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Limana Gelen Tehlikeli Madde Taşıyan Gemilerin ve Limana Karayolu ile Tehlikeli Madde Taşıyan

6. OPERASYONEL HUSUSLAR

6.7. Limana Gelen Tehlikeli Madde Taşıyan Gemilerin ve Limana Karayolu ile Tehlikeli Madde Taşıyan

O tom aparentemente inconcluso do conceito, em Euclydes, não implicava uma indefinição casual: está, como outras noções, coligado ao processo de elaboração intelectual que o autor realiza ao longo de sua vida, como escritor e pensador. A civilização, aqui, é tanto a sociedade européia como os conjuntos nela inspirados, que, de um modo ou de outro, reordenavam seu espírito cultural. Aparece nos limiares de sua construção simbólica – a obra completa Os sertões –, como um artefato estético/literário gerador de reflexão: Euclydes “costurava” a ciência – e muitos dos preconceitos – de seu tempo ao amplo conjunto de fatores singulares da realidade brasileira. No entanto, mais do que produzir um misto de ensaio analítico, amparado pela ciência positivista ou uma peça de Literatura realista, o autor cruzou as classificações para expor suas experiências e impressões como testemunha da Guerra de Canudos, dando à idéia de

civilização uma marcação de processo histórico não necessariamente positiva, não absolutamente pacificadora, hostil às existências das populações sertanejas:

Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido. Não a conhecemos. Não podíamos conhecê-la. (...) essas psicoses epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares como anacronismos palmares, contrastes inevitáveis na evolução desigual dos povos, patentes sobretudo quando um largo movimento civilizador lhes impele vigorosamente as camadas superiores (idem, ibidem: 483, grifo meu).

O “movimento civilizador” de que nos fala o escritor brasileiro é uma viagem de mudança drástica, que ele muitas vezes interpreta como incontrolável, evolutiva, mas que não encara como ingênua, livre de conflitos e danos sociais; uma civilização-guerra, contada como uma história de guerra da civilização contra o mundo do Diferente.

Euclydes da Cunha encarna parte dos antecedentes intelectuais dessa representação social. Ele mescla preconceitos e eurocentrismos, mas esboça também uma crítica ao mundo não-brasileiro quando fala de civilização no Brasil. Ele uniu seus conhecimentos militares às suas leituras de filósofos e pesquisadores para traçar, nos textos, os contornos de uma civilização que representava, de muitas formas, mudança.

Os etnocentrismos que esse projeto continha não anulavam de todo sua preocupação política com a construção do mundo brasileiro que estava ali também. Como republicano, como militar, como possível cientista, Euclydes da Cunha participava da constituição de um campo que se ia orquestrando – o das ciências sociais no país. Classificado das mais diferentes maneiras pela crítica de seu tempo – e pela crítica do nosso –, este escritor atuou na divulgação de um conceito que era uma dissecação da idéia. Ao proferir tantas vezes civilização, ele a pôs em xeque, diante de si e de seus leitores. Terminaria por dizer que a campanha contra o arraial de Canudos tinha seus crimes. E que a civilização, tão cara a ele e aos seus companheiros teóricos, operava através de “mercenários” – inconscientes ou não – para desempenhar, de forma violenta, seu papel: atender a interesses elaborados além-mar. Sem necessária compreensão de todos os “precedentes” que sua obra criaria, Euclydes fundou um discurso de oposições fundamentais. Ordenou, assim, bases para muitas das questões levantadas no iniciante século XX, em suas décadas por vir.

No que diz respeito à participação desse conceito no entendimento da mudança social do autor, três pontos precisam ser ratificados. Em primeiro lugar, a civilização é um meio e um fim de mudança. Euclydes interpretava o evento da Guerra no sertão como uma encarnação de interesses externos e como estruturação social. Em segundo lugar, sua leitura crítica presente em Os sertões destitui boa parte de sua defesa apaixonada da República como portadora de “boas novas” políticas. Sua experiência como testemunha das atrocidades do conflito aparentemente reordenou sua leitura, de um defensor convicto de um sistema político para um analista técnico de uma história mais impessoal, menos controlável. Por fim – ao menos por enquanto, para os propósitos de nossa discussão – a civilização, como contraponto do universo sertanejo, é tratada, por Euclydes, como um dos agentes dos processos de alteração estrutural de uma sociedade antes isolada.

Como meio e fim de mudança, o conceito de civilização é entrecortado por uma história da terra sertaneja que abriga a resistência e a violência do ambiente em uma associação perene, não somente como metáfora literária. Euclydes registra esse mundo- sertão, oposição grave aos núcleos supostamente controlados e estáveis das cidades, atraindo o leitor para imagens que retratam os pólos opostos dessa realidade: um sertão ainda por decifrar, limiar geográfico das culturas do litoral, mas ainda parte a se conquistar da unidade republicana. Em Os sertões temos a teatralização da narrativa movimentada de tal forma a expor uma estética crua do mundo sertanejo. É nesse “reflexo invertido” que o autor enfatiza a civilização como um estertor das mudanças políticas que ele toma como inadiáveis. Ela instrumentaliza a violência do Exército porque dá a ele condições técnicas e uma história de estratégias importadas. Ao mesmo tempo ela é uma busca dos envolvidos que, inconscientes ou não, reproduzem o que o autor parece considerar um movimento de natureza – mas um movimento de natureza cujos efeitos não necessariamente se combinam com a natureza singular do mundo abordado. O sertão e o sertanejo são tratados como isolamentos quase místicos, frutos de conexões históricas e de surpresas étnicas (mais uma vez, para Euclydes). Esse isolamento, que permitiu um desenvolvimento próprio dos habitantes desse cenário, coloca contingências ao projeto civilizador. Sua fatalidade, enquanto lei natural, é transformada em um processo que encontra na resistência uma nova significação. Seus conteúdos, contudo – suas possibilidades finais –, são desconhecidas para Euclydes. Ele

se furta, sutilmente a desenhar o quadro do resultado – não inerentemente positivo – do encontro dessa civilização em marcha com os limites da civilização enquanto meta.

O encontro do próprio Euclydes com a Guerra e com o mundo-sertão redimensionou sua leitura, no sentido de repensar a República nos contextos do acontecimento. Pela primeira vez, Euclydes percebeu os símbolos republicanos encarnados em uma luta de difícil definição. No quadro da narrativa, ele testemunhou a complexidade de se estabelecer os “vilões” da história, na medida em que ela acontecia. Essa percepção por um lado permitiu que o autor se observasse, se mencionasse no texto. Sua presença nas reportagens é, aos poucos, mais firme, mais incisiva. Por fim, ao alcançar a escrita de Os sertões, Euclydes da Cunha retoma essas impressões, passados cinco anos. E as retoma dando ao livro o caráter de recapitulação: a obra não é uma reconstrução de seus artigos; é, precisamente, uma continuidade de seu pensamento, obscurecida pela necessidade do autor de produzir algo de novo. Procurando compensar a perda da atualidade da questão, o escritor dá ao tomo uma imagem de épico armado de críticas à violência de uma Campanha militar – críticas dirigidas a ele mesmo e a sua defesa ampla e longa da República de 1897. Os sertões, nesse sentido, incorporam a mudança no espírito da escrita – não como uma alteração metafísica ou teológica, mas como uma modificação de perspectiva que repercute no texto na forma de uma imagem de civilização dotada de brutalidade.

A civilização como agente está presente no Exército republicano, mas ainda se faz atuante nas discussões que se fazem do conflito. Ela é sujeito da mudança estrutural no momento em que provoca impactos no mundo do qual Canudos é um representante. Euclydes nos fala dos movimentos de tropas, da circulação de soldados feridos, de jagunços prisioneiros e da destruição vívida que o arraial experimentou diante de armamentos modernos (MELLO, 2007). O sertão baiano, descrito pelo próprio Euclydes como lócus de uma vivência violenta por si mesma – uma história preenchida por saques, mortes e guerrilhas –, acaba por mudar dentro e fora do texto. A “Tróia de taipa” como Euclydes ora apresenta Canudos, é destruída e com ela um extenso antecedente de conjunturas. Findada a resistência representada por Antônio Conselheiro, terá o sertão dos senhores de terras recuperado a antiga ordem de dependências, mandos e servidões (QUEIROZ, 1976). Essa realidade recuperada não resultará, ao que parece, na civilização republicana positivista na região. Reproduzirá sim, por décadas mais, formas tradicionais de mando (idem, ibidem). Contudo, na

linguagem de Euclydes, o fim de Antônio Conselheiro – cujo corpo é exumado e o crânio estudado pela ciência do momento – revela uma vitória por fim racional: a violência civilizatória ao menos “desbancaria”, para o autor, a insanidade do fanatismo que o isolamento evocara.

Estas ligações e formas da noção, incorporam a civilização como uma expressão pragmática no discurso. Ela não tem variação de significado auto-excludente; ou seja: suas implicações em momentos variados da exposição euclydiana não representam, necessariamente, ordens de sentido que se negam. Ela é usada, pelo autor, como uma ponte que interliga disposições políticas e motivações teóricas. Euclydes da Cunha, tomando de empréstimo uma idéia difundida e reconhecida em um determinado corpo discursivo – o campo intelectual de sua época –, a instrumentaliza para explicar e unificar divisões: sua leitura do mundo sertanejo e de sua história é amparada pela “civilização” como um jogo de proposições em meio ao qual “civilizado” é uma marca de distinção, tanto quanto uma determinação temporal; um projeto para as culturas que Euclydes entende como quase extintas – culturas representadas pelo sertanejo.