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15. BECAUSE THE LIBRARY IS LICENSED FREE OF CHARGE, THERE IS NO WARRANTY FOR THE LIBRARY, TO THE

ovos).

Sobre a concorrência entre essas unidades lexicais, observamos que fouet e batedor de arame, considerando o número de ocorrências, se equiparam em termos de presença nas modalidades, pois os casos ocorrem nos dois corpora. Há ainda batedor de

ovos e batedor de clara e fouet manual (versus “fouet da batedeira”), o que pode ser um

caso de indefinição quanto à lexia mais estável a ser empregada na linguagem. De qualquer modo, é interessante observar como as variantes coexistem, mesmo denotando instabilidade na denominação de um mesmo referente.

Também é interessante notar que, em oposição à natureza restrita do livro impresso, a linguagem de especialidade em ambiente automático se preserva, em sua

essência, como campo de um saber específico, bem como em sua função. A linguagem culinária, veiculada por um gif, por uma receita legendada durante a exposição de um vídeo do chef, ou por uma sequência de imagens móveis com legendas do passo a passo do modo de preparo, preserva seu propósito instrucional, técnico e explicativo, mesmo nesse ambiente e em condições de comunicação, oral e escrita, simultânea, em tempo real muitas vezes. O gênero textual escrito da culinária é marcado por uma hierarquia que se traduz pela sequência de ingredientes, acompanhada pelo modo de preparo, além da finalidade de se obter o resultado final esperado, isto é, o prato. Embora possam existir algumas alterações nessa ordem hierárquica, a preparação de qualquer prato requer o respeito a uma ordenação de etapas, o que se constata ao longo deste estudo, seja pela pesquisa realizada sobre as fontes de informações, seja pelos próprios dados que os corpora apresentam.

Essas perspectivas reforçam nossa preocupação em compreender melhor como a comunicação culinária, que extrapola a referência do texto culinário escrito, vem se expandindo para conseguir seu objetivo principal, que é alcançar seu público, preservando e remodelando o próprio saber que vincula. As receitas dos livros impressos, tidas como textos culinários por excelência, são adaptadas a um formato e a uma concepção de produção textual editorial que deve atender à demanda de um público mais restrito e mais específico.

Como prova disso, um artigo recente da revista TechTudo25 veiculou, em 2016, a lista dos itens mais procurados por usuários da rede via Google, com a entrada “Como fazer” e, das dez buscas mais frequentes no Brasil, quatro se referiam à Culinária: crepioca, bolo, pão caseiro e bolo de pote. Essa informação atesta sobre o

25 Disponível no seguinte endereço: <http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2016/12/google-revela- top-10-de-buscas-mais-populares-para-como-fazer-de-2016.html>. Acesso em: 27 jul. 2017.

interesse da população geral de empregar a Internet como uma fonte para aprimorar práticas culinárias ou descobrir novos “fazeres e modos” na cozinha.

Apesar da Internet não ser acessível indistintamente a todas as camadas da população, é inquestionável que seu acesso impõe menor dificuldade se comparado ao acesso a conteúdos impressos, onerosos e restritos a livrarias ou espaços urbanos, comuns em regiões urbanizadas e centrais para esse comércio. Hoje, sabe-se, a expansão da comunicação via satélite tem ganhado um impulso importante graças à comunicação móvel e portátil.

Sendo assim, torna-se relevante pensar em que condições os conteúdos culinários são apresentados ao público interessado, do mesmo modo que é essencial tratar dos aspectos específicos dessa linguagem quando abordada como objeto de estudo. É esta a preocupação, como se revelará ao longo dos próximos capítulos, do presente trabalho.

3.2 TEXTO CULINÁRIO PARA ALÉM DA RECEITA

Ainda que não houvesse, em nosso estudo, uma preocupação primeira de se pensar a tipologia dos gêneros textuais e gêneros orais, essa reflexão tangenciou a pesquisa que realizamos sobre corpora da língua oral em Português. Por isso, inserimos em nosso estudo algumas notas sobre a nomenclatura de gêneros orais relacionadas aos critérios que emprestaríamos à composição do nosso corpus oral.

Segundo Bilger e Cappeau (2004), os gêneros da modalidade oral devem ser classificados de acordo com os aspectos linguísticos que os constituem, e não segundo fatores comunicativos extralinguísticos, como apontamos em nossa pesquisa. Significa que aspectos linguísticos devem ser considerados para que um texto oral da

dramaturgia seja assim definido, assim como uma entrevista se defina deste modo, não somente pela sua natureza funcional. Os autores apresentam uma multiplicidade de gêneros orais que mereceria ser observada com maior detalhamento e cuidado em seus traços sintáticos e lexicais que consolidam a tipologia para além de aspectos relacionados à finalidade ou ao meio em que ela é propagada.

A título de ilustração, faz-se menção ao “discurso oficial”, nomenclatura de comunicado empregada pelo(a) porta-voz de um chefe de Estado, por exemplo, ou em uma entrevista. Para classificar essas produções, há uma tipologia baseada em situações comunicativas em que “tarefas linguageiras” – ou tâches langagères, na língua dos autores – definem a função do ato de fala. A essas tarefas compreende-se explicar, contar, descrever ou anunciar, ou seja, referências consideravelmente generalizantes.

Para se refinar melhor os dados de uma pesquisa voltada a uma tipologia minuciosa, faz-se necessário se apoiar em situations de parole – ou “atos de fala” – ,em que traços linguísticos possam caracterizar usos da oralidade, como advogam Bilger e Cappeau (2004). Analisando sujeitos pronominais e sujeitos lexicais, assim como o emprego do pronome on e do pronome nous, eventos presentes tanto na escrita como no oral, Bilger e Cappeau (2004, p. 18) apontam para as sutilezas que não demarcam uma “fronteira”, mas sim revelam preferências ou conveniências entre as modalidades. Da mesma forma, os tempos verbais constituem objeto de estudo nesta pesquisa, que abordou o uso de estruturas da língua segundo as modalidades.

Considerando a questão central do presente estudo – a variação denominativa num universo de linguagem culinária oral e escrita –, a primeira decisão tomada foi no sentido de definir parâmetros para o banco de dados que deveria ser produzido, isto é, quais aspectos seriam relevantes para que o corpus pudesse conter os

elementos que permitiriam observar as modalidades da linguagem de especialidade por meios de suas unidades lexicais simples e compostas.

No que tange ao tema da Culinária, as fontes de dados são de volume expressivo devido à velocidade espantosa com que se produz conteúdo acessível em rede sobre ele. A linguagem culinária extrapola o campo instrucional das receitas, e todo o conjunto de material acessível pela Internet exigiu a elaboração de critérios para se efetuar o recorte adequado. Embora seja praticamente impossível pensar a Culinária dissociada do léxico do universo da alimentação – alimentos, modos de preparo, propriedades nutricionais etc. –, todo o repertório que é, em alguma medida, pertinente e relevante, deveria ser limitado.

As escolhas das receitas e do seu preparo se justificam por se tratar de uma espécie de protótipo da comunicação instrucional culinária, enquanto outros registros se constituem com outras funções e, portanto, com características discursivas e linguísticas diversas das visadas nesta pesquisa. Como a receita é tida como texto culinário por excelência, uma ideia de padronização tem predominado no debate acadêmico ao longo do tempo. Há uma ideia de padronização desse gênero textual evidenciada quando da seleção de textos para compilação na maioria das pesquisas que se debruçam sobre esse recorte linguístico. No entanto, o que é, a priori, um critério metodológico, pode se revelar fator redutor dos estudos e mais uma barreira para o olhar sobre a comunicação culinária. Há um aspecto histórico e temporal que está relacionado ao que é considerado texto culinário, como exploramos na sequência.

Uma receita extraída do livro de Gilberto Freyre, Açúcar, da época do Brasil da sociedade do engenho no século XVI (ODORISSIO, 2011, p. 31), traz a função do gênero textual, ainda que sua exposição ou formatação não sejam a das receitas de livros impressos mais recentemente.

Nessa receita, há um ‘corpo de texto’ único, sem que o título esteja acompanhado de uma lista de ingredientes. Não há ruptura textual entre título, ingredientes, preparação e informações complementares tais como os textos culinários apresentam, distintamente, nos dias atuais, seja em livros impressos, seja na Web, como se pode observar na sua reprodução, em sequência: