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1.2. BEDÎ BELAGAT SANATLARI

1.2.2. Lafzi Sanatlar

No contexto teórico da administração, em todo seu arcabouço, há um vetor sempre orientado para a decisão. A construção desse arcabouço teórico e a tomada de decisão são sustentadas por racionalidades e estas recebem contribuições da filosofia, sociologia, economia, antropologia e psicologia. A revolução industrial ensejou uma economia de mercado que fez surgir uma nova racionalidade orientada para a produção. Kant, Weber, Habermas, Mannheim, Pfiffer, Simon, Ramos, entre outros, contribuíram significativamente para a reflexão sobre racionalidade, uma dimensão do comportamento humano dotada de um

spectrum de conceitos, compressões e tipificações, cujas influências determinam os caminhos a ser trilhados pelas organizações e seu líder.

Max Weber (1968), em seus escritos sobre os “termos sociológicos básicos”10, suscita a análise da racionalidade trazendo uma avaliação acerca do funcionalismo e apresentando quatro tipos de ação social: racional relacionada aos fins, dotada de uma consciência calculada pelos fins escolhidos; racional relacionada aos valores, dotada de consciência sistemática de sua intencionalidade; afetiva e tradicional, ligadas ao emotivo ou sentimental. Salienta o autor que a racionalidade formal ou instrumental está determinada por uma expectativa de resultados ou “fins calculados”. Já a racionalidade substantiva ou de valor está determinada “independentemente de suas expectativas de sucesso”, não caracterizando qualquer ação humana interessada na “obtenção de um resultado posterior a ela”. Logo, em sentido amplo “a racionalidade designa um estilo ou um comportamento:

a) adequado à obtenção de determinadas metas;

b) dentro dos limites impostos por determinadas condições e coerções” (SILVA, 1987).

O fato de a racionalidade funcional buscar os fins de qualquer forma, independentemente do teor das ações, levou Mannheim (1961) a observar que a industrialização prima pela racionalidade funcional e a admitir que ela exerce um efeito de paralisia sobre a potencialidade mediana do indivíduo para apreciar e entender os fenômenos a partir da racionalidade substantiva. Segundo Ramos (1983, p.39), “diz-se que é substancialmente racional todo ato intrinsecamente inteligente que se baseia num conhecimento lúcido e autônomo de relações entre fatos”. Assim sendo, Mannheim (1961)

10 Instrumentally rational (Zweckrational), that is, determined by expectations as to the behavior of objects in the environment and of other human beings; these expectatives are used as “conditions” for the attainment of the actor’s own rationally pursued and calculated ends; (II) Value rational (Wertrational), that is, determined by a conscious belief in the value for its own sake of some ethical, aesthetic, religious, or other form of behavior, independently of its prospects of success; (III) Affectual (especially emotional), that is, determined by the actor’s specific affects and feeling states; (IV) Traditional, that is, determined by ingrained habituation” (Weber, 1968, p.24-5).

alerta para o fato de que o processo industrializatório aumentou a concentração da propriedade dos meios de produção por parte do capital, bem como o poder de decidir e organizar, provocando a exclusão de muitos, a debilitação da racionalidade substantiva e a alienação do homem.

Ramos (1983) recupera em Pfeffer a noção de tridimensionalidade na racionalidade administrativa, envolvendo o clássico, que considera os fins e articula os meios propícios para alcançá-los, e nesse tipo a motivação do indivíduo é de interesse econômico; o normativo, que privilegia regras técnicas, normas qualificadas como científicas, confinando o gestor a um mundo abstrato de concepções de enunciados sobre o que deve ser, e não é fácil, para os padrões, perceber o que há de significativo nos fatos; e o comportamental, que é flexível, correspondendo ao que pratica o administrador no momento em que procura minimizar as resistências que encontram suas decisões por força de variáveis comportamentais.

Segundo Simon (1971), uma decisão é ‘organizativamente’ (sic) racional quando está orientada para as finalidades da organização; ou é ‘pessoalmente’ racional quando está orientada para as finalidades do indivíduo. Embora Simon trabalhe com as proposições de racionalidade objetiva e subjetiva, não há dúvida que o uso do termo maximizar em ambas leva a uma racionalidade funcional, instrumental.

Kant concebeu a razão como sendo dotada de causalidade e de sua natureza pode-se induzir a noção de um bem a ser procurado no domínio da vida pessoal, tanto quanto no da vida social. Segundo Desanti (1990), a razão não exige que sejam tornados explicitamente conscientes e desenvolvidos todos os segredos sedimentados que ela comporta, assim como o refinamento da razão está diretamente relacionado ao sucesso de operações rigorosas e precisas e restritas ao campo da aplicação legítima dos procedimentos que ela determina. Nessa direção, Habermas (1987, p.24) afirma ser a razão um dever exclusivamente dos seres racionais, dizendo que se pode considerar como mais ou menos racionais as pessoas que

dispõem de um saber e expressões simbólicas, lingüísticas ou não, comunicacionais ou não, que incorporam um saber. Para ele, podemos chamar de “racionais” homens, mulheres, crianças e adultos, mas nunca os peixes, montanhas, estradas; podemos chamar de “irracionais” os atrasos, desculpas, intervenções cirúrgicas, declarações de guerra, porém o mesmo não é possível para o mau tempo, infortúnio, ganhar na loteria ou uma doença.

Para a psicologia, a razão pode ser entendida como uma força ativa, habilitando o indivíduo a distinguir entre o bem e o mal, entre o falso e o verdadeiro, e assim ordenar a vida pessoal e social (RAMOS, 1989). Portanto, a análise da razão moderna revela-se primordial ao estudo das organizações contemporâneas, visto que a racionalidade instrumental serve às necessidades do sistema de mercado, e a ciência social, inserida nessa racionalidade, tem uma atitude distanciada em relação ao objeto analisado, justamente por haver uma subordinação do humano em relação a metas que em nada contribuem para a libertação humana. Ramos (1989) ancora-se na concepção de Hobbes de que a razão é a capacidade que o indivíduo adquire “pelo esforço” e o que o habilita a nada mais do que fazer o “cálculo utilitário de conseqüências”, sendo que, na atualidade, a racionalidade incorpora freqüentemente conotações antiéticas no que se refere aos objetivos fundamentais da existência humana, fato que reforça a anti-racionalidade desprovida de objetivo certo, visto que a problemática reside na identificação do conceito-chave de vida individual e associada. Por isso, Ramos (1989) apresenta três qualificações que distinguem a teoria substantiva da teoria formal da vida humana associada:

1. a teoria da vida humana associada é substantiva ou formal, quando a razão, no sentido substantivo ou funcional, respectivamente, é a principal categoria de análise;

2. a teoria substantiva da vida humana associada existe há muito tempo e seus elementos sistemáticos são encontrados nos trabalhos dos pensadores de todos os tempos, sintonizados com o significado do senso comum atribuído à razão, embora nenhum deles tenha utilizado a expressão razão substantiva;

3. a teoria substantiva envolve uma superordenação ética da teoria política, sobre qualquer eventual disciplina que focalize questões da vida humana associada.

A contribuição de Ramos ao estudo da racionalidade é relevante no sentido da crítica construída sobre fundamentos claramente observáveis no mundo de cenário real, e ele alerta para o fato de que, antes da emergência da sociedade de mercado, o tipo de raciocínio deliberado, somente interessado nos meios de atingir metas determinadas, foi apenas um aspecto limitado do conceito mais amplo de racionalidade, revestido sempre de aspectos éticos. Portanto, “chamar um homem ou uma sociedade de racional significava reconhecer sua fidelidade a um padrão objetivo de valores postos acima de quaisquer imperativos econômicos” (RAMOS, 1989, p.122).

Outra consideração feita por Ramos conduz à análise da origem do caráter enganoso da ciência social convencional em função do conceito de racionalidade que a norteia porque, diversamente da racionalidade formal, a racionalidade substantiva nunca poderá ser limitada a um enunciado interpretativo. Somente pela livre experiência da realidade e de sua precisa articulação é que a racionalidade substantiva será compreendida. O QUADRO 8 ilustra essas diferenças entre a racionalidade formal ou instrumental e a substantiva, evidenciando que a racionalidade substantiva, ao contrário ou como complemento, aborda uma condição humana integrada às suas próprias condições históricas, reconduzindo o homem a uma situação de domínio do seu próprio destino de forma autodeterminada.

QUADRO 8

Teoria da vida humana associada

FORMAL SUBSTANTIVA

I Os critérios para ordenação das associações humanas

são dados socialmente

I Os critérios para a ordenação das associações

humanas são racionais, isto é, evidentes por si mesmos ao senso comum individual, independentemente de qualquer processo particular de socialização

II Uma condição fundamental da ordem social é que a

economia se transforme num sistema auto-regulado II Uma condição fundamental da ordem social é aregulação política da economia

III O estudo científico das associações humanas é livre

do conceito de valor: há uma dicotomia entre valores e fatos

III O estudo científico das associações humanas é

normativo: a dicotomia entre valores e fatos é falsa, na prática, e, em teoria, tende a produzir uma análise defectiva

IV O sentido da história pode ser captado pelo

conhecimento, que se revela através de uma série de determinados estados empírico-temporais

IV A história torna-se significante para o homem

através do método paradigmático de auto- interpretação da comunidade organizada. Seu sentido não pode ser captado por categorias serialistas de pensamento

V A ciência natural fornece o paradigma teórico para a

correta focalização de todos os assuntos e questões suscitados pela realidade

V O estudo científico adequado das associações

humanas é um tipo de investigação em si mesmo, distinto da ciência dos fenômenos naturais, e mais abrangente que esta

FONTE - Ramos, 1989, p. 29.

O fenômeno das redes organizacionais econômicas ou sociais, configura o cenário social e de mercado de modo irreversível, por causa do elevado investimento (pessoal e financeiro) e do comprometimento das pessoas com o projeto, sendo que sua estruturação e organicidade revelam lógicas inovadoras ou divergências com as práticas comuns. A análise de tais lógicas origina-se no contexto da racionalidade e o estudo da razão auxilia a evidenciar, considerando-se as particularidades, o espírito de permanência no processo da rede em questão.

As redes econômicas nos levam a crer, de forma imediata, na correlação entre elas e a racionalidade funcional (formal ou instrumental), pela existência de pontos concordantes quanto aos objetivos. Embora as redes econômicas apresentem uma nova maneira de desenvolvimento e sustentabilidade do mercado, implicando métodos e arranjos relacionais distintos, ainda assim mantêm, conforme o que se coloca como básico na racionalidade instrumental, uma demanda “por uma expectativa de resultados” ou “fins calculados”. A

lógica que impera no mercado é a do capital e, inevitavelmente, o alvo está centrado nos resultados imediatos, nos lucros e na sobrevivência, ou ainda, sobreviver ganhando muito além do necessário. Conseqüentemente, a racionalidade instrumental nas redes econômicas resvala para o campo da ética, especificamente a ética econômica “que se propõe a atingir como fim imediato um bem de ordem temporal” (SILVA, 1987). Tal situação evidencia que, no contexto das firmas, o uso da metodologia de redes representa uma alternativa estratégica para superar as dificuldades sóciopolíticas e econômicas resultantes da economia neoliberal e a busca da competitividade.

Para complementar a análise do que são as relações entre redes econômicas e racionalidade instrumental, incluímos aqui, primeiro a idéia de Habermas (1987, p.374) sobre a noção dos custos sóciopsicológicos externalizados pela sociedade e descarregados sobre os indivíduos, decorrentes do uso de uma racionalização limitada à dimensão cognitiva instrumental, conforme se vê no QUADRO 9 abaixo, e manifestados de diversas formas: doenças psíquicas, nervosas, fenômenos patológicos crônicos, problemas psicossomáticos, problemas de motivação e educação. Ainda sobre isso, Habermas agrega a teoria do fascismo de Horkheimer, para dizer que essa racionalidade instrumental desconsidera, de forma deliberada, a função da resistência, por haver um desejo intencional das elites políticas (capitalistas) que se opõem à natureza subjetiva da racionalização.

Em segundo lugar, o pensamento de Weber (1995, p.130-131) sobre a qualificação da atividade econômica formalmente “racional”, quando suas iniciativas se exprimem por raciocínios numéricos ou “contábeis” (nesse momento, Weber informa que não levou em conta a natureza técnica desses cálculos: se apenas como medidas monetárias ou valor de troca). E conclui que esta noção é então (apenas relativamente) unívoca, ao menos no sentido de que a forma monetária representa o máximo de calculabilidade.

QUADRO 9

Quadro institucional x sistemas racionais Quadro institucional: interação

mediada por símbolos

Sistemas de atividade racional em relação a um fim (instrumental ou estratégico)

Regras orientadoras da ação Normas sociais Regras técnicas

Nível de definição Linguagem cotidiana,

intersubjetivamente compartilhada Linguagem independente do contexto

Modo de definição Expectativa de comportamentos recíprocos

Previsões condicionais, imperativos condicionais

Mecanismos de aquisição Internalização de certas regras Aprendizagem de diferentes saber- fazer e qualificações

Função do tipo de ação considerada

Manutenção de instituições (conformidade às normas baseadas num reforço recíproco)

Solução de problemas (realização de um objetivo definido em termos de relações meios-fins)

Sanção em caso de violação da regra

Punição baseada em sanções convencionais: fracasso diante da autoridade

Insucesso: fracasso diante da realidade

Racionalização Emancipação, individualização; extensão da comunicação isenta de dominação

Acréscimo de forças produtivas; extensão do poder de dispor tecnicamente das coisas FONTE: Habermas, 1973, p. 24

Quando se consideram as redes sociais, diferentemente das redes econômicas, observa-se uma tendência de se articularem por uma racionalidade substantiva em função da busca de situação ou status em que o homem seja o principal elemento norteador ou alvo das decisões a serem tomadas. Embora a sociedade ocidental encontre dificuldades em mudar para essa forma de pensamento, porque a partir da instalação da economia de mercado a razão dominante é a funcional, em que tudo converge para o aspecto econômico, algumas iniciativas têm-se apresentado no sentido de construir uma nova sociedade.

A crise11 do capitalismo neoliberal provoca na sociedade mais uma inquietação, principalmente com a queda do paradigma do emprego, fazendo-a buscar alternativas asseguradoras da sobrevivência e da dignidade humana. Isso se dá com as redes sociais, cuja racionalidade substantiva recupera a ética social “numa expressão da vida social traduzida em fórmulas que, de maneira aproximada, realizam a distinção socialmente útil do bem e do mal”

11 Enfatizamos que falar em “crise do capitalismo” é redundante porque a crise é inerente ao capitalismo pelo fato de que somente por essa via torna-se possível a sua transformação, renovação e reprodução.

(SILVA, 1987). Assim as decisões tomadas obedecerão àquilo tido como importante para o indivíduo. E complementando, Villasante (1993, p. 46) lembra que “os movimentos sociais são elementos isolados, onde se criam lugares de resistência, emancipação, liberação de dialéticas, sempre em movimento, conseguindo pequenos espaços de contra-hegemonia frente à grande hegemonia imperial.”

Apesar do envolvimento substantivo presente nas redes sociais e na economia de mercado, a maximização dos ganhos e lucros representa a principal força para toda a movimentação econômica. Isso faz-se notar ao analisarmos as diferenças racionais entre a empresa e organizações não econômicas: enquanto a primeira não deseja a entrada de novos concorrentes, a segunda sempre agradece a chegada de novos membros. Essa distinção entre as redes incita a uma reflexão sobre como emerge a liderança nesse contexto, ao ter que diferenciar as racionalidades, visto que o indivíduo pertence, ao mesmo tempo, a múltiplos grupos (econômicos e sociais).

3.2 Rizomas e rizomas para uma crítica da abordagem de redes e suas implicações na

Benzer Belgeler