• Sonuç bulunamadı

A oitava viagem de Rodger foi para Brasília, em 1970, e a motivação mais uma vez estava ligada aos seus investimentos no campo acadêmico: o mestrado na UnB. Nesse período o agente já havia assumido um cargo como professor da UFC e, portanto, seu capital social no interior do campo acadêmico já acumulava um volume considerável. Essa forte ligação do jovem músico com a academia também se manteve por dois motivos: 1) O valor simbólico da ocupação de professor de uma universidade federal; 2) Enquanto a universidade, através dos seus agentes, colegas

de Rodger, o convidava para manter-se ligado à academia, o campo musical- mercadológico oferecia um cenário de disputas muito mais acirrado e que, ao invés de convidá-lo, impunha um tipo de resistência aos embates para conseguir tocar no rádio, assinar contrato com gravadora, manter o nome em alta cotação junto aos círculos consagrados que reuniam os nomes famosos da música popular brasileira. Vale ainda ressaltar que as disputas por uma vaga nos quadros das universidades ainda não eram tão acirradas.

Quando falamos que Rodger foi ―convidado‖, esta não é uma figura de linguagem, ele foi de fato convidado: o sistema de contrato era celetista e não estatutário como é hoje. Logo, ser convidado para lecionar na UFC, depois na UnB e em seguida na USP, era algo muito mais viável do ponto de vista burocrático. Rodger foi da 3ª turma de estudantes de física da UFC, ou seja, era um agente em um campo que estava se estruturando e que precisava de seus agentes para se consolidar, disto decorre os convites que recebeu e a constante sedução que oferecia maiores vantagens simbólicas e econômicas. Aqui não iremos examinar o

habitus de pesquisador e docente de física, pois nos distanciaríamos do escopo

deste trabalho; o que se faz necessário nesse momento é a compreensão, por um lado, da força que o ambiente universitário exerceu sobre as escolhas de Rodger, e de outro lado, os investimentos no campo musical.

Retomando a viagem para Brasília, Rodger alugou um apartamento para morar com a Téti e sua filha Daniela. Nessa residência também se hospedaram durante um período Augusto Pontes, Iêda Estergilda e Wilson Ibiapina. Apresentamos uma parte da entrevista que detalha esse momento de suas vidas em Brasília:

[O Augusto morou um período lá?] Morou comigo. [A Iêda Estergilda?] A Iêda também, Wilson Ibiapina também, moraram comigo. [E porque eles foram morar contigo?] O Augusto porque quando eu saí daqui, eu já fiquei dando corda nele pra ele ir, e como o Augusto foi, a Iêda namorava com ele, acabou indo também. O Wilson Ibiapina, eu passei um fim de semana no Rio [de Janeiro] e ele tava lá, tava adoentado, tava perdendo o emprego, porque ainda tava num sistema assim de experiência, quando ficou doente. Eu lembro que o médico no Rio tava tratando ele de próstata; aí eu o convenci a ir para Brasília comigo e no final da farra eu levei ele comigo, pra Brasília, e no outro dia eu levei ele no hospital, Hospital Geral em Brasília. Ele não voltou mais pra casa, ficou hospitalizado pra fazer a operação nos rins, ele tava com pedra nos rins e o

médico do Rio tratando ele de próstata (risos) e então ele ficou lá em casa um tempo, até eu ir embora pra São Paulo. Ele e o Augusto ficaram morando comigo, ele o Augusto e a Iêda, até eu ir embora pra São Paulo. E foi lá que o Wilson Ibiapina entrou pra TV Globo, já na época.

A estrutura proporcionada pela UnB trouxe a condição para que Rodger estendesse a mão para os amigos, transformando sua residência em um ponto de encontro para os artistas de maior proximidade com o agente em pauta. Sua casa ter sido uma referência para a ligação entre os músicos cearenses, além de em Brasília, ocorreu também em São Paulo, quando da próxima viagem de Rodger que iremos analisar; e mesmo em Fortaleza, após ter retornado definitivamente para sua terra natal, momento em que montou um estúdio de ensaio e de gravação na garagem de sua residência na rua Antônio Augusto localizada no bairro Praia de Iracema. Outro dado importante a ser observado no relato de Rodger foi o problema de saúde de Wilson Ibiapina. Mais uma vez confirmamos que os problemas de saúde mudam as rotas inserindo os agentes em outros contextos que apresentam possibilidades diversas das antes planejadas. Seu amigo Ibiapina acaba entrando profissionalmente na Rede Globo de Televisão, na qualidade de jornalista. Percebemos novamente a aproximação dessa geração com os meios de comunicação.

Em Brasília, Rodger manteve uma relação muito estreita com um dos seus parceiros mais constantes: Augusto Pontes; lá compuseram algumas músicas, sendo a mais importante deste período a que ficou registrada no disco Chão

Sagrado:

O LAGO

(Rodger Rogério e Augusto Pontes)

Ainda ontem eu e a lua tomávamos banho no lago batemos um papo radiante, prateado

metade da lua, metade de mim a lua alegre, pupila do lago, prato boiando, bandeja de prata,

o lago

metade eu, metade a lua flutua prateando a cidade.

O capital de mobilidade vem sendo adquirido pelo viajante e se convertendo em vantagem dentro do campo. Começou a viajar com 4 anos de idade com o pai aviador; aos 6 anos foi para o Rio de Janeiro; aos 9 anos se preparou para mudar para São Luiz do Maranhão; retornou para a então capital brasileira para tratamento médico; depois, já próximo à conclusão do ensino médio – na época chamado de científico –, voltou para o Rio de Janeiro, trazendo para o professor de física, compositor, cantor e futuro ator, Rodger Franco de Rogério, um considerável volume de capital de mobilidade. Certamente se não tivesse esse aprendizado anterior, a internalização dessas disposições, ele teria tido muito mais dificuldade com os deslocamentos para Brasília e São Paulo, já na qualidade de artista e professor.

Benzer Belgeler