Importa dissertar brevemente sobre as alternativas encontradas na doutrina e no direito comparado para a solução do impasse, quais sejam a
culpabilidade empresarial pela dupla imputação do ilícito, o conceito construtivista de
responsabilidade empresarial e, por último, o conceito de culpabilidade por defeito
de organização.
79 RAMALHO, João Victor Arruda. A responsabilidade penal das pessoas jurídicas. DireitoNet. 2015.
Disponível em: <http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/9019/A-responsabilidade-penal-das- pessoas-juridicas>. Acesso em: 18 jun. 2017.
80 PRADO, Luiz Regis. Direito penal do ambiente. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009,
A culpabilidade empresarial pela dupla imputação do ilícito é um sistema que, embora admita a responsabilização penal da pessoa jurídica de direito privado, o faz em conexão com a responsabilização penal da pessoa física, aferindo a partir do comportamento humano o elemento subjetivo da ação. Assim, caso a conduta do indivíduo que praticou diretamente o ato seja dolosa ou culposa, também a da pessoa jurídica será. Importa asseverar que este modelo de imputação vai de encontro ao princípio da pessoalidade da pena e se aproximaria de uma responsabilidade penal por fato alheio.
Apesar disso, tal foi o artifício ao qual a jurisprudência brasileira por muito tempo recorreu para imputar às pessoas jurídicas a responsabilização por crimes ambientais. Porém, por maioria de votos, a primeira turma do Supremo Tribunal Federal reconheceu a possibilidade de se processar penalmente uma pessoa jurídica, mesmo não havendo ação penal em curso contra pessoa física com relação ao crime.81
Já o conceito construtivista de culpabilidade empresarial aponta que para que se caracterize um delito empresarial, o fato deve ser cometido por pessoas jurídicas dotadas de certa complexidade, que tenham capacidade de autodeterminação. Dotada de tal característica, seria legítima sua responsabilização penal direta – o que equivaleria funcionalmente à capacidade de ação da pessoa física.82
Assim, a imputabilidade da pessoa jurídica estaria associada a sua complexidade interna mínima, aferida, entre outros fatores, pelo número de empregados e quantidade de órgãos que compõem a pessoa jurídica, além da estrutura organizacional da empresa. A culpabilidade se caracterizaria quando os órgãosdecontroledoEstadoconstataremqueapessoajurídicamantémuma cultura empresarial de infidelidade ao direito, de não cumprimento do ordenamento jurídico.
Já o conceito de culpabilidade por defeito de organização estabelece que haverá culpa lato sensu quando uma persecução demonstre que o cometimento do ilícito deveu-se à omissão em seu dever de adotar medidas de vigilância, controle e
81 Trata-se de acórdão no RE nº 548181/ PR. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso
Extraordinário nº 548181. Diário de Justiça Eletrônico, Nr. 213 do dia 30/10/2014. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?numero=548181&classe=RE& codigoClasse=0&origem=JUR&recurso=0&tipoJulgamento=M>. Acesso em: 04 jul. 2017.
82 ALMEIDA, Arnaldo Quirino de. Programa de Integridade (Compliance Program) na Lei
Anticorrupção e Culpabilidade empresarial: a responsabilidade objetiva (subjetiva). 2016.
Disponível em: <https://arnaldoquirino.com/2016/01/10/culpabilidade-empresarial-e-programa-de- integridade-na-lei-anticorrupcao/>. Acesso em: 19 jun. 2017.
organização da atividade da pessoa jurídica. Manuel Gómes Tomillo adere à teoria, aduzindo que o juízo de reprovação se formularia sempre que a pessoa jurídica se omitisse em adotar medidas de precaução que lhe sejam exigíveis para garantir um desenvolvimento ordenado e não infrator da atividade da empresa. O autor aduz que seria possível eximir da sanção penal a empresa que tivesse uma organização eficiente.83
Importa deixar claro que a Lei Anticorrupção Empresarial, embora estabeleça uma responsabilização objetiva da pessoa jurídica de direito privado (artigo 1º), prevê, conforme aludido anteriormente (item 2.3), que será levada em consideração na aplicação das sanções em sede administrativa ―a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica‖.
Caso presença de um programa de compliance na pessoa jurídica de direito privado submetida ao processo administrativo de responsabilização previsto pela Lei pudesse livrá-la totalmente das sanções administrativas e judiciais previstas, poderia se falar em uma rompimento total com o conceito de responsabilização objetiva, eis que a culpa empresarial seria analisada através do mencionado conceito de culpabilidade por defeito de organização. Entretanto, já que na Lei é permitido tão somente um abrandamento das sanções administrativas no caso da existência de um programa de compliance na empresa, no máximo o que pode ter havido é uma mitigação da responsabilização objetiva, partindo também do conceito de defeito de organização.
Assim, apesar de o dispositivo da Lei que prevê a análise de um programa de integridade se aproximar da ideia da culpabilidade empresarial proposta pela mencionada doutrina, a responsabilização proposta pela Lei ainda é, por assim dizer, essencialmente subjetiva, dada a impossibilidade de que a pessoa jurídica que tenha um programa de compliance seja eximida da responsabilização. 3.2.1.1 Aferição de culpabilidade no direito brasileiro
Para encerrar a análise sobre a aferição da culpabilidade em casos de
responsabilização penal da pessoa jurídica de direito privado, importa informar o entendimento atualmente adotado no direito brasileiro.84
A partir de decisão do STF, eis que, conforme o exposto anteriormente, recentemente foi superado a dupla imputação das penas.
O Recurso Extraordinário nº 548181 foi o divisor de águas:
EMENTA RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO PENAL. CRIME
AMBIENTAL. RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA.
CONDICIONAMENTO DA AÇÃO PENAL À IDENTIFICAÇÃO E À PERSECUÇÃO CONCOMITANTE DA PESSOA FÍSICA QUE NÃO ENCONTRA AMPARO NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. 1. O art. 225,
§ 3º, da Constituição Federal não condiciona a responsabilização penal da pessoa jurídica por crimes ambientais à simultânea persecução penal da pessoa física em tese responsável no âmbito da empresa. A norma constitucional não impõe a necessária dupla imputação. 2. As organizações corporativas complexas da atualidade se caracterizam pela descentralização e distribuição de atribuições e responsabilidades, sendo inerentes, a esta realidade, as dificuldades para imputar o fato ilícito a uma pessoa concreta. 3. Condicionar a aplicação do art. 225, §3º, da Carta Política a uma concreta imputação também a pessoa física implica indevida restrição da norma constitucional, expressa a intenção do constituinte originário não apenas de ampliar o alcance das sanções penais, mas também de evitar a impunidade pelos crimes ambientais frente às imensas dificuldades de individualização dos responsáveis internamente às corporações, além de reforçar a tutela do bem jurídico ambiental. 4. A identificação dos setores e agentes internos da empresa
determinantes da produção do fato ilícito tem relevância e deve ser buscada no caso concreto como forma de esclarecer se esses indivíduos ou órgãos atuaram ou deliberaram no exercício regular de suas atribuições internas à sociedade, e ainda para verificar se a atuação se deu no interesse ou em benefício da entidade coletiva. Tal esclarecimento, relevante para fins de imputar determinado delito à pessoa jurídica, não se confunde, todavia, com subordinar a responsabilização da pessoa jurídica à responsabilização conjunta e cumulativa das pessoas físicas envolvidas. Em não raras oportunidades, as responsabilidades internas pelo fato estarão diluídas ou parcializadas de tal modo que não permitirão a imputação de responsabilidade penal individual. 5. Recurso Extraordinário parcialmente conhecido e, na parte conhecida, provido. (RE 548181, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 06/08/2013, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-213 DIVULG 29-10-2014 PUBLIC 30-10-2014)85
(grifou- se)
O inteiro teor do acórdão aduz que, de certa forma, a responsabilização penal da pessoa jurídica decorre exatamente da percepção da insuficiência e da dificuldade da responsabilização penal da pessoa física para prevenir a prática de crimes, ambientais, ou de outra natureza, por parte de entidades corporativas que
84 Lembrando que a única possibilidade de responsabilidade penal de pessoas jurídicas de direito
privado no ordenamento jurídico brasileiro é em caso de crimes ambientais.
85 O processo pode ser visualizado através do link [http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcesso
Andamento.asp?numero=548181&classe=RE&codigoClasse=0&origem=JUR&recurso=0&tipoJulgam ento=M].
dominam a atividade econômica.
Assim, o STF entende que em muitas situações a busca de responsabilização penal da pessoa jurídica, sem que o mesmo fato ilícito tenha sido atribuído a pessoa física precisamente identificada, decorreria de uma quase impossibilidade prática de comprovar a responsabilidade humana no interior da corporação, ante a divisão horizontal e vertical de atribuições; ou de uma reconhecida amenização das culpas individuais, em face da complexidade estrutural e orgânica do funcionamento e das deliberações do ente moral, levando a um abrandamento de responsabilidades pessoais a ponto de a colaboração de cada pessoa física tornar-se diluída no processo de imputação.
Por esses motivos, a Constituição Federal de 1988 (art. 225, § 3º) permitiria a apenação da pessoa jurídica sem que, necessariamente, se atribua o mesmo fato delituoso à pessoa física, bastando que fique demonstrado que o ilícito decorreu de deliberações ou atos cometidos por indivíduos ou órgãos vinculados à empresa, no exercício regular de suas atribuições internas à sociedade, enquanto comportamentos aceitos pela pessoa jurídica, concernentes à sua atuação social ordinária; e ainda que tal atuação tenha se realizado no interesse ou em benefício da entidade coletiva.
Quanto à análise da culpabilidade nestes casos, o STF, no inteiro teor do acórdão, assume que o legislador ordinário não estabeleceu por completo os critérios de imputação da pessoa jurídica por crimes ambientais, mas ainda assim não se pode transpor aos entes coletivos o paradigma de imputação de responsabilidade penal das pessoas físicas. O mais adequado, assim, com vista à efetividade da norma constitucional, será que doutrina e jurisprudência desenvolvam esses critérios.
Portanto, o STF, à luz do princípio do artigo 225, §3º da Constituição Federal - o qual estabelece que as condutas e atividades consideradas lesivas ao
meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados - autoriza a responsabilização penal da pessoa jurídica por crimes
ambientais mesmo que não persista na lide a pessoa física, eis que, caso contrário, a norma constitucional seria esvaziada.
Analisando, a partir desta égide, uma possível responsabilização penal da pessoa jurídica de direito privado por atos de corrupção na Lei Anticorrupção
Empresarial, percebe-se que, ao contrário do que ocorre quando se trata de crimes ambientais, parece não existir, na Constituição Federal, autorização expressa
para a responsabilização penal da pessoa jurídica de direito privado nos crimes de corrupção - adiantando conclusão a que se chegará no último tópico deste
trabalho.
Além disso, a responsabilização penal da pessoa jurídica de direito privado por crimes ambientais depende, conforme já elucidado, de demonstração de que o ilícito decorreu de deliberações ou atos cometidos por indivíduos ou órgãos vinculados à empresa, no exercício regular de suas atribuições internas à sociedade, enquanto comportamentos aceitos pela pessoa jurídica, ao contrário do que
estabelece a Lei Anticorrupção Empresarial, que aduz tão somente que para os atos serem reputados lesivos e ensejarem a responsabilização da pessoa jurídica, a única análise a ser feita deve ser sobre o interesse ou benefício destas pela prática
do ato típico.86
Concluída a análise em linhas gerais da corrupção no direito brasileiro, que incluiu os aspectos mais relevantes da Lei Anticorrupção Empresarial e feitas as considerações pertinentes acerca da responsabilização da pessoa jurídica de direito
privado, chega-se ao objeto principal do presente estudo.
Pretende-se, ao cabo deste, adotar posição acerca da (im)possibilidade de responsabilização objetiva da pessoa jurídica nos moldes da Lei Anticorrupção e da (des)necessidade de observância das garantias constitucionais trazidas do Direito Penal no processo administrativo previsto pelo referido diploma normativo.