• Sonuç bulunamadı

sta pesquisa foi, pessoalmente, uma experiência enriquecedora, pois revelou realidades até então pouco conhecidas e conflitantes. Costumes adquiridos com anos de residência em Belém-PA, por exemplo, não seriam mais vivenciados na Natal-RN. As lembranças se fizeram presentes nos passeios pela nova capital, até então feitos com um olhar de turista, meio alheio aos problemas detectados, observando apenas belezas e contrastes em permanentes atos de comparações e empíricas constatações. A constante observação da paisagem faz parte do meu lado arquiteta de ser, ora analisando ora apenas usufruindo de tudo o que pode ser apreendido com um olhar.

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Considerando as praças como parte da paisagem da cidade, uma questão foi suscitada: onde estavam os usuários destes espaços públicos? Acostumada à permanentemente freqüentar as praças paraenses, que acomodam grande parte da vivência social urbana da cidade, senti falta, em Natal, da vitalidade dos espaços públicos de minha terra. Após observações de caráter empírico, formulamos uma hipótese para esta indagação: a baixa freqüentação destes espaços públicos deve- se principalmente a aspectos relacionados à qualidade física dos mesmos e à pouca oferta de mobiliário e equipamentos urbanos apropriados.

Tratando-se a praça como um espaço público, onde a coletividade é fator determinante na sua concepção e no tratamento após a sua ocupação, e como palco de variadas dinâmicas sociais, a presente pesquisa levou em conta, como ponto chave, as necessidades e anseios de todos aqueles que usufruem (ou não) destes lugares. Considerou-se que a percepção dos indivíduos pode ser seletiva, quando estes retêm apenas uma parte da paisagem, só conseguindo, então, avaliar pontos isolados dentro de um todo. Há ainda a possibilidade que o processo perceptivo seja

totalitário, quando se percebe o ambiente como um único elemento, sendo capaz de compreendê-lo e analisá-lo como um conjunto.

Na coleta de dados, a aplicação dos questionários mostrou-se eficiente, por ser facilmente assimilada pela população, sobretudo ao fazer uso de uma linguagem acessível, bem próxima do coloquial local, embora sua adaptação tenha exigido grande atenção e tempo.

Já a entrevista, que ocorreu de forma livre, permitiu ao usuário se expressar aberta e informalmente, algumas vezes tendo ocupado um tempo maior de aplicação do que o previsto inicialmente, mas mostrando-se bastante valiosa para o estudo.

A confecção de mapas comportamentais também foi importante, revelando aspectos significativos sobre as formas de apropriação das praças, de seus elementos e dos horários valorizados ou não pelos usuários, o que pode vir a direcionar ações que visem melhorar a utilização destes espaços. A tabulação e cruzamento dos dados obtidos através destes três instrumentos ajudaram a elucidar as questões relativas à pesquisa. De um modo geral constatou-se que os usuários jovens e adultos, que residiam no próprio bairro ou nas localidades vizinhas. As praças que possuem em sua circunvizinhança uma variedade maior de usos e serviços tendem a atrair um número maior de usuários de bairros diferentes, mas que, na maioria das vezes, estão apenas de passagem pelo local. Aquelas áreas onde o uso residencial é predominante, não acomodam tantos usuários de outros bairros, embora sabemos que estes existem em menor quantidade.

A realização de atividades obviamente varia de acordo com aquilo que o espaço tem a oferecer em termos de equipamentos de lazer. Em uma das praças (Pç. AL) a existência de uma quadra polivalente atrai um grande número de usuários para a realização de um lazer ativo, embora a maior parte das pessoas estivesse apenas de passagem. Da mesma forma, a vitalidade e luminosidade desta área também atraem atividades passivas, tais como, ler, namorar e conversar, ou seja, a quadra é um importante atrativo e sua movimentação é fator de segurança para as pessoas.

Em outra praça (Pç Mg), são as mesas e cadeiras de um bar de seu entorno, que atrai vários usuários conferindo vida e movimento ao local. Por se tratar de um entorno mais residencial, mais “fechado” que as demais, esta praça revela um caráter mais privativo, tornando-se “aconchegante”.

Essas evidências nos levam à inferir que tanto aqueles atrativos dispostos na área da praça quanto aqueles distribuídos pelo seu entorno são importantes, uma vez que agregam usuários dando vida ao lugar. É claro que a simples presença de atributos positivos no entorno não é o único fator determinante na valorização de um espaço público, mas estes devem ser considerados e incentivados através de parcerias entre ações públicas e o privadas.

A pesquisa revelou também a consciência dos usuários a respeito da situação atual dos espaços pesquisados. A percepção dos indivíduos abrangeu tanto os elementos distribuídos pela praça, quanto o ambiente como um todo, revelando aspectos que interferem na sua utilização.

Foram mencionados não só atributos relacionados ao conforto do lugar mas também aqueles que privilegiam sua aparência estética, como benfeitorias paisagísticas. No entanto, um certo afeto com o lugar é demonstrado, mesmo quando este não atende completamente às necessidades e anseios dos usuários, já que espaços com deficiências percebidas e mencionadas pelos entrevistados e pela pesquisadora foram avaliados como “bons” lugares. Assim, aqueles espaços que estão em uma situação de abandono, são valorizados pelos usuários, que mencionam seus defeitos com um tom de revolta, mostrando que “ por culpa do Poder Público” os mesmos não podem usufruir do local.

Mesmo que as praças sejam consideradas “boas” na avaliação dos respondentes, a questão cultural se faz presente (embora não seja tratada no estudo) no fator “freqüência com que estes visitam o lugar”. A maior parte dos entrevistados não utiliza o lugar regularmente, embora aqueles que desenvolvem alguma atividade no local (principalmente aquelas categorizadas como ativas), costumam ir à praça mais de duas vezes por semana. Isso mostra, mais uma vez que a existência de atrativos convincentes e fundamental para agregar usuários,

contribuindo para sua permanência e freqüência destes no local. Consideram-se atrativos convincentes aqueles que conseguem manter o usuário em atividade, sendo importante para sua saúde mental e física passando a fazer parte da sua vida cotidiana, tais como quadras esportivas, mesas de jogos, playground lúdicos e educativos, equipamentos de ginástica, pistas de jogging, ciclovias entre outros.

Desta forma, os horários preferidos pelos usuários estão de acordo com aquilo que este irá realizar na praça, ou com os elementos que contribuem para que este permaneça no local durante aquele período do dia, refletindo de alguma forma, como o espaço acomoda estes indivíduos. Na pesquisa, todos os três períodos do dia foram mencionados pelos usuários, cuja freqüência varia de acordo com o que o espaço oferece a cada um. O período da manhã é preferido naqueles ambientes onde por exemplo, a existência de brinquedos infantis atrai pequenos usuários acompanhados ou ainda naqueles locais onde a prática de caminhadas é freqüente. De tarde, locais com pouca arborização são desprezados pelos indivíduos, e de noite, a pouca iluminação noturna incomoda quem tenta passear pelas praças. Ou seja, de uma maneira geral, o desperdício de um espaço público está atrelado a vários fatores que devem ser tratados um a um contribuindo para a sua utilização durante o maior tempo possível do dia. Não espera-se que tal ambiente seja utilizado 24 horas por dia, durante 7 dias por semana; no entanto, seu total abandono ou esquecimento se apresenta como um problema urbano atual, que se soma a outros condicionantes tais como aumento da violência e conseqüentemente do sentimento de insegurança generalizado, confinamento da vida social em novos tipos de ambientes urbanos, “emuralhamento” da vida pública.

As funções desenvolvidas pelo lugar nem sempre estavam claramente visíveis e outras precisavam ser esclarecidas ou incentivadas através de eventos ou modificações nas estruturas do ambiente. Neste caso, é importante que sejam considerados os “potenciais” e as “deficiências” de cada lugar; por exemplo, um local como a Praça das Mangueiras, que se revela mais intimista, principalmente por seu entorno residencial, não se indica apta a receber funções religiosas de grande porte, nem cívicas, no entanto, mostra-se capaz de desenvolver funções educativas e ecológicas (considerando suas mangueiras frondosas), psicológicas (onde as

pessoas permanecem por algum tempo, não sendo apenas local de passagem) e estética. Funções recreativas podem se incentivadas com a implementação de brinquedos educativos, mesas de jogos e quadras. Além disso, eventos como exposições culturais freqüentes, feiras e gincanas, podem revitalizar os espaços, valorizando-os junto à sociedade.

Considera-se também que, a existência de um litoral bem estruturado – altamente valorizado pelo Poder Público que investe efetivamente na sua manutenção - e propício à realização de variadas atividades contribuam para a baixa utilização das praças observadas, haja vista que as praças estão inseridas morfologicamente “dentro” da cidade, enquanto as praias têm a possibilidade de abstrair o cidadão desse contato rotineiro com o ambiente urbano, resgatando um convívio mais direto com a natureza. O mesmo pode ser observado nos parques públicos, já que estes possuem uma dimensão maior na cidade e por isso, apesar de estarem inseridos em seu conjunto urbano, conseguem criar um ambiente mais bucólico incentivando sua utilização em detrimento das praças da cidade.

As modificações devem considerar principalmente questões mencionadas pelos usuários (através de entrevistas e questionários, embora sempre embasadas em pareceres técnicos, a fim de se evitar desperdícios ou enganos). As ações de intervenções na estrutura física do lugar modificam não apenas a paisagem, mas são também capazes de mudar também os sentimentos e sensações dos usuários em relação ao ambiente. Sendo assim, em caráter de sugestão, mencionamos como essenciais ao conforto do ambiente e psicológicos de seus usuários:

ƒ Em relação ao conforto térmico: arborização eficiente e com um tratamento estético considerável, o que ajudaria não apenas a reduzir o desconforto térmico, como também o acústico, visual e psicológico, favorecendo sensações de aconchego, privacidade e tranqüilidade, além de contribuir para a manutenção da qualidade do meio ambiente local.

ƒ Em relação aos equipamentos e mobiliário urbano: a inserção de bancos confortáveis, bem localizados, esteticamente tratados, adaptados à realidade projectual do espaço e do clima local; elementos direcionados à deficientes físicos e idosos; variedade de equipamentos e mobiliário urbano, conforme especificidades de cada comunidade.

Em relação às parcerias mencionadas, estamos nos referindo a todas as possíveis relações capazes de contribuir para a problemática em questão, uma das mais enfatizadas atualmente é aquela entre o Poder Público e a organização privada que constituem-se em um importante instrumento de valorização do espaço público. Algumas capitais brasileiras já adotaram programas que incentivam a revitalização de espaços urbanos desta maneira, em Belém, por exemplo, a Prefeitura em conjunto com uma loja de computadores, realiza uma pequena votação em pontos movimentados da cidade onde é escolhido um ponto da cidade que deverá sofrer reformas e por um tempo pré-determinado terá manutenção patrocinada por tal estabelecimento comercial. Neste sentido, todos ganham, a Prefeitura que economiza, a loja que vende mais sob o pretexto, de que parte da sua renda vai para o tratamento da cidade, e, finalmente os cidadãos que podem usufruir espaços tratados e valorizados.

A pesquisa foi capaz de elucidar que, a realização destas e de outras possíveis modificações feitas nas praças públicas analisadas podem não ser suficientes a ponto de influenciar a maior freqüentação destes espaços, já que fatores ligados à carga cultural do povo não foram avaliados e são considerados por nós como grandes agentes influenciadores.

A importância de se incentivar um processo de valorização das praças públicas está em resgatar e/ou manter o convívio social e a cidadania de sua população, que se desenvolvem principalmente nos espaços públicos, além de contribuir para o desenvolvimento e a criação de atitudes benéficas voltadas à preservação e manutenção das áreas livres (ou não) da cidade.

Retomando-se a hipótese apresentada por esta pesquisa, é possível dizer que a mesma foi parcialmente comprovada uma vez que as praças analisadas na cidade de Natal-RN não atraem um número maior de usuários devido à baixa qualidade física de seus elementos composicionais, tais como equipamentos e mobiliário urbano. Ficou claro na pesquisa, que o cuidado e tratamento desses espaços pode transformar sua relação com os usuários e criar sentimentos de afeto criando lugares, capazes de contribuir positivamente para a conscientização e conseqüente manutenção e conservação dessas praças.

Considera-se ainda que aspectos relativos à aspectos culturais, sociais e econômicos estejam presentes e possam interferir na freqüentação dos espaços, mas não foram objeto deste pesquisa, devendo servir apenas de sugestão para a realização de futuros estudos. Nesse sentido, a complementação desta pesquisa com os aspectos sócio-econômicos e culturais se mostra importante, permitindo discutir se a manutenção e o tratamento adequado desses espaços públicos é capaz de atrair um número maior de usuários, ou se o seu pouco uso esta ligado à sub- valorização das praças da cidade, o que exigira outros tipos de interveção.

Finalmente, ressalta-se ainda a necessidade do profissional que lida com espaços públicos urbanos, entender que este é composto por unidade autônomas, com variadas gamas e níveis de expectativas, interesses, propostas e práticas sociais, que moldam infinitos espaços e lugares, sínteses da tríplice relação entre homem x espaço x cultura.

Benzer Belgeler