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Outro encontro que marcou profundamente a formação da M.I. foi o Congresso Mundial de Evangelização, em Lausanne.Realizado em 1974, em Lausanne, na Suíça, teve a participação de 2.700 congressistas, de mais de 150 nações,com o objetivo de orar, estudar, debater e planejar a respeito da evangelização mundial. (STOTT, 2003, p.25) O tema deste congresso foi: “Para que o mundo ouça a voz de Deus”. O grande questionamento que se tentou responder ali, segundo Stott, foi: “como anunciar a Palavra de Deus num mundo tão injusto” (2003, p.94).

Quanto aos participantes desse congresso, pode-se dizer que Lausanne possuiu duas faces. A primeira era conservadora; para esta, a evangelização era entendida dentro do aspecto conversionista, que considera e busca apenas o fator individual escatológico

espiritual da conversão, ignorando os fatores físico-sociais. Esta face foi expressa pelas inúmeras agências de missão norte-americana de cunho fundamentalista, e pelos participantes que comungavam desta visão.

A segunda face foi expressa por participantes do Terceiro Mundo5, que, segundo

Longuini (2002), representavam a metade do número total dos que ali estavam. E entre estes foram alguns latino-americanos os responsáveis, segundo Rocha, por uma “guinada na matriz teológica orientadora do congresso” (2002, p.93), pois estes colocaram na pauta a necessidade de uma reflexão sobre as estruturas sociais e os contextos culturais dos povos onde a missão se realiza. Essa influência pode ser constatada em diversos momentos do congresso, mas destacam-se aqui as principais, que são as duas palestras proferidas por latino-americanos; a saber: “A evangelização e o mundo” de René Padilla e “A evangelização e a busca de liberdade, justiça e de realização pelo homem” de Samuel Escobar.

A questão da Integralidade da missão da igreja se tornou a característica mais marcante desse congresso. Não é sem motivos que a teologia de Lausanne, segundo Rocha, “é tão conhecida como teologia da Missão Integral” (2002, p.95), a qual tem como principal lema “o evangelho todo, para todo homem e o homem todo”.Grellert apresenta esse rosto da M.I.com a seguinte afirmação:

Holismo cristão ocorre quando a Igreja toda, totalmente comprometida com toda a vontade de Deus, leva o evangelho todo ao homem todo e a todos os homens, por todos os métodos éticos possíveis, através de homens e mulheres totalmente engajados na missão integral. (1987, p.61)

O mesmo autor, ao comentar sobre o Congresso de Lausanne e sua influência, afirma:

O magno e frutescente Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em 1974 em Lausanne, Suíça, não foi somente um evento marcante (...) Ele desencadeou um movimento de evangelização de grupos humanos concretos, que antes não contavam com a presença cristã significativa, como também deu impulso a uma reflexão teológica sobre os assuntos relacionados com a evangelização do mundo. Na verdade, o movimento de Lausanne é um interessante experimento de convívio entre peritos em estratégia missionária (os práticos) e peritos em teologia (os teóricos) convívio; aliás, por vezes tenso, mas frutífero e criativo. (apud LONGUINI, 2002, p.77)

5Quanto ao termo terceiro mundo ver BUARQUE, Cristóvam. O pensamento em um mundo Terceiro Mundo, pg. 57-

Como fruto do congresso, foi redigido o Pacto de Lausanne (leia-se PL)6, que foi

aceito e assinado por todos os 2.700 participantes e teve como relator o líder anglicano, John Stott.

A palavra “pacto” é usada aqui não em um sentido técnico ou bíblico, mas sim com um significado ordinário de um contrato, onde são colocadas as obrigações. Stott ressalta esse aspecto ao dizer:

A razão pela qual se escolheu a expressão “Pacto de Lausanne”, ao invés de “Declaração de Lausanne”, é que desejávamos fazer mais do que simplesmente encontrar uma fórmula verbal que fosse objeto de um acordo. Havíamos decidido que não nos limitaríamos a declarar alguma coisa, mas fazer alguma coisa, a saber, comprometer-mo-nos com a tarefa de evangelização mundial. (2003, p.20).

O PL aborda os seguintes temas: o propósito de Deus; a autoridade e o poder da Bíblia; a unicidade e a universalidade de Cristo; a natureza da evangelização; a responsabilidade social cristã; a igreja e a evangelização; a cooperação na evangelização; o esforço conjugado de igrejas na evangelização; a urgência da tarefa evangelística; evangelização e cultura; educação e liderança; conflito espiritual; liberdade e perseguição; o poder do Espírito Santo; e o retorno de Cristo.

Na apresentação do livro Pacto de Lausanne, o PL é exposto da seguinte forma: Referência para iniciativas que representam importantes contribuições na construção de sociedades mais justas e igualitárias, contextos em que a presença e a atuação das igrejas evangélicas se singularizavam pela busca em atender efetivamente ao chamado que o Pai nos faz, na esperança de que o nosso clamor pela vinda do Reino de Deus seja ouvido [...] O Pacto de Lausanne é um documento fruto da reflexão de diversos líderes evangélicos de todo o mundo, guiados pela Palavra, a fim de relembrar a Igreja quanto ao seu chamado de viver a plenitude do Evangelho com “todos os santos” nestes “dias maus”” (STOTT.2003.p.5-6)

Em síntese,pode-se dizer que o Congresso de Lausanne se configura como uma mola propulsora da teologia da M.I., pois foi neste congresso que seus questionamentos foram expostos para o mundo protestante evangélico; nele foi vivenciado, com intensidade, o conflito existente entre as compreensões sobre a missão da igreja frente a um mundo injusto.

E quanto ao PL, este serviu como parte do alimento que nutria as reflexões em torno do tema. Segundo Sanches (2009) ele se tornou um referencial para o evangelicalismo histórico mundial. Por apresentar também as questões do compromisso

sociopolítico e cultural que a igreja deve ter, o Pacto proveu a abertura da discussão de forma mais abrangente. Gondim(2010) apresenta o PL como o marco da Missão Integral.Ele explicita este pensamento na seguinte afirmação: “No final do congresso foi escrito o Pacto de Lausanne, que se firmou como marco da Missão integral [...] O Pacto de Lausanne (PL) tornou-se, portanto, uma das principais marcas para diferenciar evangelicais de evangélicos.”(GONDIM, 2010,p.83).

Almeida resume a importância deste momento com as seguintes palavras:

No que me concerne, a maior relevância do movimento de Lausanne foi o aprofundamento da discussão teológica sobre a instaurada dicotomia entre evangelização e ação social. [...] naquele tempo ela (a discussão) foi de extrema importância para o ramo evangélico que exercia seu ministério em países pobres do então Terceiro Mundo.Importantes representantes de países latino-americanos ofereceram sua contribuição para o debate demonstrando a integralidade do evangelho tanto como salvação do pecado espiritual como do pecado estrutural. O evento promoveu o surgimento de uma geração de pastores e teólogos defensores da missão integral ou do evangelho holístico que se fizeram representar por grupos como a Fraternidade Teológica Latino-Americana.(ALMEIDA,2005, p.203) Um fator que deve ser destacado sobre o Congresso de Lausanne é que ele influenciou de maneira significativa o evangelicalismo latino-americano e seus ecos foram escutados nos CLADEs posteriores.

Benzer Belgeler