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Por sua concepção de physis torna-se compreensível que a posição de Demócrito resultasse numa ética determinista. O que se trata de indagar é: como um determinista pode defender uma ética normativa (por convenção) que pretende descrever o dever ser da conduta?

E esse foi um dos pontos – mesmo se ressalvando que Marx potencializou a oposição entre ambos ao limite – em que a ética democriteana se chocaria com a de Epicuro ao este introduzir o elemento do arbítrio para dar conta da complexidade das escolhas individuais.

No determinismo democriteano o “desvio” na conduta não pode ser explicado. Disto decorre que sua ética é coerente com a sua física, pressupondo valores norteadores da conduta.

Em outras palavras: o cientista físico e racional é também um moralista rígido, que traças normas para conduta com o fim de refrear o relativismo e o individualismo que permeavam a sociedade grega de sua época. 152

E, ao examinar as formulações sobre casualidade e causalidade, em um e outro, Marx o faz para mostrar que o único ponto comum entre aqueles dois era a identidade materialística – e esta decorria da formulação similar para a teoria do átomo.

Mas ressalta o simplismo de ver a segunda filosofia como plágio da primeira dado as diferenças completas quanto aos fundamentos e pontos de partida, fato que o levaria, obrigatoriamente a conclusões opostas.

152 PESSANHA, José Américo Motta. Os pré-socráticos: vida e obra. In: Os pré-socráticos – Fragmentos, doxografia e comentários. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 30-32.

Embora ambos defendam a mesma doutrina, pela qual o substrato de tudo são átomos que se movem no vazio, um (Demócrito) é cético quanto às possibilidades do conhecimento – o homem deve reconhecer que está afastado da verdade – e empírico no que diz respeito à valorização do mundo físico. Já o outro (Epicuro), para Marx, é dogmático e filosófico;

O cético e empírico afirma que o mundo sensível é mera aparência subjetiva – e, no entanto, não se pode chegar ao pleno conhecimento do que a coisa realmente é153 -, ao passo que o dogmático e filosófico afirma que o mundo sensível, isto é, dos fenômenos, é real e objetivo;

O cético valoriza o conhecimento positivo e representa a tensão, a inquietude do observador da natureza, o outro (Epicuro) despreza o empirismo, vai para o Jardim e se entrega à filosofia, expressando assim o ideal filosófico da ataraxia e da autonomia que cria o saber a partir do autodesenvolvimento;

E, por fim, na contradição mais gritante, quanto à forma de reflexão, isto é, as relações entre pensamento e ser, o cético e empírico vê a natureza do ponto de vista da necessidade e usa-a para buscar explicar e compreender a existência real das coisas; já o filósofo e dogmático valoriza totalmente o acaso.

Para ele, a necessidade, convertida por alguns em dominadora absoluta, não existe154, e o seu modo de explicação, por abstrato e filosófico, não se fundamenta na observação da realidade objetiva.

153 BORNHEIM, Gerd (org). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 2002, p.107. Fragmentos 6 e 8.

154 MARX, Karl. Diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro. São Paulo: Global, s/data, p. 26.

Ou seja, Marx se vale da extensão das idéias físicas de Epicuro ao mundo social (átomo = indivíduo), valorizando a idéia de autonomia e acentuando o potencial da reflexão epicurista pela via da exacerbação das diferenças com Demócrito.

Com isso o próprio Marx dá o primeiro passo do que viria a ser sua atitude perante a filosofia: vinculá-la sempre e ao máximo com a realidade, procurando dar conta de seu papel transformador. Esta é, pois, a conclusão que se defende ao longo da reflexão aqui encetada e que se procura sistematizar na próxima parte do presente capítulo, recenseando os resultados do confronto entre o pré-socrático Demócrito e o helenista Epicuro.

3.6. OS RESULTADOS, EM MARX, DO CONFRONTO ENTRE UM PRÉ- SOCRÁTICO E UM HELENISTA

Marx, fixando-se no pressuposto metodológico supracitado e cujo objetivo era o de levar aos limites o contraponto a que se propunha, acentua as diferenças entre Demócrito e Epicuro, mas reconhece, desde o início, os elementos comuns entre eles.

E, desde o início da tese, acentua propositadamente – como já se disse – um contraste, um paradoxo na relação entre os sistemas dos dois filósofos:

a) A filosofia de Epicuro tinha todos os lineamentos de uma concepção objetivamente centrada na realidade, entretanto como na ética buscasse preservar a liberdade, negou o mundo como governado por leis imutáveis, o que soava como uma rejeição à objetividade da natureza;

b) Já a filosofia de Demócrito era céptica quanto à realidade do que aparecia ao sujeito, mas, no entanto, sustentava a causalidade e era determinista.

Marx criticava esse determinismo de Demócrito e mostra – ao longo de sua tese – uma clara identidade com a ética epicúrea da liberdade. E foi, para alguns doxógrafos, a visão de ética de liberdade de Epicuro que pesou na preferência visto que, como filósofo e cientista, Demócrito parecia mais qualificado e original. 155

E ainda que, mesmo aparentemente, estivesse – do ponto de vista do materialismo – mais próximo de Demócrito, seria, ao ver do autor da presente tese, pouco crível que Marx deixasse de levar em conta a situação da Alemanha, caracterizada pela inexistência de uma vida pública democrática, e o potencial crítico que inevitavelmente existiria num filósofo que, além de solapar o misticismo religioso, defendia também uma ética de liberdade expressa na autonomia do átomo / indivíduo.

Ele “opta” por Epicuro fundamentalmente por dois motivos:

a) A ênfase que Epicuro dava sobre a absoluta autonomia do espírito humano contribuía para a libertação da superstição acerca do transcendental. Para ele, “é estupidez pedir a deus coisas que não se é capaz de encontrar em si mesmo”. 156 Ora, numa Alemanha onde a crítica da religião era base de toda crítica157, é de se supor, ao ver do jovem Marx, o potencial explosivo de tal posicionamento,

b) Também a ênfase com que Marx trata, em Epicuro, a questão da autoconsciência individual livre apontava para um caminho no sentido de se ir além, de superar o sistema de uma forma de reflexão total (no caso, a filosofia de Hegel).

Ou seja, já estava ficando claro para o advogado recém-formado que a reflexão não se poderia fazer de costas para o mundo: se Marx concluiu, corretamente, que a física de

155 Ver, por exemplo: MC LELLAN, David. Marx – vida e obra. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 50. 156 Ver: Sentencias Vaticanas. In: EPICURO. Obras completas. Madrid: Cátedra, 1995, p. 104, s. 65. 157 MARX, Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do direito de Hegel. In: Manuscritos econômico- filosóficos e outros escritos. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 45. Marx abre o texto exatamente com essa afirmação.

Epicuro era apenas uma parte de sua compreensão ética, esta sim, o centro de seu sistema, não deixou também de perceber que foi pela recepção crítica das concepções de Demócrito que Epicuro formulou sua física e sua moral.

Foi por não se dar conta dessas diferenças que parte da tradição posterior, como se apontou anteriormente, viu em Epicuro apenas um plagiador de Demócrito.

Por fim, diga-se que a admiração por Epicuro não se prendeu tão só ao filósofo que acabou por se tornar objeto da tese doutoral: Na Ideologia Alemã ele aponta Epicuro como a mente mais radicalmente esclarecida da Antigüidade.

E mais, não devemos subestimar que, ao tratar das diferenças entre as concepções de Demócrito e de Epicuro o que Marx objetivava abordar era um tema caro ao contexto do debate de então e que tinha rebatimentos na política – através e por meio da filosofia – e na compreensão da situação da Alemanha de então: a questão de como coadunar num sistema determinista – e aí Hegel era apenas o motivo para a discussão – a coexistência de uma consciência livre.

Por isso a “consciência de si” (ou autoconsciência) se constituía em conceito-chave nas reflexões dos chamados “jovens hegelianos de esquerda”. Sua tarefa – e a da crítica filosófica – era desnudar todas as formas e forças que se opunham ao seu livre desenvolvimento.

O fato de Marx ter logrado desvencilhar-se de tal tarefa com êxito e dado um passo adiante em relação ao sistema hegeliano deve, em grande parte, ao fato de ter tomado contato com a filosofia epicúrea.

Se Marx conseguiu ser fiel ao projeto daquele que, junto a Aristóteles, foi sua principal influência filosófica, já é motivo para o desenvolvimento do próximo capítulo desta tese que trata da relação entre fatores subjetivos e escolha moral.

CAPÍTULO 4

O MARXISMO E O PAPEL DOS FATORES SUBJETIVOS NA ESCOLHA MORAL

Benzer Belgeler