D. Suçun Manevi Unsuru
2. Kusuru Kaldıran ya da Azaltan Nedenler
Inevitavelmente a mudança no cenário do conflito acabou gerando reflexos entre a opinião publica brasileira. A cada vitória militar dos Aliados aumentava a descrença na possibilidade de agressões dos países do Eixo ao território nacional. Ainda assim, integrantes do alto escalão da defesa nacional e alguns ilustres articulistas insistiam na necessidade de mobilização da população. Em julho de 1943, o Correio do Povo publicou uma reportagem em que o major Eugênio de Almeida Magalhães, vice-diretor do Serviço Nacional de Defesa Passiva Antiaérea, afirmava que o Brasil ainda não
430 Idem. 24/01/1943. p. 11.
431 Ata da mesa administrativa da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Reunião do dia 23 de
junho de 1943. Livro n 15, p. 4.
432 FRANCO, Sérgio da Costa. Santa Casa 200 anos: caridade e ciência. Porto Alegre: Ed. ISCMPA,
estava totalmente livre do perigo: “É possível que, a qualquer hora, o Rio de Janeiro ou outra cidade do Brasil seja alvo de ataque aéreo, partido de algum ou de alguns aviões catapultados de navio inimigo corsário”. Para ele, “uma incursão aérea sobre o nosso território seria [...] apenas um ataque com finalidades psicológicas, para amedrontar a população civil, e não com objetivos bélicos propriamente ditos”.433
Um ano depois, em julho de 1944, o mesmo jornal publicou um artigo assinado por Mário Ferreira dos Santos, criticando o excesso de otimismo verificado em todo o país. De acordo com o filósofo, que escreveu diversos artigos para a imprensa durante a Segunda Guerra Mundial e que anos mais tarde, em 1957, criou um sistema filosófico conhecido como “Filosofia Concreta”:
Esse excesso de otimismo atingia em alguns casos formas que julgamos então assas perigosa, e que em muito se assemelhavam as que levaram a França a despreocupar-se de sua defesa, na convicção de que lhe estava assegurada uma vitória fácil sobre o adversário. (...). Julgar pelas vitórias obtidas que o nazismo tenha entrado em seu colapso final é uma excessiva subestimação das forças do adversário.
Nesse sentido, alertava:
Ainda estamos na batalha. Precisamos agora vencer. E para vencer é preciso estar em alerta com os inimigos, pois até depois de morto ainda nos poderá dar uma surpresa. Coloquemo-nos entre o otimismo e o pessimismo e nos preparemos para as grandes batalhas que ainda teremos que enfrentar.434
Apesar dos alertas, o inimigo já não assustava mais. Em Porto Alegre, se houve os que acreditaram que a capital gaúcha pudesse ser atacada ou invadida pelos países do Eixo, como o seu Simão, que vigiava o céu durante as noites temendo um ataque aéreo inimigo, houve também os que em nenhum momento acreditaram nestas possibilidades, como os que encaravam os exercícios de defesa civil com “curiosidade”, “descuido” e “falta de atenção”. À medida que o tempo passava, aumentava o número de incrédulos. Desse modo, enquanto a fase da mobilização econômica aproximava-se do ponto máximo, com aumento dos preços, escassez de uma série de produtos dos estabelecimentos comerciais e o surgimento do “mercado negro”, a mobilização em prol da defesa da população civil enfraquecia em todo o Brasil.
433 Correio do Povo. 01/07/1943. p. 4. 434 Idem. 07/07/1944. p. 04.
Em outubro de 1943, a prefeitura municipal de Porto Alegre colocou abaixo os muros de proteção das arcadas laterais do viaduto Otávio Rocha, na Avenida Borges de Medeiros, sob a justificativa de que o local vinha sendo utilizado “para fins bem outros que os legítimos”. Assim, “a par da estética, [...], da higiene e dos bons costumes”, o maior abrigo antiaéreo da capital gaúcha foi desativado.435 Já no Rio de Janeiro, em maio de 1944, João de Mendonça Lima, ministro da Viação e Obras Públicas, determinou que o regime de black-out permanente por que passava a orla marítima da então capital federal desde agosto de 1943 fosse cancelado, para colocar um fim aos assaltos e roubos que ocorriam durante os escurecimentos.436
Em 1945, já não era mais realizado nenhum tipo de exercício de defesa civil em Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, a exceção era a faixa litorânea. Em janeiro de 1945, o Correio do Povo publicou uma reportagem intitulada “Vôos de guerra em zona de paz”, em que criticava as simulações de ataques aéreos ainda realizadas na praia de Tramandaí. Segundo o jornal, “aviões de guerra [...] voavam a meia dúzia de metros da areia branca, onde centenas, senão milhares de banhistas gozavam as delícias de um sol amenizado pela frescura de um mar muito verde e muito manso”. Mais adiante, acrescenta:
legítimos bombardeiros intranqüilizavam os banhistas, ameaçando suas vidas e pondo em perigo também as vidas dos pilotos. Em certos momentos, inesperadamente, assustadoramente, eles surgem, em “piques”, dando a impressão de que vão se projetar contra a praia ou que estão sendo forçados a uma aterrissagem imprevista. E os banhistas correm, apavorados, jogam-se ao chão, cheios de susto, como quem está na guerra, sujeito a bombardeios aéreos.437
As simulações de ataques aéreos, porém, não assustavam apenas os que se encontravam à beira da praia, mas também àqueles que se encontravam dentro de suas casas. “Voam baixo, muito baixo, barulhentamente, assustadoramente. E as famílias saem pra rua, cheias de susto e indignação”, escreveu o Correio do Povo. Esta situação gerou um princípio de êxodo da praia de Tramandaí. Um grupo de veranista chegou a enviar um telegrama ao então comandante da 3º Região Militar, general Salvador César Obino, pedindo que fosse colocado um fim aos abusos.438
435 Idem. 21/10/1943. p. 10. 436 Idem. 18/05/1944. p.10. 437 Idem. 20/01/1945. p. 08. 438 Ibidem.
Nessa reportagem a “indignação” dos banhistas no que se refere à manutenção do clima de mobilização era compartilhada pelo Correio do Povo, o mesmo jornal que dois anos antes havia ajudado as autoridades públicas a mobilizar os gaúchos através da campanha em prol da construção de abrigos antiaéreos em Porto Alegre e no interior do Rio Grande do Sul. No início de 1945, a mobilização em prol da defesa da população civil já se encontrava enfraquecida em todo o Brasil. Afinal, a guerra já estava praticamente ganha.
O desfecho final da Segunda Guerra Mundial não tardou a ocorrer. Em 1943 a Itália pediu o armistício. Em 2 de maio de 1945, os soviéticos tomaram Berlim. Cinco dias mais tarde, em 7 de maio, a Alemanha assinou a ata de rendição incondicional, colocando um fim à guerra na Europa. No Oriente, a guerra estendeu-se até 2 de setembro de 1945, data da assinatura da capitulação do Japão, após os ataques norte- americanos com bombas atômicas às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.439
Acabada a Segunda Guerra Mundial, acabaram os riscos de agressões ao território nacional. Assim, os projetos de defesa civil em todo o país começaram a ser abandonados, as comissões desfeitas, os exercícios cancelados, e, muitas das construções, paralisadas. Em 17 de junho de 1946, o governo federal, através do decreto-lei nº 9.370, extinguiu o Serviço de Defesa Civil no Brasil. Até então, a defesa civil ainda era vista no país como uma atividade estritamente ligada à guerra e suas conseqüências. Tanto que, como já foi visto, até 1943, ela era chamada de defesa passiva antiaérea.
Essa concepção só começou a mudar na Constituição Federal de 1946, quando a defesa civil começou a voltar-se para o atendimento às populações atingidas por calamidades públicas, já que o governo federal foi incumbido de organizar, de forma permanente, a defesa contra secas, epidemias rurais e inundações.
Apesar de durante o Regime Militar (1964-1985) terem sido tomadas várias medidas no sentido de estruturar a defesa civil no Brasil, foi somente na Constituição Federal de 1988 que seus encargos foram claramente definidos. Desde então o governo federal passou a ser responsável tanto por planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas – especialmente a seca e as inundações –, como por legislar sobre defesa territorial, defesa aeroespacial, defesa marítima, defesa civil e mobilização nacional. Ainda em 1988, o decreto-lei nº 97.274, de 16 de dezembro,
sistematizou a defesa civil no Brasil, criando o Sistema Nacional de Defesa Civil (SINDEC), articulado com os órgãos de defesa civil dos estados e municípios.440
440 Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil. Histórico. Disponível em:
Conclusão
Diante das informações apresentadas nesta Dissertação, chega-se à conclusão que realmente a Segunda Guerra Mundial, do início ao fim, se fez presente em Porto Alegre. Que ela invadiu a vida cotidiana da capital gaúcha. A guerra esteve nas conversas, no jornal, no rádio, nos anúncios, no cinema, na mesa, nas comemorações, nas depredações, na alegria, na tristeza, no medo, etc., etc.
Porto Alegre, uma cidade em transformação nas décadas de 1930 e 1940, foi transformada pela guerra. Muitos dos hábitos mais tradicionais tiveram que sofrer mudanças durante esse período de exceção. Provavelmente, os imigrantes e descendentes dos países do Eixo – especialmente os alemães – tenham sido os que mais sofreram com a guerra. Aliás, antes mesmo da guerra começar, muitos deles já eram intimidados e hostilizados pelas autoridades públicas, fato que se estendeu à população de uma forma geral depois que navios brasileiros começaram a ser atacados por submarinos alemães e italianos no Oceano Atlântico. A partir de então, imigrantes e descendentes dos países do Eixo passaram a ser responsabilizados pelos crimes cometidos por seus países, como se tivessem alguma relação com eles. O ponto máximo deste clima de intimidação e hostilidade em Porto Alegre ocorreu nos dias 18 e 19 de agosto de 1942, quando tudo que fazia referência ao Eixo foi atacado e depredado. Agressões que não se restringiram apenas aos bens materiais.
A guerra também atingiu em cheio a economia gaúcha e, por conseguinte, a porto-alegrense. A escassez de transportes de mercadorias durante a guerra, em função do bloqueio naval do Oceano Atlântico e dos combates em alto-mar, provocou a diminuição tanto das exportações como das importações gaúchas. A diminuição das exportações, no entanto, não resultou em uma diminuição dos valores adquiridos. Muito pelo contrário, já que os produtos exportados pelo Rio Grande do Sul tiveram uma valorização expressiva no mercado internacional durante a guerra. Já a diminuição das importações, apesar de ter proporcionado o surgimento de novas indústrias e a adaptação de outras para o atendimento das necessidades do mercado local, causou uma série de transtornos. Isso porque, nem o estado nem o país dispunham de tecnologia para produzir uma série de produtos que eram comprados do exterior. Sem dúvida, as dificuldades de importação de combustíveis derivados do petróleo tiveram os maiores
impactos no cotidiano de Porto Alegre, atingindo, especialmente, o setor dos transportes, tanto públicos como privados. Milhares de veículos tiveram que deixar de circular na capital gaúcha. Como conseqüência, inúmeras atividades tiveram que mudar de horário, para dar tempo que todos conseguissem chegar aos seus destinos. Fontes alternativas de energia receberam uma grade atenção nesse período, como o álcool- motor e o gasogênio. Este último, abandonado logo após o final da guerra.
Conforme foi visto, a guerra foi tanto a causa como o álibi para uma série de ocorrências. A alta dos preços e o aumento do custo de vida em Porto Alegre são exemplos disto. Logo nos primeiros dias após o início da guerra, os preços de uma série de produtos no comércio em geral foram elevados. Assim, mesmo distante e no início, a guerra já era utilizada por especuladores para elevar abusivamente suas margens de lucro. A partir de então, teve início uma luta encabeçada pelas autoridades públicas para combater a tendência altista, que durou toda a guerra. As medidas tomadas acabaram não obtendo êxito. Ainda por cima, causaram o surgimento de novos problemas, como a escassez de produtos dos estabelecimentos comerciais e o surgimento de um “mercado negro”. Nessa história toda quem sempre saiu perdendo foram os porto-alegrenses. Principalmente os de menor renda.
Não bastassem todos os problemas, os porto-alegrenses ainda conviveram com o medo durante a guerra. O medo de que a cidade pudesse ser atacada ou até mesmo invadida pelos países do Eixo, depois que embarcações brasileiras começaram a ser atacadas por submarinos alemães e italianos no Oceano Atlântico. Diante de uma guerra “total”, que aboliu todas as distinções entre alvos civis e militares, em agosto de 1942, começaram a ser colocadas em prática em Porto Alegre uma série de determinações tendo em vista a defesa da população civil. Abrigos antiaéreos começaram a ser construídos, exercícios de blecautes realizados, etc, etc. Todo um clima de mobilização foi estruturado pelas autoridades públicas, com grande colaboração dos veículos de comunicação. No entanto, à medida que a guerra avançava, os países do Eixo perdiam espaço. Em 1943 a guerra já estava bem encaminhada a favor dos Aliados e, em 1944, praticamente definida. Assim, o clima de mobilização começou a enfraquecer. O perigo gradativamente se afastava da capital gaúcha e, com ele, o medo. Com isso, teve início a desmobilização.
Dessas e de inúmeras outras formas Porto Alegre foi atingida pela guerra. Dessas e de inúmeras outras formas seus habitantes vivenciaram a guerra e foram marcados por ela.