4. ARAŞTIRMA BULGULARI VE TARTIŞMA
4.2. Süt Verim Özelliklerine Etki Eden Faktörler
4.2.2. Laktasyon Süt Verimine Etki Eden Faktörler
A comunicação televisual lida, basicamente, com duas materialidades significantes: a imagem e a fala. Nesse sentido, a personagem da telenovela (e de outras narrativas televisivas), assim como a personagem da narrativa cinematográfica67, está
presente sob a forma de uma realidade analógica composta de imagens e de sons, sendo, desse modo, diferente da personagem do romance literário, na qual ela existe como um “ser de papel”, sob a forma de traços tipográficos.
Em outras palavras, na televisão e no cinema, a personagem é um ser icônico que, para existir, deve literalmente tomar um corpo, esse do ator/intérprete. Portanto, além
67 Todos os apontamentos dessa seção foram retirados de Gardies (1993). Embora o autor trate da narrativa
fílmica do ponto de vista do dispositivo cinematográfico, acreditamos que seus postulados possam ser aplicados à narrativa fílmica televisiva, já que, sob a óptica semiológica, tais dispositivos comunicativos lidam basicamente com as mesmas materialidades significantes.
161 dela ser origem de ações narrativas, uma vez que ela se inscreve no âmbito da lógica da narrativa fílmica, ela é também o suporte de uma atividade de identificação, garantida pelo fato de o ator/intérprete “emprestar” o seu corpo à personagem e, com isso, identificá-la em relação às demais (GARDIES, 1993).
Podemos dizer, então, que na narrativa fílmica as personagens são figuras híbridas que possuem uma dupla polarização ligada às materialidades dos dispositivos: elas são, ao mesmo tempo, personagens, pois se inscrevem na lógica da narrativa; e atores (comédiens, em francês), uma vez que elas pertencem ao mundo fílmico onde se faz necessário a encarnação literal da personagem para que essa possa ter existência. Logo, nesses dispositivos, a personagem é uma figura compósita já que se materializa no discurso através de, pelo menos, duas realidades significantes sensíveis: a imagem e o som.
Embora a personagem da narrativa fílmica possua uma dupla identidade (do ator/intérprete e da própria personagem), o que o telespectador vê na tela não é o ator, mas a imagem dele. Logo, enquanto materializada no espaço textual através da mise en scène discursiva, a personagem é encarada como um signo e, como tal, possui duas realidades: a) uma realidade significante e b) uma realidade significativa (relativa ao significado).
No que diz respeito à primeira realidade, podemos compreender que se no romance escrito a personagem é constituída pelas palavras (materialidade linguística), na narrativa fílmica (seja ela do dispositivo televisivo ou cinematográfico), ela é basicamente constituída de imagens em movimento. Disso resultam duas consequências: a primeira é a de que a personagem é um signo pleno, portador de múltiplas significações. A segunda é a de que o significante visual de que ela se compõe é sempre mutável, como ressalta Gardies (1993). Nesse sentido, a figura do ator-personagem não para de se transformar ao longo do desenvolvimento da narrativa, criando, com isso, a unidade da própria personagem. Além de mutável, a figura é fragmentária: o ator-personagem pode ser enquadrado de formas variadas, isto é, o sujeito mostrador (o nosso enunciador) pode apresentar essa personagem em tamanhos e ângulos variados, valendo-se da escala de planos e dos ângulos de filmagem para tal. Assim, como aponta Gardies (1993, p. 55): “(...) o ator não cessa de ser ‘decupado’ para melhor afixar sua permanência. Acha-se
162 então em presença de um ser paradoxal, cuja unidade se constrói sobre a instabilidade fundamental de sua face significante.”68.
Portanto, a personagem da narrativa fílmica é fundamentalmente um ser “icônico”, nas palavras de Gardies (1993). Enquanto signo, esse ser é constituído, no plano de seu significante, de imagens e de sons. Entretanto, isso não exclui a dimensão verbal da descrição (lê-se identificação, localização-situação e qualificação) da personagem, uma vez que aquilo que ela diz e que as outras personagem dizem dela podem contribuir para elaborar sua figura narrativa.
No que concerne à segunda realidade, a personagem-signo possui, no âmbito do espaço textual, um significado ou um valor dependente da relação entre dois eixos: a) eixo da atribuição, que corresponde, segundo Gardies (1993), à distribuição das características que se reportam a uma personagem ao longo da narrativa, sendo que tal eixo reúne na mesma figura aquilo que o texto fragmenta e dissemina, constituindo uma espécie de retrato; b) eixo da diferença, que diz respeito ao fato da personagem adquirir seu sentido (ou seu valor) a partir das relações que ela mantém com outras personagens.
Ao descrevermos as personagens de uma narrativa televisual, como é o caso de O Astro, não podemos deixar de levar em conta que essa figura é resultante de vários fatores – sobretudo da dupla polarização de que mencionamos anteriormente – que, por essa razão, não é conveniente chamá-la nem de personagem (já que esse conceito é próprio da narrativa literária escrita), nem de ator (conceito próprio do mundo artístico), mas de figura actorial, como o faz Gardies (1993).
Devido à importância que o conceito de figura actorial tem para o nosso trabalho, reservamos a seção abaixo para apresentá-lo, considerando os postulados de Gardies (1993).
7.1.1. A figura actorial de André Gardies
Segundo Gardies (1993), a figura actorial é uma instância própria da narrativa fílmica, cuja realidade perceptível é constituída pelo significante icônico e pelo valor relacional de diversos fatores, bem como pelo funcionamento dessa figura no âmbito da narrativa, enquanto discurso. Logo, a figura actorial é uma figura complexa que resulta da combinação de quatro componentes: a) o actante, b) o papel, c) o personagem e d) o
68 No original: « (...) le comédien ne cesse d’être ‘découpé’ por mieux afficher sa permanence. On se trouve
donc en présence d’un être paradoxal dont l’unité se construit sur l’instabilité fondamentale de sa face
163 ator. Consideremos o quadro 13 abaixo para compreendermos melhor os componentes da figura actorial.
Componentes Definição
Actante
A figura actorial é uma força agente no mundo diegético, garantindo, com isso, a dinamicidade da narrativa e o desenvolvimento da história. Dessa forma, a figura actorial se define pelo lugar que ela ocupa no esquema actancial, seja como agente, destinatário, oponente, etc., e pelas relações que ela mantém com outras forças. Uma mesma figura pode ocupar simultaneamente ou sucessivamente posições actanciais diferentes.
Papel
O papel corresponde a um modelo pré-existente que fornece um conjunto de regras e de restrições para a figura actorial. Trata-se, portanto, de um componente mais estável que compreende um conjunto de traços definitórios prévios, criando um horizonte de expectativa para o telespectador. Por exemplo, o papel de vilão implica uma série de traços de ordem física, de ordem gestual-mímica que o ator deve seguir para executá-lo.
Personagem
A personagem pertence ao mundo diegético que o discurso narrativo propõe. Ela é definida pelas relações que mantém com os demais elementos que povoam esse mundo e só tem sua razão de ser em relação a esse mundo. Nesse sentido, a personagem se difere do papel: quando se fala de uma figura independente da narrativa, faz-se referência ao papel; quando essa mesma figura é considerada em relação ao mundo diegético que ela pertence e que a narrativa propõe, faz-se então referência à personagem. Logo, podemos dizer que a personagem é um componente da figura actorial que constituiu a “essência” dessa figura.
Ator/intérprete
Esse componente é responsável por fornecer a dimensão física da figura actorial na medida em que o ator/intérprete dá “corpo” à figura. Embora o corpo, a nível profílmico69, seja necessário para deixar sua impressão na película, esse
componente não se limita a esse aspecto corporal/físico. Ele também está relacionado a uma atividade de intertextualidade já que o ator participa do mito e está ancorado no imaginário sócio-cultural de uma dada comunidade. Assim, na lógica do star system, a imagem (e aqui compreendemos imagem como imagem de si) do ator é nutrida por todos os discursos que a mídia e o grande público têm sobre ele. Conforme aponta Gardies (1993, p. 63): “[s]e a pessoa física do ator intervém ao nível profílmico (...), o espectador só conhece dele uma imagem, essa do significante fílmico e essa também secretada pela atividade de
intertextualidade, bem como pelo imaginário social.”70
Quadro 13 - Os componentes da figura actorial. Quadro constituído a partir dos apontamentos de Gardies (1993)
Pelos componentes apresentados no quadro, observamos que se a figura actorial manifesta-se sensivelmente por um significante de natureza verbo-icônica, ao plano do seu significado, ela resulta de um processo de semiotização bastante complexo. Cada um dos componentes arrolados no quadro 13 acima se inscreve em seu próprio sistema e são ao mesmo tempo elementos que contribuem para a elaboração semântica da figura actorial.
69 Segundo Aumont e Marie (2010), o termo profílmico designa, nos dias atuais, “(...) o que se encontra
diante da câmera no momento da filmagem, tenha sido disposto ali intencionalmente ou não.” (p. 242).
70 No original: « [s]i la personne physique du comédien intervient au niveau du profilmique (...), le
spectateur ne connaît de lui qu’une image, celle du signifiant filmique mais aussi celle secrétée par l’activité d’intertextualité aussi bien par l’imaginaire social. »
164 Portanto, a figura actorial é um conceito mais apropriado que o de personagem para compreender um dos componentes essenciais da narrativa fílmica, uma vez tal conceito contempla não somente a dimensão verbal, mas, sobretudo, a dimensão icônica desse componente, o que, nesse tipo de narrativa, é uma condição sine qua non.
Como do ponto de vista de nosso arcabouço teórico-metodológico descrição e narração estão intrinsecamente relacionadas, a figura actorial, devido à sua complexidade, pode ser analisada sob o ponto de vista do modo de organização descritivo. Passemos então para a apresentação dos resultados do modo de organização descritivo no que concerne ao estrato verbal (seção 7.2) e ao estrato visual-fílmico (seção 7.3).
7.2. A descrição no estrato verbal: fazendo existir seres ficcionais a partir de