2.1. Avrupa Birliği’nin Azınlıklarla İlgili Türkiye’den Talepleri ve Bu Taleplerin Haklılığı Haklılığı
2.1.1. Lozan Antlaşması’nda İfade Edilenler Dışındaki Azınlıkların Kabul Edilmesi
O Movimento SOS Quarteirão do Itaim se mobilizou rapidamente em pedir o tombamento da área ao Condephaat. Após contratar no começo de 2011 um estudo técnico elaborado pela arquiteta Vanessa Kraml - “Caderno de Pesquisa Histórica para Tombamento da área dos equipamentos públicos do Itaim Bibi, o movimento protocolou o pedido de tombamento em março de 2011 no Condephaat, em nome da Preserva São Paulo. Ao final do mês de abril do mesmo ano, o órgão iniciou processo de estudo (nº 64.106/2011) do tombamento da área. Isso implicou no “congelamento” do projeto de Kassab”, pois como já dissemos, o processo que envolve o tombamento de um bem cultural, bloqueia intervenções na área em estudo. Foi por essa razão que a Justiça suspendeu em 2011 a venda da área, tendo o juiz alegado que o instrumento do tombamento impede que o terreno seja vendido. A estratégia do movimento consistiu então em aproveitar o recurso do tombamento em benefício de sua luta pelo espaço.
Para o pedido de tombamento feito pelo Movimento SOS Quarteirão do Itaim foi entregue ao Condephaat o seguinte material:
Levantamento histórico-urbanístico da área;
Levantamento histórico-arquitetônico dos equipamentos; Estudo do perfil dos usuários dos equipamentos;
Levantamento paisagístico do quarteirão; Certidões;
Decretos; Pareceres;
196 Abaixo assinado
Ação Popular Liminar da Justiça.
De acordo com parecer da Diretoria da UPPH do Condephaat que foi acatado pelo Conselho do Condephaat, a abertura do estudo de tombamento teve como justificativa:
A mobilização popular em prol da defesa da área; A importância do uso público consolidado da área; Os atributos ambientais existentes na área;
Dentre os documentos que integram o processo de tombamento junto ao Condephaat, tomaremos como referência o Parecer Técnico UPPH Nº GEI-214-201378 até o pronunciamento final sem data pré-definida. Em princípio, o citado Parecer Técnico obteve a deliberação do Conselheiro Relator, comunicada pelo Diário Oficial de São Paulo do dia 07 de janeiro de 201479, em que decide tombar somente parte do que inicialmente foi solicitado, como segue na descrição a seguir:
“De acordo com o que dispõe o artigo 142 do Decreto 13.426. de 16.03.79, notificamos a todos os interessados que o Egrégio Colegiado do CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado, em sua Sessão Ordinária de 16- 12-2013, deliberou, em relação ao estudo de tombamento do “Quarteirão Cultural do Itaim Bibi”, aprovar o parecer do Conselheiro Relator pelo tombamento apenas do conjunto formado pela Biblioteca Anne Frank e pelo Teatro Décio
78 O referido Parecer Técnico emitido no dia 16/12/2013 pela Unidade de Preservação do Patrimônio
Histórico (UPPH), corresponde ao Processo Nº 64.106/2011 solicitado pela Associação Preserva São Paulo, protocolado em 02/05/2011, sobre o pedido de tombamento do Quarteirão do Itaim. Segundo consta no parecer, o pedido de tombamento foi feito pela sociedade, acompanhado por estudo “cuidado e detalhado que descreve as características de formação do bairro do Itaim e enfoca o Quarteirão do Itaim e os prédios e instituições que o compõem”. Além disso, ressalta a motivação do pedido por parte da sociedade, que pela intenção de venda da área por parte da Prefeitura de São Paulo via a iminência de sua extinção. As arquitetas Silvia Ferreira Santos Wolff e Adda Ungaretti, que assinam o Parecer Técnico afirmam que buscaram avaliar o valor do Quarteirão do Itaim sob o ponto de vista do patrimônio cultural.
79 Até o fechamento da dissertação, não houve decisão final do tombamento do quarteirão, uma vez que o
movimento contestou a decisão preliminar de tombar somente a biblioteca e o teatro. No dia 24 de fevereiro de 2014, foi julgado e atendido o recurso pedido pelo movimento, fazendo com que o processo tivesse de ser novamente analisado. Para o grupo, o tombamento integral do quarteirão e das unidades públicas corresponde ao que consideram o patrimônio a ser preservado relativo a memória coletiva, do meio ambiente urbano e do uso social público do bairro. A omissão das unidades que não foram consideradas patrimônio seria um retrocesso à noção de patrimônio, aqui discutida, ampliando a visão restrita de que o patrimônio é somente aquele de valor arquitetônico “relevante”.
197 Almeida Prado com seu respectivo terreno remanescente, situados a Rua Cojuba, 45 e 45A, nesta Capital.
Nos termos do parágrafo único do já citado artigo 142 e do artigo 146 do mesmo Decreto, a deliberação ordenando o tombamento ou a abertura do processo de tombamento assegura, desde logo, a preservação do bem até decisão final da autoridade competente, ficando, portanto, proibida qualquer intervenção que possa vir a descaracterizar os referidos imóveis, sem prévia autorização do CONDEPHAAT, podendo ser punido o descumprimento do acima disposto com as sanções penais previstas no artigo 63 da Lei Federal 9605, de 12-12- 1998, as sanções administrativas previstas na Lei Estadual 10.774, de 01-03-2001, regulamentada pelo Decreto Estadual 48.439, de 21-12-2004, além das consequências de natureza civil previstas na legislação vigente.
Estabeleça-se o prazo de 15 dias para apresentação de eventual contestação, conforme disposto no artigo 143 do já citado Decreto Estadual, contados a partir do recebimento da notificação.” (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO. EXEUTIVO. CADERNO 1. 07/01/2014, p. 31)
Em relação ao Parecer Técnico da UPPH, importa essencialmente destacar o valor que lhe foi atribuído no sentido de subsidiar o Conselho em sua decisão, embora isso não seja condição sine qua non, como já se constatou na primeira decisão divulgada pelo Conselho. Isso implica refletirmos sobre o distanciamento entre o respaldo técnico e a deliberação política, momentos que fazem parte do instrumento jurídico do tombamento, bem como a distância, já mencionada, entre a própria demanda da sociedade e as instâncias de tomada de decisão, a qual marca o caráter do atual Conselho (sobretudo no âmbito político que assume) como alheio ao entendimento do patrimônio enquanto direito social reconhecido por uma esfera democrática.
Especificamente no caso do Parecer Técnico, percebe-se que este procurou investigar a área do quarteirão à luz da preservação de bens que se destacam dentro do perímetro espaço-temporal, bem como das decisões de tombamento já realizadas antes pelo Condephaat. Vale ressaltar que houve uma preocupação de incluir na análise valores tanto dos aspectos arquitetônicos quanto também urbanísticos, sociais e ambientais. Esse procedimento embasou a avaliação técnica que indicou o interesse de preservação da área e de alguns edifícios. Conforme se lê na conclusão do Parecer:
“Neste presente parecer o esforço foi o de subsidiar o Conselho em sua decisão. Para tal estão aqui reunidos:
198 1. Caracterização da quadra do ponto de vista de sua ocupação
atual.
2. Histórico da constituição da quadra e das edificações que abriga.
3. Avaliação dos valores para a preservação do lugar e dos imóveis que mais se destacam dentro do perímetro histórico80.
4. Memória das decisões de tombamento anteriores pelo Condephaat que tenham pontos de contato com o caso em análise.
5. Avaliação das possibilidades de tombamento da área.
Em síntese o que se pode dizer é que interessa a preservação da integridade do perímetro da quadra. Interessa a preservação integral da Biblioteca, Teatro e Casa de D. Marta, edificações aí inseridas. Interessa o controle rigoroso das transformações nesse espaço e ainda, que há precedentes de tombamentos nesse sentido pelo Condephaat.” (PARECER UPPH, p. 95)
A conclusão do Parecer Técnico marca um momento importante da preservação patrimonial por insistir na inclusão de um conjunto de bens culturais que dizem respeito a certos valores atribuídos pela sociedade, marcados pelo uso, pela apropriação, pela vivência, e que são materializados em edifícios que correspondem a um ideal de educação, por exemplo. Aludem também a outro momento da história da cidade de São Paulo. Além disso, dentre os valores mencionados no parecer, que refletem sobre a prática da preservação a partir de uma noção ampliada do que seja patrimônio cultural, isto é, que permita superar o caráter tradicional consagrado – nacionalista, sagrado, excepcional, exclusivo, elitista – a ideia de atribuição de valor aparece calcada em uma concepção voltada ao reconhecimento de grupos diversos que integram o conjunto da sociedade, inclusive dos historicamente excluídos, como os trabalhadores, imigrantes, também crianças e deficientes, entre outros.
Interessante mencionar alguns aspectos destacados pelo Parecer a fim de sintetizar os motivos pelos quais se deveria tombar o quarteirão à luz de uma concepção mais democrática de preservação patrimonial. Podemos elencar, dentre eles, os seguintes: lugar que carrega a marca de um espaço público destinado ao atendimento e formação da população menos assistida (Parque Infantil Biblioteca); carrega a memória da origem do bairro (Chácara dos Couto Magalhães); memória da obra social de caráter pedagógico, cultural e humanitário que resultou da somatória de esforços de várias
80 Este item merece ser destacado para esclarecer que no pedido de tombamento não foram excluídos
lotes particulares que também integram a quadra do Itaim-bibi. No entanto, o parecer já indica que não há construções significativas para preservação nesses lotes, e sobretudo, porque o avanço de construções de edifícios corporativos já vem ocorrendo nesses lotes particulares, como foi constatado em trabalho de campo realizado em abril de 2013.
199 gerações (Convênio escolar), introdução da arquitetura moderna nas edificações públicas em área distante do centro da cidade (Biblioteca e Teatro); atendimento à educação e à saúde pública (Primeira entidade a assistir crianças e adultos excepcionais – APAE); espaço residual e de resistência diante da produção da cidade nos dias atuais, pois apresenta traços de caráter pouco adensado e não verticalizado, com significativa presença de massa arbórea em oposição à densidade vertical e pouco arborizada do entorno.
Assim como no caso do pedido de tombamento do quarteirão, nas experiências anteriores de tombamento realizadas pelo Condephaat que tiveram ampla participação popular, como mencionado no início do capítulo, a atribuição do valor esteve essencialmente ligada ao reconhecimento das vivências, do uso, das realizações que ocorriam nesses lugares, mais do que somente voltada ao valor arquitetônico das edificações. Como consta no parecer:
“Muito do que constitui hoje o patrimônio cultural paulista oficialmente preservado que está totalmente incorporado ao imaginário da população teve esse tipo de avaliação de origem – valorização do significado cultural prevalecendo sobre a representatividade arquitetônica” (PARECER UPPH, p. 92) Nesse sentido, defender o tombamento restrito apenas à Biblioteca e ao Teatro é não fazer jus à história da luta por tombamentos em São Paulo81. Tal restrição também pode ser vista como um retrocesso à atribuição de valor dos bens culturais, da própria noção de patrimônio, que no curso da história vem conquistando o reconhecimento enquanto direito da sociedade. Aliás, o tombamento de patrimônios culturais coloca em pauta, dado seu caráter normativo, simbólico e político, os riscos de perda de legitimidade que envolvem os dilemas da produção da cidade e da preservação patrimonial. Além do que, motiva-nos a questionar em que medida o poder público, detentor do reconhecimento oficial de determinados bens culturais, interage com a sociedade civil a fim de permitir um amplo debate público acerca da disputa pelo tombamento. De nossa perspectiva, o problema do distanciamento entre demanda e deliberação expõe não apenas a fragilidade da esfera democrática que cerca o debate patrimonial, mas da gênese democrática das instituições formais em geral. Igualmente, o
81Vale ressaltar que, em uma concepção “reificada” do patrimônio, o tombamento apenas da Biblioteca e do Teatro guardaria um “glamour” considerado maior do que os outros pelos usos “culturais” que empregam e pela arquitetura “modernista”. Sua importância, de nossa perspectiva, reside antes na apropriação social e pública de seu uso.
200 papel dos movimentos sociais que recorrem ao tombamento como estratégia de luta precisa ser dimensionado, no sentido de questioná-los se com a conquista do tombamento se encerra a mobilização do grupo. Em que medida a experiência da participação social traz à consciência a perspectiva de que o patrimônio precisa ser disputado politicamente de forma contínua.
A fase de mobilização e ação já não tem a mesma vitalidade que atingiu à época do pedido de tombamento da área, com grande apoio da população e da opinião pública, mas de acordo com a liderança do grupo há muita atenção quanto ao processo no Condephaat. Em seu relato, Sr. Hélcias, um dos líderes do movimento, voltou a afirmar que não basta o tombamento apenas da biblioteca e do teatro, pois entendem que o patrimônio é o conjunto dos edifícios, a cobertura vegetal ali presente e o uso público e coletivo das 2 mil pessoas que frequentam diariamente o quarteirão. Ao ser questionado sobre o desfecho do processo, isto é, sobre o posicionamento do movimento após a divulgação final (positiva ou não) do tombamento, foi taxativo: “A luta continua”. A mesma opinião é a de Jorge Rubies, representante do Preserva SP e também um dos líderes do movimento. “É preciso estar atento, acompanhando os processos de intervenção na cidade, criando espaços de discussão sobre os problemas da cidade”, disse Rubies.
3.4. A preservação patrimonial: da estratégia à reapropriação