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4. SONUÇLAR

4.1. Fourier transform IR(FT-IR) spektroskopi sonuçları

4.4.3. Limon Serisi

As críticas da imprensa à popularização e à licenciosidade dos folguedos de carnaval eram acompanhadas por uma visão idílica, nostálgica dos festejos do final do século XIX: a falência e o desencanto com as então atuais festas carnavalescas eram flagrantes. Era como se, já que não tínhamos Esmeralda e Venezianos, não tínhamos carnaval. As outras formas de se comemorar a festas não eram apreciadas, eram vistas como algo indigno de Porto Alegre. Deste modo, os antigos atores eram sempre lembrados, muitas vezes de uma forma superestimada. Vejamos a nota abaixo:

Bons tempos aqueles, bons tempos em que o Carnaval apareceu. E por isso mesmo ele se aclimatou e desenvolveu rapidamente em nosso meio. Nos anos subseqüentes, o Carnaval teve uma carreira ascensional e triunfante. A cidade toda se empavesava, alcatifava e arriava de flamas, flores e galas, para recebê-lo e festejá-lo. Eram dias de indescritível regozijo popular: de todos os pontos circunvizinhos, de Pelotas e Rio Grande mesmo, acudiam forasteiros, a ver para crer, como S. Tomé, o que de fantástico e surpreendente lhes chegava a notícia sobre nossas extraordinárias festas carnavalescas. O que é verdade é que nelas, a mais meticulosa e fina expressão de graça e bom gosto corria parelha com a maior riqueza e pompa.

Então, o Carnaval aqui tocava o seu apogeu, pompeava mesmo, deslumbrava mesmo... (...)”116

Saudosistamente, o colunista do Correio do Povo relembrava o que era para ele

os “bons tempos”, tempo em que nasceram Esmeralda e Venezianos e que surgira o

Carnaval, pois como vimos anteriormente, até a criação das sociedades carnavalescas, esta data era festejada através do entrudo e é somente após seu surgimento é que se tem

o “Carnaval”. Segundo ele, a festa era tão extraordinária, que empolgava não só os

moradores da cidade – que se revestiam de flores, de luz e de pompa – como atraía visitantes de outras, pois era repleta de encanto, luxo e esplendor. Todos esperavam e se preparavam para a festa promovida pelas sociedades carnavalescas, já que “aquilo é que

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eram festas carnavalescas”117

, pois, como salienta o autor, era uma festa onde haveria graça, bom gosto, riqueza e pompa. Leiamos o diálogo entre dois comentadores do carnaval:

- Lembras-te do tempo dos Venezianos, da Esmeralda e da Germânia? Aquilo é que eram festas carnavalescas!

- Pois sim. Mas já passaram. Delas só resta a lembrança, junto a umas lembranças tristes, de algumas falências e de algumas famílias arruinadas... Depois, não eram aquelas festas verdadeiramente populares. Eram festas de meia dúzia de perdulários, feitas para embasbacar as massas. O povo só se divertia vendo os outros se divertirem. E nem isso: estes mesmos não se divertiam, gastavam, eis tudo. O carnaval era então uma revista de mostra de luxo, de ostentação... 118

Desta vez, outra visão nos foi apresentada. Apesar de também acreditar na superioridade do carnaval de outrora, concordando com seu interlocutor de que aquilo sim é que era carnaval, o folhetinista afirma que ele faz parte do passado, pois tanto Esmeralda e Venezianos, quanto as famílias que as compunham, haviam falido. Além disso, ele igualmente argumenta que tais festas não eram para todos, a não ser para aqueles que podiam gastar e pagar pelo luxo e pela ostentação de então. O povo participava apenas assistindo. Todavia, tal argumento é também criticado no momento seguinte:

- Não diga isso, não diga! A Esmeralda, por exemplo, era composta, em sua maioria de moços relativamente pobres: empregados públicos, estudantes, intelectuais... E operavam-se verdadeiros milagres no terreno financeiro! Do que se era perdulário, era de idéias, era de espírito, era de pilhéria, era de crítica que, às vezes doía...119

Como ricos e gastadores apenas os venezianos foram identificados. Esmeraldinos eram esbanjadores de graça e espírito, pois, no que tange às finanças, tinham que operar milagres. Vemos, portanto, que, nesta rememoração das antigas sociedades, a composição social delas também foi lembrada. Venezianos eram identificados como pertencentes ao escol mais abastado da cidade, enquanto esmeraldinos seriam mais modestos, os filhos do funcionalismo:

Quem te viu e quem te vê! Bem se poderia aplicar esta escarninha frase a S. Excia. O Sr. Carnaval. O que foi ele nesta cidade!(...)

Os Venezianos, filhos do comércio, nascendo como sob um sólio, com toda riqueza, todo luxo (...). A Esmeralda, aparecendo simples,

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Correio do Povo, 25 de fevereiro de 1906. 118

Correio do Povo, 25 de fevereiro de 1906. 119

51 modestamente preparada para a festa, como a filha do funcionalismo público, nesse tempo modesto e trabalhador (...)120.

Novamente o tom de nostalgia está presente: lembrando o que havia sido o carnaval e no que ele se tornara. Neste findar de século, a posição mais modesta de esmeraldinos era utilizada como argumento de não diferenciação social do carnaval de outrora: não eram só os ricos que participavam da festa; esmeraldinos, mesmo não pertencendo às camadas mais abastadas, também promoviam um bonito festejo. A decadência do carnaval atual residiria, portanto, em outros fatores.

Bons tempos, bons tempos em que todos se divertiam franca e confiantemente, porque todos se respeitavam e prezavam. O povo saia em peso à rua, e dava-se, como é natural, à promiscuidade das classes no grande ajuntamento, sem que ninguém ultrapassasse as raias da conveniência e do decoro. Então os rapazes ainda não tinham por delicado e fino dirigir graçolas às moças, nem se adiantarem indiretas às senhoras. Ninguém, pelo simples gosto de por em evidência a sua falta de educação, se lembrava de ridicularizar e insultar os desconhecidos que encontrava, quanto mais de promover uma desordem, somente para a satisfação do desejo de promovê- la121.

O problema do carnaval passara então a ser identificado como a falta de decência e recato. Os rapazes, no tempo das sociedades, sabiam se portar diante das moças e não havia o desejo de criar pura e simples confusão. Quando os festejos eram protagonizados por Esmeralda e Venezianos, que serviam de exemplo para o carnaval, todos se respeitavam. A decadência das festas não residia, segundo o cronista, na classe social de quem participava e sim no modo como ela era feita: com desordem, sem respeito e falta de compostura.

Tal rememoração utiliza-se, novamente, de uma saudosa ideia do carnaval de antigamente. Ao relembrar os antigos carnavais, onde – segundo o folhetinista – todos se respeitavam e se divertiam, esqueceu-se das muitas polêmicas e confusões que, naquela época, também ocorreram, como mostraremos adiante. A festa de outrora era sempre lembrada com entusiasmo e admiração. Vejamos a citação do jornal Correio do

Povo:

Em Porto Alegre, havia antigamente grande barulho, pelo Carnaval. Hoje... tudo passou, e pensa a gente que, em vez de festa, assiste um funeral!

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Correio do Povo, 18 de fevereiro de 1896. 121

52 Noutros Tempos, rapazes estouvados

faziam rir, à força de chalaça. Agora... fazem rir, os mascarados, à força de não terem mesmo graça! 122

A festa de agora não teria mais encanto. Com seus mascarados, o que se promoveria era mesmo o enterro do carnaval. Graça havia era antigamente, quando os ousados esmeraldinos e venezianos saíam às ruas, desfilando e fazendo gracejos às

moças, promovendo grande barulho nos dias de carnaval. Para Lazzari, “com o

desaparecimento dos antigos protagonistas, a opinião generalizada na imprensa era de que assistia-se não só a decadência dos bons costumes como a perda de uma identidade

da festa”123 .

O que o colunista afirmava é que, com o fim das sociedades, o carnaval perdera a graça, o encantamento. Chegando a compará-lo a um funeral! Não haveria mais a

presença dos ‘rapazes estouvados’ que compunham as duas tradicionais sociedades carnavalescas e que faziam rir a todos com suas ‘chalaças’. Para muitos cronistas, se

não fosse a celebração de esmeraldinos e venezianos, que representava uma “festa de

espírito”, a “alegria de uma população”, não deveríamos aceitar as outras formas de

comemoração, pois estas eram rudes e abomináveis, eram um indesejado carnaval. Com o fim das tradicionais sociedades carnavalescas, a visão passada pela imprensa era a de um carnaval decepcionante, decadente, sem nada de novo, nem de bom. Predominava, em suas páginas, “um sentimento de frustração diante do carnaval, uma ideia de decadência e degeneração de um sentido original da festa e uma saudade

de um passado idealizado, de uma tradição desaparecida”124

. Este tempo idealizado era o tempo de Esmeralda e Venezianos, que para eles, era lembrado como a única expressão verdadeira do Carnaval. A festa de agora, sem a presença destas agremiações,

teria perdido seu real sentido, virara, simplesmente, um ‘funeral’.

Benzer Belgeler