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2. LIVESTREAM’DE TV KURMA VE YÖNETİMİ

Na concepção holística de Santo Agostinho a relação do todo com as partes não se dá apenas matematicamente, como na fórmula: o todo é igual à soma de todas as partes, mas em uma relação de interdependência, ou seja, embora seja fato que o todo é a adição de todas as partes, cada parte ou cada criatura possui uma relação de interdependência entre elas para formar um todo que delas também depende125. A discussão filosófica da relação entre o todo e as partes não começou com Agostinho, mas já se encontrava em debate desde a Filosofia Grega-Clássica. Aristóteles fazia uma distinção interessante entre o todo (ó ο ) e a soma, pois, na soma a disposição das partes é indiferente, mas no todo as partes são dispostas em seu lugar próprio, como disserta Ferrater Mora: “θor fim, seguindo Platão, Aristóteles faz a distinção entre o todo, ó ο e a totalidade, ou melhor dizendo, a soma, πά . O todo é o conjunto no qual a posição das partes não é indiferente, a soma é o conjunto no qual é indiferente a situação das partes” (2001, tomo IV, p. 2875). Santo Agostinho assume justamente essa faceta do todo para referir-se ao universo. Quer dizer, o todo na compreensão de nosso Pensador é mais que a adição das partes, porque Deus, o Autor da Criação, formou sua obra como uma totalidade interdependente. Logo, existe uma vocação em cada criatura para ser interdependente de outra para formar o todo, na medida em que assim por Deus foi criada, não se constituindo exagero afirmar que embora o todo seja formado pela relação interdependente e orgânica das partes, o todo é uma unidade orgânica, pois, foi criado para assim ser. Como expressa o Hiponense em seu tratado Sobre a Natureza do Bem, utilizando a metáfora do corpo humano:

125 Essa discussão do todo e das partes chegou na contemporaneidade através da concepção holística da Natureza

da Ecologia Filosófica, como diz Clotilde Tavaresμ “ζa concepção holística, não só nas partes de cada sistema se encontram o todo mas os princípios e leis que regem o todo se encontram em cada uma das partes e todos os fenômenos ou eventos se interligam e se interpenetram, de forma global: tudo é interdependente. O todo é concebido como um realidade não somativa, ou seja, suas propriedades não derivam das que caracterizam seus componentesέ Ao contrárioμ são elas que determinam as propriedades das partes que o integram” (1996. p. 60).

Que também foi Deus quem fez os bens inferiores, ou seja, os terrenos e perecedouros, ensina-o claramente o apóstolo na passagem em que, falando dos membros do nosso corpo, dizμ „De maneira que, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele, ou, se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele‟ν além de dizer no mesmo lugarμ „Deus, porém, pôs os membros no corpo, cada um deles como quis‟ [έέέ]έ E tudo isso que assim louva o apóstolo no modo, na espécie e na ordem dos membros da nossa carne encontra-se também no corpo de todos os animais, tanto no dos maiores como no dos menores [...] (De nat. boni., 30).

No fragmento supra, Agostinho faz uso do texto bíblico de I Cor., 12.26, 18, 24, 25, aonde o apóstolo Paulo utiliza a analogia dos membros do corpo humano para falar da relação e dependência entre os diversos membros da Igreja e o Cristo. O Hiponense apropria- se da analogia do Apóstolo para aplicar ao corpo humano e ao corpo dos demais animais da Natureza. Logo, embora nos pareça que não é a intenção do Filósofo nesta passagem, entendemos baseados em diversos textos que versam sobre o assunto (textos que já citamos e que ainda citaremos) que podemos estender a referida ilustração para explicar a relação entre as diversas criaturas que compõe o cosmos. Portanto, assim como no corpo humano os membros menos nobres são tão importantes para o funcionamento do corpo como os mais nobres, na Natureza as criaturas de hierarquia inferior são tão importantes no funcionamento do cosmos como as de hierarquia superior. Além disso, assim como no corpo humano quando um membro padece todo o corpo sofre, na Natureza quando uma criatura, independente do seu grau na hierarquia natural, não cumpre seu papel, toda a Natureza sofre. Logo, uma criatura depende da outra para viver, seja ela o homem ou uma minúscula mosca126, pois, na medida em que cada uma cumpre seu papel no conjunto cosmológico, a ação ou inação de uma influencia as outras.

Santo Agostinho, na obra Contra a Epístola que os Maniqueus chamam Fundamento, fazendo uso de interessante metáfora, diz como pensa a relação entre as criaturas:

A forma da voz emitida passa e perece no silêncio e nosso falar se desenvolve pelo desaparecimento e sucessão das palavras que passam, e a distinção, feita com elegância e suavidade, vem dos proporcionados espaços de silêncio que se intercalam. Tal é o caso também da harmonia íntima das naturezas temporais: se torna realidade mediante o passar das coisas e a distinção estabelece a morte dos que nascem. Se nossos sentidos e memória pudessem captar a ordem e os modos de tal beleza, nos agradaria tanto que

126 No Sobre a Cidade de Deus, Santo Agostinho elogiando a inteligência e bondade do Criador, afirma que tanto

o homem como uma simples mosca deve ser enxergada com admiraçãoμ “ [έέέ] Essa obra é tão admirável e tão estupenda, que não apenas o homem, animal racional e, por conseguinte, mais excelente e nobre que todos os outros animais terrestres, mas até mesmo a mais diminuta mosquinha não pode ser atentamente considerada sem confundir a inteligência e penetrá-la de admiração pelo Criador” (De civ. Dei., XXII, 24, 2).

nem ousaríamos chamar de corrupção a diminuição pela qual se estabelece a distinção (Contra ep. fund., 41)127.

Logo, Santo Agostinho fazendo uso de seu conhecimento de poesia, possivelmente adquirido na sua antiga profissão de professor de retórica, afirma que assim como um poema articula espaços de silêncio com palavras e frases de forma harmoniosa, de maneira que a ausência de som se inter-relaciona com as sílabas, e essas últimas com outras, formando um poema belo e harmonioso. Da mesma forma é o universo, pois ele, como um belo poema, só é harmonioso com a relação das criaturas, em que uma depende da outra para cumprir seu papel no conjunto harmonioso do cosmos. Quer dizer, semelhantemente a um poema em que cada palavra cumpre seu papel, mas só faz sentido na inter-relação com outras palavras, no universo, cada criatura, embora tenha seu papel determinado pelo Criador a cumprir, é na inter-relação com as demais criaturas que tornará o cosmos harmonioso, belo e equilibrado. A morte das criaturas podem até ser entendidas como um mal quando consideradas isoladamente, entendimento este que não existirá quando a morte é perspectivada pelo prisma da totalidade. Pois, até mesmo a morte é fundamental para o ordenado funcionamento do cosmos, na medida em que uma criatura ao morrer cede espaço para as que nascem mantendo a Natureza em equilíbrio, e sem excesso de população de nenhuma espécie, da mesma forma que como o silêncio e a transição entre as palavras são componentes fundamentais para que de um amontoado de palavras, extraia-se um poema:

Seria, portanto, absurdo dizer que nenhum ser temporal deveria desaparecer. A razão é porque essa ordem de seres está disposta de tal forma que, se não desaparecessem, as coisas futuras não poderiam suceder às passadas, nem, portanto, permitir que a beleza dos tempos pudesse se desenvolver em sua espécie (De lib. arb., III, 15, 42).

No transcorrer do texto Agostinho faz referência a transição das sílabas e palavras no uso da linguagem, intencionando afirmar que da mesma maneira que ninguém pode censurar o desaparecimento de uma palavra para o nascimento de outra em um discurso, não podemos censurar a morte das criaturas (Cf. De lib. arb., III, 15, 42. Também: De civ. Dei., XII, 4; De nat. boni, 8; CAPANAGA, 1994, p. 50).

127 Agostinho se utiliza da mesma metáfora no Sobre a Verdadeira Religiãoμ “ζesse conjunto nada é mal, nem

mesmo o transitório. Por exemplo, um verso é belo no seu gênero, se bem que não se possa pronunciar ao mesmo tempo, duas de suas sílabas. Para emitir a segunda sílaba, é preciso que a primeira tenha passado. Chega- se sucessivamente ao final. E quando ressoa a última sílaba, sem que ressoe com ela as precedentes, ela se liga, entretanto, às sílabas já desaparecidas para completar a beleza e a harmonia métrica do conjunto” (De vera rel., 22, 42). Igualmente no Sobre o Gênesis contra os Maniqueusμ “Também, se numa palavra erudita e elegante considerarmos cada uma das sílabas e mesmo cada uma das letras, as quais, após terem soado, logo passam, não encontraremos nela o que nos possa causar prazer ou que mereça elogios. Com efeito, toda aquela palavra é bonita, não devido a cada uma das sílabas ou letras, mas a todas” (De Gen. contra man., I, 21, 32).

Além disso, uma criatura com a sua morte serve de alimento para outras criaturas, sendo, portanto, a morte de umas necessárias para a sobrevivência de outras. Assim sendo, segundo nosso Santo Doutor essa luta pela sobrevivência faz parte da Natureza da Criação, pois, uma criatura acaba servindo de alimento para outra, e ambas, o alimento e o alimentado, possuem sua função no equilíbrio da Natureza, e uma depende da outra para sobreviver, pois, se não fosse a criatura que serve de alimento o que seria da criatura predadora, e se não fosse a predadora, como se controlaria a população daquela? Logo, até as leis naturais da cadeia alimentar mostram que as criaturas vivem em constante inter-relação. Toda essa corrente de inter-relações não existe por acaso ou foi determinada pela lei da evolução das espécies, mas foi projetada por Deus para fazer parte da ordem natural, ou seja, segundo o Hiponense, por trás das leis e ordem natural existe uma ordem sobrenatural.

E não podemos dizer com razãoμ „ζão existem feras que se alimentem umas das outras‟έ θois, todas as coisas têm enquanto são, suas medidas, seus números e suas ordens. Consideradas no seu conjunto, elas são dignas de louvor e não se transformam, passando de uma para outra, sem uma oculta norma de beleza temporal de acordo com sua espécie. [...] Todos os animais, dos maiores elefantes aos menores vermes, de acordo com a ordenação inferior de sua espécie que lhes coube em sorte, lutam o mais que podem, resistindo e acautelando-se, pela sua conservação corporal e temporal. Isso não se manifesta a não ser quando alguns procuram alimento para seu corpo, buscando-o nos corpos dos outros [...] (De Gen. ad. litt., III, 16, 25)128.

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