É muito presente, no discurso que estamos analisando, o emprego do recurso do DR por parte de Roberto Jefferson, para se referir a falas suas e também de outras pessoas nas
situações que ele está rememorando. De fato, o entrevistado constrói seu texto no modo narrativo e emprega o DD como forte e recorrente estratégia argumentativa com a intenção de convencimento de que fala Leite (2005: 90), não só de sua interlocutora, no caso a jornalista, mas também dos leitores do jornal. Portanto, qualquer mudança na forma de citação de seu discurso interferirá na argumentação elaborada por Jefferson.
3.1.4.1. Mudança do DD para o DI
Transcrição Retextualização 1ª entrevista (ANEXO A-1)
a) (15-16) ele falou “eu não posso tomar atitude sem a autorização de meu presidente”
b) (26-27) falei “Walfrido quero falar coisa grave a você” ...
(ANEXO B-3)
a) (107-108) O Múcio respondeu que não poderia tomar atitude sem falar com o presidente do partido
b) (115) e disse que precisava relatar algo grave.
Quando o DD é substituído pelo DI, nos exemplos acima, interfere-se na estratégia discursiva adotada por Roberto Jefferson durante toda a entrevista, que foi a de narrar os fatos empregando o tempo todo o DD para referir-se a falas suas ou de outras pessoas para dar o efeito de verdade que ele pretendia, afinal ele, com as revelações da entrevista, passava da posição de acusado a acusador e precisava mostrar-se merecedor de credibilidade.
3.1.4.2.Acréscimo de turno
Transcrição Retextualização 1ª entrevista (ANEXO A-1)
a) (24-26) no parlamento nacional ... eu liguei pro ministro Walfrido isso princípios de dois mil e quatro era janeiro ou fevereiro
b) ( ? )
(ANEXO B-3)
a) (112-114) no Congresso Nacional.
Folha: O sr. deu ciência dessas conversas ao governo? Jefferson: No princípio de
2004, eu liguei para o ministro Walfrido
c)(72-78) L2 Aí eu contei ao presidente o que que era o mensalão o presidente Lula CHOrou
L1 Isso quando?
L2 Agora em janeiro ... desse ano o presidente Lula CHOROU falou “não é possível isso” e chorou
governo o sr. denunciou a situação?”
c) (145-147) Jefferson: Aí eu expliquei ao presidente.
Folha: Qual foi a reação dele?
Jefferson: O presidente Lula chorou. Falou: “Não é possível isso”. E chorou.
O que se percebe na introdução de turnos é que ela é feita nos turnos do entrevistador, no caso o jornal Folha de S.Paulo, e tem a função de destacar alguns pontos para os quais quer chamar a atenção, no caso, as pessoas ligadas ao governo que foram avisadas pelo entrevistado, nos exemplos a e b, e a reação do presidente Lula ao saber da existência do “mensalão”, no exemplo c.
3.1.4.3. Eliminação de turno
Transcrição Retextualização 1ª entrevista (ANEXO A-1)
a) (15-16) Ele falou “eu não posso tomar atitude sem a autorização de meu presidente” ... Múcio ... “me parece que o meu presidente é contra porque já me falou” ... aí reúnem-se
b) (19-23) Aí o Múcio voltou a mim falou “Roberto fui pressionado pelos três líderes ... pelo presidente do PL pelo líder do PL e pelo líder do PP nessa conversa do mensalão” eu falei “Múcio EU NÃO QUERO receber ... não
(ANEXO B-3)
a) (107-108) O Múcio respondeu que não poderia tomar atitude sem falar com o presidente do partido
b) (110-111) Aí o Múcio voltou a mim. Eu respondi: “Isso desmoraliza.”
aceitarei isso na presidência do PTB porque isso é coisa de qui/ de câmara de vereador de quinta categoria isso desmoraliza
c) (27-30) “que que é Roberto? Tô indo pra Belo Horizonte ... no jatinho você vai comigo e vamos conversando eu tô indo pra casa” “então eu vou até Belo Horizonte pra conversar um assunto grave com você” ... e sentei no avião e falei “Walfrido tá havendo essa história de mensalão”
d) (31-35) “em hipótese alguma Roberto em hipótese alguma eu não terei coragem de olhar nos olhos do presidente Lula EM hipótese alguma” eu falei “então nós não vamos aceitar o mensalão” ele disse “não não vamos aceitar o mensalão” “então está fechada a nossa posição vamos resistir a isso”
e) (49-50) “Roberto é muito dinheiro eu não acredito nisso” digo “acredite amigo porque tá acontecendo” “não acredito”
f) (52-53)“Miro tá havendo o MENSALÃO isso é um escândalo” o Miro falou “Não é possível Roberto” eu falei “diga ao presidente”
c) (115-116) Conversamos num vôo para Belo Horizonte. “Walfrido, está havendo essa história de ‘mensalão’.”
d) (117-118) “Em hipótese alguma. Eu não terei coragem de olhar nos olhos do presidente Lula. Nós não vamos aceitar.”
e) (129-130)“Roberto, é muito dinheiro, eu não acredito nisso.”
f) (131-132)Falei: “Conte ao presidente Lula que está havendo o ‘mensalão’”
g)(54-55) “conte isso ao presidente Lula isso vai explodir AMIGO isso é um esCÂNdalo vai explodir”
g) ( ? )
A eliminação de turnos, como se vê, é bastante significativa e certamente interfere no “efeito de verdade” (Leite, 2005: 112) que Jefferson queria imprimir ao seu discurso. Ao empregar o DD, ele utiliza marcadores conversacionais, para dar ares de realidade àquilo que está contando, como “então” nos exemplos c e d; emprega, também, os vocativos “Roberto” e “Múcio”, no exemplo b, “Roberto”, no exemplo c, “Miro” e “Roberto” no exemplo f, mais uma característica muito forte da fala, como se ele estivesse encenando as situações relatadas, fazendo múltiplos papéis. Outra forma de alcançar o efeito de realidade pretendido é a reprodução da fala em “que que é”, “tô” e “pra” no exemplo c.
O DD eliminado no exemplo e, por sua vez, era introduzido pelo verbo de elocução “digo”, no presente do indicativo, o que, para Leite, “constrói um efeito de sentido de perenidade da situação” (2005: 101), o que viria dar mais credibilidade à argumentação de Jefferson.
No exemplo c, foram eliminados os turnos dos dois interlocutores: Walfrido, em primeiro lugar, seguido de Jefferson. Tais turnos descreviam a situação em que se encontraram e mostram que o encontro não foi ao acaso. Na retextualização, o leitor fica sem essa informação e Jefferson, sem a força pragmática que quis conferir ao enunciado.
No exemplo a, elimina-se o turno em que o líder do PTB na Câmara, ao ser pressionado para que seu partido receba o “mensalão”, enfatiza a posição contrária do presidente do partido, no caso, o entrevistado, o que confere muita força à argumentação, porque é a “voz” de outra pessoa revelando a posição de Jefferson e não dele próprio.
Os dois turnos eliminados no exemplo d são atribuídos por Roberto Jefferson a ele mesmo, o primeiro marcado pelo verbo de elocução falei e o segundo reconhecido pela entonação e pelo emprego do marcador conversacional então, que claramente introduz outra “voz” no fio de seu discurso. O primeiro turno eliminado atribui a Jefferson a iniciativa de não aceitação do “mensalão”, acompanhada por Walfrido em seu turno, no qual, primeiro, concorda com Jefferson dizendo “não”, para, em seguida, firmar a sua posição “não vamos aceitar o mensalão”; o segundo turno eliminado, iniciado pelo marcador conversacional
“então”, encerra o assunto, como alguém que tem autoridade para tanto e, ao ser eliminado, esvazia-se a força ilocutória de seu ato de linguagem (cf. Maingueneau, 1996: 7).