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Genel Devlet Ar-Ge Harcaması, 2016

LİTERATÜR TARAMASI

Para Jules Verne, escritor que começa a ter seu nome celebrado junto ao público em razão do sucesso da sua primeira publicação, a recusa radical do manuscrito de Paris

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au XXe siècle, romance caracterizado como impublicável por parte do editor, pode ser caracterizado como uma queda cruel. O que designamos como queda diz repeito ao fato de se tratar de um romance laudativo ao Romantismo e, portanto, de clara tentantiva de filiação a esta estética. A tentativa de sua publicação foi radicalmente abortada pelo editor. Embora Verne se valha dos acontecimentos científicos ocorridos naquele momento como o desenvolvimento da eletricidade e o advento dos motores a ar, para escrever esse romance, é o tom de crítica, desprezo e de censura contra a “Ciência” e suas “incursões nas artes” que sobressai na trama.

Antes de tratarmos das representações artísticas românticas em detrimento do excesso de cientificismo caro a Hetzel e àquele momento histórico, cabe-nos um tratamento um pouco mais extenso da carta de Hetzel cujo julgamento não sanciona Paris au XXe siècle. O discurso de Pierre-Jules Hetzel nessa carta de quatro pequenas páginas escritas em 1864 visa justificar o problema da recusa do manuscrito, negociar com Jules Verne e persuadi-lo de que o livro não devia ser publicado:

Mon cher Verne, je donnerais je ne sais quoi pour n’avoir pas à vous écrire aujourd’hui. Vous avez entrepris une tâche impossible – et pas

plus que vos devanciers dans des choses analogues – vous n’êtes pas parvenu à la mener à bien. C’est à cent pieds au-dessous de Cinq semaines en ballon. [...] C’est du petit journal et sur un sujet qui n’est pas heureux.

[...] Dieu sait pourtant que si votre livre avait été seulement un quart

réussi j’étais décidé à le trouver bon tout à fait.233

Com um discurso persuasivo e ao mesmo tempo incisivo para afirmar com certa violência a sua oposição radical ao romance, Hetzel parece usar uma argumentação um tanto sedutora através da qual mostra seu poder de editor de vencer resistências, atribuindo a uma coletividade a legitimidade do seu bom senso: “Enfin, c’est raté, raté! et cent mille hommes me diraient le contraire que je les enverrais promener. Malheureusement cent mille hommes parleraient comme moi.234

Essa caução de “cem mil homens” não confina a retórica de Hetzel em uma lógica da exclusão, que se limitaria a dar a Jules Verne um lugar no banco dos réus nesse “processo” de Paris au XXe siècle. O esforço do discurso de sedução se nota também nos estratagemas que o editor evoca para sensibilizar e convencer Verne:

Je ne vois rien à louer dans votre affaire, rien à louer franchement. Je suis désolé, désolé de ce que je dois vous écrire là. Je regarderai comme un désastre pour votre nom la publication de votre travail. Cela donnerait à voir que le Ballon est un heureux raccroc. Moi qui ai le Capitaine

233 HETZEL in VERNE, 1999, p. 25. 234 HETZEL in VERNE, 1999, p. 25.

129 Hatteras je sais que le raccroc c’est cette chose manquée au contraire mais le public ne le saurait pas.235

Prevenindo Verne do desastre para seu “nome”, Hetzel evoca habilmente o que diz repeito ao essencial para o ego de um escritor que deseja ser publicado, lido e reconhecido: é através do nome que se dá a singularidade do escritor, pela assinatura que se efetua a identidade do escritor. Hetzel compara explicitamente “o trabalho” de Verne àquele de Cinq semaines en ballon ou ao do Capitaine Hatteras reunidos em um mesmo conjunto de obras de sucesso, do qual só pode ser excluído essa “coisa falha” que é Paris au XXe siècle. Pelo seu critério de classificação, o editor traça uma linha que separa o bom do ruim, o publicável do impublicável, a fim de explicar a Jules Verne que a reputação de uma assinatura engaja uma responsabilidade em relação à unidade de sua imagem de autor ainda em construção no campo e em fixação nas representações dos leitores. O falso dilema sobre o “feliz acaso” pressiona o escritor a refletir sobre a ruptura que a publicação desse manuscrito poderia causar na continuidade da construção de seu “nome” no campo trazendo a dúvida para o público, confiante na promessa que foi Cinq semaines en ballon. Quaisquer que tivessem sido as intenções de Jules Verne, com os dois manuscritos que Hetzel tinha em mãos, ao mesmo tempo, naquele momento, o escritor lhe oferece a possibilidade de julgar se ele tem as aptidões necessárias para escrever romances científicos com talento. Entre Paris au XXe

siècle e o Capitaine Hatteras, o editor não hesita em sacrificar a exceção pela regra, o “acaso” pela garantia de uma estética romanesca em harmonia com o ideal de savant-écrivain aguardado por Hetzel e Macé para o lançamento do Magasin d’Éducation et de Récréation.

O discurso persuasivo de Hetzel indica, sobretudo, uma censura. Do ponto de vista do ato de recusa desse manuscrito, não há dúvida que o editor aplica uma censura prévia como qualquer editor que usa da sua prerrogativa profissional para recusar ou aceitar a inscrição de um título no catálogo da sua editora em nome do seu papel comercial de intermediário no mercado dos bens simbólicos. Com o caso de Paris au XXe siècle, essa censura tem também um valor simbólico, em função do registro crítico que o romance tem em relação à situação de controle exercida pelo poder imperial autoritário sobre a profissão de editor cujo trabalho poderia ser visto como prejudicial à autoridade do Estado. Esse aspecto político do romance poderia ter sido considerado como um fator de menor importância por Hetzel se ele não tivesse observado a fraqueza literária de Jules

235 HETZEL in VERNE, 1999, p. 25.

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Verne tanto no elogio que faz à sua editora,236 como na crítica dos mecanismos industriais

e financeiros de Napoleão III.237

Nas relações entre um autor e um editor tem de existir uma razão determinante para se tomar a decisão de uma censura que rompa com o circuito da comunicação, perturbando o consenso do contrato. Essa questão, que envolve legitimidade, está no cerne dos argumentos de Hetzel sobre a “mediocridade” de Jules Verne em Paris au XXe siècle:

Vous êtes dans le médiocre là, jusqu’aux cheveux. Il n’y a pas de vraie originalité, il n’y a pas d’esprit, il n’y a pas en un mot ce qui peut faire

une carrière de six mois à un livre. Il y a de quoi vous faire un tort irréparable.238

Depois do nome, a originalidade é o outro elemento importante para ascender ao status de autor. É o que o editor elenca com a sua pena, a fim de apontar a falta de estilo do manuscrito de Verne. A originalidade deveria ser algo, portanto, que diferenciasse Jules Verne da massa de literatos de sua época. A autêntica originalidade é definida pelo editor quando lista as características essenciais para se obter um “bom livro” na Notice sur la vie et les ouvrages de Florian, redigida por Stahl, pseudônimo de Hetzel, em 1842. As referências à “simplicidade” e à “inteligência” retornam como critérios de avaliação da escrita - fora, contudo, do contexto de situação argumentativa de origem -, em prol de uma literatura para todas as idades. Implícito, o modelo das Fables de Florian sustenta o discurso de legitimação de censura que permite Hetzel destacar os valores primordiais que marcam a criatividade literária que faltam no manuscrito de Verne, impedindo, por esse motivo, qualquer chance de “carreira” para esse livro.

Para convencer Verne do fracasso que a publicação do manuscrito poderia ter, Hetzel termina sua carta de recusa de maneira que o escritor tome consciência da reflexão que não fez sobre as exigências do tipo de ficção que tentou escrever. Hetzel traz para Verne a consciência da posição incipiente que ocupa no campo literário, naquele momento de sua trajetória: “Vous n’êtes pas mûr pour ce livre-là, vous le referez dans vingt ans.”239

236Aludimos aqui ao capitulo X do romance em que Jules Verne elogia a editora Hetzel dizendo que “ela

editava muito cuidadosamente seus livros”. VERNE, Jules. Paris au XXe siècle. Paris: Hachette, 1995, p. 121.

237 Referimo-nos ao registro panfletário de todo o romance mas, sobretudo, ao capítulo I em que critica, entre outros, a maneira como a Educação é tratada como uma operação industrial – para citar um exemplo. Cf. VERNE, 1995, p. 12.

238 HETZEL in VERNE, 1999, p. 25. 239 HETZEL in VERNE, 1999, p. 26.

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A inadequação ao gênero e ao tema são características sublinhadas pelo editor para justificar a recusa da publicação. Excluindo da sua argumentação qualquer possibilidade de melhora ou reescrita do texto, o editor conta com o choque que essa censura total poderia causar no escritor para que este note as incoerências na sua ambição em escrever dentro do gênero de romance futurista, para usar uma terminologia ulterior. É dessa maneira que a crítica de Hetzel constrói para Verne as condições de possibilidade de uma criação romancesca encerrada nos limites da literatura didática para a juventude. Essas condições são confirmadas na carta de resposta de Jules Verne, datada de 25 de abril de 1864:

Que vous me connaîtrez mal si vous pensiez un instant que votre lettre

n’a pas été la bienvenue. Je vous affirme que j’en tiendrai compte car toutes vos observations sont justes. [...] D’ailleurs, je vais vous dévoiler

toute ma pensée, mon cher Hetzel; je ne tiens pas énormément à être un arrangeur de faits; par conséquent je serai toujours prêt à modifier pour

le bien général. Ce que je voudrais devenir avant tout, c’est un écrivain,

louable ambition que vous approuverez pleinement.240

Cabe-nos verificar o que causou tal repulsa a Hetzel para que o editor recusasse a publicação do manuscrito e quais são os dados que informam sobre o projeto estético abortado do escritor.