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Low Tech FDI/GDP ratio (Secondary) vs Per Capita GDP Growth (Slope: -0.37)

Admitir que o discurso tem uma orientação enunciativa é supor que os dispositivos empregados no seu processo de produção tendem para determinadas estratégias persuasivas. Então, aquilo que é de natureza persuasiva está ligado à instância da enunciação, conforme defendem Greimas e Courtés (1979, p. 333).

A problemática, entretanto, é que se consideramos essas estratégias no âmbito das estruturas de manipulação, seus procedimentos e simulacros estariam na órbita de um fazer- fazer. E, se se pensa em termos de percurso gerativo do sentido, esta é uma discussão que inicia antes mesmo do que seria o nível discursivo. Isso porque, no nível narrativo, já se esboça um fazer persuasivo por um destinador-manipulador que implica um fazer de caráter

34 sancionante por parte de um destinatário-manipulado. Em grande parte, é este esquema que sustenta o que se chama de estrutura da comunicação.

A estrutura da comunicação comporta, como sabemos, um destinador e um destinatário, intercambiáveis, cada um dos quais dotado por isso mesmo de uma competência ao mesmo tempo emissiva e receptiva. Todavia, uma vez que os papéis sintáticos de destinador e destinatário são assumidos por dois sujeitos semânticos distintos, possuindo cada um seu próprio universo semântico e seu código de redação e leitura, a comunicabilidade interindividual não é evidente nem fácil. Por conseguinte, na medida em que a comunicação é suportada por um querer-comunicar bilateral, é normal que um fazer persuasivo se desenvolva do lado do destinador e que um fazer interpretativo, que lhe é paralelo, se instale na outra extremidade da cadeia. (GREIMAS, 2014, p. 27)

Tal entendimento nos permite compreender como o deslocamento da instância teórica da narrativa para a instância do discurso garante a possibilidade de pensarmos essas estruturas para além de uma perspectiva puramente sintática. Seguindo esta lógica, a dimensão do fazer — e, portanto, da persuasão — na verdade, germinaria discursivamente entre as projeções do sujeito da enunciação, enunciador e enunciatário. Talvez, por esta razão, autores como Barros (2005, p. 60) defendem que tanto a persuasão do enunciador quanto a interpretação do enunciatário se realizam no e pelo discurso.

Assim, questões envolvendo temas como veridicção, argumentação e recursos persuasivos, desdobrados em estratégias de manipulação, entrariam na esteira de um jogo relacional cuja natureza é enunciativa. O caráter manipulador do discurso se assenta nessa relação, porque ela coloca em lados distintos instâncias que precisam partilhar sistemas de valores em comum. Isso ficará mais claro no próximo tópico, q uando analisarmos a construção do efeito de verdade e os contratos enunciativos que regem o mecanismo relacional entre enunciador e enunciatário.

De todo modo, tal consideração nos permite chegar a alguns pontos importantes. Um deles é que, sob este aspecto, o enunciador é o grande responsável pelos valores presentes no discurso e, por isso, assume-se como destinador-manipulador, na medida em que se coloca em movimento para levar o enunciatário a crer e a fazer. Outro ponto é que — ao contrário do que se poderia supor com isso — a instância do enunciatário-manipulado não é uma mera posição passiva. Na verdade, ele participa ativamente nesta relação não só exercendo o papel de sancionador, mas também impondo, ainda que de maneira indireta, parte de seus valo res na axiologia que sustenta o discurso. Isso porque a eficácia do fazer persuasivo do enunciador depende de sua capacidade em estabelecer paralelos entre o seu modo de ver e de ser no mundo com o modo do outro.

35 É o que vemos acontecer, por exemplo, em nossas análises. O discurso da crise parece se firmar justamente porque o enunciador de cada capa, no geral, consegue estabelecer pontos de convergência no diálogo que sustenta com o(s) enunciatário(s) a quem se dirige. Só assim é possível entender por qual razão não se pode negar o estatuto negativo da crise, porque o ponto de vista sobre o qual ela é apresentada pende para seu teor disfórico em relação ao país, como um todo. Nesse sentido, a leitura sugerida é que o desemprego, o empobrecimento, a inflação e o governo são ruins para todo mundo, porque afetam todos.

Então, o arcabouço argumentativo dos jornais, portanto, é edificado nesta direção. E, segundo Torres (2016, p. 26), "na perspectiva da Semiótica, a argumentação diz respeito aos mecanismos mobilizados pelo enunciador para fazer o enunciatário crer no discurso enunciado e consequentemente conseguir sua adesão a um determinado fazer". Nesse caso, o fazer incide sobretudo na constituição de uma crença que se pretende comum, a crença na crise.

Isso nos leva a partir do mesmo princípio apresentado por Cabral (2013, p. 10), para quem os veículos de comunicação realizam seu fazer persuasivo conduzindo à adesão de um ponto de vista. Neste ponto, vale ressaltar que a ideia de ponto de vista "designa o conjunto de procedimentos utilizados pelo enunciador para selecionar os objetos de seu discurso e orientar sua interpretação" (BERTRAND, 2003, p.10).

Trata-se, deste modo, de considerações importantes por pelo menos duas razões. No primeiro caso, porque fica perceptível o motivo pelo qual não só os jornais, mas também as unidades noticiosas de maneira geral — dentre as quais as capas podem ser inseridas — não se enquadram apenas no campo da mera transmissão de um saber. Assumir que nelas reside uma força persuasiva é reconhecer que o discurso — jornalístico ou de qualquer outra natureza — de fato, não descreve, mas sanciona e toma partido. Sendo assim, tanto para o enunciatário quanto para o enunciador, a ideia de estrutura de comunicação mencionada anteriormente não se reduz ao fazer circular mensagens, porque ela é essencialmente da ordem do “situar-se em relação aos discursos para construir sua significação” (FONTANILLE, 2012, p. 260).

No segundo caso, presumir a mobilização de um enunciador que seleciona e orienta interpretações, além de ratificar o primeiro caso, nos autoriza a conceber o fato de que a instância enunciativa atua também no tocante ao controle dos modos de acesso à significação por parte do leitor. Isso porque cada seleção, de alguma maneira, pode indicar tentativas de orientar a apreensão do sentido e dos valores em jogo no discurso.

36 Essas são conclusões particularmente pertinentes, uma vez que — de certa forma — elas nos ajudam a entender como as operações enunciativas refletem no funcionamento do discurso e na construção dos textos, conforme veremos adiante. Com isso, temos que

A análise interna do texto apreende esses aspectos e mostra que as escolhas feitas e os efeitos de sentido obtidos não são obra do acaso, mas decorrem da direção imprimida ao texto pela enunciação. Ressalta-se o caráter manipulador do discurso, revela-se sua inserção ideológica e afasta-se qualquer ideia de neutralidade ou de imparcialidade do texto. (BARROS, 2005, p. 78)

O desafio para os próximos tópicos é desbravar como isso acontece. Mas, antes, é necessário passar por uma questão que está intimamente relacionada à discussão sobre o caráter persuasivo do discurso: os modos de veridicção que o alicerçam e os contratos que regem as relações enunciativas.

Benzer Belgeler