FIGURA 1 - Ocupação Dandara nos primeiros dias
Fonte: Bruno Figueiredo, abril de 2009.
Como já mencionado, esta dissertação resulta de uma experiência de assessoria a um grupo de mulheres moradoras de uma ocupação urbana. Trata-se da Ocupação Dandara, iniciada em 2009 com o auxílio das Brigadas Populares12 e do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), no bairro Céu Azul, Região Norte de Belo Horizonte. Embora o processo proposto não esteja necessariamente vinculado a esse contexto específico, importa esclarecer as circunstâncias que geram e regem esse tipo de moradia, e como tem sido o envolvimento de arquitetos nesse cenário.
12 A Brigadas Populares é um grupo fundado em 2005 que se organiza em frentes de trabalho, tais
como a da Reforma Urbana, em prol da luta popular por meio da mobilização em torno de demandas concretas da sociedade. Disponível em <http://brigadaspopulares.blogspot.com.br/2009/06/estrutura- organizativa-das-brigadas.html> Acesso em: 22 de julho 2013.
As ocupações urbanas organizadas, que tiveram início na década de 1970, são ações conjuntas entre movimentos sociais e pessoas sem casa que entram em um terreno desocupado para estabelecerem suas moradias. Militantes dos movimentos sociais iniciam reuniões de mobilização com os futuros ocupantes a fim de prepara- los tanto ideologicamente, conscientizando-os da importância da luta pela moradia, quanto em termos materiais (arrecadação de dinheiro, comida e materiais para a construção dos barracos) para o início da ocupação. Essa etapa pode durar anos, meses ou apenas algumas semanas. A organização previa é importante para que as pessoas envolvidas estejam engajadas, pois dificilmente uma ocupação é realizada sem confronto, seja com o proprietário do terreno ou com o poder público, que em ambos os casos são representados pela polícia, além de estarem dispostas a enfrentarem as diversas dificuldades advindas das tomadas de decisões em grupo.
As ocupações ocorrem em terrenos ociosos, que além de não cumprirem a sua função social e contribuírem para fins especulativos, são locais propensos a ações criminosas, tais como o ocultamento de cadáveres. Um dos lemas difundidos pelos movimentos de moradia que expressa claramente o seu objetivo é: “Enquanto morar for um privilsgio, ocupar s um direito”. Os moradores dessas ocupações são em geral pessoas que comprometem grande parte da sua renda com o aluguel ou que moram de favor. Essas situações condizem com os dados da Fundação João Pinheiro (2013), segundo os quais a maior parte do déficit habitacional é composta pelas categorias denominadas “ônus excessivo com aluguel” (30,6%) e “coabitação familiar” (43,1%).
As jornadas de protestos de junho de 2013 trouxeram a questão das ocupações urbanas à tona como uma das reivindicações levantadas pelas manifestações em Belo Horizonte. Um dos desdobramentos desses protestos foi a “ocupação da Prefeitura” em julho de 2013, ou seja, a permanência de pessoas no edifício da prefeitura, até que o prefeito Márcio Lacerda se reunisse com membros dos movimentos por moradia da cidade, algo inédito na atual gestão desse prefeito. O Movimento de Luta nos Bairros Vilas e Favelas (MLB), por exemplo, que tem atuação nacional, sempre adota como procedimento a negociação com os administradores públicos para que as famílias mobilizadas tenham alguma alternativa de moradia, pelo PMCMV ou de outras formas, e não necessariamente
reivindica a estadia dessas famílias nas terras ocupadas. No entanto, em Belo Horizonte, devido à falta de diálogo com o prefeito, a ocupação promovida pelo MLB acabou se mantendo como única alternativa de resistência. A partir dessa reunião, apesar de as reivindicações dos movimentos ainda não terem sido atendidas pela prefeitura, outros encontros ocorreram e o debate sobre a questão do direito à moradia foi ampliado, repercutindo na implantação de novas ocupações. Somente as ocupações Rosa Leão, Esperança, Vitória e Nelson Mandela, iniciadas em Belo Horizonte entre julho de 2013 e fevereiro de 2014, abrangem, juntas, cerca de 6.500 famílias13. Ou seja, em oito meses, essas ocupações produziram três vezes mais moradias na cidade do que o PMCMV em cinco anos. As ocupações urbanas se apresentam, portanto, como uma solução alternativa para a demanda não atendida pelos programas públicos.
Como já dito, as ocupações não são iniciadas e organizadas pelos seus moradores, mas por movimentos sociais que os mobilizam a partir de fora e que, em alguns casos, tendem a impor suas próprias visões políticas, além de não experienciarem os problemas cotidianos que a situação envolve (a maioria dos integrantes dos movimentos provém da classe média). Somam-se a isso outros entraves, como o tráfico de drogas que, pela ausência do Estado, consegue determinar as regras de funcionamento das ocupações em alguns casos. Contudo, apesar dessas heteronomias, é inegável que os moradores das ocupações ampliam seu acesso a uma discussão política e a uma visão crítica da sua própria situação social. Mesmo que diversos fatores ainda impeçam que essas pessoas sejam de fato autônomas em sua luta, as ocupações organizadas, vistas numa perspectiva mais ampla, constituem um avanço nessa direção. Além de serem uma ferramenta na luta direta pelo direito à moradia, configuram um espaço – físico e social – em que as pessoas passam a questionar a lógica atual da produção habitacional e a refletir sobre a sociedade em que vivem.
13
Disponível em: < http://ocupacaorosaleao.blogspot.com.br/>,
<http://ocupacaoesperanca.blogspot.com.br/>, <http://ocupacaovitoria.blogspot.com.br/>, <http://ocupacaonelsonmandela.blogspot.com.br/>. Acesso em 28 de abril de 2014.
FIGURA 2 - Foto aérea da Ocupação Dandara
Fonte: Marcílio Gazzinelli, outubro de 2011.
FIGURA 3 - Foto aérea da Ocupação Eliana Silva
Fonte: Marcílio Gazzinelli, junho de 2013.
FIGURA 4 - Foto aérea da Ocupação Emanuel Guarani Kaiowá
Quanto à atuação dos arquitetos nas ocupações organizadas, ela tem sido cada vez mais frequente e cada vez mais solicitada. Em todas as ocupações recentes houve participação de arquitetos no processo desde o início. Tive oportunidade de trabalhar em duas delas durante o período da pesquisa de mestrado, junto com colegas, profissionais de outras áreas e estudantes. O trabalho partiu do convite do arquiteto Tiago Lourenço, que desenvolveu o projeto da já mencionada Ocupação Dandara em 2009 e, desde então, tem assessorado os movimentos e discutido as formas de atuação de arquitetos-urbanistas nesse contexto. Entendo que as duas experiências resumidas em seguida são relativamente típicas para o que os arquitetos têm feito nas ocupações.
Na Ocupação Eliana Silva, localizada no Barreiro, participei do desenvolvimento do projeto de loteamento, logo após as famílias terem entrado no terreno. A existência de um projeto proporcionou, antes de mais nada, agilidade na distribuição das famílias pelo terreno, que assim puderam iniciar logo as construções definitivas de suas casas, dificultando ações de despejo. Além disso, o projeto deu ao espaço algumas características de cidade formal, como a geometria de arruamento e lotes. Isso aumenta suas chances de regularização posterior, pois não apenas facilita obras de urbanização (água, esgoto, drenagem etc.), como também lhe confere uma imagem de legitimidade, isto é, favorece a sua leitura, pelos próprios moradores, pelos vizinhos e pelo poder público, como um “bairro”. Já na Ocupação Emanuel Guarani Kaiowá, no município de Contagem, participei de reuniões anteriores à entrada das famílias no terreno. Os arquitetos contribuíram para a análise prévia desse terreno no que diz respeito às características físicas, à legislação urbana e às melhores formas de distribuição inicial dos ocupantes.
Essas experiências, no entanto, estão relacionadas à escala urbana (geomorfologia, malha viária, parcelamento do solo etc.). Para a produção e a reforma de casas, que é o foco desta dissertação, é necessária uma análise de outras formas de abordagem.