conhecido como “mensalão do DEM”, o então governador do Distrito Federal converte-se em um portador de mal contagioso, cujo contato precisa ser evitado por políticos de outro partido (PSDB, no excerto em causa) sob pena de se “contrair” a moléstia. O próprio partido de José Arruda (DEM) teme, igualmente, a “contaminação” de seus demais afiliados (vide (B.D.35)) e irá procurar formas de dissociar a legenda do seu membro “doente”. A corrupção, enquanto doença transmissível, é capaz de inocular seu germe letal não apenas em indivíduos isolados ou representações políticas, mas pode mesmo difundir-se de forma massiva (vide epidemia em (B.D.7)) entre os pilares dos poderes instituídos pela democracia, vitimando, assim, com sua ação, a própria sociedade ((B.D.25)).
4.2.3. Uma terapêutica para uma enfermidade: profilaxia e tratamento para a corrupção
Uma vez que a corrupção é categorizada, através da metáfora CORRUPÇÃO É DOENÇA, como uma enfermidade que é potencialmente passível de “infectar” indivíduos, instituições, ou a sociedade como um todo, impõe-se a necessidade de se adotar procedimentos a fim de se evitar esse “contágio moral”, ou mesmo combater o seu efeito deletério. Desse modo, segundo a lógica da metáfora da Saúde Moral, medidas de combate à corrupção são mapeadas como formas de profilaxia ou tratamento de um quadro patológico. Podemos visualizar, inicialmente, a instanciação desse aspecto da metáfora através do exame dos excertos de blog transcritos abaixo:
(B.D.17) O financiamento público de campanha, como antídoto ao caixa dois e outras aberrações do processo eleitoral vigente, é consenso improdutivo. Ninguém, em tese, a ele se opõe, mas ninguém acredita que irá resolver a corrupção eleitoral. (Reforma política, biombo
da crise, BLOG DO NOBLAT, 28/02/09)
(B.D.29) Lula aproveitou os microfones para receitar a reforma política como único remédio contra os crimes eleitorais. Tolice. (Para Lula, vídeos do ‘Panetonegate’ são peças mudas, BLOG DO JOSIAS, 01/12/09)
(B.D.4) O Senado, tal como está organizado hoje, é uma instituição política, jurídica e administrativamente doente. Não pode ser curada à base de receitas simplórias. (A receita de
Lula para acabar com a crise do Senado, BLOG DO NOBLAT, 24/06/09)
(B.D.19) A corrupção é um câncer que se impregnou no corpo da política e precisa ser extirpado. Não dá para extirpar de uma vez, mas é preciso começar a encarar o problema. (GRANDE JARBAS!,BLOG DE LUCIA HIPPOLITO, 14/02/2009)
Nos excertos acima, a corrupção é divisada como um problema que pode ser medicamente tratado, ao modo de uma afecção orgânica, para a qual se podem estipular uma profilaxia e/ou tratamentos curativos. Assim é que, em (B.D.17), o financiamento público de campanha é conceptualizado metaforicamente como um antídoto, (isto é, uma espécie de soro medicamentoso capaz de anular a ação de uma toxina ou veneno sobre o organismo), cuja administração é aventada como uma medida profilática para se evitar a ocorrência da estratégia do caixa dois, prática que se configura como um crime de corrupção eleitoral.
De igual modo, enquanto doença, a corrupção é passível, ainda, de tratamento, que pode assumir formas variadas. A corrupção pode, assim, ser tratada simplesmente através da prescrição de medicamentos (vide receitar e remédio em (B.D.29)), mas também pode requerer uma abordagem radical a fim de extingui-la definitivamente (cf. curar em (B.D.4)), recorrendo-se, para tanto, até mesmo à ablação cirúrgica do (s) “órgão” (s) afetado (s) (vide
extirpar em (B.D.19)).
A adoção de medidas profiláticas para se evitar o contágio pela corrupção também será metaforizada, igualmente, nos textos de charges coletados. Veja-se, a propósito, o texto do chargista Duke, inserido a seguir:
(C.D.T1)
DUKE, O TEMPO (MG), 02/05/09. Disponível em < http://www.acharge.com.br/>.
Na charge acima, um enfermeiro tenta administrar uma vacina contra o vírus da corrupção a um parlamentar, que, enfaticamente, recusa-se a tomá-la. Aqui, a partir dos próprios itens linguísticos, o chargista categoriza a corrupção como doença, ao atribuir-lhe um agente etiológico (vírus) e apontar uma medida profilática (vacina). O hospedeiro preferencial da doençacorrupção, não por acaso, é um integrante do Congresso Nacional, haja
vista a avalanche de escândalos de corrupção protagonizados por parlamentares que foram publicizados à época de publicação da charge. O caráter humorístico do texto deriva, sobremodo, da atitude expressa pelo parlamentar ao declinar da imunização propiciada pela suposta vacina contra a corrupção, manifestando, assim, seu consequente desejo por se manter doente, ou seja, corrupto.
Segundo Lakoff e Johnson (1999), a metáfora da Saúde Moral preceitua que o “contágio moral” precisa ser evitado mediante expedientes que assegurem o isolamento do (s) agente (s) difusor (es) da imoralidade, ao modo de uma quarentena. Esse acarretamento da metáfora ganha expressão quase literal na representação chargística a seguir:
(C.D.T10)
RONALDO, JORNAL DO COMMERCIO, 14/07/09. Disponível em < http://www.acharge.com.br/>.
No texto suprarreproduzido, intitulado Isolamento, o espaço do entorno do prédio do Congresso Nacional é interditado por um personagem trajando indumentária especial, própria para frequentar ambientes classificados como de alto risco biológico, em que circulam micro- organismos patológicos de alta virulência, passíveis de deflagrar um quadro epidêmico. Dois transeuntes observam o isolamento da área e um deles, aterrorizado com a cena, indaga se a realização de tal procedimento deve-se ao registro de infecção por gripe suína no local. O interlocutor, responde, por seu turno, que não se trata de gripe suína, mas antes de gripe
corrupsuína.
A corrupção é, portanto, equiparada mais uma vez aqui a uma enfermidade de alta gravidade e de caráter extremamente contagioso, que requer medidas drásticas para a contenção do seu avanço iminente, tais como isolar os focos de sua ocorrência (quarentena). Os parlamentares corruptos, metonimicamente representados pelo espaço do Congresso (O
LUGAR PELAS PESSOAS), tal como doentes infectados por uma moléstia infecciosa grave, precisam, assim, ser mantidos isolados a fim de evitar a disseminação da corrupção/doença para toda a sociedade.
Além disso, é interessante notar, nesta charge, que o neologismo corrupsuína, criado por meio de cruzamento vocabular, encerra uma forte densidade semântica e cognitiva ao fundir domínio-fonte (DOENÇA) e domínio-alvo (CORRUPÇÃO) em um mesmo vocábulo. Como assinalamos acima, a gripe, e, em especial a gripe suína, é empregada preferencialmente por chargistas para figurativizar a corrupção como doença, seleção possivelmente justificada pelo destaque midiático conferido a essa enfermidade à época da decretação da pandemia mundial, e da consequente acessibilidade cognitiva dessa temática na memória dos leitores. Em razão disso, no corpus de charges, as medidas profiláticas para evitar a contaminação pela corrupção frequentemente serão equiparadas, via metáfora, às recomendações expressas pela OMS para se prevenir a contaminação pela referida gripe, a exemplo do uso de máscaras cirúrgicas e da higienização das mãos com solução antisséptica. É o que constatamos na charge abaixo:
(C.D.T4)
THIAGO RECCHIA, GAZETA DO POVO (PR), 29/04/09. Disponível em < http://www.acharge.com.br/>.
No texto acima, um homem indaga outro se ele está usando uma máscara cirúrgica em razão de ter ido ao México, país em que foram registrados os primeiros casos de gripe suína. A personagem de máscara responde, por seu turno, que, na verdade, visitara Brasília. Constatamos, pois, que um procedimento preconizado como profilaxia para a gripe suína (o uso de máscara) é apresentado como medida protetiva para se evitar o contágio pela
corrupção, metonimicamente expressa pela expressão linguística Brasília (O LUGAR PELAS PESSOAS).
O domínio-fonte está, pois, visualmente expresso na charge através da imagem da máscara e o domínio-alvo, em contrapartida, é ativado linguisticamente pela menção a Brasília na fala da personagem com máscara. Instauram-se, a partir daí, uma série de correspondências metafóricas, a saber, a corrupção é uma doença contagiosa, Brasília, por abrigar uma grande concentração de “pacientes” contaminados é um dos focos desta infecção, e, por último, os parlamentares corruptos são os doentes acometidos pelo mal em causa.