variando de cinco a 80 pessoas, quase todas parentes próximas por nascimento ou casamento. Trata-se de uma família ampliada ou várias famílias ampliadas interligadas.
Os poucos remanescentes de bandos modernos são ou foram caçadores-coletroes nômades em vez de produtores de alimentos estabelecidos. Todos os membros do bando se destinam à caça e/ou coleta de alimentos. Provavelmente todos os humanos viviam em bandos até pelo menos 40 mil anos atrás, e a maioria da humanidade ainda vivia desta maneira há somente 11 mil anos.
Os bandos se caracterizam pela ausência de instituições formais como leis, polícia e tratados para a solução de conflitos (dentro do bando e entre os bandos) ; de
estratificação social formal; de liderança hereditária ou formal. As decisões são, em geral, tomadas em conjunto e não há monopólios formais da informação.
A palavra formal se repete várias vezes no parágrafo anterior porque não se trata de uma sociedade igualitária, no sentido de que todos os membros do grupo são iguais em prestigio e que têm a mesma participação nas decisões. Na verdade, a liderança do bando é informal e conquistada por qualidades como personalidade, força, inteligência e habilidades na luta.
O número de membros é baixo por causa das doenças, escassez de recursos alimentares e nomadismo, que impede que uma mãE tenha grande número de filhos pequenos que teria que carregar.
Nossos parentes mais próximos, os gorilas, chimpanzés e os macacos africanos também vivem em bandos, que “é a organização política, econômica e social que herdamos de nossos milhões de anos de história evolutiva. Nossos avanços além dele ocorreram nos últimos milhares de anos” (DIAMOND, 2003:270).
A tribo se diferencia do bando pela maior população (centenas em vez de dezenas de pessoas) que, em sua maioria são fixas, sendo que existem (ou existiram) tribos nômades formadas por pastores.
Acredita-se que a organização tribal teve início por volta de 13 mil anos atrás no Crescente Fértil (Oriente Médio, um dos locais onde houve o desenvolvimento espontâneo da agricultura) e depois em algumas outras áreas.
A produção de alimentos ou então a existência de um ambiente altamente produtivo que permita a coleta de alimentos em quantidade numa área restrita é a condição necessária para a existência de um assentamento.
Na tribo podem existir mais de um grupo de afinidade formalmente reconhecida, denominados clãs, que trocam os cônjuges e, em geral, são dos donos da terra, que não pertence à tribo inteira.
Apesar de maior que no bando, a quantidade de pessoas de uma tribo acéfala é ainda pequena, permitindo que todos se conheçam pelo nome ou por relações. Assim, trata-se de uma sociedade na qual “todo mundo conhece todo mundo”.
Quase todos são parentes consangüíneos ou por afinidade ou ambos, de forma que, para a solução dos conflitos, não são necessárias a polícia, as leis e outras instituições usadas na solução de conflitos das sociedades maiores. Assim, as tribos acéfalas ainda preservam um sistema de governo informal e “igualitário”. A informação e a tomada de decisões são da comunidade.
Pode existir uma liderança formal: um “homem grande” que, apesar de ser o mais influente do grupo, não tem um cargo formal a ser preenchido e seu poder é limitado, não pode decidir sozinho e não conhece nenhum segredo diplomático. O status de homem-grande de uma tribo acéfala é conquistado pelos seus próprios méritos e não é hereditário. Ademais, não há nenhum tipo de diferenciação visível ou adorno que caracterize o homem-grande que vive em condições iguais às dos demais.
Da mesma forma que nos bandos, não há uma hierarquia formal ou classes sociais. Nenhum membro de uma tribo acéfala ou bando tradicional pode enriquecer mais do que os outros pelos próprios esforços, pois cada indivíduo tem deveres e obrigações para com muitos outros.
As tribos acéfalas também não tinham burocracia, força policial e impostos, de forma que sua economia se baseia nas trocas entre os indivíduos e famílias. A especialização econômica é superficial: faltam artífices em tempo integral e todos os adultos participam do cultivo, da coleta ou da caça dos alimentos.
Indícios arqueológicos sugerem que as tribos centralizadas surgiram há 7.500 anos no Crescente Fértil e por volta de 3.000 anos atrás, na América Central e nos Andes. As tribos centralizadas totalmente independentes desapareceram no início do século XX, porque em geral, ocupavam a melhor terra, almejada pelos Estados.
O papel do homem-grande em uma tribo acéfala na divisão da carne de porcos sacrificados para os banquetes transforma-se no papel dos chefes na coleta e redistribuição de alimentos – agora transformados em tributos - nas tribos centralizadas. Nestas, surge a arquitetura pública, sendo comum a presença de templos religiosos. O tamanho da população nas tribos centralizadas era bem maior que nas acéfalas, variando de milhares a dezenas de milhares de pessoas, saindo da situação em que “todo mundo conhece todo mundo”. Assim, há 7.500 anos, uma parcela da humanidade, pela
primeira vez, teve que lidar com o problema de como conviver pacificamente com desconhecidos.
Tal situação passou a demandar estruturas sociais mais complexas, onde o chefe passa a deter o monopólio sobre o direito de usar a força, ocupando um posto reconhecido, preenchido por direito hereditário. Assim, o chefe torna-se uma autoridade centralizada permanente, tomava todas as decisões importantes e monopolizava informações estratégicas. Ao contrario do homem-grande da tribo acéfala, o chefe da tribo centralizada podia ser reconhecido pela indumentária diferenciada, passando também a existir sinais característicos de reverência.
As ordens do chefe eram transmitidas por um ou mais níveis de burocratas, muitos dos quais subchefes que, ao contrario dos burocratas dos Estados, em geral desempenhavam funções genéricas e não especializadas.
Surge o excedente de alimentos produzidos por algumas pessoas, relegadas às classes inferiores, utilizado para alimentar os chefes, suas famílias, os burocratas e os artesãos. Surgem também os produtos de luxo, reservados para os chefes e para as classes superiores.
Ao contrario das tribos acéfalas, onde os clãs pertencem a uma mesma classe, nas tribos centralizadas, os membros da linhagem do chefe gozavam de benefícios hereditários, podendo haver hierarquias de classes. Aparecem também as funções menores, que podiam ser exercidas por escravos.
Na economia, além trocas informais, surge o sistema da economia redistributiva, com a cobrança de impostos tanto na forma de produtos quanto na forma de mão de obra para as obras públicas. Parte dos tributos era destinada ao benefício direto dos chefes e classes superiores e parte era redistribuída ao povo.
Evidentemente, as tribos não eram todas iguais. Na verdade, existia toda uma gama de variação das estruturas sociais, com a tribo acéfala num extremo a tribo centralizada no outro. Neste sentido, DIAMOND (2003) destaca:
“As tribos centralizadas apresentavam o dilema fundamental de todas as sociedades não igualitárias cujo governo era centralizado. Na melhor das hipóteses, elas fazem bem prestando serviços caros impossíveis de contratar
individualmente. Na pior das hipóteses, elas funcionam audaciosamente como cleptocracias, transferindo a riqueza líquida do homem do povo para as classes sociais superiores. Essas funções nobres e egoístas estão indissoluvelmente ligadas, embora alguns governos dessem muito mais destaque a uma do que a outra. A diferença entre um cleptocrata e um estadista sábio, entre um barão ladrão e um benfeitor público, é de apenas um grau: só questão do tamanho da percentagem do tributo extorquido dos produtores retida pela elite, e da aprovação, pelos homens do povo, das obras públicas nas quais o tributo é aplicado”.
O autor lembra uma pergunta suscitada por teóricos políticos de Platão a Marx e novamente levantada por eleitores em todas as eleições modernas: por que o povo tolera a transferência do fruto de seu trabalho árduo para os cleptocratas? Propomos-nos a encontrar uma resposta no âmbito do presente trabalho.
DIAMOND (2003) nos mostra, ainda, que cleptocratas de todas as épocas utilizam uma mistura das seguintes soluções para conquistarem o apoio popular, mantendo um estilo de vida mais confortável que o do povo:
1. Desarmar o populacho e armar a elite;
2. Fazer a massa feliz redistribuindo boa parte do tributo recebido em coisas de apelo popular;
3. Usar o monopólio da força para promover a felicidade, mantendo a ordem pública e contendo a violência e,
4. Elaborar uma ideologia ou uma religião que justifique a cleptocracia.
Destes itens, utilizados tanto pelos antigos chefes havaianos e andinos, quanto pelos políticos atuais dos grandes estados, o quarto mecanismo tem a “vantagem” de manter a coesão de um grupo que não tenha laços de parentesco. Adicionalmente, é de grande valia militar, uma vez que estimula os indivíduos a se “sacrificarem” pelo bem do grupo, reforçando a idéia de “morrer pela pátria” difundida em quase todos os hinos nacionais, inclusive o nosso.
Os Estados são as instituições políticas, econômicas e sociais mais comuns nos dias de hoje. Vestígios arqueológicos nos indicam que os Estados surgiram há cerca de 5.700
anos, na Mesopotâmia, há 2.300 anos na América Central, mais de 2.000 anos atrás nos Andes, na China e no sudeste da Ásia e mais de 1.000 anos atrás na África.
Com o crescimento da sua população, as tribos centralizadas transformam-se em aldeias multivilas, chegando à categoria de Estado, com populações que, em geral, são contadas em milhões de pessoas, enquanto que as das tribos centralizadas eram contadas em milhares ou dezenas de milhares.
Surge então a capital do estado, onde vive o chefe supremo e sua família, bem como outros centros populacionais (cidades) de menor importância. As cidades diferem entre si, não só pelo tamanho mas pela quantidade e qualidade das construções públicas monumentais, palácios dos governantes e pela concentração de pessoas com ofícios diferentes dos produtores de alimentos. Finalmente, pela acumulação de capital e de tributos.
Os Estados antigos tinham um líder supremo hereditário (rei ou imperador) que, recentemente vem sendo substituídos por líderes ditatoriais e democracias de diversas naturezas, lembrando que as lideranças oriundas de uma única família ainda existem, como é o caso da Arábia Saudita.
Em todos os casos, as informações cruciais e estratégicas são restritas a um pequeno grupo, que controla o fluxo de informações para o restante do governo e, consequentemente, controla as decisões. A especialização econômica é mais acentuada, o controle central é mais abrangente e a redistribuição econômica dos tributos é mais extensa que nas tribos centralizadas.
A utilização de trabalho escravo passa a ser maior, os níveis burocráticos são ampliados e mais complexos e a solução dos conflitos passa a ser formalizada na forma de leis (quase sempre escritas), um poder judiciário e uma polícia.
Os estados antigos tinham religiões oficiais e templos padronizados, sendo que muitos reis eram considerados divinos. Em muitos estados modernos as estruturas religiosas têm grande força política e participação nas decisões de governo.
Os diversos grupos humanos espalhados pelo planeta, originalmente todos vivendo em bandos, foram se organizando em sociedades cada vez maiores e, consequentemente, cada vez mais complexas mas, sempre seguindo a ordem aqui descrita. Os níveis de
crescimento foram diferentes em diferentes regiões e ambientes, de forma que quando tais grupos foram se encontrando, o mais forte dominava ou exterminava o outro, de forma que os grupos foram se tornando cada vez maiores em população e mais reduzidos em número, até chegarmos aos Estados que temos hoje.
Como já havia proposto Aristóteles, DIAMOND (2003), com quem concordamos, atribui exclusivamente ao crescimento da população as mudanças de status, com a evolução do bando para o Estado. As sociedades que há 500 anos ainda não haviam passado dos estágios de bando e tribo acéfala não o fizeram por não ter tido tal necessidade, uma vez que a população permanecia pequena.
VIEIRA (2007:19), nos ensina que as ciências podem ser divididas em teóricas, empíricas e observacionais. As teóricas são as desenvolvidas com a utilização de objetos ditos ideais, como os da matemática e da lógica. As empíricas são baseadas em experimentos, enquanto que as observacionais baseiam-se, como o nome diz, na observação de fatos que não podem ser trazidos para um laboratório. A astronomia e a geologia são ciências tipicamente observacionais.
Podemos considerar o estudo do desenvolvimento das sociedades como uma ciência observacional, uma vez que não podemos trazê-las para um laboratório. Assim, ao observarmos a forma de desenvolvimento das sociedades (exposta por Diamond), verificamos que em diferentes épocas separadas umas das outras em milhares de anos e em diferentes lugares separados entre si em milhares de quilômetros, as sociedades, sem interferência umas das outras, “criaram” sempre a mesma estrutura social toda vez que se depararam com o problema do crescimento da população.
Isto nos leva a concluir que a tendência de criar estruturas sociais baseadas em hierarquia e controle do poder é uma característica (inata) dos grupos humanos pois, se de outra forma fosse, diferentes sociedades deveriam ter sido criadas pelos humanos em diferentes ocasiões e diferentes locais, quando submetidos à situação comum de aumento da população.