2. LİTERATÜR ÖZETİ
2.7. Likenlerin Tanımlanması
Não obstante as minhas tentativas iniciais de escapar da minha tendência a dar centralidade às UPPs na análise do campo burocrático do Estado nas favelas - principalmente porque acreditava que esta minha tendência referia-se a uma forte influência do discurso midiático-, os moradores colocavam e recolocavam as UPPs no centro das minhas análises. Quando questionados a respeito das ações de representantes do Estado ou órgãos públicos nas favelas, os moradores nunca deixaram de mencionar as UPPs em primeiro lugar, e muitas vezes suas falas restringiam-se a elas. E ao me narrar o histórico de ações do Estado nas favelas, as UPPs eram novamente figura de destaque: apareciam como um “divisor de águas”, falava-se em um “antes” e em um “depois” das UPPs: “É um marco, né. A pré-pacificação e a pós-pacificação” (Representante da UPP Social 1, Geral).
Pode-se considerar que as favelas, conforme retratadas aqui, configuraram-se historicamente como espaços às margens do Estado. Das e Poole (2004) ao apresentarem a sua noção de “margens do Estado”, lembram que hoje existem lugares que estão sempre às margens do que é assumido de forma inquestionável como território sob controle do Estado e no qual ele tem legitimidade. Uma das possíveis formas de se compreender as margens do Estado discutidas pelas autoras é pensá-las como periferias, como lugares naturais de pessoas consideradas insuficientemente socializadas na lei, ou como espaços onde o Estado não tem conseguido instaurar sua ordem, o exercício da sua autoridade. Asad (2004) lembra que as margens do Estado estão onde está a incerteza perversa da lei e na arbitrariedade da autoridade. Nesses espaços, o Estado “is constantly refounding its mode of order and lawmaking” 16(DAS e POOLE, 2004, p. 8).
As margens do Estado, segundo Nelson (2004), costumam ser retratadas como locais que ainda não foram mapeados e compreendidos, e por isso são pensados “more through myth and stereotype than accurate information, full of often contradictory figures resisting state rationality”17 (NELSON, 2004, p. 126). As pessoas não têm sobrenomes, os impostos não são formalmente coletados, e os habitantes não são considerados dignos de confiança (NELSON, 2004, p. 126).
Mas isto não significa que todos os tipos de margens sejam homogêneos ou inertes (DAS E POOLE, 2004). Ao contrário, Das e Poole (2004) utilizam o caráter indeterminado
16 Tradução livre: está constantemente refundando seus modos de ordem e de lesgislador
17 Tradução livre: mais por meio do mito e do estereótipo do que por meio de informações acuradas, cheio de
116 das margens para desconstruir a ideia de que o Estado é sólido. Segundo Asad (2004), as margens fazem mostrar como o poder do Estado é sempre instável, e lembra que “the state`s margins can be viewed differently precisely because ‘the state’ it self is not a fixed object18” (ASAD, 2004, p. 279).
O momento histórico anterior às UPPs parecia refletir bem a noção de “margens do Estado” explicitada por Das e Poole (2004), e não era à toa que os moradores referiam-se a este período como “a época dos meninos”, demonstrando que até então quem dominava eram os traficantes, chamados carinhosamente de “meninos”, ilustrando a intrínseca relação com a lógica distinta da favela enquanto campo. As falas comparativas relatavam-me um período marcado pelo domínio do tráfico nos espaços das favelas, e referiam-se às “leis do tráfico” para me explicar como funcionava a favela. Em sua pesquisa em favelas sem UPPs, dominadas pelo tráfico, Grillo (2013) mostrou como o tráfico mimetiza o Estado e reivindica o uso legítimo da violência dentro das favelas. A autora argumenta que embora esta “mimesis” da forma-Estado leve à noção de “poder paralelo”, com frequência evocada para retratar o tráfico como um Estado dentro do Estado, a relação entre tráfico e Estado se dá não de forma “paralela”, mas sim “tangencial”, tendo em vista que o tráfico, ao mesmo tempo que copia e tende a se opor ao Estado, também se relaciona com ele em muitas situações, como no caso dos “arregos”19, por exemplo.
Embora não exatamente como um “poder paralelo”, a partir de sua “mimesis” do Estado, o tráfico possui algumas “recomendações gerais de conduta” (GRILLO, 2013, p. 109), que podem ser reconhecidas nas favelas por meio do uso de expressões como “lei do tráfico” ou “lei do morro” pelos seus habitantes. Grillo (2013) mostra que embora os moradores refiram-se a estas “recomendações” como “leis do tráfico”, estas são de baixa previsibilidade, são um controle social arbitrário, e por isso se distanciam das “leis do Estado”. Conforme mostrou a autora, não há um conjunto claro de regras a serem seguidas ou previsões de sanções específicas para cada tipo de infração. Entretanto, ainda assim, os moradores referem-se a elas como leis ditadas pelo tráfico, que embora não muito específicas, como as leis do Estado, mesmo de forma arbitrária são usadas para guiar as ações dos moradores. Ao usar “lei do tráfico” ou “lei do morro” como sinônimos, revelam o domínio do tráfico sobre o morro.
18 Tradução livre: as margens do Estado podem ser vistas de formas diferentes precisamente porque “o Estado”
ele mesmo não é um objeto fixo
19 Arrego é a forma como moradores e policiais referem-se aos subornos, uma quantia de dinheiro que os
117 Uma das mais conhecidas “leis do tráfico”, ditadas na “época dos meninos”, dizia respeito à divisão territorial, por líderes de facções rivais, que impediam a circulação dos moradores em comunidades rivais, onde eram chamados de “alemãos”. Relacionamentos amorosos com pessoas da facção rival também eram proibidos e sujeitos a punições. No mesmo sentido, os moradores relatavam proibições em termos das cores das roupas. Em comunidades dominadas por facções rivais ao Comando Vermelho, por exemplo, era proibido a circulação com roupas da cor vermelha. Havia, ainda, segundo o relato dos moradores, uma cobrança dos traficantes pelos serviços de TV à cabo e internet, por exemplo. Além disso, o tráfico cobrava pela emissão de documentos, que só eram válidos dentro da dinâmica da favela. Conforme me explicou uma moradora:
E tinha uma cobrança de carteirinha de dinheiro ela fazia, coisa assim e os moradores eram obrigados a participar daquilo. Se você vai fazer um documento era um documento de 500 reais para cima. Uma folha, por exemplo, se você quer vender tua casa, tua casa não é registrada na prefeitura, que que eles faziam? Aí a Associação vem e te dá um papel dizendo que você vendeu aquela casa, 500 reais (Morador 28, favela da zona Norte).
As “leis do tráfico” também se desenrolavam na realização de “tribunais do tráfico” como forma de resolução de conflitos nas favelas, ilustrando mais uma transferência metafórica do campo de Estado para o campo da favela. Grillo (2013, p. 104) explica que a expressão “tribunais do tráfico” é utilizada pela imprensa carioca para designar “as práticas de justiçamento ilegal cometidas por traficantes”. Para a autora este termo vai ao encontro da ideia de que o tráfico configura-se enquanto um poder paralelo, “afinal, nada mais coerente do que um Estado ter os seus tribunais” (GRILLO, 2013, p. 104). Grillo (2013) argumenta, entretanto, que embora existam realmente processos de resolução de litígios, organizados por “bandidos”, que com muita frequência envolvem o uso da força, não se tratam propriamente de “tribunais do tráfico”, tendo em vista que o formato de tribunal é, na visão da autora, inadequado para expressar os conflitos que são resolvidos entre os “bandidos”, onde não há leis, juízes, ou tribunais, ou uma sequência clara de acusação, defesa, sentença e execução da pena. Grillo (2013, p. 104) assim explica o seu funcionamento: conflitos de diferentes naturezas, envolvendo “bandidos” ou “trabalhadores”, são encaminhados ao “dono do morro” e desencadeiam os “desenrolos”, ou processos coletivos de mediação de disputas, por meio de procedimentos orais, que visam o encontro de uma solução, “amparando-se no poder do tráfico como instância mediadora”.
Embora entenda-se aqui a argumentação da autora de que estes processos de “desenrolo” não são propriamente tribunais, e não possam ser retratados por uma única
118 imagem simplificada, continuarei usando aqui a expressão “tribunal do tráfico” para me referir a esta forma de “solução de conflitos”, tendo em vista que este termo foi utilizado pelos moradores ao longo de minha pesquisa de campo, para me relatar a maneira como os conflitos eram “desenrolados” com o “dono do morro”. Os moradores referiam-se aos “tribunais do tráfico” para me explicar que “na época dos meninos” os traficantes interferiam na resolução de conflitos, ainda que estas fossem brigas entre vizinhos ou entre marido e mulher, por meio dos famosos “desenrolos”, conforme descritos por Grillo (2013): “tudo o que acontecia, se fosse uma briga dentro de casa eles se metiam, eles que julgavam, eles que achavam que tinham que ser feito” (Morador 22, Favela da zona Norte).
Embora as “leis do tráfico” e os seus “tribunais” não sigam os padrões exatos das leis do Estado e dos tribunais do Estado, de forma que o tráfico não possa ser pensado exatamente como um “poder paralelo”, conforme mostrou Grillo (2013), os moradores atribuíam aos traficantes um poder semelhante ao do Estado, e os colocavam neste lugar do Estado, conforme revela o uso de vocabulários semelhantes para se referir a um e a outro. Os moradores reconheciam que legitimavam este papel do tráfico: “a própria comunidade em vez de procurar o poder público, procurava o tráfico” (Morador 12, Favela da zona Norte).
Como o tráfico parecia ocupar um lugar semelhante ao do Estado dentro da favela, embora não de forma paralela, mas tangencial, com o suporte dos moradores, o próprio Estado, quando se voltava para a realização de qualquer ação dentro das favelas, fazia-o de forma subordinada ao tráfico. De acordo com os relatos dos moradores, o Estado parecia agir nas favelas subordinado à “lei do tráfico”: “O Estado sempre pediu licença pro tráfico pra poder entrar aqui. Qualquer obra que o Estado fosse fazer aqui, que a prefeitura fosse fazer aqui, sempre pediu licença ao tráfico” (Morador 11, Favela da zona Norte). E a subordinação do Estado ao tráfico era tanta, que este exigia a prestação de certos serviços, de forma que em alguns casos a comunidade era melhor atendida naquela época do que o que é hoje:
E, o mais engraçado, é que antigamente com o tráfico, se a gente tivesse um problema... A bomba queimou. O traficante chamava o responsável da CEDAE aqui, [do Rocha], a bomba no dia seguinte tava no lugar. Hoje se a bomba queimar é uma dificuldade danada. (...) O serviço do Estado na época do tráfico funcionava melhor do que funciona hoje. Por incrível que pareça. Tá? Isso eu to te falando CEDAE, os serviços prestados pelo Estado. E hoje tá complicado (Morador 11, Favela da zona Norte).
Embora a favela funcionasse de acordo com as “leis do tráfico”, os moradores me relatavam a presença de alguns agentes do Estado na favela já neste período anterior às UPPs.
119 Agentes como a Comlurb, o PAC ou a Light já atuavam nas favelas, porém de forma bastante diferente do que o que eu pude presenciar, no período “depois das UPPs”.
A Comlurb, por exemplo, agia nas favelas por meio da figura do gari comunitário: “a gente tinha a Comlurb, os garis comunitários, né? Que aí era da própria comunidade. Então os garis pegavam, recolhiam o lixo, faziam; a comunidade ficou bem mais limpa” (Morador 6, Favela da zona Norte). Entretanto, em concomitância com o período de ingresso das UPPs nas favelas, o projeto dos garis comunitário foi encerrado e estes foram substituídos por funcionários devidamente concursados da Comlurb. Os representantes da Comlurb explicam que os garis comunitários eram pessoas da comunidade selecionadas pela própria associação de moradores, e insinuam que havia uma forte interferência do tráfico nesta seleção. Há uns seis anos atrás, houve uma intervenção do Ministério Público nas situações dos garis comunitários, que passou a exigir que apenas trabalhassem em nome da Comlurb, funcionários que tivessem sido aprovados em concurso público. Um representante da Comlurb, em entrevista, revelou de forma direta a interferência do tráfico em seu trabalho, em período anterior às UPPs:
Até porque os garis comunitários, em algumas comunidades, não trabalhavam. Se tivesse vinte, só trabalhavam cinco, seis. Porque a maioria era tudo parente de... Do poder paralelo. Então, a gente se sujeitava a muita coisa antes disso (Representante da Comlurb 1, Favela da zona Norte).
E completa: “Eu já tive reunião com traficantes pra pedir que os garis trabalhassem, funcionassem. Na época do Borel já tive lá quase meia noite duas vezes pra conversar com traficante pra pedir a ele pra fazer com que os garis trabalhassem” (Representante da Comlurb 1, Favela da zona Norte).
O PAC também já estava inserido em algumas favelas antes do processo de “pacificação”, e algumas mudanças em sua forma de funcionamento foram relatadas por seus representantes. A entrada do PAC na favela da zona Sul, naquele momento dominada pelo tráfico de drogas, se deu por meio de adaptações às leis daqueles que naquele período eram os “donos do morro”. Conforme explica um representante do PAC, para o ingresso do programa houve negociações diretas com o tráfico de drogas:
Eu ouvia, o seguinte, eu ouvi lá atrás quando a [empresa de construção] entrou que eu não era fiscal da obra, não estava envolvido com o PAC nem com nada, estava fazendo o tal levantamento do CIEP, que a firma exigiu 30% do valor da obra para poder deixar a empresa entrar lá no morro para poder trabalhar. Aí não tem condição e tal e não sei o que, não sei o que foi conversado, mas de repente a obra começou a trabalhar e até então a comunidade não era pacificada, mas logo um tempo depois, ocorreu a pacificação e aí o
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negócio andou direitinho. O que foi conversado eu não sei, não tenho a menor ideia, deve ter rolado alguma coisa (Representante do PAC 3, Favela da zona Sul).
A mesma informação a respeito de negociações entre o PAC e o tráfico é apontada pelos moradores: “O PAC chegou, teve que sentar com os meninos, entende, teve que dar uma parcela do quinhão para eles” (Morador 15, Favela da zona Sul).
Uma vez dentro da favela, ainda sem UPP, os funcionários do PAC trabalhavam “de acordo com as leis do morro” (Representante do PAC 3, Favela da zona Sul). Apenas podiam circular acompanhados de moradores, usavam uniformes e crachás para facilitar a identificação, tinham horários restritos de atuação e a circulação pelo morro era controlada pelo tráfico. Assim narraram os funcionários que acompanharam o programa desde o início.
A própria Light que, hoje, conseguiu regularizar boa parte dos gatos das favelas “pacificadas”, antes tinha que se submeter “às leis do morro”. De acordo com os moradores, a Light, muitas vezes, era obrigada a obedecer ao tráfico, e fornecer energia mesmo a famílias que não pagavam por ela:
Porque antes, por exemplo, a Light, quando era gato, às vezes a família assim, a pessoa não tinha nem o que comer, não pagava luz. Aí a Light subia para cortar. Quando eles cortavam, a bandidagem esperava eles, e aí falava assim ‘ó, volta e vai ligar a luz, porque aquela senhora não tem nem o que comer com os filhos dela’. Mas eu achava isso certo, sabe? Era, ‘você só sai daqui depois de você ligar a luz daquela senhora porque ela não tem nem o que comer, muito menos dar de comer aos filhos. Ela não tem dinheiro para ficar pagando luz’. Aí às vezes a pessoa não tinha nada, uma televisão, uma geladeira, a Light ia lá cortar. E cortava mesmo. E a bandidagem mandava, aí eles voltavam, aí eles pararam de entrar. Aí a Light começou a perder feio, né? (Morador 6, Favela da zona Norte).
Mais complexa era a relação da polícia com as favelas, que quando não se rendiam ao tráfico por meio dos “arregos”, mantinham uma relação que se dava por meio das temidas incursões policiais, sempre acompanhadas de trocas de tiros: “Agora em relação à polícia, eles chegavam atirando, então tinha troca de tiro, era isso que é o problema, né?” (Morador 6, Favela da zona Norte). Os policiais também lembravam desse passado em que a relação da polícia com a favela se dava com base no combate: “Os policiais militares eles estavam acostumados aqui quando a gente subia o morro era só tiro, porrada e bomba, era tiro para tudo quanto é lado” (Representante da UPP 8, Favela da zona Sul).
Como esta forma de intervenção policial claramente não era bem sucedida, a Polícia Militar desenvolveu o GPAE, que teve sua primeira unidade inaugurada no ano 2000. Embora parecesse se basear em uma lógica semelhante à das UPPs, que partia da instalação de uma unidade no interior das favelas, como forma de retomar o território, o GPAE não contou com
121 o grande investimento do Estado com que hoje contam as UPPs. As comparações entre o GPAE e as UPPs são constantes, tanto entre moradores quanto entre policiais, mas é unânime a crença de que o GPAE não foi bem sucedido, e muitos temem que as UPPs “terminem como o GPAE”. A falta de credibilidade do programa é evidenciada na fala dos moradores:
E o GEPAE e nada era a mesma coisa. Os cara ficavam dentro da casinhola deles, lá, os meninos falavam vamos, fica aí, não precisa acontecer nada. Os meninos passava armado, na casinhola, dentro da casinhola mesmo, na casinhola deles e fazia o que bem entendiam, sabe, matavam, queimavam, esquartejavam, faziam o que bem entendia, então, a polícia aí não fazia nada (Morador 15, Favela da zona Sul).
“A época dos meninos” descrita pelos moradores, e reforçada por pesquisas anteriores, é caracterizado pelo monopólio do uso legítimo da violência do tráfico de drogas, que, muito além de seu poder armado, realizava ações em prol de sua legitimidade, como a compra de gás ou de remédios para moradores que estivessem precisando ou a distribuição de brinquedos às crianças na época do natal. O vocabulário usado pelos moradores para se referir ao tráfico e às suas ações também são reveladores dessa legitimidade. A própria expressão “meninos” usada para se referir a eles revela algum afeto dos moradores aos traficantes, afeto este reforçado por comentários que, diversas vezes, acompanhavam a expressão: os moradores costumavam lembrar que viram os “meninos” crescer, que eles eram “cria da comunidade”, e que, apesar de tudo, eles os respeitavam – “No morro eles respeitavam o morador” (Morador 17, Favela da zona Norte). Além disso, muitos termos usados na sociedade em geral para referir-se ao Estado enquanto detentor do monopólio da violência, eram utilizados nas favelas para se referir ao tráfico, como as “leis do tráfico”, os “tribunais do tráfico”, que embora não funcionassem exatamente da mesma forma que no Estado, eram tratados de forma similar pelos moradores.
Nesse sentido, os agentes do campo burocrático do Estado presentes nas favelas neste período eram incapazes de impor às favelas as leis do Estado, e eles mesmos precisavam agir dentro das “leis do tráfico” para que tivessem a sua presença autorizada naquele território. Ainda que alguns agentes do Estado já estivessem presentes na favela, elas ainda eram espaços às margens do Estado, na medida em que o Estado não impunha a sua lei, mas, isto sim, agia de acordo com as “leis do morro”.
Para compreender com mais clareza o que mudou, afinal, e por que as UPPs assumiam este lugar central de “divisor de águas”, passei a ouvir com mais cuidado as falas que me narravam a origem das UPPs. O programa havia sido criado com uma finalidade específica: retomar o poder nos territórios de favelas, fortemente estimulado por “uma insatisfação do
122 Estado diante da impotência de não poder fazer nada dentro de determinadas áreas” (Representante da UPP 4, Favela da zona Sul) ou, em outras palavras, resgatar o seu monopólio do uso legítimo da violência num território, até então, fora do seu alcance real.
Como uma forma de minimização do domínio do tráfico sobre os territórios, e de ignorar que exista a possibilidade de se criar uma lei alternativa à do Estado, os policiais referiam-se às favelas no período anterior às UPPs como uma “terra sem leis”. Reforçavam