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1.3 Laminasyon

1.3.1 Laminasyon Çeşitleri

Em Brazil-Maru, o personagem Genji Befu, filho de Seijiru e Ritsu, é o protagonista que narra o quarto capítulo. Yamashita introduz a narrativa de Genji com a epígrafe de Jean- Jacques Rousseau, extraída da obra O Contrato Social: “O Homem nasce livre, mesmo que o vemos acorrentado em toda parte”41 (YAMASHITA, 1992, p. 186). As correntes que sempre prenderam Genji podem ser representadas pelas instituições sociais, com as quais ele jamais conseguiu negociar. A comunidade que sempre representou ser o porto-seguro para todos, para Genji simbolizava sua prisão.

No verbete intitulado “Bom Selvagem”, Heloísa Toller Gomes (2007) enfatiza que apesar da designação “bom selvagem” não ser encontrada literalmente na obra rousseauniana, foi Jean-Jacques Rousseau quem popularizou o termo (GOMES, 2007, p. 53). Ao investir nas ideias de que o homem é bom, mas a sociedade o corrompe, Rousseau vai em sentido contrário aos ideais do otimismo iluminista.

Pensando no contexto literário, o espaço tem por objetivo estabelecer uma interação com os personagens, podendo influenciar nas suas atitudes e emoções, além de situar suas ações na narrativa (GANCHO, 2004, p. 23). Ademais os deslocamentos provocados pelos personagens no espaço correspondem ao seu estado de espírito, e, muitas vezes marcam os momentos de transformações da intriga. Nesse sentido, o espaço tem a função principal de servir como instrumento que traduz o psicológico do personagem, descrevendo, através do meio ambiente, os sentimentos do indivíduo, de forma a possibilitar ao leitor “visualizar” de

Tsuruta foolishly ran about after the binder until it fell into Ichiro Terada‟s hands. Tsuruta‟s sad gentle eyes pleaded. I could see a wave of shame running over Ichiro, who held on to the binder until Tsuruta thankfully took it. Everyone jeered and cuffed Ichiro across his ears, but I secretly thanked him. Ever since then, I have liked that boy. Well, Ichiro‟s not a boy anymore.

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65 que maneira o personagem vive sua realidade. Percebemos que a imagem produzida pela descrição do espaço no romance, torna-se fundamental para exprimir a relação do homem com o mundo, fazendo com que esse indivíduo explore seu espaço, procurando compreeender, modificar ou até mesmo se identificar.

Podendo ser fechado ou aberto, o espaço sempre traduzirá o psicológico do personagem: o primeiro representando o lado opressor, angustiante, no qual o indivíduo está encerrado; o segundo representando uma promessa de felicidade, a qual é possibilitada pelo deslocamento.

Genji sempre se sentiu preso e viveu por muito tempo nos “seus” espaços fechados. Uma das primeiras lembranças que ele tem de sua infância é quando está dentro de uma cesta olhando para o imenso céu azul, e esta imagem, assim como a simbologia desse espaço fechado, o perseguirá nos seus longos anos de vida. Através dos orifícios da cesta ele via o imenso céu azul e o mundo passava por cima dele:

Eu tenho tentado pensar na minha primeira lembrança. Minha primeira lembrança é um pouco estranha; estou numa cesta olhando para o céu azul. Devo ser pequeno o suficiente para caber na cesta mas não grande o suficiente para me movimentar. Estou todo encolhido, com os joelhos tocando o queixo. Acima de mim está o céu; posso ver as nuvens de uma extremidade à outra da cesta. Posso ver o céu mudar de cores42 (YAMASHITA, 1992, p. 187).

Essa lembrança era de quando sua mãe trabalhava na plantação e o deixava dentro de uma cesta e por muito tempo esse foi o seu espaço. Desde cedo, Genji aprendeu a olhar o mundo de forma restrita e essa atitude também influenciou nas suas atitudes quase sempre limitadas e sem inovações. Mesmo nas brincadeiras de criança, quando algo saía contrário às suas vontades logo começava a chorar e com o aval do pai, todos eram forçados a satisfazer suas vontades. Tal fato provocava a indignação das outras crianças e todos passaram a evitá-lo nas brincadeiras. Ninguém mais queria brincar ou ter a companhia dele.

42I have been trying to think of my first memory. My first memory is a rather strange one; I am in a basket

looking up at the blue sky. I must be small enough to fit in a basket but not big enough to move around. I am all squashed, with my knees touching my chin. Above me is the sky; I can see the clouds pass from one edge of the basket to the other. I can see the sky change colors.

66 Nas reminiscências de Genji, a cesta despertava um doce sentimento de um espaço acolhedor, quentinho e seguro, onde não se sentia sozinho. A cesta simboliza o corpo materno e nas escrituras e artes egípicias esse objeto de vime ou de palha, evoca uma ideia de totalidade, de unidade (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2004, p.286-287). Daí explica-se o sentimento de aconchego de Genji; a cesta representava o seu espaço protegido, uma extensão de quando ainda estava no ventre de sua mãe. O espaço restrito, embora aconchegante, da cesta era contrastado pela imagem do imenso céu e suas nuvens.

Dentre as suas variadas simbologias, o céu representa uma “manifestação direta da transcendência”43; universalmente é o símbolo dos “poderes superiores”44, na tradição chinesa

o céu é considerado como o “pai dos reis e mestres da terra”45; na tradição egípicia, o céu tem

um princípio feminino, a fonte de toda manifestação e, ainda, o céu é “o símbolo da consciência”46. O céu, pela sua infinitude e imensidão, é frequentemente empregado para

“significar o absoluto das aspirações do homem, como a plenitude da conquista, como o lugar possível da perfeição de seu espírito, como se o céu fosse o espírito do mundo”47

(CHEVALIER e GHEERBRANT, 2004, p.248-252). A imponência celestial atrai os homens de tal forma que a imaginação ultrapassa os limites da realidade, tornando difícil discernir o real do onírico.

A nuvem, por sua vez, possui uma natureza confusa e mal definida; devido a essa natureza ´nebulosa´, sem definição, talvez devido a sua constituição, e difícil de se entender as nuvens possibilitam uma viagem na imaginação daqueles que as observam. Na tradição chinesa a nuvem simboliza a transformação do sábio e para isso é necessário libertar-se das amarras dos sentimentos e da alma. A subjetividade e a simbologia que o termo nuvem carrega em si também é muito bem lembrado pelo precursor do Simbolismo, Charles Baudelaire. No poema “O Estrangeiro”, o poeta reverencia o fascínio do estrangeiro pelas nuvens: “Adoro as nuvens... as nuvens que passam... ali... ali... as maravilhosas nuvens!”48(BAUDELAIRE apud CHEVALIER e GHEERBRANT, 2004, p. 680). Nesse

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Manifestation directe de la transcendance.

44

Puissances supérieures.

45

Pére des rois et des maîtres de la terre.

46Symbole de la conscience. 47

Signifier l´absolu des aspirations de l´home, comme la plenitude de la quête, comme le lieu possible d´une perfection de son esprit, comme le ciel était l´esprit du monde.

48J‟aime les nuages...les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages! O estrangeiro é um

poema de Charles Baudelaire e foi publicado em 1869, como parte de Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de

67 poema, as nuvens, assim como a beleza, são vetores subjetivos e sem aprisionamentos, cuja realidade é possibilitada de forma intuitiva. Essa é uma característica do simbolismo, que prima pela interpretação intuitiva da realidade, sem a preocupação com a forma.

O relato de um Genji adulto recordando quando ainda era bebê e de suas principais lembranças do cesto, do céu e das nuvens, pode ser interpretado como uma fase positiva de sua vida. O aconchego do cesto, a imensidão do céu e a amorfia das nuvens, formam um conjunto que abre possibilidades para um mundo diverso. Neste momento Genji não está sozinho e nem acorrentado, ele simplesmente está livre para imaginar o mundo da forma que lhe apraz, mesmo no pequeno cesto; ainda havia esperança e sonhos para ele.

Porém, sua vida sofre uma reviravolta quando aos nove anos de idade Genji foi alvo de uma experiência provocada por uma divergência de opiniões entre seu prepotente pai e o artista Inagaki. Enquanto o amigo de Kantaro, Inagaki, acreditava que poderia ensinar qualquer um a ser um grande pintor, Befu dizia que o talento já nasce com o indivíduo, não é algo ensinado, pois “o verdadeiro talento estava escondido no sangue de um indivíduo”49 (YAMASHITA, 1992, p. 188). Para resolver o impasse, decidiram escolher Genji e mais outras crianças, além de alguns adultos, para serem objetos da experimentação, cujo resultado revelaria quem estivesse com a razão. Aos poucos todas as crianças e os adultos, os quais tinham as tarefas de trabalho na comunidade para cumprir e não dispunham de muito tempo para as aulas, foram perdendo o interesse pela pintura, restando apenas Genji.

Contudo, Inagaki vai embora da comunidade deixando Genji sem saber o que fazer, atitude passiva que deixou seu pai muito irritado:

Por um tempo eu não sabia o que fazer sem Inagaki, o que deixou meu velho nervoso. Ele gritou que eu era um gênio e não precisava de nenhum professor. Ele me ordenou que pintasse. Então, eu pintei o pomar de mangueiras novamente, mas depois que terminei de pintar as mangueiras, não havia mais tela. Mas eu devia pintar todo dia, então voltei ao pomar de mangas com uma antiga pintura e pintei por cima50

(YAMASHITA, 1992, p. 189).

49

[...] that true talent was hidden in the blood of a person.

50For a while I didn‟t know what to do without Inagaki; this made my old man angry. He shouted that I was a

genius and didn‟t need any teachers. He ordered me to paint. So I painted the mango groves again, but after I finished painting the mango groves, there was no more canvas. But I was supposed to be painting every day, so I went back to the mango groves with an old painting and painted over it.

68 A ação mecânica de Genji ao pintar o pomar de mangueiras51 reforça a sua

personalidade automatizada, ou seja, a sua visão de mundo é apequenada (compartimentada) e suas ações automatizadas, sem qualquer demonstração de emoção. Passivo às ordens do pai em pintar, automaticamente Genji pinta a mesma paisagem diversas vezes; sem conseguir alienar-se dessa automatização. Ao resgatar trechos teóricos de Leon Tolstói, o formalista russo Victor Chklovski (1978) chama atenção ao encobrimento do mundo apequenado na automatização da vida cotidiana banalizada (CHKLOVSKI, 1978, p. 45). Genji não saboreia e muito menos singulariza suas ações, ele simplesmente deixa sua vida ser tragada em atitudes não percebidas.

Genji não sabia nada sobre a vida laboriosa na comunidade, jamais foi incitado a trabalhar ou fazer qualquer atividade com os demais colonos e isso lhe causou uma certa apatia e marasmo. Por intermédio do seu pai, Genji é enviado para a cidade de São Paulo, numa tentativa de fazer com que se interessasse por alguma atividade ou ocupação. Ao contrário do que era para ser a sua oportunidade de desvincular dos laços com a comunidade, a sua ida para o Bairro da Liberdade faz com que Genji se sinta mais preso e sem ação:

Estou morando aqui em São Paulo no Bairro da Liberdade com Shigeshi Kasai, o homem do jornal. Eles me ajeitaram num quartinho no fundo da casa. O quartinho é do tamanho exato de uma cama e nada mais. Eu abro a porta e subo na cama. Daí, eu fecho a porta, e me vejo cercado por quatro paredes – é um pequeno túmulo. Há um estreito vitrô basculante perto do teto, mas como o vidro nunca foi limpo não posso ver fora. Mesmo que pudesse ver fora, não há nada para ver a não ser a parede da casa vizinha52(YAMASHITA, 1992, P.

218).

A cesta em que ficava quando era bebê torna-se um pequeno quartinho que é comparado a um túmulo; os seus movimentos físicos são restritos assim como as suas atitudes.

51Ao questionar sobre o pomar de mangueiras, mango groves em inglês, Karen Tei Yamashita explica que sua

intenção era de captar a visão de mangas avermelhadas balançando como muitos corações humanos.

Yamashita, Karen Tei. Brazil-maru. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <[email protected]> em 26 jun de 2011.

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I am living here in São Paulo in the Bairro Liberdade with Shigeshi Kasai the newspaper man. They found me a maid‟s closet in the back of the house. The closet can exactly fit a small cot and nothing more. I open the door and climb onto the cot. Then I close the door, and I am surrounded by four walls – it‟s a small tomb. There is a narrow levered window near the ceiling, but the glass has never been cleaned so I can‟t see out. Even I could see out, there is nothing to see but the wall of the house next door.

69 A única diferença é que de dentro da cesta ele ainda conseguia ver o céu e as nuvens, ao passo que do quartinho ele não tinha nenhuma visão externa.

Enclausurado, física e psicologicamente, no seu quarto, Genji passava o dia todo fumando e pintando nas paredes a mesma imagem que aprendera: o pomar de mangueiras. E quando não havia mais espaço para pintar, ele começou a fumar e dormir o dia todo. Apesar de transplantar para o seu minúsculo quarto toda a comunidade Esperança, simbolizada pelo pomar de mangueiras, Genji não consegue se soltar das correntes da solidão e sentir-se totalmente livre.

Ao invés das nuvens o conduzirem para o céu todo poderoso, Genji teve a sua vida conduzida e transformada em um verdadeiro cárcere, cujo resultado foi a sua decadência como indivíduo. O quarto fechado e sem luz, simboliza “o lugar da morte do velho homem e o nascimento do novo homem” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2004, p. 204), no qual o defunto é preparado para a passagem à uma nova vida; uma possível interpretação também seria a de um lugar intermediário causado por um certo abandono que conduzirá o homem para uma nova fase de sua vida. Lembrando que Genji fora enviado sozinho para São Paulo como uma forma de despertá-lo para a vida real: “Todos seguiram seu caminho. Eles me mandaram embora”53 (YAMASHITA, 1992, p. 218).

A saída de Esperança para São Paulo apenas representou a sua morte, pois Genji compara o seu quartinho como um “pequeno túmulo”. O túmulo na cultura africana simboliza o lugar onde é aprisionado a alma do morto para que esta não perambule pela terra e atormente os vivos. No mundo onírico, o túmulo representa o cemitério interior causado por diversas frustrações na vida; o túmulo simboliza “a busca de um mundo que contém um pouco de vida secreta para ele”54 (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2004, p. 953). A vida

para este sujeito não tem saída, ele é prisioneiro dos seus conflitos interiores. O espaço fechado do seu quartinho é reforçado por um pequeno vitrô, do qual não dá para ver nada; o espaço descrito por Genji exterioriza o seu sentimento de estar morto, sem vida e sem luz. O oposto de quando era bebê e a vida parecia ser bela e colorida com as luzes brilhantes do céu.

O amigo Kasai, cansado das reclamações da esposa Teru sobre Genji, conseguiu arrumar uma vaga para ele como aprendiz de um artista amigo chamado Ogata. Porém,

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They all got their way, They made me go away.

54

70 devido ao marasmo, à falta de entusiasmo e por quase ter posto fogo no estúdio do Sr. Ogata, Genji perdeu o emprego.

Mesmo morando no Bairro da Liberdade, reduto da colônia japonesa, Genji continua a se sentir um estranho. Ele consegue abalar as estruturas que sustentam os estereótipos do imaginário popular brasileiro sobre o homem japonês trabalhador, inteligente, ativo, organizado, disciplinado e sem vícios. O personagem Genji representa aqueles indivíduos em oposição aos homens nikkeis que são vistos como trabalhadores55(LESSER, 2008, p. 205).

O texto de Yamashita parece sugerir que essa maneira essencializada e generalizada de ver o nikkei deve ser desconstruída com o personagem Genji. Contrário aos estereótipos de japonês trabalhador; ele nunca foi trabalhador, enquanto todos empenhavam-se nos diversos serviços de Esperança, ele simplesmente pintava, e o vício do cigarro o consumia a cada dia. Genji era capaz de passar horas e horas tentando fazer círculos com a fumaça do cigarro. Confirmando o incômodo que suas atitudes causavam nos próprios colonos de Esperança, principalmente no seu pai, ele é enviado para São Paulo. Porém, mesmo nos rebuliços de uma cidade grande, Genji consegue tornar-se alheio a tudo ao seu redor.

No estudo realizado sobre os movimentos revolucionários japoneses surgidos na década de 1960 e 1970, Lesser revela que:

Embora a maioria dos militantes nipo-brasileiros fossem filhos de trabalhadores rurais, eles, com frequência, eram retratados no Japão como provenientes de “famílias que desempenham papel de liderança na sociedade japonesa do Brasil”. Essas múltiplas mensagens refletiam a ambivalência com a qual muitos japoneses viam os emigrantes: por um lado, havia orgulho pelo êxito da diáspora, por outro, os aspectos não-japoneses da vida da diáspora eram precisamente o que levava os jovens nikkeis a adotar posições anti- autoritárias (LESSER, 2008, p. 200).

Nesse sentido de não-autoritarismo é que o narrador-protagonista do último capítulo de Brazil-Maru, Guilherme, luta e reivindica uma sociedade mais livre das amarras do governo ditatorial. Ele é filho de Shigeshi e Teru Kasai; ele é o único protagonista com nome

55O interessante é, enquanto os homens nikkeis são trabalhadores, as mulheres nikkeis são imaginadas como

puramente sexualizadas, ou seja, as mulheres nikkeis não trabalham e são imaginadas por muitos paulistanos como gueixas (LESSER, 2008, p. 205).

71 não japonês e que realmente se sente um brasileiro. Guilherme é casado com Jacira Raimundo, filha de Floriano Raimundo, o Bahiano.

Ficamos conhecendo Jacira Raimundo através da narrativa de seu marido. Jacira que não tem nenhuma ascendência japonesa é mais familiar aos costumes japoneses do que Guilherme, um nissei. Durante o período da II Guerra Mundial em que os japoneses perderam todos os seus direitos civis, Bahiano foi quem dirigiu a cooperativa da comunidade Esperança. Em razão disso, Jacira conviveu diretamente com os imigrantes japoneses, aprendendo e vivendo a cultura japonesa. Sobretudo, ela aprendeu o significado de cooperar:

Jacira não conhecia Genji, mas ela conhecia as pessoas que Genji denominava de “os outros”. Essa metade do grupo original de Uno morou na fazenda da família de Raimundo até terem condições de comprar a própria terra. Jacira cresceu na grande família de sua comunidade, brincando com suas crianças, e ela considerava essas pessoas como sendo sua família. Para mim, que sempre tentei me dissociar da colônia, isto me veio como uma surpresa. “Eu te disse que sou japonesa,” ela riu de mim. Ela admite que seu envolvimento nos eventos políticos era influenciado por um ideal de cooperação que ela aprendeu dessas pessoas. “Auto-suficiente com três refeições diárias,” ela enfatiza. “No Brasil atual é algo com o qual podemos aprender.” (YAMASHITA, 1992, p. 247)56.

Pelo fato de ter nascido e sido educado fora de uma colônia japonesa, Guilherme jamais compreendeu o isolamento e o confinamento a que muitos da colônia se submetiam e se sentia totalmente estranho à colônia e ao seu modo de vida. De uma forma bem sutil, Yamashita apresenta Guilherme como o símbolo de um “desafio à geração política e culturalmente conservadora de seus pais” (LESSER, 2008, p. 120). Além da militância que se opunha à ditadura, Yamashita nos brinda com o casamento interétnico de Guilherme e Jacira, um nipo-brasileiro e uma brasileira. Interessante lembrarmos que em meados de 1960, os casamentos mistos entre japoneses e brasileiros representavam a porcentagem de 50%, sendo que entre os militantes nikkeis a porcentagem sobe para quase 100% (LESSER, 2008, p. 121).

56Jacira didn‟t know Genji, but she knew the people Genji called “the others.” This half of Uno‟s original group

lived on the Raimundo family ranch until they were able to buy land of their own. Jacira grew up in the extended family of their commune, playing with their children, and she considered these people to be her family. To me, who had tried to disassociate myself from the colônia, this came as a surprise. “I told you I‟m Japanese,” she laughed at me. She admits her involvement in political events was influenced by na ideal of cooperation she learned from these people. “Self-sufficient with three meals a day,” she emphasizes. “In the Brazil of today, that is something from which we can learn.”

72 Ainda, segundo Lesser, esses casamentos simbolizavam uma prova do sentimento da brasilidade desses sujeitos hifenizados.

Em Sonhos bloqueados, o personagem Kunio, irmão mais velho de Kimiko, também

Benzer Belgeler