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2. LİTERATÜR ARAŞTIRMAS
Algumas obras gnósticas se apropriaram da temática do Mito dos Anjos Vigilantes. Nesse caso, o enredo do mito é adaptado ao contexto mítico-gnóstico, contudo, a apropriação gnóstica cobre os temas tradicionais do mito, a saber: relacionamento com as mulheres, procriação de filhos, magia, astrologia, adivinhação, feitiçaria, poções, idolatria, o derramamento de sangue, e condenação de práticas religiosas pagãs; à guisa de exemplo, citaremos as obras Pistis Sophia, Tratado sobre a origem do mundo e o Apócrifo de João. Vejamos!
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Dispolnível em: <http://www.newadvent.org/fathers/07012.htm>, acesso em: 22 abril 2007. Tradução nossa.
2.4.1. Pistis Sophia88
Pistis Sophia é uma importante obra Gnóstico, possivelmente redigida em meados do terceiro século d.C. O cerne da obra é a divulgação dos ensinamentos gnósticos de Jesus aos seus discípulos, incluindo as mulheres que o acompanhavam. O caráter gnóstico do texto também é revelado pelas estruturas e hierarquias celestiais complexas, tão comuns em textos deste ramo do cristianismo primitivo.
Nesta obra, há pelo menos três referências explícitas ao Mito dos Vigilantes. A primeira encontra-se do Livro I, capítulo 15, e a segunda do capítulo 18. Por serem ambas muito semelhantes, optamos por citar apenas a segunda, pois apresenta mais detalhes sobre o Mito dos Vigilantes. Assim, no capítulo 18 lê-se:
Então, disse Maria ao Salvador: “Meu Senhor, a palavra que nos disseste: ‘Aquele que tenha ouvidos para ouvir, deixai-o ouvir’, Assim disseste para que compreendamos a palavra que havia dito. Ouça, por isso, meu Senhor, é que eu posso falar com franqueza.”
“A palavra que disseste: ‘Retirei um terço do poder dos Regentes de todos os Aeons e mudei o seu destino e a sua esfera sobre as quais eles dominam, para que se a raça humana os invocar nos mistérios [magia, feitiçaria, bruxaria, porções, etc] – aqueles que os Anjos transgressores lhes ensinaram para levar
a cabo os seus propósitos malignos e ilícitos no mistério das suas feitiçarias’ –.
Para que de agora em diante não logrem em seus ilícitos propósitos, pois Tu lhes retiraste o seu poder e dos adivinhadores e seus consultores e daqueles que dizem, no mundo, aos homens, o que vai suceder, para que eles, a partir deste momento, não saibam como predizer o que vem [...] ” (Pistis Sophia, Livro 1, capítulo 18)89
A terceira referência aos temas do Mito dos Vigilantes encontra-se do Livro I, capítulo 20, onde lê-se:
E ela disse: “Senhor, conseguirão todos os homens que conhecem o Mistério da
Magia de todos os Regentes, de todos os Aeons do Destino e daqueles da esfera
na maneira em que os Anjos transgressores lhes ensinaram; se os invocam nos
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MEAD, George Robert Stowe. Pistis Sophia. 1921. Disponível em <http://gnosis.org/library/pistis- sophia/index.htm>, acesso em 21/05/2009.
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seus mistérios, quer dizer na sua maligna magia, de modo a impedir as boas ações?”
Jesus respondeu e disse a Maria: “Eles não conseguirão como o conseguiram no princípio, porque lhes retirei um terço do seu poder, porém obterão o apoio daqueles que conhecem os Mistérios da Magia do Décimo Terceiro Aeon. E se eles invocam os Mistérios da Magia desses que estão no Aeon Treze, seguramente os obterão, porque não retirei o poder dessa Região, segundo Mandato do Primeiro Mistério.” (Pistis Sophia, Livro 1, capítulo 20)90
Pelo que podemos perceber no texto, há uma grande probabilidade de o autor de Pistis Sophia conhecer a tradição do Mito dos Anjos Vigilantes, pois se refere aos vigilantes como “[mistérios] aqueles que os Anjos transgressores lhes ensinaram para levar a cabo os seus propósitos malignos e ilícitos no mistério das suas feitiçarias”. A recepção do mito se resume aos ensinamentos dos anjos vigilantes concernentes à magia, feitiçaria, mistérios, todos com propósitos ilícitos. Há uma grande preocupação com a evocação da magia e feitiçaria ensinadas pelos anjos. O texto enfatiza que o poder dos anjos agora está atenuado, pois Jesus subtraiu-lhes um terço do poder.
2.4.2. Tratado sobre a origem do mundo
O Tratado sobre a origem do mundo é uma obra gnóstica encontrada entre os achados da biblioteca de Nag Hammadi. A criação e os tempos finais são os temas predominantes no enredo. O texto se apropria da história dos vigilantes com o propósito de associá-la à criação primordial das potestades celestiais, regentes, que outrora foram responsáveis pela emanação do mal no mundo. No códice II, 5 cap. 123,8-1291 lê-se:
Agora, quando os sete regentes foram expulsos de seus céus para a terra, eles fizeram anjos para si, numerosos, demoníacos, para os servir. E os anjos
conduziram a humanidade em muitos tipos de erros e magia e poções e devoção de ídolos e derramamento de sangue e altares e templos e sacrifícios e libações para todos os espíritos da terra, que surgiram pelo consentimento entre
os deuses da injustiça e da justiça, tendo o destino como colaborador deles.
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MEAD, 1921. p. 21-23.
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Nossa citação baseia-se na versão online de On the Origin of the World do projeto The Nag Hammadi Library, disponível em: <http://www.gnosis.org/naghamm/origin.html>, acesso em: 21/05/2009, que por sua vez baseia-se na versão impressa de BETHGE, Hans-Gebhard e LAYTON, Bentley. On the Origin of the World. In: ROBINSON, James M., Ed. The Nag Hammadi Library in English: Definitive Translation of the Gnostic Scriptures. Leiden: Brill Academic Pub, 1978. Tradução e grifo nossos.
Neste tratado, a história dos vigilantes sofre algumas alterações; aqui, não são os anjos que descem dos céus, mas sete regentes que são expulsos dos céus. Na terra criam para si anjos, já com caráter demoníaco, para os servir. Tal como em outros textos cristãos, aqui, o Mito dos Vigilantes serve como explicação etiológica para origem da idolatria, derramamento de sangue, construção de altares e templos, todos para adoração de demônios. Outro tema comum à história dos vigilantes também está presente, a saber: o ensinamento da magia e o preparo de porções.
2.4.3. O Apócrifo de João (Versão Longa)
O Apócrifo de João é mais uma importante obra de caráter gnóstico encontrada na biblioteca de Nag Hammadi. Sua datação é sugerida para meados do segundo século d.C. O enredo da obra concentra-se em torno de revelações entregues por Jesus, ressuscitado, à João, filho de Zebedeu. Grosso modo, esse tratado gnóstico oferece uma descrição bastante clara da criação, da queda e da salvação da humanidade, e para formular suas especulações sobre esses temas, o autor toma os primeiros capítulos de Gênesis como ponto de partida. Daí o interesse do autor no Mito dos Anjos Vigilantes. No códice II,1 cap. 25 lê-se:
E o arconte planejou com seus poderes. Ele enviou seus anjos para às filhas dos
homens, para que eles tomassem algumas delas para si mesmos, e pudessem gerar uma semente, para ser um descanso para eles. E primeiramente eles não
conseguiram, mas quando eles falharam, eles se reuniram novamente e fizeram um outro plano juntos. Eles criaram um espírito falsificado, que se parece com o Espírito que havia descido, com o intuito de poluir as almas através dele.
E os anjos se transformaram de suas aparências para a aparência dos cônjuges delas (das filhas dos homens), preenchendo elas com o espírito da
escuridão, com o qual eles se haviam misturado e com a iniquidade.
Eles trouxeram ouro, prata, um presente, e cobre, e ferro, e metal, e todos os tipos de coisas. E eles conduziram os seres humanos que os haviam seguido
para grandes aborrecimentos, desencaminhando-os em muitos erros.
Os seres humanos envelheceram sem ter divertimento. Eles morreram sem ter encontrado a verdade, e sem conhecer o Deus da verdade. E deste modo, a criação inteira foi escravizada para sempre, desde a fundação do mundo até agora.
E eles tomaram mulheres, e geraram crianças, através da escuridão, de acordo
com a semelhança do seu espírito. E eles fecharam seus corações, e eles se endureceram pela rudeza do espírito falsificado, até hoje. (Códice II,1 cap. 25)92
Neste tratado, a história dos vigilantes é adaptada ao contexto mítico-gnóstico, contudo, ainda é possível percebermos temas tratados em 1 Enoque 6-11. Em nossos grifos destacamos a descida dos anjos; a miscigenação com as mulheres; a geração de filhos híbridos; e o descaminho da humanidade. É interessante notar que o tema sobre os ensinamentos dos anjos é substituído dons materiais: “Eles trouxeram ouro, prata, um presente, e cobre, e ferro, e metal, e todos os tipos de coisas”.