• Sonuç bulunamadı

desafios próprios do atual processo de desenvolvimento.

5.1.2 O caso dos Cinta Larga: Um marco para a exploração mineral em Terras Indígenas

Além do garimpo se constituir a face informal da mineração, é também uma prática recorrente em Terras Indígena embora se dê a reveliadas leis brasileiras como Constituição Federal e Estatuto do Índio que proíbem o garimpo por não índios nessas áreas:

O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei. ( Constituição Federal, Artigo 231, parágrafo 3º).

No entanto, segundo Pereira (2008), até 2004 as leis ambientais e indigenistas não deixavam clara a possibilidade dos próprios índios extraírem minérios de suas terras. A dúvida existia porque tanto na Constituição Federal quanto no Estatuto do Índio consta que os recursos da terra indígena são para usufruto exclusivo dos povos indígenas, como se pode observar no trecho que segue:

As riquezas do solo, nas áreas indígenas, somente pelos silvícolas podem ser exploradas, cabendo-lhes com exclusividade o exercício da garimpagem, faiscação e cata de áreas referidas. ( Estatuto do Índio, artigo 44º).

Ao fazer um esboço sobre os projetos que visam à regulamentação da mineração em terras indígenas, Curi (2005) evidencia a falta de vontade política aliada aos interesses econômicos que impedem que tal questão se resolva. Alguns exemplos, citados pela autora, podem ser esclarecedores dessa situação. Em 1990 o projeto de lei do senador Severo Gomes foi aprovado pelo Senado, mas quando remetido à Câmara dos Deputados não foi apreciado, de modo que passadas duas legislaturas, foi arquivado, salienta a estudiosa. Já em 1996 o senador Romero Jucá do Partido da Frente Liberal (PFL) teve o projeto de lei número 121/96 aprovado pelo Senado, projeto que versava sobre a exploração e o aproveitamento dos recursos minerais em terras indígenas. Este foi remetido à Câmara dos deputados sob o número 1.610/96 onde até o término da pesquisa da estudiosa, que considerava este o projeto mais debatido e questionado naquele momento, continuava em tramitação.

Tanto Curi (2005) quanto Pereira (2008) sustentam que é tão somente a partir do conflito entre garimpeiros e indígenas Cinta Larga na Reserva Roosevelt em 2004 que o governo federal se posiciona no sentido de expor a impossibilidade de exploração de minérios em terras indígenas. Isso porque diante do conflito em torno da exploração de diamantes que culminou na morte de 29 garimpeiros na Terra Indígena dos Cinta Larga, o governo federal promulgou um decreto no sentido de criar um grupo operacional, Operação Roosevelt, para coibir a exploração mineral em terras indígenas e que dispunha o objetivo do grupo destacado a seguir:

(...) fiscalizar e garantir a adoção das medidas necessárias e cabíveis para coibir toda e qualquer exploração mineral em terras indígenas, em especial nas áreas Roosevelt, Parque Indígena Apurinã, Serra Morena e Aripuanã, localizadas nos estados de Rondônia e Mato Grosso, até que a

matéria seja regulamentada por lei. (Governo Federal, 2004, Grifo da pesquisadora).

Ainda que o decreto desse uma atenção especial à área do conflito que se dava naquele momento, deixava claro o desígnio de coibição da exploração mineral em terras indígenas de modo genérico. Na opinião de Curi (2005), o conflito serviu para a retomada das discussões sobre essa questão, o trecho a seguir retrata a questão:

O assunto voltou a fazer parte com maior veemência da pauta de discussões dos parlamentares do atual governo, devido ao conflito entre garimpeiros e indígenas pela exploração de diamantes nas terras dos índios Cinta Larga. A questão parece ter ficado adormecida na administração anterior e agora, principalmente pela movimentação de parlamentares interessados na exploração de recursos naturais nessas terras e contrários aos direitos indígenas, o assunto foi levantado, suscitando diversas discussões e controvérsias sobre o tema (CURI, 2005, p. 103).

Sendo este um caso de repercussão internacional, a partir do seu estopim, a morte dos garimpeiros, as autoridades se viram pressionadas a tomar ações mais contundentes no sentido de coibir o garimpo, ações que vinham sendo postergadas desde a descoberta dos diamantes em 1999 e o acirramento das rivalidades entre índios e garimpeiros, sobretudo após o assassinato de César Cinta Larga em 2002.

A questão fundamental desse tipo de conflito reside na revitalização da fronteira, não a fronteira geográfica analisada pelas frentes de expansão em que sobressai a figura do pioneiro, mas a fronteira do humano, bem retratada por José de Souza Martins (1997, p.12) como “ponto limite de territórios que se redefinem continuamente disputados por

diferentes grupos humanos”. Para o autor, essa fronteira se desdobra em muitas outras,

como a fronteira étnica, fronteira de destinos, de historicidades desencontradas, de tempos que não fluem simultaneamente na direção, fronteira em que brancos e civilizados se tornam categorias relativas. É, sobretudo, locus dos arcaísmos mais desumanizadores principalmente pela sua capacidade de recriação das formas arcaicas de dominação e reprodução ampliada do capital que se revestem em cenários de modernização.

O aspecto trágico dessa fronteira é evidenciado por Martins (1997) pelo cenário

conflitivo que gera uma espécie de guerra que “põe confronto, igualmente mortal,

visões de mundo e definições do Outro que expressam uma rica e difícil diversidade de

É neste sentido que o conflito entre garimpeiros e Cinta Larga se torna expressão da revitalização da fronteira do humano. Mesmo que esse evento tenha se dado nos tempos modernos em pleno desenvolvimento capitalista, aponta ao mesmo tempo, numa linguagem de Martins (1997), para a recriação de mecanismos de acumulação primitiva em que meios violentos e especulativos são acionados para que se a reprodução capitalista possa crescer em escala.

Isso fica ainda mais claro quando levados em consideração os interesses maiores relacionados à exploração desse recurso natural que, segundo Curi (2005) se relacionam com o tráfico internacional de diamantes no qual estavam supostamente envolvidos autoridades locais e outros políticos. O trecho abaixo é conexo à questão:

O envolvimento de políticos e funcionários públicos com a atividade ilegal do garimpo em área indígena pode ser constatado pelas denúncias feitas pelos índios e pelos fatos que a evidenciaram. Segundo a Associação Pamaré, o governador do Estado de Rondônia, Ivo Cassol (PSDB), tentou entrar em acordo com a Associação, propondo que pessoas ligadas ao governo passassem a trabalhar com os índios para explorar o garimpo. (CURI, 2005, p. 132)

Mais uma vez se vê o desencontro de visões de mundo no contexto do garimpo que se torna fronteira do humano, em que a descoberta desastrosa e conflitiva do Outro entre indígenas e garimpeiros se dá influenciada por interesses maiores, próprios da acumulação primitiva do capitalismo, que justamente necessita da degradação do humano para sobreviver e se reproduzir.

Não raro as leis que visam à regularização da mineração encontram-se paralisadas no Senado e na Câmara dos Deputados. Passados sete anos do término da pesquisa de Curi (2005) o projeto de lei 1.610/96, que era até então o que despertava maiores discussões naquele momento do conflito, embora tenha sido aprovado por três Comissões de Mérito e atualmente conte com o relator Heldio Lopes do PMDB/RR, continua aguardando o parecer da Comissão Especial. O único parecer que o projeto de lei recebeu foi pelo deputado Eduardo Valverde PT/RO, porém este nunca foi votado e acabou sendo encerrado devido ao término da última legislatura12.

Enquanto isso resiste na memória dos rondonienses uma espécie de ressentimento e preconceito em relação aos indígenas de modo geral em decorrência

12

Essas informações foram obtidas pelo serviço de atendimento às dúvidas dos cidadãos da Câmara dos Deputados. Dique Câmara: 0800 619 619.

desses acontecimentos envolvendo os Cinta Larga. Por outro lado, esse grupo indígena prossegue convivendo com resquícios dos maquinários do garimpo, como se pode observar destacado em vermelho na Figura 10, mas, sobretudo com resquícios do preconceito, do direito recusado, do desamparo legal.

Figura 10. Desenho da Terra Indígena Roosevelt feito por Yasmin Cinta Larga. Fonte. Dados da pesquisa, 2011.

Em conversas informais com Yasmin Cinta Larga foi possível perceber certa reserva não só dela, mas do seu povo em falar do conflito. Mesmo assim, a jovem relatou sobre as dificuldades financeiras enfrentadas após fechamento pela Polícia Federal da exploração de diamantes. Os efeitos chegaram até ela quando não pôde mais estudar em um colégio particular do município de Cacoal.

As reservas na fala da indígena confirmam um dos argumentos de Martins (1997:119) “há os que falam e há os que silenciam e falam por meio do silêncio. São os que foram calados, excluídos e marginalizados das tribunas da vida, obrigados a dissimular o seu dizer no gesto da metáfora”. Assim, o não falar do conflito comprova o aspecto trágico da fronteira que permanece nos imaginário daquele povo indígena.

Se por um lado, os Tenharim constroem a sua história a partir de novas bases e, sobretudo de uma maneira criativa mesmo que a partir de um evento negativo. Por outro, o não reconhecimento e o direito recusado, como percebido no caso dos Cinta Larga,evidenciam que existem ainda muitos descompassos em termos práticos e legais envolvendo aspectos também políticos, que são limitadores das possibilidades econômicas aos indígenas, pois pertencem a um campo de interesses e disputas em se reafirma nas representações e nos discursos uma alocação dos povos indígenas no desenvolvimento vinculados à marginalização e à precariedade.

O que se pode apreender das experiências de ambos os grupos indígenas que tiveram processos sociais desencadeados em decorrência da mineração em suas terras no processo desenvolvimento em questão é o imperativo de rechaçar o determinismo nos quais os grupos indígenas estariam sempre aptos a ocupar posições de outsiders frente à necessidade de obter melhores condições de vida, de renda e até mesmo de poder.

As experiências trazidas demonstram empiricamente os argumentos de Favareto (2007) sobre as diferentes determinações da realidade, na qual, a evolução das configurações históricas, por mais que estejam relacionadas a uma atividade semelhante, no caso analisado a mineração em Terras Indígenas, é sobretudo multidirecional, cabendo aos formuladores de políticas públicas e atores envolvidos com a causa indígena a necessidade de conceber o desenvolvimento pela perspectiva das especificidades e da capacidade criativa a partir da qual as pessoas e os grupos se mostram capazes de organizar e dar um novo tom aos seus projetos de vida.

5.2 Cortes históricos e fragmentos de asfalto: O caso dos Jiahui e a

Benzer Belgeler