• Sonuç bulunamadı

A lingüista Authier-Revuz (1990), postulando sobre a materialidade do discurso, afirma que as marcas deixadas no discurso relatado fazem parte da complexidade enunciativa e, em função disso, inscrevem o Outro no discurso mesmo sem deixarem claras, por vezes, essa presença. Essa relação, chamada de dialogismo pelo Círculo de Bakhtin, não é vista como um diálogo entre interlocutores materiais, face-a-face, mas sim, um diálogo interno ao discurso que se constitui com a fala do sujeito com seus Outros. Essa fala não é neutra em nenhum momento, uma vez que o signo lingüístico é ideológico. Para Bakhtin (1997) os significados estão nos dicionários, mas os sentidos das palavras serão dados no uso, que reflete o espaço do sujeito enunciador que é um espaço construído historicamente. Isso faz com que a fala seja carregada, ocupada e

atravessada pelo Outro e é nesta inserção que aparece o inconsciente e a ideologia. Authier-Revuz (1990, p. 29) afirma:

nesta afirmação de que, constitutivamente, no sujeito e no seu discurso está o Outro, reencontram-se as concepções do discurso, da ideologia, e do inconsciente, que as teorias da enunciação não podem, sem riscos para a Lingüística, esquecer.

Isso não permite que essa relação, esse atravessamento, faça com que o discurso seja visto como um nó de sentidos. Ao contrário, essa tessitura é altamente necessária para a produção de sentidos que é o discurso, orientada pela intenção do sujeito que conduz de forma consciente ou não: esses discursos constituem o discurso do sujeito. A partir disso, chega-se a um sujeito descentrado por causa da presença do Outro e essa alteridade não é considerada como algo exterior ao discurso ou ao sujeito, mas condição para que estes existam e se constituam porque um dizer é um dizer sobre outro dizer.

Um discurso aludido a outro discurso a partir de uma busca de sentidos do Outro identificado com os referenciais do eu, sendo que a apropriação dos sentidos do Outro, ao ser inter-relacionada com os referenciais do eu podem sofrer deslocamentos que inauguram outras atribuições ao sentido do Outro. A partir dos deslocamentos realizados pelo eu, este o toma como referencial de sua própria percepção discursiva e da prática social em que o discurso deslocado do Outro passa a ser inserido no processo enunciativo constituído pelo eu.

Esse elemento se localiza no processo de dispersão de sentidos no intradiscurso, no interdiscurso e no próprio discurso. Enquanto o intradiscurso se dá pelas relações dos constituintes do mesmo discurso, o interdiscurso pode ser visto como a porta de entrada das heterogeneidades, se responsabilizando pela entrega do sujeito ao discurso eleito, como traz Pêcheux (1995):

O interdiscurso determina a formação discursiva com a qual o sujeito, em seu discurso, se identifica, sendo que o sujeito sofre cegamente essa determinação, isto é, ele realiza seus efeitos ‘em plena liberdade’ (PÊCHEUX:

1995, p. 215).

Segundo Authier-Revuz, o princípio da heterogeneidade discursiva parte da idéia de que a própria linguagem é heterogênea na sua constituição; e, como a materialidade do discurso é de natureza lingüística, é lógico considerá-lo também heterogêneo. Porém, falar em linguagem heterogênea se reduz, praticamente, ao reconhecimento das outras vozes que marcam as palavras, conforme a polifonia de Bakhtin. Na AD, no entanto, a heterogeneidade se relaciona com o interdiscurso, o exterior constitutivo que dá condições para a construção de qualquer discurso, num processo de reelaboração ininterrupta que comporta toda a historicidade inscrita tanto na linguagem quanto nos processos discursivos.

Para verificar o funcionamento da noção na prática analítica, Authier-Revuz distingue duas formas de heterogeneidade: a constitutiva e a mostrada (marcada ou não). A primeira, a heterogeneidade constitutiva, é a condição de existência do sujeito e nos remete a um nível de esquecimento deste sujeito que faz com que: (1) ele

se esqueça da origem de seu dizer, colocando-se na origem discursiva de forma inconsciente. Pêcheux nos confirma a necessidade desse esquecimento para a constituição do sujeito, uma vez que sem esse mecanismo não haveria um sujeito discursivo, mas um silenciado pela lembrança de que tudo já foi dito anteriormente por outrem; (2) ele tenha a ilusão de que tudo que foi enunciado por ele foi compreendido exatamente da forma como foi dita, esquecendo-se de que um dizer é sempre um dizer sobre outro(s).

Essa forma não se apresenta na organização linear do discurso, visto que a alteridade não é revelada, permanece no interdiscurso e, por isso mesmo, não é passível de ser analisada. Ela refere-se a um nível do inconsciente em que todo sujeito “esquece” daquilo que determina os sentidos de seu dizer, e em razão desse “esquecimento” (apagamento), coloca-se na origem do dizer, conforme postula Pêcheux, quando formula o “esquecimento número um”. Segundo o autor, essa é uma condição necessária para a constituição do sujeito, sem a qual só haveria silêncio, pois o sujeito seria calado pela consciência (lembrança) de que “tudo” já foi dito antes, em algum lugar.

A segunda, a heterogeneidade mostrada é, segundo Authier-Revuz (1990), uma forma de negociação do sujeito com seus Outros, garantindo uma unidade em seu dizer, desta feita foi o Outro que disse o que eu digo agora. A heterogeneidade mostrada pode ser ainda marcada e não-marcada. Quando for marcada, é da ordem da enunciação, visível na materialidade lingüística, como, por exemplo, o discurso direto

e indireto, as palavras entre aspas, etc. Se for não-marcada, então, é da ordem do discurso como o discurso indireto livre e a ironia.

A heterogeneidade não-marcada traz marcas da presença do outro na cadeia discursiva, ou seja, a alteridade se manifesta ao longo do discurso e pode ser recuperada de maneira explícita através da análise. A autora considera esta forma como sendo uma maneira de negociação do sujeito com a heterogeneidade do primeiro tipo, a constitutiva, na forma da denegação. Então, entregando-se a uma evidência da voz que é falada pelo sujeito, ele delimita o campo de ação dessa voz e garante a originalidade do restante. Essa é a forma de negociação do sujeito com o inconsciente que irrompe como Outro, e que é denegado quando convertido em ‘outro-interlocutor’. O que significa que ao circunscrever a alteridade, o sujeito garante uma unidade aparente.

Assim, compondo sentidos, um discurso aludindo a outro discurso, é que vão se identificando os referenciais do sujeito. Apropriando-se do discurso do Outro e, a partir dele, deslocando sentidos, o sujeito vai se constituindo enquanto autor de seu dizer: saindo da reprodução para a produção de um dizer (não absolutamente seu) mas já deslocado o suficiente para deixar suas marcas singulares.

Toda interlocução se caracteriza pela substituição do “Outro” (alteridade constitutiva e de nível inconsciente), pelo “outro” (interlocutor). A linguagem é o elemento permeador das lutas sociais, o sujeito se mostra porque é ouvido por um auditório social que o atravessa.

Se, por um lado, a relação do sujeito com a heterogeneidade constitutiva é sempre uma relação de denegação, por outro lado, sua relação com a heterogeneidade mostrada é sempre fruto de um breve instante de consciência ‘fantasmagórica’ em relação à heterogeneidade constitutiva, como sustenta Authier-Revuz (1990). Contudo, entendemos que a heterogeneidade no nível discursivo é permanente, sem ser denegada pelo sujeito. Pelo contrário, o sujeito conta com ela para fazer sentido. Ou seja, o sentido se faz nela.

Henry (1997) propõe o termo “pré-construído” para dar conta dessa presença do outro, que não é o outro enunciativo (pontual demais), nem o outro interdiscursivo (amplo demais). O pré-construído é o outro do interdiscurso, circunscrito em uma região histórica e ideológica, delimitada no acontecimento do discurso.

Acredito que o aluno de Letras forma uma cadeia de já-ditos e vai se (re) construindo discursivamente sobre as teorias já vistas, materializando um novo dizer resultante de um efeito da função-autor que lhe é constitutiva. É nessa constituição heterogênea que se torna possível a autoria, uma vez que há uma série de interdiscursos sobrepostos que, presentes no sujeito, podem preencher lacunas de sentidos.

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Capítulo Segundo