Uma definição útil de inovação social deve explicar de que forma ela se difere da inovação tradicional (BORZAGA; BODINI, 2012), sendo que algumas diferenças são dignas de nota (BIGNETTI, 2011). A partir das afirmações e da ideia de que, ao se evidenciar as diferenças se pode compreender melhor o significado e o papel da inovação social, dedicou-se essa seção a tal objetivo. Vale ressaltar que foi nomeada inovação tradicional, ou de negócio qualquer desenvolvimento de novo: produto, processo, mercado e estrutura organizacional que tiver como cerne o conceito schumpeteriano de inovação, discutido na seção 2.
Segundo Pol e Ville (2009), há três tipos de inovação que se aplicam ao contexto empresarial: a primeira é a inovação tradicional propriamente dita e amplamente conhecida, a segunda é a inovação bifocal, em que se alia rentabilidade com impacto social e, por isso, é considerada sustentável, e a terceira é a inovação social, que tem como orientação o atendimento às necessidades negligenciadas pelo poder público e/ou privado.
A partir da classificação sugerida, evidencia-se a primeira diferença considerável entre os dois tipos de inovação: o objetivo. Enquanto a inovação tradicional tem o mercado consumidor como foco (BRIDGSTOCK et al., 2010), é motivada pela maximização do lucro (MULGAN et al., 2007) e pela concorrência empresarial, a inovação social ocorre para satisfazer as necessidades da sociedade (BRIDGSTOCK et al., 2010), e tem como ponto de partida noções de benefício social e a busca por melhoria da qualidade de vida (DAWSON; DANIEL, 2010). Ou seja, a inovação tradicional tem como objetivo a captura de valor e a inovação social a geração de valor (progresso social) (BIGNETTI, 2011; LUNDSTRÖM; ZHOU, 2011).
Nos valores que orientam a inovação, está a segunda diferença entre inovação social e a tradicional. Enquanto esta é dirigida por valores econômicos e empresariais, como aumento de produtividade, redução de custos, inserção em novos mercados, aquela se refere a valores sociais como bem-estar, qualidade de vida, inclusão social e solidariedade (ECHEVERRÍA, 2008). O autor ainda ressalta que uma inovação social só é relevante na medida em que se
orienta por tais valores e gera vantagem competitiva para toda a sociedade. Segundo Pol e Ville (2009), faz se inovação pensando em como esta pode beneficiar os seres humanos, independentemente de sua viabilidade comercial.
A terceira diferença está relacionada ao processo de inovação. De acordo com o manual de Oslo (OECD, 2005), as atividades inovadoras de uma empresa dependem em parte de interações com as fontes de informação, conhecimentos, tecnologias, práticas e recursos humanos e financeiros, sendo que elas funcionam como fontes de conhecimento e de tecnologia, porém o foco é a organização. Assim, a interação com o ambiente ocorre para se identificar o desejo e/ou necessidade do consumidor e/ou aquisição de conhecimento ou outros recursos de que a empresa necessita, já a IS não se dá em “laboratórios” ou “escritórios”, mas no nível da prática social (HOWALDT; SCHWARZ, 2010), que envolve dependência mútua, cooperação, confiança, forte envolvimento entre inovador e beneficiário (coprodução), aprendizado coletivo, e onde novas relações sociais são criadas (BIGNETTI, 2011; KINDER, 2010). Kinder (2010) ainda acrescenta que, geralmente, o inovador tecnológico necessita de uma visão mais focada, (funil) a fim de se concentrar no desenvolvimento de produtos e mercados. Por outro lado, é desejo do inovador social que outros ampliem a sua visão, porquanto a inovação social exige um olhar sistêmico e o pensamento lateral.
A quarta dimensão diferenciadora refere-se aos stakeholders. Na inovação tradicional, o principal investidor e interessado é a empresa, sendo o atendimento aos seus interesses a preocupação do inovador. Na inovação social, a relação é mais complexa, uma vez que há diversos interessados, e a IS tem a necessidade de satisfazer ao interesse da empresa, da comunidade, dos doadores, dos voluntários, do governo etc., ou seja, se faz-se essencial gerenciar prioridades diferentes e em alguns momentos conflitantes (LETTICE; PAREKH, 2010; LUNDSTRÖM; ZHOU, 2011).
Uma quinta dimensão que diferencia a inovação social da inovação tradicional está relacionada aos critérios utilizados para mensurar resultados. Aumento de participação de mercado e da lucratividade são as medidas utilizadas na inovação tradicional, porém não fazem sentido na inovação social (LUNDSTRÖM; ZHOU, 2011). Assim, ainda é uma lacuna o desenvolvimento de indicadores para a IS que considerem seus objetivos e valores e que mensurem a geração de valor social.
Por fim, a sexta e última diferença a ser destacada é uma das mais discutidas na literatura e aborda a relação entre invenção, inovação e proteção do conhecimento. Para que algo seja considerado uma inovação em âmbito empresarial, é pertinente sua inserção no mercado e aceitação dos consumidores. Já para a inovação social o importante é a sua utilização efetiva e
continuada por um número cada vez maior de organizações, a fim de expandir a geração do bem-estar social, ou seja, a aceitação se manifesta pelo uso cotidiano (ECHEVERRÍA, 2008). Sendo assim, na inovação tradicional, é indispensável o uso de mecanismos de proteção do conhecimento, para que a empresa tenha exclusividade sobre tecnologia desenvolvida e consiga auferir o lucro acima da média, como apontado por Schumpeter (1988). Por outro lado, o retorno do investimento no desenvolvimento da inovação social está em fazer uma mudança no mundo, e por isso não deve resultar no monopólio do conhecimento (LUNDSTRÖMAND; ZHOU, 2011), sendo que sua legitimação, se dá por meio da replicação das novas práticas, sendo que os grupos sociais assumem o papel desempenhado pelos consumidores na inovação de negócio, ou seja, a transformação de uma invenção social em uma inovação social (HOWALDT; SCHWARZ, 2010). Em vista dessa diferença, a IS pode levar mais tempo para se tornar prática aceita, em comparação à inovação tradicional (KINDER, 2010).
Ainda no tocante à difusão, a inovação social pode adotar caminhos bem diferentes dos seguidos pela inovação tecnológica, sendo que ela pode ocorrer por meio de: mercado, infraestrutura tecnológica (redes virtuais), diretrizes governamentais, instituições de apoio, como as fundações, redes sociais e movimentos sociais, empresários e indivíduos carismáticos e influentes entre outros canais (HOWALDT; SCHWARZ, 2010).
As seis principais diferenças entre inovação tradicional e social estão representadas pelas Figuras 8 e 9. Nota-se que, enquanto o input que desencadeia o processo de inovação no primeiro tipo é a competitividade empresarial representada pela manutenção e/ou atendimento a novos mercados, na IS, o intuito é gerar valor social, por meio do desenvolvimento de produtos, processos, métodos de marketing e/ou estruturas organizacionais.
Fonte: elaborado pela autora a partir da revisão de literatura
Figura 8- Processo simplificado de inovação tradicional. Tecnologia Atender demanda Consumidores Novos mercados PESQUISA DESENVOLVIMENTO Novos negócios Vendas Aceitação de mercado Sucesso Comercial Licenciamento Competitividade
No concernente ao processo, a Figura 8 é a representação clássica da inovação tradicional, em que se parte de várias ideias e conhecimentos que são desenvolvidos para originar a inovação, e o processo é semelhante a um funil, pois muitas das descobertas geradas não são levadas adiante e, por isso, podem ser descartadas, comercializadas ou se tornarem base de outros projetos, da mesma forma em que, às vezes, a organização adquire conhecimento a fim de realizar a inovação. Essas interações com o ambiente são representadas pelas setas e mostram que, apesar de a inovação de negócio não ocorrer apenas na empresa, esta ainda é quem direciona todo o processo.
A partir da representação da inovação tradicional, buscou-se elaborar uma figura para a IS que evidenciasse as diferenças entre elas (Figura 9). Na inovação social, as ideias geradas no início do processo buscam promover a melhoria da qualidade de vida, e, para tal, são selecionadas e desenvolvidas pela organização juntamente com seus stakeholders e potenciais usuários da IS (representado na figura por 3 engrenagens), ou seja, há uma responsabilidade conjunta pela geração e difusão da inovação social (produtos, processos ou práticas são aceitos pela sociedade e replicados por outras organizações). Não há comercialização, mas, sim, troca de ideias, tecnologias e conhecimentos gerados/utilizados no processo.
Fonte: elaborado pela autora a partir da revisão de literatura
Figura 9- Processo simplificado de inovação social.
Inclusão social Qualidade de vida Promover o bem-estar social sustentável Conhecimento/experiência Bem-estar social Práticas que podem
ser replicadas por outras organizações Ideias Tecnologia Org. com objetivo social (ONG, empresa social, RSC) Usuário IS Stakehol ders
Embora o intuito dessa seção tenha sido o de ressaltar as diferenças entre inovação social e inovação tradicional, na prática, há evidentes interseções entre esses dois conjuntos de inovação (BIGNETTI, 2011), sendo que a inovação tradicional é uma fonte de melhoria de tecnologias ligadas à fabricação, e a inovação social tem grande contribuição na evolução das estruturas sociais e substituição de políticas e instituições inadequadas aos problemas sociais (HUDDART, 2012).
A maior contribuição, ao evidenciar as diferenças (objetivo, valores, processo, stakeholders, métricas e proteção do conhecimento), é demonstrar que “a gestão da inovação social se distingue da gestão tecnológica e sua condução requer modelos distintos dos tradicionais desenvolvidos para a gestão tecnológica” (BIGNETTI, 2011, p. 7), e que as políticas de inovação tradicionais, concebidas para a inovação empresarial, não podem ser simplesmente aplicadas à inovação social (BORZAGA; BODINI 2012).