Mekânda Müzik ve İnsan
21 Emre ARACI, “Londra Crystal Palace’ta Abdülaziz Şerefine Verilen Konser”, Toplumsal Tarih, 29.
Dizem que onde há uma vontade, há um caminho. Bem, vontade eu tenho. Difícil mesmo é encontrar o caminho.
24 Essa reprodução de certas condutas sociais será evidenciada sobremaneira quando, nos capítulos seguintes,
procedermos à análise das obras de autoajuda femininas escolhidas como corpus deste trabalho. Estas apregoam a imitação de determinadas falas e comportamentos, segundo elas, típicos de uma mulher autoconfiante e racional, a fim de que conquiste o sucesso no jogo amoroso.
(Depoimento de paciente vítima de câncer terminal sobre ensinamentos de obras de autoajuda apud PEARSALL, 2006).
A ideia de que o desempenho do indivíduo, nos mais diversos campos de sua vida, depende sobretudo da maneira como ele comanda seus pensamentos, falas e ações – e não principalmente da realidade que o cerca ou de fatores que não lhe competem – é extremamente comum nos livros de autoajuda e pode ser entendida como uma tônica dessas obras: “O indivíduo não deve se preocupar em mudar a realidade, mas sim a experiência que tem dela... porque a experiência pode ser manipulada interiormente e, portanto, autocontrolada.” (ABRAHAM, 1983, p. 749 apud RÜDIGER, 2010, p. 285).
A citação mencionada no início desta seção – parte de um depoimento de um paciente com câncer terminal sobre as obras de autoajuda que lhe foram presenteadas – exprime bem como tal tônica não somente se mostra insuficiente, mas até mesmo injusta, diante das diferentes vivências dos leitores de autoajuda. Mesmo nos casos em que os autores mencionam os efeitos das dinâmicas sociais sobre os indivíduos, o remédio para tais efeitos é o mesmo: a realidade continuará em seu devido lugar, mas o indivíduo pode “driblá-la” por meio dos valiosos ensinamentos que as obras oferecem. O indivíduo que seguir fiel e eficientemente tais ensinamentos prosperará; do contrário, caso o sucesso no âmbito em foco não venha, ou é porque o sujeito ignorou os caminhos apontados na leitura, ou porque não os executou da melhor maneira. Em ambos os casos, é claro, o problema recairá mais uma vez sobre ele. O neuropsicólogo Pearsall (2006) faz um amplo levantamento dos variados danos dessa tendência “antissocial” da literatura de autoajuda e destaca a naturalidade com que nós, leitores, aceitamos tal perspectiva do “a culpa é sua”:
Os especialistas da autoajuda tendem a atribuir a maior parte das dificuldades da vida de uma pessoa a seu “interior”, e não para “dentre” todos aqueles envolvidos. A abordagem focada na pessoa nos atrai porque todos estamos familiarizados com sentimentos, medos e esperanças a que eles se referem de forma tão fluente e convincente. (PEARSALL, 2006, p. 15).
Muitos psicólogos, cientistas sociais e leitores mais experientes são céticos quanto ao poder de transformação da autoajuda, portanto, especialmente por este motivo: ao tratar de temas subjetivos, como amor, sexo, casamento, família, carreira, felicidade ou fé, os livros tendem a objetivar o que não é possível, a desconsiderar as especificidades de cada sujeito e do contexto em que eles se encontram. Dessa forma, se o indivíduo não consegue solucionar ou
amenizar seus dilemas a partir das instruções práticas fornecidas – na maioria das vezes, excessivamente simplistas e generalizantes25 –, ele pode se culpar por seu fracasso, já que a autoajuda tende a ignorar a influência de diversos outros fatores externos nas angústias e derrotas do sujeito.
A competição no mercado, a especialização profissional, a procura de sucesso e, por fim, a autorrealização são situações complexas e difíceis de se enfrentar sozinho, dispondo unicamente da vontade de vencer e dos recursos espontâneos da subjetividade, como é o caso para extensas camadas da população. [...] O programa que requer a prática da autoajuda não é fácil: diferenciar-se dos demais, contar apenas consigo, examinar de cima a baixo seu modo de ser, fazer-se único, construir e conservar uma identidade e, enfim, conseguir sucesso em suas ações são tarefas árduas, para as quais nem todos os homens estão moralmente preparados, conforme percebeu Nietzsche. (RÜDIGER, 2010, p. 278).
O projeto de sucesso proposto pela autoajuda, nesse sentido, em vez de ser aliviante para o sujeito, parece-lhe oprimir mais ainda com um jugo de responsabilização extrema e com a exigência do “seja sempre melhor”:
O abatimento pode ser causado pela ideia de que, não importa o que estejamos sentindo, devemos a nós mesmos nos sentir melhor. A impiedosa ênfase na automelhoria, em sentir-se melhor do que “apenas” bem, em “ser o máximo”, exerce um efeito contrário sobre a maioria das pessoas. Ela nos torna insatisfeitos com nós mesmos e com nossas vidas. (PEARSALL, 2006, p. 50).
Segundo Pearsall, dessa forma, “O mercado da autoajuda prospera, não seus consumidores. [...] O mercado floresce sobre a instabilidade. Afinal, sem a insegurança, sem a dúvida ou a infelicidade, onde estaria a indústria da autoajuda?”, e completa, sarcasticamente: “Como o livro cômico God Is My Broker afirma, ‘A única forma de enriquecer com um livro de autoajuda é escrevendo um.’”. (op.cit., p. 5). A esse respeito, por fim, Pearsall conclui: “A menos que adotemos uma abordagem sistemática, abrangente e cuidadosamente elaborada a um projeto de desenvolvimento, as ideias da autoajuda sobre a vida podem tornar-se limitativas e separadoras.” (op. cit., p. 22), pois nos deslocariam do todo e nos voltariam excessivamente para nós mesmos, para nossas incapacidades e impotências.
25 A respeito dessas prescrições generalizantes e, por isso, difíceis de serem colocadas em prática, Pearsall (2006,
p. 11) aponta sua proliferação nos dizeres populares: “Podemos encontrar evidências de que nos tornamos uma sociedade concordante da autoajuda em nossa linguagem do dia a dia. Quantas vezes você já não terá ouvido amigos usarem expressões como ‘afirme-se’, ‘entre em contato’, ‘transcenda’, ‘seja positivo’? Com que frequência você mesmo não as utiliza? Elas brotam continuadamente, mas o que realmente querem dizer? Frases nebulosas como ‘entrar em contato com seus sentimentos mais profundos’ são panaceias para um anfitrião de doentes, não um manual de vida. E ‘seja você mesmo’, outro mantra do universo da autoajuda, é uma instrução tão vaga que é quase impossível segui-la. O significado dessas palavras e frases raramente é examinado; ele tem sido esticado e retorcido para tornar-se uma descrição abreviada e sem sentido das ideias da autoajuda.”. Adiante, em nosso capítulo de análise argumentativa, estratégias como esta serão retomadas e examinadas.
O foco nas “capacidades transformadoras irrestritas” do indivíduo é parte da genealogia da autoajuda, o que pode ser comprovado se nos debruçarmos, rapidamente, sobre alguns dados históricos desse gênero discursivo. O primeiro livro considerado como pertencente a esse gênero é o homônimo Self-Help, de 1859, do escocês Samuel Smiles, médico, escritor e reformador social, típico divulgador dos valores morais vitorianos. De acordo com Rüdiger (2010), para Smiles, self-help significava, basicamente, força de vontade aplicada ao cultivo dos bons hábitos. O conceito-chave não era a realização do indivíduo ou o seu prazer, como nos dias de hoje, mas a construção diária do caráter, bem ao gosto dos preceitos moralistas da sociedade britânica da época. Assim, a vida bem-sucedida que a doutrina da autoajuda apregoava não se baseava na satisfação individual dos desejos, mas “confundia-se com a prática do trabalho e o cumprimento dos deveres estabelecidos pela sociedade.” (op. cit., p. 36-37). Pearsall (2006), de forma mais crítica, pontua que o livro de Smiles já defendia, no século XIX, não apenas a esperança sem limites nas capacidades do sujeito nessa empreitada, como também uma atitude do tipo “tudo posso”, expressa por meio de um esforço diligente para melhorar-se a si mesmo. Segundo as próprias palavras de Smiles:
Querer é poder é um ditado antigo e verdadeiro. Aquele que resolve fazer algo, por conta desta resolução, supera com frequência as barreiras impostas e assegura sua realização. Pensar que somos capazes é quase sê-lo, realmente. Determinar-se a conquistar alguma coisa é muitas vezes a conquista em si. (SMILES, [1859] 2002, p. 5 apud PEARSALL, 2006, p. 6).
Após a popularização da obra de Smiles, com o passar dos anos, a expressão “self-help” foi se tornando corrente, chegando a designar, na virada do século, uma verdadeira tendência de comportamento, paralela ao novo gênero de literatura de massa que ia se delineando. De acordo com Rüdiger (2010, p. 38), “o ‘homem que ajuda a si mesmo’, profetizado algumas décadas antes, começou a se tornar realidade.”. Todavia, foi mesmo logo após essa época, na virada do século, que o sentido da expressão foi se modificando bruscamente, passando a se referir cada vez mais ao cultivo de certos poderes mentais. Sua razão deixou de ser a formação do caráter, tornando-se a transformação espiritual e psicológica do indivíduo em pessoa de sucesso, pelo fenômeno de ascensão do individualismo de que já tratamos na seção anterior:
Entre meados do século passado e as primeiras décadas do nosso, verificou-se um processo que transformou o conceito originalmente moral de autoajuda em princípio do moderno culto do sucesso e do cuidado terapêutico da personalidade. [...]
Paralelamente, o projeto popular de reeducar os sentidos e cultivar a vontade transformou-se na prática cada vez mais difundida de, teoricamente, desenvolver o potencial e resolver os problemas do indivíduo. (RÜDIGER, 2010, p. 38-39). Proliferaram-se, então, nas décadas seguintes, as publicações da chamada Psicologia Popular, que deram voz aos preceitos do self-help, de diferentes maneiras e em diferentes graus de aproximação com a ciência. Alguns dos autores que ganharam notoriedade nessa seara, como o pastor Norman Vincent Peale (1898-1993), sequer possuíam formação acadêmica na Psicologia (como é o caso também de muitos autores de autoajuda dos dias de hoje), mas alcançaram multidões. Outros, como Carl Rogers, Rollo May, Abrahan Maslow, Fritz Perls e William James, eram acadêmicos da Psicologia, mas também têm alguns de seus pensamentos e obras associados ao florescimento do gênero autoajuda, apesar de esse enquadramento ser naturalmente controverso26.
Em 1952, Norman Vincent Peale publicou O poder do pensamento positivo, um clássico da autoajuda que ele fundamentou sobre a autoestima e a fé cristã. O livro de Peale prometia que “o entusiasmo faz a diferença” e o “princípio positivo” mostraria ao leitor como viver a boa vida. Ele divulgou ideias que haviam começado com Smiles: nunca desista da esperança, cultive sempre uma elevada autoestima, tenha sempre atitudes e pensamentos positivos, doenças são causadas por pensamentos negativos e más atitudes, pode-se vencer por meio do controle mental e se alcança a vida boa se realmente a desejamos com todas as nossas forças. O livro sobre pensamento positivo de Peale já vendeu mais de 7 milhões de exemplares, foi traduzido para diversos idiomas e é publicado ainda hoje, segundo Pearsall (op.cit., p. 7), o que mostra que a ideia de “o poder está em suas mãos” ainda possui grande aceitação no mercado editorial.
Para Pearsall (2006), junto a outros pioneiros desse gênero, como Carl Rogers, Rollo May e Abrahan Maslow, estava o terapeuta Fritz Perls, um dos líderes do movimento da Psicologia da Gestalt (que antecede, para o neuropsicólogo, o atual “autoajudismo” e corrobora a ideia do poder unicamente pessoal). Perls presumiu, segundo Pearsall, não apenas que somos menos do que poderíamos ser, como também que as fraquezas e as forças de um indivíduo residem exclusivamente dentro dele e não dentre ele e outras pessoas. Assim, o derradeiro fracasso não estaria relacionado com a maneira como interagimos com os outros, mas em
26 Por questões de extensão e de foco do trabalho, não poderemos nos ater a uma abordagem detalhada desses
nosso fracasso em trabalhar com o máximo de empenho para ser tudo aquilo que podemos ser. A preocupação com os outros deveria ser desconsiderada, fazendo sentar, no topo da pirâmide do bem-estar, a autorrealização. Para o neuropsicólogo Pearsall, tal postura é gravíssima, pois, para ele, a Psicologia deveria trabalhar com a ideia de que “o verdadeiro poder não é pessoal, mas interpessoal”. (op. cit., p. 203).
Ainda a respeito da grande aceitação dos “gurus” da Psicologia Popular, Pearsall credita uma de suas causas ao distanciamento entre a Psicologia acadêmica e o indivíduo mediano:
Enquanto Smiles, Peale e os gurus da autoajuda estavam escrevendo “para o povo”, a Psicologia acadêmica continuou entrincheirada em sua torre de marfim. Os mistérios da mente continuaram insondáveis para a maioria, e a sabedoria só era concedida a uns poucos escolhidos, após anos de estudo. A assistência à saúde mental e à saúde física estava disponível para aqueles que podiam pagar por ela e, além disso, os profissionais da Psicologia tornaram-se ainda mais refinados em seus interesses. Em vez de oferecer soluções para os problemas do dia a dia, muitos psicólogos do meio acadêmico preferiram investigar doenças exóticas, os sombrios segredos freudianos e comportamentos grotescos. Em termos de disponibilidade e praticidade, a Psicologia estava se tornando inacessível ao adulto médio. Sem dúvida, o dr. Smiles e seus sucessores aproveitaram a oportunidade para preencher essa lacuna. [...] Hoje, a psicoterapia destina-se quase que exclusivamente aos que estão “realmente doentes”, e a autoajuda serve às massas de “alegres sofredores” [...]. (PEARSALL, 2006, p. 9).
Segundo o autor, por consequência, a autoajuda, que deveria ter como base a aplicação na vida diária de princípios psicológicos fundamentados na ciência, acabou por se transformar em sua própria indústria nos dias atuais, desprendendo-se de seu ancoradouro acadêmico e baseando-se em um “achismo” que a muitos incomoda, o que acaba por colaborar fortemente para seu descrédito como gênero discursivo de prestígio.