A discussão sobre uma nova concepção racional para universidade implica, necessariamente, discutir sobre que bases se constitui essa racionalidade, que conhecimento lhe é subjacente, que função social, política e ideológica a formação que lhe advém oferece. Nesse sentido, a contribuição da abordagem pós-colonialista ajuda-nos a compreender os elementos históricos que constituem a gênese de uma vertente arraigada à cultura universitária nos países da América
Latina, a compreender o que significa hoje essa herança colonial (CASTRO- -GÓMEZ, 2007; LANDER, 2000; QUIJANO, 2005; SILVA, 1999).
No seu sentido amplo, a teoria pós-colonial9 tem como objetivo discutir a
vasta teia de relações de poder imbricada entre as nações que partilham de uma herança cultural, econômica e política advinda do processo de colonização europeia. A teoria enfatiza que só é possível compreender a organização do mundo globalizado atual se considerarmos as relações de poder entre as nações e as diversas implicações “dessa aventura colonial europeia”, especialmente para os povos que ocuparam o lugar de colonizados.
9 De forma similar a Macedo (2006a, 2006b), tomamos a crítica da teoria pós-colonial como resistência
ao eurocentrismo, que, em sua forma ampliada, consiste na relação dos pressupostos iluministas europeus, presentes ainda nos dias atuais, como também no processo hegemônico de dominação político-cultural por parte dos Estados Unidos, igualmente preponderante na atualidade.
No que concerne à questão do conhecimento, Quijano (2005, p. 236) destaca que a produção intelectual moderna engendrou um padrão de racionalidade na construção e tratamento do conhecimento extremamente ligado ao processo de dominação colonial/capitalista/eurocentrado, chamando essa perspectiva de eurocentrismo:
Não se trata, em conseqüência, de uma categoria que implica toda a história cognoscitiva em toda a Europa, nem na Europa Ocidental em particular. Em outras palavras, não se refere a todos os modos de conhecer de todos os europeus e em todas as épocas, mas a uma específica racionalidade ou perspectiva de conhecimento que se torna mundialmente hegemônica, colonizando e sobrepondo-se a todas as demais, prévias ou diferentes, e a seus respectivos saberes concretos, tanto na Europa como no resto do mundo.
Desta feita, a crítica mais contundente que os estudos pós-coloniais oferecem é a reivindicação do reconhecimento e a inclusão de uma gama de saberes, tradições, elementos culturais, dinâmicas e visões de mundo que não se adéquam ao cânone europeu, sendo, por isso, descartados como vulgares, irrelevantes, supersticiosos e não desenvolvidos, por não partir desse modelo eurocêntrico. Essa dominação, enraizada e pungente ainda nas relações atuais, penetra as várias esferas do pensamento coletivo e subjetivo, na tríade perversa de dominação colonial pelo saber, pelo ser e pelo poder (SILVA, 1999). Promove também uma profunda distorção na autoimagem histórica desenvolvida pelos países colonizados, como observa Quijano (2005, p. 239):
[...] a perspectiva eurocêntrica de conhecimento opera como um espelho que distorce o que reflete. Quer dizer, a imagem que encontramos nesse espelho não é de todo quimérica, já que possuímos tantos e tão importantes traços históricos europeus em tantos aspectos, materiais e intersubjetivos. Mas, ao mesmo tempo, somos tão profundamente distintos. Daí que quando olhamos nosso espelho eurocêntrico, a imagem que vemos seja necessariamente parcial e distorcida.
Dentre as importantes noções que se constituem como instrumento de deslegitimação das identidades e culturas das nações subjugadas, um dos conceitos mais centrais que lhes serve de mecanismo é o conceito de representação. A representação, nessa teoria, diz respeito às formas de expressão sobre as quais o Outro é representado, tendo como exemplo bastante ilustrativo as artes e a literatura, capazes de esteticamente propagar uma imagem caricaturada, depreciativa e/ou superficial de determinado povo e sua cultura. Seguindo esse viés, a relação entre cultura e estética é desvirtuada por uma relação maior de poder. Desde o início do
processo colonizador, saber e conhecimento estiveram profundamente atrelados a poder. O colonizador, desde os primórdios, fez da colônia e seus nativos objetos de sua investigação, percebendo-os sob sua óptica de dominação e exploração, caracterizando-os como exóticos e pitorescos em relação à sua própria referência de civilidade, fortalecendo assim sua autopercepção de superioridade. O próprio espírito científico, então nascedouro, foi fortemente impulsionado pelo movimento de exploração e empreendedorismo por que era imbuída a atividade colonizadora.
Outro ponto bastante interessante a ser considerado em nossa análise é o de que não bastava ao processo colonial a exploração e subjugação física dos povos, mas era necessária, através da educação e da religião, a afirmação da cultura branca-europeia-cristã-patriarcal sobre toda cosmovisão “primitiva e bárbara” dos povos colonizados. É preciso, no entanto, ratificar que todo esse processo de enculturação não ocorreu em uma via de mão única, sem resistência.
A leitura do processo colonial e pós-colonial revela a presença da
mestiçagem, do sincretismo, do hibridismo, demonstrando, nos processos pós- -coloniais, a presença não somente da dominação cultural, mas da resistência
cultural, “Obviamente, o resultado final é favorável ao poder, mas nunca tão cristalinamente, nunca tão completamente, nunca tão definitivamente quanto o desejado. O híbrido carrega as marcas do poder, mas também as marcas da resistência.” (SILVA, 1999, p. 129-130).
A partir desse legado colonial é que a teoria pós-colonial propõe uma análise que pode lançar luzes sobre o conhecimento, os saberes e a razão que nasceram e cresceram junto à universidade. Podemos buscar compreender em que medida as narrativas presentes nos currículos acadêmicos continuam a propagar o modelo imperial europeu em detrimento de suas próprias construções culturais, se não possuírem esse verniz. Perceber que novas formas de dominação cultural a sociedade de consumo pode na atualidade impor aos projetos acadêmicos, configurando um neocolonialismo.
As questões levantadas pela discussão pós-colonial não intentam fazer crer que o currículo acadêmico ou de qualquer outra instituição educativa pode ou deve ser imparcial, livre de tendenciosidades, mas ao contrário, por entender que o currículo é um território em disputa, compreender e esclarecer a correlação de forças entre saber, poder, estética, cultura e conhecimento.
Ancorar-se nos estudos pós-coloniais significa desmistificar a pretensa neutralidade que o conhecimento científico moderno postulou e que a universidade, arrogando-se o compromisso ético, precisa desvelar, assumindo o “para que” e o “para quem” do seu projeto formativo.