Primeiro é de salientar um grande pessimismo por parte da Sociedade civil especialmente por parte das gerações mais novas que não acreditam que futuramente poderá haver mudanças em relação a boa governação, democracia e desenvolvimento. Têm uma convicção que dificilmente se desvanecerá ao considerarem que o sistema implantado já é bastante rígido, sem hipóteses de se inverter, mesmo chegando a admitir que há um ciclo vicioso de que os críticos quando estão isentos de quaisquer responsabilidades governamentais ao ascenderem aqueles cargos acabam por fazer o mesmo que os seus antecessores. Remetendo esta questão para uma análise filosófica da política ou do direito, estamos perante uma concessão Roussauneana, da sociedade política, quando este considera que a sociedade corrompe o homem, ou seja, podemos
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Manuela Franco, op, cit.
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De acordo com os dados da PNUD (Indicadores do Desenvolvimento Humano), os países africanos que aparecem neste Ranking, ocupam lugares ou posições relativamente baixos, com a excepção de alguns países como Cabo Verde, Egipto, África do Sul, Marrocos, São Tomé e Príncipe, Angola, Kénia, Sudão, Republica da Tanzânia, Ghana, Mauritânia, Uganda, Nigéria etc., o grupo de desenvolvimento humano baixo é ocupado quase na totalidade pelos países africanos (Togo, Mali, Benim, Cõte D´ Voire, Zãmbia, Senegal, Ruanda, Gâmbia, Libéria, Etiópia, Moçambique, Guiné-Bissau, Burundi, Chad, Republica Democrática do Congo, Burkina Faso, Mali, Serra Leoa, Níger, etc.).
ser bons, mas vivendo numa sociedade má, transformamo-nos em maus.98 Na verdade, esta é a concepção è a visão geral dos jovens e da maioria dos africanos em relação á evolução do processo político do continente, ou seja, por mais que sejamos bons, sempre acabamos por serem corrompidas por uma sociedade corrupta, quer queiramos ou não, temos que agir de acordo com a “Lei da corrupção”, desmando em relação às autoridades e muitas outras faltas de virtudes, que constituem a essência da sociedade africana.
Rousseau, na sua Filosofia política, tenta encontrar uma solução para equacionar o problema dos homens que eram bons, mas que acabaram por se desvirtuar, esta solução tinha que passar pelo pacto social. Será no caso africano necessário “um novo pacto social” do tipo Rousseauneano ou Hobbeseano99 para equacionar os problemas de ordem política e social com que se depara o Continente? Não queremos enveredar por este caminho complexo e espinhoso, mas também não podemos fugir a realidade, é necessário repensar o processo político africano, para se poder encontrar um novo paradigma e novas vicissitudes de Estados modernos, para que se possa inverter a situação, por isso, vamos apresentar algumas pistas e sugestões.
A primeira sugestão, é a imperatividade da renovação do processo político africano, esta renovação terá que passar pela integração de novas gerações devidamente qualificadas para assegurar os destinos do continente, evitando aquela tendência de líderes que permanecem no poder há décadas. No entanto, chegar esta nova fase não é um processo fácil, porque o principal obstáculo, consiste no afastar os líderes corruptos que já permanecem no poder há vários anos, e como já referimos muitos deles renovam os seus mandatos por via eleitoral fraudulenta e falsificada, pois dominam o sistema e os mecanismos do poder. Perante este cenário alguns admitem, que estes só abandonam o poder pela via revolucionária, ora por esta via também não é viável, tendo em conta as consequências que o mesmo trará face as características complexas que caracterizam o continente africano, como cenário de guerras civis. Por isso há que seguir um percurso que conduza a uma mudança gradual e progressiva do processo.
Mas também é evidente que de uma forma genérica perante as contestações e críticas em relação aos líderes africanos, é o momento de os mesmos mudarem os seus comportamentos e atitudes, ou seja, o que está em causa, é a falta de “carácter”. Isto
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ROUSSEAU, Jean - Jacques, Contracto Social, Lisboa, Editorial Presença, 1973, p. 10 e Segs
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vem mostrando, que a ideia do “ Socialismo africano”, que já fazemos referência numa das alíneas anteriores, nunca funcionou verdadeiramente em África. Aproveitaram em nome do Socialismo Marxista (na qual os seus expoentes máximos, foram Karl Marx e Hengels100), para implantarem a ditadura e a corrupção, por esta razão, analisando a evolução do espectro político constitucional africano, concordamos com Pedro Borges Graça, quando defende, “ Que do lado dos africanos, o discurso marxista encontrou desde logo um clima favorável de implantação no terreno político. As transições democráticas do poder colonial começaram a falhar pouco tempo depois das independências na viragem dos anos 50 -60, por várias razões como a Guerra Fria, as lutas internas pelo poder, a falta de preparação nas novas classes dirigentes, a cultura política tradicional de liderança das elites e a corrupção desmedida imediatamente instalada.”101 Essa realidade mantém-se na quase totalidade dos Estados africanos, tornando deste modo urgente invertê-la, para que tal aconteça tem que haver uma mudança de atitudes e comportamentos dos dirigentes políticos, em certos casos também da sociedade civil.
Também perante a fragilidade ou vulnerabilidade, com que muitos estados africanos se deparam face ao crime organizado internacional, como o narcotráfico, tráfico de seres humanos, é fundamental que haja uma maior cooperação internacional no âmbito do apoio técnico-militar para dar respostas a estes desafios do século.
A nível interno é necessária uma progressiva desmilitarização do poder político, que ainda constitui uma realidade em muitos Estados africanos. Para que haja uma boa democracia, é necessário um controlo dos militares e dos polícias por dirigentes eleitos,102 este controlo não significa a politização dos mesmos, mas sim uma subordinação a qualquer grupo de dirigentes eleitos independentemente das ideologias políticas, étnicas e culturais.
É necessário uma maior coesão entre os lideres políticos, para evitar casos que tais divergências redundem conflitos armados, para isso, os lideres terão que levar em conta que, ao colocarem os interesses pessoais e políticos, acima dos interesses nacionais, estão a por em causa a estabilidade política e social. O ideal é uma maior
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MARX, Karl, Friedrich Engels, The Communist Manifesto, Penguin Classics, S/D
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Pedro Borges Graça, A Construção da Nação em África, Coimbra, Edições Almedina, 2005, p. 81
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interiorização dos princípios pacíficos de resolverem os litígios políticos e não o recurso as armas ou assassinatos políticos.
Para encerarmos a problemática do desenvolvimento em África, terminaremos com uma abordagem crítica, de um dos autores mais sonantes, sobre a globalização e o desenvolvimento. Peter Singer, na sua análise sobre a globalização, numa perspectiva ética, mostra até que ponto o comportamento dos países mais avançados do mundo, afectam os países em vias de desenvolvimento, nomeadamente nas questões relacionadas com as alterações climáticas, a globalização económica que não propiciem o desenvolvimento equilibrado entre outros aspectos. Perante esta realidade, assiste-se uma falta de ética dos países mais avançados perante o fenómeno da globalização na perspectiva do autor, de uma forma quase que complexa ou subentendida, o autor considera, que há uma obrigação, dos países desenvolvidos ajudarem os países em vias de desenvolvimento. É indiscutível, a responsabilidade dos países desenvolvidos, para com os países mais pobres, que antecede o período da globalização, se levamos em conta, o passado histórico (o efeito da colonização), mas neste caso também é bom dizer, que a ética, não pode ser analisado apenas em relação aos países desenvolvidos, mas também em relação aos países em vias de desenvolvimento, é necessário uma postura ética, por parte dos seus representantes políticos. Se os princípios éticos funcionar em ambos os casos, haverá muito progresso, por exemplo, erradicação do neo-colonialismo e redução substancial da pobreza.
CAPITULO II
Cabo Verde: as ilhas e os homens
“A nossa pertença a um espaço arquipelágico, atlântico, peri-africano, saheliano, mesmo quando, no dia-a-dia, disso perdemos a consciência – limita-nos, amplia-nos o leque das possibilidades e realização histórica.”103
Ao contrário da maioria dos trabalhos de investigação, nas mais diversas temáticas relacionadas com Cabo Verde que se limitam apenas a fazer uma caracterização breve e sumária, nós vamos optar por um critério diferente. Uma caracterização profunda nos mais variados domínios (político, económico, demográfico, geográfico, etc.), cujo objectivo principal é encontrar as géneses e motivos subjacentes e condicionantes da política externa cabo-verdiana. Por isso, para conciliar os nossos propósitos da investigação, vamos dedicar um capitulo exclusivamente á caracterização geral de Cabo Verde e à sua interferência na política externa. Deste modo, podemos evidenciar os condicionantes geopolíticos e geoeconómico da política externa cabo- verdiana e como Cabo Verde actuou no plano externo com o evoluir dos tempos.
Por outro lado, tendo em conta que também nos vamos centrar, nas análises das políticas e teorias do desenvolvimento, a caracterização interna de um país nas vertentes acima supracitadas, enquadra-se nos factores endógenos do desenvolvimento, o que pressupõe uma análise pormenorizada das mesmas.
Só a partir destas análises será possível verificar o ponto da situação em que Cabo Verde se encontra, numa perspectiva comparada com a realidade africana, abrangendo aspectos tais como: educacionais, demográficos, político-constitucionais, geográficos.
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