Inicialmente, é necessário dizer que as concepções acerca da terminologia racismo passam por um terreno de disputa, isto porque há uma polissemia discursiva que atravessa os dizeres constituídos por muitos que tratam do assunto. Entretanto, o recorte desta pesquisa ampara-se no racismo inerente à cor da pele. O que não o descaracteriza como eminentemente singular em sua ampla pluralidade teórica significativa. É necessário esclarecer, de antemão, que o racismo a ser tratado pode ser concebido como posturas e comportamentos construídos por sujeitos que estereotipam e marginalizam o Outro, constituindo uma identidade marcada por atributos pejorativos e negativos que chegaram à pós-modernidade por meio de dispositivos de poder.
Entre eles, encontra-se a Ciência que, segundo Guimarães (2004), no Brasil, teve uma enorme contribuição no que diz respeito à demora em relação ao tratamento acadêmico dado ao assunto racismo ou discriminação racial, tendo em vista a forte tendência na ênfase aos estudos que primavam em teorizar o desenvolvimento e a modernização. As questões raciais, dessa forma, ficavam presas às amarras discursivas atreladas ao conceito generalizante de classe social. Esta suposta generalidade das classes culminou por esconder todas as desigualdades que resultavam da interação de outros princípios classificatórios e discriminatórios nas sociedades contemporâneas, tais como a raça e o gênero.
Teoricamente, foi um processo de construção de longa maturação: primeiro, foram necessários conceitos que pensassem a estrutura social brasileira como fundada em grupos mais fechados e de menor mobilidade que as classes. Conforme Guimarães (2004, p. 22),
Thales de Azevedo (1966 [1956]) empregou, por exemplo, o conceito de grupos de prestígio, de Tönies, para se referir aos grupos de cor, para cuja pertinência a origem familiar e os atributos de nascimento eram mais importantes que características adquiridas em conflitos ou em competição em mercados. Do mesmo modo, ao pensar a situação estrutural dos negros como “metamorfoses do escravo”, Florestan Fernandes (1965) e Octavio Ianni (1962) demonstraram convincentemente que a divisão estrutural entre brancos e negros correspondia a uma reatualização das distâncias que separavam, no império, a sociedade da ralé, e, na República, a elite do povo (grifos do autor).
De suma importância para as pesquisas que tratam de racismo e preconceito racial no Brasil, no início dos anos 50, Florestan Fernandes realizou, com Roger Bastide, sob encomenda da UNESCO, uma pesquisa de extrema relevância que visava a verificar as relações raciais no Brasil. O referido órgão objetivava a compreensão do caráter dito positivo das relações raciais no Brasil, tendo em vista o fato de que este país era visto como comunidade harmônica, onde todos viviam sem segregação racial. Ao contrário dos Estados Unidos, aqui não existem, por exemplo, banheiros para brancos/banheiros para negros. O que conotava uma harmonia não preconceituosa: a ideologia da democracia racial, oriunda, em especial, da importante Obra de Gilberto Freyre, Casa grande e Senzala (GUIMARÃES, 2008). Esta ideologia também guarda seu arquivo ou a priori histórico (FOUCAULT, 2007), suas raízes são fincadas nas ideias de Blumer e da tradição sociológica de Chicago, tendo em Robert Park e Donald Pierson seus principais representantes, que negaram a existência de preconceito racial no Brasil. Com Freyre, o mito da democracia racial ultrapassou as barreiras nacionais, sendo propagado em outros países, o que desencadeou e instigou a já citada pesquisa. Ideias extremamente criticadas por Fernandes (2007a) que evidencia o quanto o negro ainda se encontrava à revelia de uma possível inserção na sociedade. Fernandes (2007a) traça o perfil do regime de classes a partir da posição do negro na sociedade brasileira e revela o papel do negro bem aquém do mundo fechado dos brancos. Aponta, em especial, que a liberdade conquistada com a abolição da escravatura e o surgimento de regime de classes não foram suficientes para produzir vantagens econômicas, sociais e culturais ao negro. Segundo Fernandes,
[...] existe um abismo entre as ideologias e utopias raciais dominantes no Brasil, construídas no passado por elites brancas e escravistas, e a realidade racial. [...] Não se entende a situação do negro e do mulato fazendo-se tabula rasa do período escravista e do que ocorreu ao longo da instauração da ordem social competitiva. A abolição não afetou, apenas, a situação do escravo. Ela também afetou a situação do “homem livre de cor”. Na verdade, a abolição constitui um episódio decisivo de uma revolução social feita pelo branco e para o branco. [...] o “homem de cor” viu-se duplamente espoliado. Primeiro, porque o ex-agente de trabalho escravo não recebeu nenhuma indenização, garantia ou assistência; segundo, porque se viu, repentinamente, em competição com o branco em ocupações que eram degradas e repelidas anteriormente, sem ter meios para enfrentar e repelir essa forma mais sutil de despojamento social. [...] Do ponto de vista sociológico, o que interessa, nesse pano de fundo, é o fato de que os estoques negro e mulato da população brasileira ainda não atingiram um patamar que favoreça sua rápida integração às estruturas ocupacionais, sociais e culturais criadas em conexão com a emergência e a expansão do capitalismo. [...] Em suma, a expansão urbana, a revolução industrial e a modernização ainda não produziram efeitos bastante profundos para modificar a extrema desigualdade racial que herdamos do passado. [...] Os únicos canais eficientes de ascensão social na sociedade brasileira, ainda continuam, quase tão fortemente como no passado, como privilégios sociais das elites das classes altas e da “raça dominante”. O negro e o mulato, como eles diriam, aí “não têm vez”, encontrando-se rigidamente bloqueados por privilégios sociais que possuem inevitáveis e profundas implicações raciais (FERNANDES, 2007a, p. 64-71). (grifos do autor).
Até o final dos anos 70, no Brasil como em toda América Latina, os estudos das relações raciais apontaram para uma constante associação entre raça e posição social de um lado e raça e classe social por outro. Esses estudos foram unânimes em concluir, a partir das evidências, que não havia no Brasil uma identidade social construída em torno da noção de raça. A categoria de pertença social era não a “raça”, mas, ao contrário, a cor (GUIMARÃES, 2004, p. 23).
Guimarães (2008) cita Da Mata para dizer que o segundo passo crucial para a construção dessa nova problemática foi o desvendamento da centralidade dos princípios de hierarquia e de desigualdade na ideologia brasileira. Mediante esta nova possibilidade, a categoria ideologia trouxe à realidade um novo discurso, ou se não era tão novo, pelo menos as discussões se respaldavam em um viés crítico que ampliava os horizontes discursivos para além da marca da divisão de classes. O objetivo era fazer com que os brasileiros percebessem não só as enormes desigualdades que estruturam a sociedade, mas também atribuí-las não as diferenças de classe, mas à distância social, aos preconceitos raciais e às justificativas morais que ainda a legitimam. Diante da problemática, Guimarães (2008, p. 62) destaca:
E aqui reside o desafio para a teoria do preconceito racial entre nós: o que Costa Pinto, Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, Roberto Da Matta e outros fizeram até aqui se concentrou na compreensão de por que fenômenos como o preconceito e a discriminação raciais passavam desapercebidos ou não ganhavam a relevância moral e política que adquiriram em outros países. Nossa sociologia ou negava a existência desses fenômenos ou procurava explicar por que não resultavam em conflitos sociais importantes.
Ainda conforme Guimarães (2004), somente nos anos 80, a literatura brasileira, em especial os trabalhos de Carlos Hasembalg e Nelson do Valle Silva, consegue se desvencilhar das amarras dos discursos desenvolvimentista, integracionista e evolucionista, para cair em outras armadilhas, como o fato de obscurecer a permanente associação entre raça, cor e posição social no Brasil. Contudo, os discursos contemporâneos, especialmente oriundos dos movimentos sociais, fundam-se sobre a inaceitabilidade de uma ordem de desigualdades sustentada pela exclusão da imensa maioria dos brasileiros, dos direitos da cidadania.
Somado a estas afirmações, os estudiosos contemporâneos reintroduziram a categoria “raça” como variável explicativa, considerando a necessidade de explicar as desigualdades sociais no Brasil, ancoradas em diferenças raciais e na descoberta de que os grupos de cor podem ser reagrupados, para benefício de análise, em dois: brancos e não-brancos. Este mecanismo tem oferecido maiores condições de análise de alguns aspectos sociais, no que se refere aos estudos da distribuição de renda, do acesso à educação e ao emprego, entre outros. Neste caso, a categoria raça é usada como conceito sociológico, tornando-se uma ferramenta analítica valiosa, referindo-se a diferenças físicas socialmente significativas, e não a diferenças biológicas que determinam traços de comportamento.
O acontecimento do retorno (FOUCAULT, 1996), aparece não mais como medidor ou classificador social: dissociado da origem, o critério da cor, seria de natureza puramente estética, e, portanto, não-racista. Se a cor, diferente da branca, revela-se menos prestigiada na escala hierárquica, tal fato nada teria a ver com a raça. Sob este recorte, “a redução de raça à classe é um modo de negar a gritante constatação social, tornando a visão classista como uma tentativa de mascarar ideologicamente um mecanismo específico de opressão” (MUNANGA, 1988, p. 42). Nascimento (2003) destaca que, mediante essa magia acadêmico-científica, a permanência dos grupos de cor na base da pirâmide social durante e após o processo de imigração ficaria reduzida à condição de mera coincidência ou de resquício estrutural do sistema escravista. É um
verdadeiro lavar de mãos sem culpa ou ressentimento tendo em vista a ascensão de uns sobre os outros. Mas, afinal, o que significa raça? Que carga semântica e discursiva tem esse conceito? São questionamentos que dão vida às próximas discussões.