Em nossos dias, tudo parece estar impregnado de seu contrário. O maquinário; dotado de maravilhoso poder de amenizar e aperfeiçoar o trabalho humano, só faz, como se observa, sacrifica-lo e sobrecarrega-lo. As mais avançadas fontes de saúde, graças a uma misteriosa distorção, tornaram-se fontes de penúria. As conquistas da arte parecem ter sido conseguidas com a perda do caráter. Na mesma instância em que a humanidade domina a natureza, o homem parece escravizar-se a outros homens e a sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece incapaz de brilhar senão no escuro pano de fundo da ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da força material.
Karl Marx
As análises mais conservadoras sobre a necessidade de se aparelhar as forças policiais relacionam à modernização da sociedade com o aumento da criminalidade. Este discurso, renovável ao longo do tempo, procura colocar a polícia como “paladina da segurança” que observa e vigia, para além do cumprimento às normas da lei, por uma versão de ordem moral que constantemente está ameaçada pelas hordas de “arruaceiros e pervertidos” que o crescimento da economia capitalista faz jorrar nas periferias de suas áreas de expansão. Para os defensores dessa concepção, a polícia teria uma função missionária em sua vigília permanente sobre as classes populares, velando pelas exigências do padrão moral e supervisionando a adequação dos trabalhadores aos requisitos da ordem. Mais que uma resposta ao aumento da criminalidade, a modernização das forças policiais está relacionada às transformações nas representações que as camadas dominantes fazem da noção de equilíbrio social. Não podemos esquecer que a criminalização de comportamentos, assim como o aumento e a modernização dos efetivos policiais, eram parte de uma estratégia de adequação do controle social às transformações, impostas pelo próprio avanço da modernidade que tinha como pedra de toque “o abalo constante de todas as condições sociais” (MARX, 1990, p.69). Dessa maneira, era necessário conter e orientar os impulsos das classes e dos indivíduos, formatando uma nova pedagogia de controle, que pudesse devolver a percepção do equilíbrio em meio à agitação de um novo tempo.
O capitalismo impôs novas condições de modernização à sociedade, relacionadas ao desenvolvimento da indústria e do espaço urbano, o que requeria a formação de novos modelos de comportamento social, adequados à nova realidade da exploração do trabalho. Era necessário adequar a cadência do labor ao ritmo das máquinas,
elaborando formas de administração adequadas ao novo panorama de planejamento e execução da produção, colocados pelo modelo de organização das indústrias. A produção fabril requeria reforços na vigilância sobre o trabalhador, que devia estar enquadrado por normas disciplinares que otimizassem, de forma autoritária, sua capacidade produtiva.
Tal sujeição à disciplina do trabalho é extraordinariamente sentida pelos operários da indústria porque, em contraste com uma plantação, em que se trabalhava sob o regime tributário, a empresa industrial moderna repousa em um processo seletivo muito severo. O industrial de nossos dias não contrata um operário só porque ele se oferece para trabalhar por um salário módico. Pelo contrário, põe o homem na máquina e lhe diz: ‘Agora trabalha, verei quanto você vai ganhar.’ E se o homem não se mostra em condições de ganhar um determinado salário mínimo, então lhe diz: ‘Estamos descontentes. Você não é dotado para este ofício; não podemos utilizar o seu trabalho’. O homem é descartado, e isso ocorre porque a máquina não é utilizada ao máximo se não se incorpora a ela um homem que saiba faze-la render plenamente (WEBER, 1993, p.102).
Foi no sentido da otimização das forças produtivas que categorias como ordenação, coordenação e direção assumiram novos contornos, passando a implicar um quadro administrativo cada vez mais amplo e controlado. A acumulação do capital depende da racionalização da produção para intensificar a exploração do trabalho assalariado. A centralização política a partir do Estado encontrava sua correspondente na centralização da produção a partir do planejamento. A administração das esferas decisórias da sociedade se tornava cada vez mais burocrática e racional. Esse processo irresistível de racionalização das instituições, que para autores como Weber constituiu a própria mola mestra do desenvolvimento histórico, imporia a “racionalização” das relações sociais como fator imperativo do processo originado pela expansão da economia de mercado. Aliás, as modernas instituições capitalistas seriam a “própria materialização da racionalidade” (WEBER, 1982, p.66), entendendo racionalidade como o que predispõe o “sóbrio capitalismo burguês com sua organização racional do trabalho” (WEBER, 2001, p.28). Dito de outra forma: eficiência racional, continuidade de operação, rapidez, precisão e cálculo de resultados.
A lógica da economia capitalista requeria que tais princípios não fossem incorporados somente pelas instituições públicas e privadas da sociedade – caso da polícia, como comentaremos a frente. Tornava-se necessário que os princípios dessa “racionalidade” reverberassem na conduta dos indivíduos, impondo o auto-controle como
conseqüência do processo civilizador14, originado e referenciado pelas transformações do ambiente social. A dinâmica da modernidade trazia novas preocupações para os detentores do poder. Era importante canalizar e direcionar seus efeitos, otimizando-os ou restringindo- os, conforme os imperativos economicos e políticos, no sentido de aprofundar as estratégias de dominação. Foi preciso adestrar a sociabilidade das classes populares de maneira que tal processo, de transformação dos comportamentos, não se desdobrasse em formas de organização que desafiassem a ordem social. Era importante controlar e limitar as aspirações dos trabalhadores. Afinal, como já disse Norbert Elias: “Nenhuma sociedade pode sobreviver sem canalizar as pulsões e emoções do indivíduo, sem um controle muito específico do seu comportamento” (ELIAS, 1993, p.270).
Tal pressuposto era essencial naquele momento de avanço da economia industrial, que trazia como conseqüencias o crescimento das cidades e a emersão da própria sociedade de massas. Foi no intuito de otimizar a produção e dissipar o medo da revolta que ocorreu a tipificação, como crime, de comportamentos sociais até então tolerados, como a vagabundagem, a mendicância e principalmente os ajuntamentos públicos de caráter reivindicatório ou político, sobretudo quando esses eram de caráter popular. Parafraseando Michel Foucault, podemos entender o tolerado observando aquilo que não é tolerado. A criminalização e a repressão de certas condutas estão diretamente relacionadas com a valorização de outras, atinentes às estratégias de controle da sociabilidade popular.
O projeto burguês de dominação comporta pedagogicamente a repressão, pelos efeitos que ela produz sobre a consciência dos trabalhadores. Não se trata apenas de incutir o medo pela ameaça, mas instituir toda uma estratégia articulada de longa duração para permitir o enquadramento de toda a população trabalhadora dentro de uma ordem orgânica de funcionamento da sociedade (ALVES, 1990, p. 221).
À polícia cumpria desenvolver o delineamento pragmático do controle via imposição da força no corpo social. Presente em todas as sociedades modernas, as funções das polícias nas estruturas do poder se tornavam mais semelhantes conforme a própria expansão da sociedade de mercado e de suas lógicas de sujeição. O aparelhamento das forças policiais e o delineamento de seu modelo de organização, calcadas no princípio da racionalidade burocrática, se expandiram de acordo com a expansão da modernidade
capitalista: “um caminho contínuo leva desde as modificações nas lutas sanguíneas, ou por meio de arbitramento, até a atual posição do policial como o representante de Deus na terra” (WEBER, 1982, p.247). A universalização da ordem social burguesa permitiu a generalização da polícia como órgão burocrático de controle da sociabilidade.
Porém, assim como não existe uma linearidade no desenvolvimento das formações capitalistas, também não existe um modelo de operação universal para atuação das forças policiais e para a organização das formas de policiamento ditas modernas. Criadas pelo Estado para conter as tensões internas da sociedade num contexto de intensa transformação das relações sociais, a organização policial e seu modus operandi refletem as injunções políticas e sociais que orquestraram sua formação, e sobre as quais ela tem o mandato de atuar. Não podemos esquecer que a maior ou menor truculência em suas abordagens, o respeito maior ou menor aos estatutos legais em suas diligências relacionam- se com os mecanismos que articulam as estratégias de dominação da cada sociedade. A maior ou menor intensidade de tais condutas policiais é um reflexo do impacto da nova dinâmica social nas relações de poder, demonstrando também como estas foram absorvidas e controladas pelos interesses dominantes.
A literatura atinente ao tema costuma apontar a formação da polícia metropolitana de Londres como o berço da moderna organização policial: “A criação da polícia metropolitana constitui marco tanto no combate ao crime quanto na definição dos princípios gerais que permitiram a emergência de um novo conceito de ordem urbana e do padrão de sociabilidade admitido” (SOUZA, 1998b, p.1). Embora modificações semelhantes estivessem ocorrendo simultaneamente na França, onde a velha gendermarie era substituída das funções de policiamento de Paris pela guarda civil uniformizada15, foi primeiro na Inglaterra que pari passu ao desenvolvimento do mundo urbano e industrial se burocratizou a organização policial (na direção da ênfase no controle dos procedimentos pela norma técnica e legal, assim como da profissionalização e especialização das carreiras policiais). O modelo inglês valorizava as estatísticas dos delitos e as modernas teorias da
15 “A criação quase simultânea, dos primeiros corpos de agentes uniformizados [não armados, de início] em
Paris e Londres provavelmente não passa de coincidência. Em compensação, quando uma nova onda de modernização policial atinge a Europa, em meados do século XIX, é deliberadamente que os governos da Prússia, da Áustria ou do norte da Europa enviam suas missões de estudo para Londres [...] O próprio Napoleão III não falta ali: pensando na Exposição Universal, ele envia uma delegação à capital inglesa antes de instaurar um sistema de subdivisão das Ruas da capital” (MONET, 2001, p.52).
criminologia, como métodos para conferir caráter científico à atividade de repressão. Foi também na Inglaterra que primeiro se desenvolveu a concepção preventiva, e não apenas reativa, do papel da polícia no impedimento dos delitos. Mais que reagir ao ato criminoso praticado, cabia à polícia prevenir os comportamentos delituosos para que tais atos não ocorressem: “essa mudança de orientação põe fim à privatização milenar das funções policiais, retirando toda margem de manobra e iniciativa no início do processo penal. O crime é daí em diante negócio de Estado e de suas agências”. (MONET, 2001, p.53).
A novidade da “nova” polícia era de ser uma força burocraticamente organizada, encarregada com um mandato para “prevenir” o crime por meio da patrulha e da vigilância regulares de toda a sociedade (mais especificamente os participantes das “classes perigosas”). A aplicação da lei de forma intermitente e irregular, dependente da iniciativa privada, foi substituída pelo policiamento estatal contínuo, financiado pelo bolso público. O controle, dependente da legitimação pelas tradições particulares de respeito pessoal, foi substituído pela autoridade impessoal, legitimada por valores racionais de legalidade universalistas. A burocratização do trabalho da polícia colocou as operações diárias do sistema de controle nas mãos de desconhecidos agentes do Estado, homens que não operavam em seu próprio interesse, mas (presumivelmente) no interesse geral (REINER, 2004, p.58).
Nesse país de formação capitalista clássica, a criação da polícia moderna estava afinada à lógica do controle repressivo das tensões internas da sociedade. Porém, a função do bobby16inglês (num meio social onde o êxito e a nitidez da revolução burguesa haviam alargado o raio de ação das classes, tanto nos setores burgueses como nas camadas populares) era a de “limitar os riscos de enfrentamento e sensibilizar as novas camadas operárias urbanas para os valores políticos e disciplinas de vida, que são impostos pela modernização social” (MONET, 2001, p.52). Nessa intenção, a polícia inglesa enfatizava a “imparcialidade” de sua atuação, mesmo quando enquadrava os conflitos pela coerção. O discurso da imparcialidade buscava obter o consentimento dos vigiados, e acabou sancionando formas de policiamento que valorizaram a criação de uma polícia uniformizada, e que somente portava armas de fogo em situações específicas. “A ideologia da polícia britânica sempre se baseou num comportamento diferenciado, baseado na comunidade (...) histórias convencionais da polícia britânica tentam traçar uma linhagem
16 Denominação popular dada aos agentes uniformizados da polícia inglesa. O nome, diminutivo de Robert,
direta entre as formas tribais de autopoliciamento coletivo e o bobby inglês” (REINER, 2004, p.25).
A formação da organização policial inglesa obedeceu às injunções e necessidades do controle político e social daquela sociedade. A ênfase na imparcialidade de atuação, sua afirmação de ideais comunitários, entre outros aspectos, surgiram da necessidade de impor legitimidade para sua atuação frente à oposição de setores das classes que compunham a sociedade britânica. Membros das classes altas tomavam a criação da polícia como interferência do poder central em assuntos locais; setores das classes populares se opunham à chegada da “praga dos gafanhotos azuis”, principalmente após a intervenção da polícia nas manifestações operárias. E foi no movimento operário que a polícia encontrou seus maiores críticos. (REINER, 2004,p.60).
A negociação dos conflitos que irrompiam com o avanço da modernidade capitalista também era questão proeminente na modernização da polícia francesa. As modificações na polícia de Paris, com a instauração da guarda civil uniformizada e não armada17, em substituição aos gendarmes, identificados com o “sistema centralizado e politizado que Fouché estabelece na França e nos países ocupados” (MONET, 2001, p.51) durante as guerras napoleônicas, era uma tentativa de enquadrar, sobre outros modos, a organização policial. A gendermarie, centralizado seu comando nacional em Paris, existia desde o antigo regime, porém seu modo de atuação no período posterior a revolução havia sido definitivamente refinado pelo próprio Fouché. Esse fora o comandante da temível polícia política que com seus delatores secretos atemorizou a população francesa no período napoleônico e também da restauração18. A reforma policial, concomitante a
londrina, tratava de modificar o trato policial com as desconfiadas classes populares, afinal, em Paris, “a cada vez que um operário é preso, os outros se dirigem à prisão, que assim se
17 A medida de policiar a cidade sem portar armas de fogo ou sabres seria revogada posteriormente por
pressão dos próprios agentes policiais. Sobre o assunto, ver: MONET, 2001, p.52.
18 Joseph Fouché pode ser considerado como um precursor da moderna polícia política. Iniciou sua “carreira
policial” durante o período do terror jacobino (1793 – 1794), quando foi designado pela Convenção para comandar a polícia de Lion e Nantes, tornando-se responsável por 1.906 execuções. Sobreviveu ao período do terror e foi um dos depositores de Robespierre. Após um período de ostracismo, apoiou o golpe de Napoleão contra o Diretório em 1799. Foi nomeado Ministro da Polícia por Napoleão, sendo o artífice principal da criação de sua polícia de incontáveis agentes delatores espalhados por todos os setores da sociedade francesa, entre eles, o célebre Vicdoq, o ex-prisioneiro que se tornou chefe de investigações da Surete, ou polícia civil. Fouche foi o inspirador de Victor Hugo para construir o a figura do inspetor Javert, o implacável policial parisiense do clássico Os miseráveis, que jamais deixava um perseguido em paz. Ao morrer, Fouché deixou uma fortuna de 30.000.000 libras. Sobre o assunto, ver: BOISSIERE, 1937.
torna um símbolo de luta de classes” (PERROT,1988, p.295). Embora sem abrir mão do forte controle centralizado da organização policial, a modernização social requeria que os representantes da autoridade do Estado fossem, se não amados, pelo menos aceitos (MONET, 2001, p.52).
A medida que, sob pressão das forças liberais, os regimes autoritários se abrem à média burguesa – a essas ‘novas camadas sociais’ de que falará na França Léon Gambetta, no alvorecer da III República – os governantes estão cada vez mais preocupados em legitimar a dominação que exercem através dos aparelhos repressivos. Severas com as ‘classes perigosas’, a polícia deve-se mostrar protetora para com as ‘classes laboriosas’. Assegurar que a sociedade inteira viva sob o reino da lei supõe que se dedique uma boa parte dos recursos policiais a tarefas estranhas à pura repressão política (MONET, 2001, p. 65).
A busca de denominadores de legitimidade em torno da atividade policial, em meio ao conflito de sua aceitação, configura parte de uma estratégia muito mais ampla de pacificação da sociedade. A burocratização da organização policial representou a sincronização das demandas do controle social com as novas demandas do controle da ordem, que requeriam tanto a absorção controlada, quanto a repressão das reivindicações das classes populares, notadamente do nascente movimento operário e de suas organizações. Estas contestavam a modernização de cima para baixo contando com meios de organização de baixo para cima, que absorviam gradualmente as imposturas da modernidade. Associações operárias, sindicatos, partidos, entre outras instituições, ampliavam seu raio de influência vis a vis com a expansão da indústria e a proliferação dos operários. A massificação dessas organizações imporia sua burocratização em moldes modernos, inaugurando novos modelos de organização política para as classes trabalhadoras, que redefiniriam as formas de negociação entre patrões e empregados. A capacidade de enfrentamento do movimento operário com o poder era expandida, no ritmo da absorção e da adaptação das técnicas de planejamento às necessidades dos movimentos de caráter reivindicatório. Para reprimir os impulsos violentos das nascentes organizações operárias, era necessário esvaziar a questão social de seu conteúdo revolucionário, importando para isso, incorporar certas reivindicações na esfera do direito, o que também permitiu construir um limite legal para a manifestação política.
A incorporação de reivindicações na esfera da norma legal, estratégia no embate político em meio ao calor das batalhas entre as classes, permitiu a gradual aceitação
da supervisão policial sobre os ambientes sociais. A legitimidade da atuação policial na Inglaterra, “foi ajudada e ajudou o processo pelo qual a classe operária, a principal fonte de hostilidade inicial para com a nova polícia, incorporou-se nas instituições políticas e econômicas da sociedade britânica”. (REINER, 2004, p.85). A luta pela representação política dos diversos grupos organizados tornou-se um freio à expansão desenfreada do controle violento da burocracia estatal sobre o corpo social. A expansão da noção de direito requeria a intensificação das estratégias que permitiam a dominação e a assimetria das relações sociais. Ao controle coercitivo da polícia, acoplaram-se novas formas de controle, mais sutis, interessadas em inculcar no indivíduo, por meio da gestão científica, as marcas de poder do próprio processo racionalizante.
A complexidade da sociedade moderna exigiu o aperfeiçoamento racional das instituições, que elaboraram por meio das formações burocráticas uma eficiente e renovada macro política da dominação19, com isto inaugurou-se novas dinâmicas para as relações de poder, na qual a previsibilidade, a repetição e a rotinização tornaram-se a tônica para o adestramento físico e moral. Michel Foucault analisou os meandros da positivação dessas formas do controle “desencantadas” no cotidiano dos indivíduos, afirmando, por meio da própria individualização, os pressupostos de uma micro-física do poder. Para o autor, a ascensão da economia capitalista, nos países europeus de formação clássica, permitiu a positivação de mecanismos que exigiam uma nova economia da sujeição: “as mudanças econômicas tornaram necessário fazer circular os efeitos do poder por canais cada vez mais sutis, chegando até os próprios indivíduos, seus corpos, seus gestos, cada um de seus desempenhos cotidianos” (FOUCAULT, 1984, p.214). Este novo modelo do poder, cujo embrião repousava em instituições que o aplicavam anteriormente ao desenvolvimento do capitalismo, notadamente aquelas que dependiam de um grau desenvolvido de organização administrativa, como os conventos, monastérios e quartéis; tornaram-se, no decorrer do