Estudos realizados há mais de meio século atrás, nos espaços verdes denominados Kensington Gardens e Hyde Park, em Londres, mostraram uma influência destes espaços na redução da temperatura de até 3 K que se estendia até 200 m além de suas bordas (GUNAWARDENA, WELLS e KERSHAW, 2017). Mais recentemente, um estudo longitudinal ao longo do Kensington Gardens, realizado pelos mesmos autores, apontou uma influência de resfriamento
noturno entre 20-440m, com 83% de influência evidente até 63m a partir das bordas, redução média de temperatura de 1,1 K e redução máxima de 4 K. Já em Frankfurt, estudos realizados no cinturão verde da cidade evidenciaram que este proporcionava uma redução na temperatura de 3 a 3,5 K, em comparação com o núcleo urbano da cidade (GUNAWARDENA, WELLS e KERSHAW, 2017).
Assim, o espraiamento urbano, com expansão direcionada para áreas periféricas, pode reduzir os efeitos de amenização da temperatura proporcionado pela vegetação dos cinturões verdes (GUNAWARDENA, WELLS e KERSHAW, 2017). Mais do que isso, as formas compactas de desenvolvimento urbano, que por um lado concentram a absorção do calor em sua estrutura construída gerando ICU, por outro lado favorecem a formação de brisas resfriadoras por meio do gradiente de temperatura entre o núcleo urbanizado e a franja urbana ambientalmente preservada (Ibidem).
No entanto, a conectividade e a disposição destes espaços verdes são fatores determinantes de sua eficiência no que tange ao conforto térmico. Se forem muito pequenos, menores que 0,05 km² segundo Gunawardena, Wells e Kershaw (2017), praticamente não oferecerão nenhuma contribuição. Segundo os autores, a formação de redes de espaços verdes menores (entre 0,2- 0,3 km²), arranjados com certa conectividade – distanciados até 300 m entre si -, podem proporcionar uma efetiva distribuição na amenização do clima.
No contexto urbano asiático, um estudo sobre as contribuições da vegetação e agricultura no ambiente urbano, evidenciou que as temperaturas nos arredores da vegetação foram reduzidas entre 0,5o C e 4o C. Nesta temática, a provisão de espaços verdes com incrementos na cobertura
vegetal, e consequente aumento da evapotranspiração, demonstrou ser o modo mais econômico e efetivo para a mitigação dos efeitos de ICU, e aprimoramento das condições térmicas urbanas (QIU et al, 2017).
No estudo de Qiu et al. (2017), realizado em uma megacidade de clima subtropical na China, os autores buscaram mensurar as influências dos diversos tipos de uso e ocupação do solo nos efeitos de ICU. Foram selecionadas 40 seções para a realização das medições que, juntas, formavam uma faixa circunférica com 8 km de extensão (e 1 km de raio), que abrangia florestas suburbanas, distritos comerciais, povoados, espaços verdes e corpos d’água.
As intensidades de ICU observadas pelo estudo representaram variações térmicas noturnas (20:00h) de +2,54o C em áreas comerciais; +2,13o C nos povoados urbanos; +1,36o C nos corpos
como tipo de uso e ocupação do solo com maior potencial de amenização de temperaturas (QIU et al, 2017).
Complementarmente, foi identificado que há uma relação inversamente proporcional entre a evapotranspiração e as temperaturas nas ICU, ou seja, quanto mais intensas as taxas de evapotranspiração por parte da vegetação urbana, menores as temperaturas observadas nos microclimas, especialmente à noite (QIU et al, 2017).
Deste modo, a vegetação e os corpos d’água, no contexto urbano, contribuem manifestamente para a redução das temperaturas do ar por meio da evapotranspiração (QIU et al, 2017). Especialmente no caso das áreas verdes, que apresentaram os maiores benefícios, o incremento de seus maciços vegetados pode mitigar os efeitos de ICU, especialmente nas regiões em que a vegetação apresenta elevada evapotranspiração (Ibidem).
No Brasil, no estudo realizado por Masiero e Souza (2013) na cidade de São José do Rio Preto -SP, foram adotados nove pontos de monitoramento das temperaturas e umidades no espaço urbano. As observações realizadas pelos autores foram procedidas nos períodos mais quentes e secos do ano, de tal modo que a influência do corpo d’água na umidade do ar fosse destacada. Os resultados das análises apontaram para uma variação térmica de -2o C (com margem de erro
de até ± 0,5o C) entre a margem de uma represa e uma zona residencial (MASIERO e SOUZA,
2013, p. 32). Segundo os autores, isto está relacionado às distintas características destes dois pontos observados, em que o primeiro possui uma “[...] abundante presença de água [...]” e o segundo possui “[...] escassez de elementos que contribuam para a umidificação do ar [...] principalmente pelo baixo índice de áreas verdes [...]” (Ibidem).
Complementarmente, as elevadas incidências de impermeabilização do solo, observadas na zona residencial, prejudicam a retenção da umidade neste local (MASIERO e SOUZA, 2013, p.32). Isso foi evidenciado por meio de variações intensas nos valores de umidade do ar, de modo que os autores reiteram uma “[...] forte influência da composição dos elementos urbanos na qualidade do ambiente térmico” (Ibidem).
Deste modo, os arredores da represa municipal da referida cidade apresentaram as temperaturas mais amenas da cidade, até mesmo nas configurações urbanas mais densas e com elevada impermeabilização do solo (MASIERO e SOUZA, 2013). Isto reafirma o potencial das interações entre os conjuntos de fatores de influência do comportamento térmico do espaço urbanizado (Ibidem).
Em síntese, a articulação entre os espaços livres, áreas verdes e os ambientes construídos “[...] é uma das estratégias recomendadas para garantir ambientes mais saudáveis e agradáveis” (MASIERO e SOUZA, 2013, p. 37). Especificamente nas análises da relação entre os ventos e os corpos d’água, por meio dos recursos naturais disponíveis, em que a inter-relação destes possui elevadas potencialidades para a gestão dos microclimas (MASIERO e SOUZA, 2013). No que diz respeito ao contexto urbano da cidade de Araraquara-SP, Roriz e Barbugli (2003, p.593) realizaram medições de temperatura e umidade do ar em dez pontos da cidade, “[...] representativos das diversas situações típicas de densidade de ocupação, altitude, arborização, revestimento do solo, etc.” A partir destas observações, os autores determinaram parâmetros representativos dos efeitos que a edificação, o calçamento (pátio cimentado) e a arborização provocam sobre as temperaturas máximas.
Como resultado, obteve-se que, a cada 3,23% de acréscimo na ocupação do solo por meio de edificações, ou a cada 14,29% por meio de calçamentos, a temperatura máxima observada sofrerá elevação de 1o C (RORIZ e BARBUGLI, 2003). Concomitantemente, o acréscimo
5,56% de na ocupação do solo por meio de arborização de porte médio, resultará na redução de 1o C na temperatura máxima (Ibidem).
Deste modo, as infraestruturas verdes contribuem para a mitigação dos efeitos de ICU, para a melhoria da qualidade do ar, da saúde mental e redução do estresse (MASCARÓ e BONATTO, 2013). Também, possibilitam maior adaptação às mudanças climáticas no espaço urbano, possibilitando uma redução na temperatura de até 10o C sob a sombra de árvores densas;
interceptando e infiltrando as águas pluviais, favorecendo a umidade do solo e a recarga do lençol freático; abrigando a fauna; proporcionando espaços destinados ao pedestrianismo e ciclismo, reduzindo necessidades de viagens motorizadas; e amortecendo a poluição sonora (Ibidem).
E sob o panorama econômico, a provisão de infraestruturas verdes pode valorizar os imóveis e melhorar a imagem do local, podendo atrair atividades econômicas e incentivar comércio e turismo locais (MASCARÓ e BONATTO, 2013). Ademais, problemas relacionados à saúde pública podem ser mitigados, visto que o aumento nas temperaturas urbanas pode elevar taxas de mortalidade e morbidade relacionadas à doenças cardiovasculares, respiratórias, circulatórias, doenças renais e do sistema nervoso – refletindo diretamente na qualidade de vida e no bem-estar da população (QIU et al, 2017).