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O Pasquim poderia ter em sua história - tão próxima a de outros veículos da imprensa alternativa - fatos que poderiam ser de extremo desencorajamento, levando seus protagonistas a desistirem da experiência. Entretanto, boa parte destes fatos se transformaria em histórias contadas a partir de seu principal ponto de vista: o do humor. Censores que bebiam com a patota e eram seus amigos. Uma bomba arrasa quarteirão, colocada na porta do jornal, que

não chegaria a explodir. Uma prisão em que os carcereiros bebiam e tocavam violão com os presos e deixavam estes segurar metralhadoras em uma harmonia jocosa. Parece que rir era a única saída para uma dura prisão de dois meses, que duraria até o réveillon de 1970 para 1971 e mudaria o perfil do jornal.

A censura prévia, como foi dito, tornou-se prática no cotidiano da redação do Pasquim ainda no nº 39, de 25 de março de 1970. O expediente trazia a frase que esclarecia os leitores:

Este número foi submetido à censura e liberado. A capa, desenhada por Millôr (anexo 26),

mostra o mascote do jornal, Sig, vestido de estátua da liberdade, segurando um jornal em chamas em cima de uma bomba. Era o aviso que o jornal havia sofrido uma tentativa de atentado terrorista. A frase-lema dizia: Sig resiste a tudo, de fio a pavio. Uma fotopotoca publicada na página 32 da edição (anexo 26) ironiza a bomba que não explodiu, com uma fotografia de várias pessoas com “caras de caveira”, representando conotativamente o que teria acontecido com a equipe do jornal caso houvesse havido a explosão. Se a bomba tivesse explodido, avaliou a perícia, destruiria por inteiro o quarteirão da redação do Pasquim. O texto sob a fotografia ancora o sentido da piada: Mas já sabemos, naturalmente, a direção e

de onde veio o ataque. E sabemos, sobretudo, o que pretendem os agressores. Assim, para evitar qualquer futuro atentado, damos, acima, aquilo que tão ardentemente desejam os terroristas, ver as nossas caveiras. Pela ordem, da esquerda para a direita: Luiz Carlos Maciel, Paulo Francis, Jaguar, Fortuna, Tarso, Millôr, Henfil, Ziraldo, Sérgio Cabral, Paulo Garcez e a caixa de uísque vazia.

É importante salientar que os censores já viam no jornal, com sua tiragem que já chegava aos 225 mil exemplares, como mostra o expediente do nº 39 (anexo 26), um instrumento subversivo que visava destruir a estrutura da família brasileira. Bernardo Kucinski explica essa euforia. “Esta tese decorria naturalmente da Doutrina de Segurança Nacional, que via a imprensa como um campo privilegiado de infiltração comunista, e do uso do puritanismo como arma de contra-arrestação ideológica” (KUCINSKI: 1991, p. 161).

É interessante observar o caráter e a forma como era feita a censura na redação do

Pasquim. Ela começou sendo feita por uma civil, de nome dona Marina. Ela não duraria

muito, pois logo se entregaria ao espírito de boemia do jornal, tornando-se quase uma amiga da patota:

“Descobrimos um ponto fraco: ela gostava de tomar umas biritas. (risos) Entendeu? Então, a gente sempre deixava uma garrafa de whisky na mesa dela. O resultado é

que ela aprovava [as matérias] ‘tão demasiadamente’ (risos) que foi demitida. Foi uma pena. Hoje, eu soube que ela morreu de cirrose (risos)”. (JAGUAR in TV SENAC, 2000)

Após dona Marina, o sensor passou a ser o general Juarez Paz Pinto, pai de Helô Pinheiro, a moça que havia inspirado Tom Jobim e Vinícius de Moraes a compor Garota de Ipanema, amiga da patota:

“ (...) O general Juarez Paz Pinto, excelente figura humana, praticante de cooper, pai da Heloisa (...) e um tremendo bonitão (...). Já era aposentado como general mas estava inteirão, enxuto, cheio de namoradas. O mais gozado era que ele recebia a gente numa garçonnierè, debaixo de um enorme retrato da Brigite Bardot com os peitos de fora. De vez em quando chegavam umas meninas lá, ele apresentava a gente visivelmente orgulhoso, ‘esse aqui é o Jaguar, de O Pasquim, o Ivan Lessa, estou aqui censurando O Pasquim, vai lá pro quarto que daqui a pouco eu vou’. Mas aí, evidentemente, ele ficava nervoso, a gente espichava as discussões e, para evitá- las, ele ia aprovando. Outra coisa que a gente fazia... Todas as quartas-feiras ele jogava biriba na praia com os coroas de lá; a gente contratou uma secretária boazuda que ia lá de biquíni dizendo: ‘generalzinho, eu trouxe a materiazinha do Pasquim pro senhor censurar’. Os outros coroas morrendo de inveja, porque ela se esfregava, acariciava o general. Ele ficava todo prosa... e aprovava. Era uma coisa sórdida.” (JAGUAR apud KUCINSKI: 1991, p. 163)

Dênis de Moraes descreve a perseguição gradual pela qual passou o Pasquim, tomando como base seus antecedentes e apontando os fins que buscavam os militares no poder:

“A condescendência acabou quando a censura foi transferida pra Brasília. (...) Ultrapassando os 200 mil exemplares, o Pasquim preocupava os escalões do regime – preocupação tardia, você diria, pois deixaram o jornal crescer e se tornar um dos porta-vozes da oposição possível. Como a publicidade era diminuta, o semanário vivia das vendas em banca. O modo mais rápido de asfixia-lo seria impedir a circulação regular, o que se poderia conseguir com a censura regular e implacável. E com intimidações à equipe, para desarticulá-la.” (MORAES: 1997, p. 114)

Em meio ao trabalho contínuo de resistência aos censores e à censura, tem-se início com os leitores do jornal, a partir do nº 66, de 23 de setembro de 1970, a eleição do “homem sem visão do ano”. Entre os votados estavam, sobretudo, apoiadores da ditadura militar e figuras que representassem um conservadorismo político e cultural, na percepção dos leitores, como o apresentador Flávio Cavalcante e o teatrólogo e jornalista Nélson Rodrigues. Na edição de nº 70, de 21 de outubro de 1970, por exemplo, há uma sátira em formato de

fotopotoca com nomes votados pelos leitores na eleição do “homem sem visão do ano”. Entre

eles o apresentador Amaral Neto e o jornalista David Nasser (Anexo 28). Adiante, no nº 72, além de Nasser, o economista Roberto Campos, que havia sido ministro do planejamento do marechal Castelo Branco, estaria à frente na votação.

O número 72, novembro de 1970, marcaria o início do fim de uma era. Usando como argumento uma charge de Jaguar, militares do DOI-CODI invadiram a sede do Pasquim e levaram para o cárcere quase toda a redação. A charge em questão refere-se a uma montagem feita pelo humorista sobre um quadro do pintor Pedro Américo (página 14 da edição, anexo 29). Nela, parodia-se (no sentido da comicidade de zombaria de Propp) a suposta cena do grito do Ipiranga, que teria sido dada por Dom Pedro I na proclamação da independência. No lugar da frase disseminada pelos livros de história: “independência ou morte!”, Jaguar inseriu um balão de fala de quadrinhos com o refrão da música de autoria de Jorge Ben, cantada por Wilson Simonal, este último considerado pela patota colaborador da ditadura: Eu quero

Mocotó!!, o que conotaria a postura de adesão política ao regime do cantor.

“Comentou-se depois que fora a causa imediata da prisão, mas como se vê o processo já estava lançado anteriormente. Parece, porém, que as reclamações indignadas de generais contra o que consideram uma ofensa a um “símbolo da pátria” levaram o tempo de prisão se estender das duas semanas que estariam previstas inicialmente para dois meses.” (BRAGA: 1991, pp. 36-37)

No momento da ação militar na sede do jornal, estavam presentes Ziraldo, Paulo Francis, o fotógrafo Paulo Garcez, o contador José Grossi e o funcionário Haroldo, ajudante da equipe. Tarso de Castro também estava no momento, mas fugiu pulando o muro dos fundos. Sérgio Cabral, Fortuna, Luiz Carlos Maciel foram presos depois, assim como o diretor de teatro e jornalista Flávio Rangel. Millôr Fernandes, Sérgio Augusto, Martha Alencar, Miguel Paiva e Henfil não estavam na redação durante a ação dos militares e não foram

presos. O trabalho deles para a sobrevivência do Pasquim no cárcere seria fundamental para que o semanário continuasse a ser produzido e pudesse circular.

“A prisão veio corroborar um dos atributos da estética do humor satírico e da charge, o de gerar ódio de classe, mais do que prazer estético, ao contrário das outras artes plásticas que obtém reconhecimento acima das classes. Não adiantou a precaução dos humoristas que haviam feito um acordo implícito de não se valerem de caricaturas, a forma de humor mais propensa a retaliações – além de contribuir para popularizar o criticado. Com a exceção dos caricaturistas de capa de Opinião, logo suprimidas pela censura, a caricatura só voltou a ser modalidade dominante de humor político após a derrota da linha-dura militar, a partir de 1977, quando Alex Solnik e Chico Caruso transportaram o cenário de sátira para o quotidiano e o personalizaram nas figuras do presidente Figueiredo e sua corte no Bar Brasil” (KUCINSKI: 1991, p. 164)

A capa da edição de nº 72 (anexo 30), de 11 de novembro de 1970, estampava conotativamente o cárcere dos humoristas. Um lobo com a boca aberta, salivando, representaria os militares e a força coercitiva. Um cordeiro: os cartunistas e jornalistas presos, acuados, sem saída perante a opressão e o perigo. Seria a primeira mensagem aos leitores da prisão dos humoristas, logo na capa, na tentativa de manter o Pasquim circulando mesmo sob a impossibilidade imposta pela ditadura. O recado, anunciando a prisão dos pasquineiros, é ancorado pelo balão de diálogo que sai da boca do lobo: enfim um Pasquim inteiramente

automático: sem o Ziraldo, sem o Jaguar, sem o Tarso, sem o Francis, sem o Millôr, sem o Flávio, sem o Sérgio, sem o Fortuna, sem o Garcez, sem a redação, sem a contabilidade, sem a gerência e sem caixa. Seria dado início a um esforço por parte dos remanescentes em

liberdade para garantir a sustentação da produção do jornal.

Os militares acreditavam que o Pasquim acabara, com sua equipe presa, mas um “rush de solidariedade”, com grande parte dos artistas e intelectuais brasileiros, a partir do nº 74 (anexo 31), de 18 de novembro de 1970, garantiu que o tablóide continuasse a ser escrito e desenhado. Na capa da edição, um ratinho Sig perdido, sem saída em meio a um labirinto, representando conotativamente as vozes da patota encarcerada, pergunta gritando: A saída!!

Onde fica a saída? Millôr, Miguel Paiva e Henfil desenhavam nos estilos dos presos. Os

novos e solidários colaboradores, leitores do Pasquim, eram nomes como: Odete Lara, Glauber Rocha, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Paulo José, Danusa Leão, Rubem Braga,

Rubem Fonseca, Antônio Callado, Capinam, Hélio Oiticica, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Heitor Cony, entre outros. Como a prisão não podia ser comunicada diretamente aos leitores, logo os responsáveis pela continuidade do jornal caracterizaram-na como uma “gripe” que havia assolado a redação.

Um recado do cineasta Glauber Rocha aos leitores, por exemplo, seria dado, com uma alusão aos membros da patota “ausentes”. Glauber caracterizou cada um deles na edição de nº 74, numa fotopotoca (página 05, anexo 33), em que aparece o título WANTED (que significa procurados) sobre duas colunas com o rosto de vários “monstros de cinema”, como Frankenstein e Nosferatu. Abaixo do título, a frase: chega de cúmplices e mártires. Ao lado de cada fotografia, impressões de Glauber sobre os amigos presos. Por exemplo: PAULO

FRANCIS - A única forma de amar Paulo Francis é esculhambá-lo. Conquistei o bicho nessa base. Brilha, logo imprime. Não sou bom jornalista porque o estilo do Francis me grila. Ou o Brasil salva Paulo Francis ou Paulo Francis salva o Brasil. A maioria dos fieis fãs do Pasquim compreenderam prontamente a codificação das mensagens, mas mesmo assim a

tiragem iria cair abruptamente nesse período.

Dentro da prisão, entre um clima de apreensão e expectativa, aconteceriam fatos que manteriam um clima de humor capaz de suportar o cerceamento da liberdade. Perguntaram a Luiz Carlos Maciel quais as ligações com o comunismo internacional, se ele havia recebido o “ouro de Moscou”. Ao que Maciel responde: “Olha, capitão, se esses caras do Pasquim receberam o ouro de Moscou, eu vou brigar com eles, porque eles não me deram um tostão! [risos] Eu nem vi a cor desse dinheiro!” (LUIZ CARLOS MACIEL in TV CÂMARA, 2008). Sérgio Cabral também narra um fato curioso da prisão:

“Um dia veio um oficial, um capitão, que era o oficial de dia, veio no sábado à noite, e ficou conversando comigo e o Ziraldo. Lá pelas tantas, ele falou assim: ‘pô, eu conversando com vocês aqui, e vocês aí dentro... Vamos abrir’. Aí abriu. Aí sentamos fora, numa escadinha embaixo. Ficamos batendo papo ali, ele tava animado, e tal. Ele era fã da gente! E disse: ‘ô, cabo, pede para trazer duas cervejas aqui e três copos.’ Aí ficamos lá, tomando cerveja. ‘Ô fulano, pede ao sargento Santos pra mandar o violão.’ Aí veio o violão. Aí ele falou: ‘Toca aí uma música, Sérgio’. ‘Eu não toco’. ‘Você não toca?’ ‘não, eu até aprendi, mas agora não toco mais, não sei, enfim...”. ‘Ah, não toca... Eu queria ouvir uma música... ’ Aí um soldado que tava tomando conta da gente, em pé, com a metralhadora não mão, disse: ‘Eu toco!’. Aí o capitão: ‘Você toca?’. ‘Toco!’. ‘Então toca!’ Aí pegou o violão e deu pra ele. Ele pegou a metralhadora e me deu. Aí ficamos: eu preso, com

a metralhadora, e ele cantando o sucesso do Nelson Gonçalves: ‘Boemia, a que me tens de regresso...’ (risos) . Lá no meio da música o capitão falou assim: ‘aí já é esculhambação demais, me dá esse troço pra cá, essa metralhadora... ’ (risos).” (SÉRGIO CABRAL in TV CÂMARA, 2008).

No dia 31 de dezembro de 1970, a patota seria libertada. Dênis de Moraes conta o que eles fizeram na noite da libertação: “Jaguar (...) pegou um táxi direto para o réveillon de Albino Pinheiro em Santa Tereza, onde o carregaram em triunfo” (MORAES: 1997, p. 118). A edição de nº 80 (anexo 34), de 14 de janeiro de 1971, trazia na capa a fotografia da redação inteira liberta, com óculos escuros tapando a vista de cada um deles e o título: Os verdadeiros

homens sem visão do ano. Uma ironia ao fato deles, na verdade, não terem dimensionado,

como advertiu Millôr no nº 01, o que poderia acontecer:

“Até aqui, mesmo com as pressões, ameaças e a censura prévia, o ar de festa existia. (...) Na administração do jornal tudo ia mal. A dívida é de um milhão de cruzeiros [150 mil dólares, então], conforme Lúcia Rito (artigo sobre a imprensa nanica, sem data); ou de dois milhões [300 mil dólares, na época], segundo Henfil (GAM, julho de 76). Um milhão ou dois, era muito dinheiro (o Pasquim custava então um cruzeiro). (...) A vendagem caiu de 160 mil para 60 mil exemplares. Os anunciantes se retraem: a economia está largamente nas mãos do governo e não é bom cair-lhe nas antipatias.” (BRAGA: 1991, p. 38-39).

Tarso de Castro, considerado o principal responsável pelo esgotamento financeiro do

Pasquim, seria deposto definitivamente da direção do jornal, após longas discussões internas e

mesmo sob sua forte insistência pela permanência. Millôr Fernandes assumiria o comando, marcando o fim do período dionisíaco.

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Benzer Belgeler