2.4. Lif ve Nanolif Üretim Teknikleri
2.4.1. Lif üretim teknikleri
É em 1992 que se inicia a narrativa de Predadores. Publicado em 2005, esse romance, assim como A geração da utopia, percorre 30 anos da história de Angola, de 1974 a 2004; sua organização não cronológica faz com que a cena de abertura transcorra em 1992. É inevitável não estabelecer uma ligação sequencial entre os dois romances, uma vez que, além da questão das datas, nas últimas páginas de Geração da Utopia, Aníbal descreve os amigos ricos da seguinte forma: “(...) o Malongo e o Vítor são os neo-burgueses, os que enriqueceram ou que pensam em enriquecer à sombra do Estado e têm comportamento de novos-ricos, com tudo de trágico e ridículo que essa palavra comporta.” (GDU, p. 365)
42
Em Predadores, Pepetela faz justamente uma análise dessa nova classe surgida em Angola, focando a narrativa principalmente em Vladimiro Caposso que, apesar de se envolver com o partido revolucionário quando jovem, segue um rumo diferente, oportunista, procura uma vida de enriquecimento ilícito. O romance aborda, segundo o próprio Pepetela,
a ascensão de uma personagem-tipo, alguém que representa um grupo social que começa a aparecer a partir da independência. São os últimos 30 anos da vida de Vladimiro Caposso. Ele é o pretexto para contar a história do país. Mas não tive essa preocupação, até porque normalmente nem me lembro de datas. Este livro surge por eu achar que era tempo de tratar o aparecimento e ascensão de uma nova burguesia. (PEPETELA apud CHAVES; MACÊDO, 2009, p. 44).
Predadores continua, assim, no ponto em que a narrativa de A geração da
utopia é interrompida e aprofunda o perfil da nova elite burguesa, incubida da
administração do país depois da independência. Se a Geração da utopia fornece uma descrição de personagens os quais lutaram pelo ideal utópico de independência e conta ainda o que houve com eles depois, Predadores continua a partir dali, mas focando principalmente nos personagens corruptos. Eles são representados principalmente por Caposso, porém outros personagens secundários também assumem o papel de predadores, como os filhos de Caposso.
Como já dito antes, o narrador faz saltos no tempo conforme a necessidade de contar, não seguindo uma ordem cronológica rígida, linear. O primeiro capítulo passa-se em 1992, quando Caposso chega ao apartamento de sua amante para flagrar o que seu fiel “homem de mão” (PRE, p. 18) havia descoberto: sua amante o traia com outro homem. No flagrante, atira no casal sem que os amantes se deem conta de sua presença. Vladimiro tira proveito de uma manifestação que estava ocorrendo na rua para acobertar o assassinato, pois o barulho vindo de fora abafaria os tiros:
Na rua acontecia uma passeata política, com muitos carros cheios de gente agitando bandeiras rubro-negras, cartazes, jovens de camisolas vermelhas e punhos erguidos, gritando slogans e canções políticas. Faltava uma semana para as eleições. (PRE, p. 15)
Trata-se das primeiras eleições democráticas no país, que ocorreriam durante uma breve suspensão dos conflitos armados. Vladimiro serve-se do momento político
43
para encobrir o crime passional, ao deixar um bilhete atribuindo o assassinato à UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola.
A partir desse primeiro episódio, o assassinato dos amantes Maria Madalena e Toninho, os leitores são apresentados a Vladimiro Caposso: um homem impiedoso, facilmente capaz de castigar quem atravessa seu caminho, bem como de não medir esforços para conseguir o desejado. O bilhete deixado por Caposso para incriminar a UNITA dizia: “Ninguém trai a UNITA sem deixar a vida”. Tal ato revela o caráter oportunista do personagem, que se aproveita da conjuntura nacional para acertar contas, bem como se aproveita das condições de seu país para crescer financeiramente.
É interessante observar o espaço de tempo que o romance percorre, de 1974 a 2004, um intervalo bastante significativo para a história de Angola. Em 1974, termina a Guerra de Independência e, em 1975, ano da independência, tem início a Guerra Civil angolana, entre o MPLA e a UNITA, que só terminará em 2002, após o assassinato do líder da UNITA, Jonas Savimbi. Antes de estabelecer-se como partido político, a UNITA era uma força militar pela libertação do país do jugo colonialista e lutara ao lado do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola. Após a independência, o MPLA assume o poder, alçando Agostinho Neto à presidência. A UNITA inicia, então, uma guerra civil contra esse governo, que dura quase 30 anos, de 1975 a 2002.
O entrecho de Predadores abrange todo o período da disputa pelo controle do novo governo, época na qual se desenrola a história do personagem, com o qual, de certa forma, se confunde.
Com o objetivo de melhor situar as obras de Chinua Achebe e Pepetela, vamos, a seguir, delinear elementos dos contextos nos quais surgiram as primeiras manifestações literárias, na Nigéria e em Angola, evocando o nome dos autores responsáveis por essas manifestações literárias e que estão na origem do longo processo de construção de sistemas literários em diversos países do continente africano.
44
2
Literatura e política: o escritor, a nação e o romance
a descolonização é simplesmente a substituição de uma ‘espécie’ de homens por outra ‘espécie’ de homens. (Frantz Fanon, 1991, p. 65)30
Para melhor compreender o contexto de escrita dos quatro romances, vamos tratar da inserção de Achebe e Pepetela na história da gênese do gênero romanesco no continente africano, levando em conta as implicações histórico-sociais e políticas de tal evento. Faremos um histórico da formação das literaturas nigerianas e angolanas, escritas em inglês e em português, trataremos das formas de transculturação africana e investigaremos a questão da escolha da língua.
Em seguida, tratamos das elites intelectuais e políticas que assumiram o poder nas ex-colônias, fazendo uma revisão das teorias pós-coloniais, para investigarmos até que ponto elas se encaixam no estudo aqui proposto. Começamos, então, nossa análise das elites africanas nos romances, investigando as relações entre a classe intelectual, a literatura e o povo, para, na sequência, tratarmos do lugar “desconfortável” em que se encontra o escritor africano das gerações de Achebe e Pepetela.