I. BÖLÜM
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“Explicação é quando uma frase se acha mais importante que a palavra” Adriana Falcão, Mania de Explicação
São Carlos é considerada uma cidade de médio porte no Brasil, com população majoritariamente vivendo na área urbana, e se localiza a 236 quilômetros da capital do Estado de São Paulo. Segundo o último senso do IBGE (2011), possui uma população de 221.950 habitantes distribuídos em uma área territorial de 1.137.303 quilômetros quadrados, o que gera uma densidade populacional de 195,15 habitantes por quilômetro quadrado, apresentando uma taxa de crescimento demográfico de 2,4% ao ano.
Conforme dados do IBGE (2011), podemos afirmar que é uma cidade proeminentemente urbana, uma vez que 209.082 de seus habitantes (94% do total) encontram-se em domicílios urbanos. Da totalidade, interessa-nos saber quantos estão na faixa etária de zero aos 24 anos32 de idade.
Tabela 1: Distribuição percentual e quantidade da população infantojuvenil da cidade de São Carlos
Fonte: IBGE (2011)
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Apesar de nos interessar a faixa etária entre 12 e 18 anos, os dados do banco do IBGE – Cidades não permitem acessar esses valores. A definição das faixas etárias feita por esse organismo é própria, não seguindo nenhuma convenção nacional.
Faixa etária Porcentagem
no total de habitantes
Quantidade População residente – total – grupos de idade – de 0 a 5
anos de idade
7,2% 15.980 População residente – total - grupos de idade – de 6 a 14
anos de idade
12,3% 27.299 População residente – total – grupos de idade – de 15 a
24 anos de idade
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Isto significa que 79.678 são crianças e/ou jovens, correspondendo a 36% do total da população. Dentre eles, temos 304 jovens (de 15 a 24 anos) que não sabem ler nem escrever, o que representa 0,8% do total de habitantes (IBGE, 2011).
Sobre a renda da população, ainda com base no site do IBGE – Cidades (IBGE, 2011), temos os seguintes dados:
Tabela 2: Distribuição das pessoas por faixas de rendimento mensal domiciliar per capita de R$ 70,00 até R$ 255,00
Faixas de per capita nominal Porcentagem
do total da população
Quantidade de pessoas no absoluto Proporção de pessoas, por classes selecionadas de
rendimento mensal domiciliar per capita nominal – urbana – até R$ 70,00
0,7% 1.553
Proporção de pessoas, por classes selecionadas de rendimento mensal domiciliar per capita nominal – urbana – até ¼ de salário mínimo
(= R$ 127,50)
3,1% 6.880
Proporção de pessoas, por classes selecionadas de rendimento mensal domiciliar per capita nominal – urbana – até 1/2 salário mínimo
(=R$ 255,00)
13,5% 29.963
Proporção de pessoas, por classes selecionadas de rendimento mensal domiciliar per capita nominal – urbana – até 60% da mediana
(= R$ 255,00)
11,5% 25.524
Fonte: IBGE (2011)
Os dados indicam que aproximadamente 28% (63.920) das pessoas que residem em São Carlos têm baixo poder aquisitivo. Outra fonte de dados (IPC, 2011) tem apontado São Carlos como uma das cidades de maior poder aquisitivo da região central do Estado de São Paulo, colocando-a como 23ª no ranking estadual e, em 75ª, no nacional. Nos últimos dez anos, houve uma diminuição do número de domicílios na faixa D (com renda mensal entre R$ 490 e R$ 710) de 19,1% (passando de 9.230 para 7.463 domicílios) e na faixa E (com renda mensal até R$490) de 97% (passando de 14.407 para 441 domicílios).
Outra característica bastante importante da cidade é a presença de um polo tecnológico e de um polo intelectual, em decorrência da existência de duas grandes universidades públicas, a saber: a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade de São Paulo. Por conta disso, a cidade tem uma população jovem flutuante, em torno de 20
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mil pessoas, e é a cidade brasileira com o maior número de doutores por habitante. Ademais, convive com um setor agropecuário e industrial expressivo (SÃO CARLOS, 2010).
Com respeito à rede de atendimento à infância e à adolescência, São Carlos se constituiu, dentro do discurso político, como uma referência nacional em relação ao sistema de proteção especial à adolescência autora de ato infracional. Desde a promulgação do ECA, um grupo de educadores da sociedade civil e entidades preocupadas com as questões da infância e da juventude se organizaram com vistas a efetivar, principalmente, o que se referia às medidas socioeducativas. Até 1998, tais medidas eram executadas por técnicos da Fundação do Bem-Estar do Menor – FEBEM33, atual Fundação Casa. Frente à insuficiência dos serviços prestados, o Juiz da Vara da Infância e Juventude (Doutor João Baptista Galhardo Júnior) comunicou ao Presidente do Tribunal do Estado e à Presidência da FEBEM a decisão de dispensar a execução do programa por parte do Estado e solicitou que a Entidade Salesiana se responsabilizasse por essa ação. Assim, a partir de 1999, até os dias atuais, a execução das medidas socioeducativas em meio aberto – Liberdade Assistida e Prestação de Serviço a Comunidade – passou a ser feita pelos salesianos em regime de convênio com a FEBEM (LIMA e ZANCHIN, 2011).
Frente às rebeliões ocorridas em diferentes instalações das FEBEMs em 1999, tais acontecimentos mobilizaram, em São Carlos, o poder público local e a sociedade civil para a criação do NAI. Após muitas negociações, inaugurou-se, em 8 de dezembro de 2000, o NAI, com a acolhida ao primeiro jovem em 16 de março de 2001. Esse núcleo pode ser compreendido como um conjunto de instituições – Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), Prefeitura Municipal, Salesianos São Carlos (organização católica), Vara da Infância e da Juventude – que se articulam desde o momento do flagrante da infração (pego pela polícia civil ou militar na prática de um ato infracional em flagrante, ou na condição de busca e apreensão determinada por autoridade competente) até o encaminhamento jurídico para o cumprimento da medida socioeducativa, quando esta é imposta pelo Poder Judiciário. O NAI é a porta de entrada, o primeiro contato, do adolescente com o sistema jurídico-assistencial e tem como metas
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Referimos a FEBEM, Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, que hoje é nomeada Fundação Casa, para além da mudança do nome, houve toda uma proposição de organização estrutural e institucional, contudo, muitas das características que nos remetem ao sistema da FEBEM e às prisões ainda permanecem inalteradas. Por esta situação, a pesquisadora Vicentini (2006) mantém em sua produção acadêmica o uso do nome FEBEM.
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facilitar e agilizar os procedimentos envolvidos nesta situação depois que é deflagrado o ato infracional.
Apoiando-nos nas pesquisas de Lopes e Sfair (2007), Zanchin (2010), Dias (2011) e no campo empírico, percebemos que o discurso sobre a referência do NAI se sustenta pelas quatro situações explicadas abaixo:
1. São Carlos foi a primeira cidade no país a implantar, no ano de 2000, o Sistema NAI de acordo com o artigo 88 do ECA (BRASI, 1990), que previa a integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional;
2. o tempo relativamente curto entre o adolescente cometer o ato infracional, a aplicação da medida socioeducativa e o início da sua execução. Em São Carlos, este tempo está em torno de 10 a 15 dias, em outros municípios pode chegar a ficar entre 6 meses e 2 anos, além disso, é ofertado no atendimento inicial suporte psicológico e social (ZANCHIN, 2010). 3. o baixo número de reincidências. Segundo o Juiz da Vara da Infância e Juventude de São Carlos: havia um índice em torno de 5 a 6% nas medidas em meio aberto, e na internação não passava de 20%. Segundo Zanchin (2010), no Estado de São Paulo, a média de reincidência gira em torno de 30%. Contudo, é importante ressaltar que não existe nenhum tipo de acompanhamento mais longitudinal na vida dos egressos do Sistema NAI; após os 18 anos, é desconhecido o número de jovens que voltam a cometer atos infracionais, agora considerados crimes, na vida adulta (LOPES e SFAIR, 2007).
4. a diminuição vertiginosa do número de casos de homicídios, em 1998 foram registrados 15, e passou a ser 0, 1 e 2 nos anos seguintes ao funcionamento dos programas (medidas socioeducativas e NAI) (LIMA e ZANCHIN, 2011).
Apesar do discurso em torno da positividade da experiência local, em uma publicação recente em homenagem às medidas socioeducativas em meio aberto, em um dos capítulos de autoria de Lima e Zanchin (2011), aponta-se que a efetiva aplicação e funcionamento das medidas socioeducativas é decorrência da mobilização social e, para que esta aconteça, é necessária a articulação de diferentes atores da sociedade e das diversas áreas das políticas públicas básicas: educação, assistência social, cultura, trabalho, esporte, lazer e outras. Para outro pesquisador, Guimarães (2011) dentre suas conclusões sobre o Sistema NAI, ele acrescenta:
58 Apesar do discurso de olhar o ato infracional como resultado de circunstâncias mais amplas da vida do jovem, verifica-se ainda uma grande distância geográfica e cultural entre o NAI e o local no qual o jovem vive. Esse se desloca do local de moradia ate as instituições nas quais cumprira a medida socioeducativa, onde permanece um tempo definido e momentâneo. A maior parte do tempo restante estará em seu local de convívio cotidiano e sujeito às normas e relações sociais que, no geral, favoreceram a prática do ato infracional. Mesmo com o intuito conservador de disciplinar e normatizar o jovem segundo os padrões e normas estabelecidos pela sociedade legalmente estabelecida, o NAI ignora as relações sociais locais que levam o jovem a infracionar e acaba por reproduzir o mecanismo de uma instância disciplinadora após a efetivação do ato infracional (p. 114).
De toda forma, é preciso ressaltar que grande parte (quase a totalidade) dos adolescentes que são encaminhados ao NAI reside em bairros das áreas periféricas da cidade de São Carlos, sendo o Jardim Gonzaga um dentre esses bairros. Ali são realizadas as atividades de extensão do Projeto METUIA e onde residem os adolescentes que foram acompanhados pela presente pesquisa. Portanto, a apresentação do Jardim Gonzaga, sua breve história, condição e sobretudo a presença do Estado no bairro se fizeram necessárias pelo fato de que muitas questões que emergem das histórias de vida dos jovens se relacionam com isso. A “favela do Gonzaga”, forma pela qual os adolescentes nomeiam o bairro, é o pano de fundo e de “frente” das vidas em cena.
De acordo com Rosa (2009), a fundação da “favela” ocorreu por volta de 1976 e os desdobramentos imediatos à urbanização que oficializaria sua transformação em “bairro Jardim Gonzaga” sucederam-se entre 1989 e 1990. A ocupação inicial foi considerada irregular tanto no que se refere às dimensões e à ocupação dos lotes, como quanto ao caráter de ilegalidade das suas novas construções, que se localizavam cada vez mais próximo de uma grande área de risco e de preservação ambiental, a Reserva da Bacia Hidrográfica do Córrego da Água Quente, chamada pelos moradores locais de “buracão” (este local que possui três nascentes, porém por ali também são despejados os esgotos das casas do Jardim Gonzaga, bem como de outros bairros vizinhos).
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Figura 1: Mapa da cidade de São Carlos
Fonte: Google Mapas Conforme o mapa, o bairro está localizado no interior do círculo vermelho, cerca de 2 quilômetros da região central de São Carlos (no mapa destacado com a letra A). Isto nos traz a primeira discussão: por que um bairro tão próximo da área central é considerado,
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intitulado, como periferia? Por que seus moradores, especialmente os adolescentes e jovens, veiculam a imagem: “Sou da favela”, sem também ser “visualmente” uma “favela”?
Essas questões desdobraram-se em um trabalho de pesquisa que ganhou corpo próprio, na condição de iniciação científica, sobre a história do bairro desenvolvido por Letícia de Souza Brandão (LOPES et al., 2010). Com base nos documentos e nas entrevistas com as lideranças locais e com alguns jovens, concluímos que as respostas a essas perguntas não são uníssonas e dependem, principalmente, da geração à qual o destinatário da pergunta pertence.
Existe um consenso entre os moradores de que o bairro é de uma periferia, contraditoriamente, em termos geográficos; porém, com a expansão da cidade, o bairro não mais ocupa o lugar de periferia. A consolidação desse conceito está mais definido pelos códigos culturais e pelas condições estruturais ali existentes do que necessariamente pela marcação geográfica de distância/proximidade da região central.
Em relação ao conceito de favela, em decorrência dos intensos processos advindos da política habitacional do fim da década de 1980, visivelmente, não se associa a imagem do bairro a uma favela, mas, simbolicamente, os moradores, sobretudo os jovens, continuam a nomear de favela ou autorreferem-se “Sou da Favela” como forte marca identitária. Aqui se explicitam as diferenças geracionais mencionadas acima, pois, para os moradores mais velhos, trata-se de um bairro urbanizado, eles fazem parte de um grupo que se envolveu no movimento social reivindicando melhores condições de infraestrutura e moradia; já os moradores mais novos, os jovens, consensualmente, consideram que é uma favela. Estes, por sua vez, não passaram pela experiência da mobilização coletiva como seus pais/avós e, além disso, sofrem na pele a discriminação quando revelam que são moradores do bairro, por exemplo, quando tentam acessar vagas de trabalho. Vale ressaltar que, ao adentrarmos no interior das casas do Jardim Gonzaga, as condições precárias de grande parte delas, por morarem 8, 9, 10 pessoas em um espaço físico de 20 metros quadrados, remetem-nos às mesmas condições que encontramos nas “favelas” ou nos “cortiços”.
Para os de “fora”, do mesmo jeito que o bairro de Corneville na obra de Foote Whyte (2005), especialmente para uma classe social alta, é percebida “como uma
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políticos corruptos, de pobreza e crime, de crenças e atividades subversivas” (WHYTE, 2005,
p. 20), assim é o ‘Gonzaga’ e sua referência para grande parte dos moradores da cidade de São Carlos.
Outra autora que também esclareceu essas diferenças conceituais entre periferia, favela e suas transformações de uso ao longo dos anos foi Thais Rosa (2009), como fruto de sua pesquisa de mestrado que também se debruça sobre este mesmo território. Segundo a autora, no que tange especificamente sobre o Jardim Gonzaga:
tal estudo de caso trouxe à tona algumas dificuldades relativas ao enquadramento conceitual dos espaços de moradia dos pobres na cidade e permitiu entrever que, no bojo dessas dificuldades, estaria a escassez de pesquisas que se proponham a apreender a historicidade dessas “formas sociais urbanas”, que são produzidas e apropriadas cotidiana e processualmente (ROSA, 2009, s/p).
E ainda,
Ao encarar um fenômeno urbano como o ‘Gonzaga’ a partir da consideração de sua historicidade, tornou-se evidente, para a pesquisa, que aquele espaço somente se moldou, sua produção somente se fez possível, através de mediações diversas estabelecidas entre interesses, posturas e práticas de diversos atores. As histórias reconstruídas pela pesquisa revelaram a complexidade de relações estabelecidas (ROSA, 2009, s/p).
Desde sua fundação, a “favela do Gonzaga” passou por um processo lento de intervenções até se transformar no bairro Jardim Gonzaga, sendo que a principal mediação entre Estado e comunidade, com vistas à urbanização, foi efetivada no fim da década de 1990, por transformações financiadas pelo “Projeto de Urbanização Integrado – Gonzaga e Monte Carlo” (SÃO CARLOS, 2002), em parceria com o Programa Habitar Brasil, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Tal projeto objetivou a solução de problemáticas habitacionais locais, como o escoamento das águas pluviais, diminuindo a declividade do terreno, e as consequentes erosões do solo. A promessa de regularização fundiária realizada nesse momento até hoje não foi efetivada. Foram realizadas obras de infraestrutura (drenagem, rede de água e esgoto, pavimentação, iluminação e contenção de encostas), as de reestruturação das casas e legalização daquelas em que os moradores já habitavam havia mais de cinco anos (portanto, com direito de usucapião), a edificação
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de dois conjuntos habitacionais e da Estação Comunitária (ECO) – a qual possui uma quadra poliesportiva coberta, um minicampo de futebol, uma área de recreação infantil, uma sala multiúso, uma área de convivência e um posto de saúde da família (CAMPOS et al., 2003).
De uma forma geral, é um bairro que detém, quando comparado aos indicativos globais do município, altos índices de desemprego, pobreza, violência e baixos índices de desenvolvimento humano, especialmente no que se refere ao acesso a bens e serviços. No entanto, nele foi criada uma infraestrutura importante de serviços públicos, entre eles: Escolas (Municipal Janete Lia [1] e Estadual Dona Aracy Pereira Lopes Leite [3]), Centro de Referência de Assistência Social (1), Centro da Juventude Elaine Viviane (2), a Estação Comunitária – ECO (4). Localizados no mapa abaixo:
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Figura 2: Mapa de localização do Jardim Gonzaga e alguns equipamentos sociais referidos
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Outros questionamentos, para compreender a organização do bairro, foram importantes para serem colocados no transcorrer da pesquisa de campo: como sua proximidade com a área central permitiu a proliferação de práticas ligadas ao comércio de drogas ilícitas? Mesmo com a intervenção do poder público e também da Universidade34, por meio da existência de diferentes serviços e ações, como não se reverteu uma realidade de violência cotidiana, de luta entre a ordem do “mundo do crime” 35 e a das forças de segurança pública?
Este mesmo bairro é palco da convivência quase naturalizada do abuso de poder e da violência policial. Histórias que relatam o confronto direto principalmente entre policiais de base do serviço de segurança pública (principalmente advindos da polícia militar) e jovens, especialmente os do sexo masculino, não foram poucas.
Com base no campo empírico e na obra de Whyte (2005), passamos a compreender que a não reversão desse quadro se dá pela funcionalidade e apoio que o Estado e a sociedade proveem. De alguma forma, a polícia tem o aval social para ser truculenta e desumana e, para compreender a atuação dos profissionais que trabalham nos serviços públicos do bairro, remetemo-nos à obra acima citada. O autor em questão se debruça sobre as relações estabelecidas entre os operadores das políticas sociais, no caso, as assistentes sociais com os jovens, e a como no cotidiano de trabalho esses profissionais lidavam com o sistema, para a sua manutenção. As assistentes sociais do Centro Comunitário de Corneville36 são pessoas de classe média de ascendência não italiana, que não falam italiano nem têm essa pretensão, “pouco se esforçavam para conhecer a organização social local, e só sabiam o que lhes chegava pelos contatos em suas instituições”
(WHYTE, 2005, p. 117), pensavam seu trabalho em termos de adaptação das pessoas locais aos códigos institucional, elegiam alguns indivíduos como merecedores de atenção
34 Anexo um documento que solicita ao Departamento de Terapia Ocupacional da UFSCar como os
professores poderiam contribuir com práticas extensionistas para o desenvolvimento do bairro (Anexo II). Destacam-se também iniciativas de outros departamentos da referida universidade que já acumularam uma história de intervenção no bairro, as mais conhecidas e reconhecidas pela comunidade são: a Cooperativa de Limpeza e de Materiais Reciclados, que foi criada e gestada pela Incubadora Regional de Cooperativas Populares ligadas ao Núcleo Multidisciplinar e Integrado de estudos de formação e intervenção em Economia Solidária; e o Projeto Campões da Rua, que é do Departamento de Educação Física, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Luis Gonçalvez Junior.
35 “Trata-se de expressão que designa o conjunto de códigos sociais, sociabilidades, relações objetivas e
discursivas que se estabelecem, prioritariamente no âmbito local, em torno dos negócios ilícitos do narcotráfico, dos roubos, assaltos e furtos” (FELTRAN, 2008; p. 31).
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especial e ajuda, estimulavam a mobilidade social por meio da saída daquele território, mas se constituíam como profissionais que pouco se importavam com a realidade do seu público e, apesar de não se preconceituosos, suas ações os traíam.
Esse conjunto de características denuncia a forma como o Estado, no caso norte- americano, criou políticas sociais marcadas pelo distanciamento entre as pessoas, o que impossibilita os processos de reconhecimento e acolhimento. Isto é proposital, pois passamos a compreender que tais políticas são criadas para gerirem conflitos entre pobres e ricos, ou melhor, para criar um contexto (na falência do estado de bem-estar social) em que o Estado está realizando algo em prol dos “mais carentes”, com vistas à manutenção da situação tal qual ela é.
Feitas as devidas contextualizações, culturais e históricas, esta argumentação ofertada por Whyte (2005) ajuda a compreender o que se passa nos equipamentos públicos do Jardim Gonzaga, que representam a capilarização do próprio Estado. Nesses equipamentos, com o desenvolvimento das profissões na área social, temos outros profissionais executando a política social. Além das assistentes sociais, temos pedagogos, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, sociólogos, entre outros, que frequentemente são profissionais de fora daquela comunidade, transitórios, haja vista o baixo salário, fazendo com que não se fixem os profissionais naqueles postos de trabalhos. Estas questões marcam o desenvolvimento de um trabalho frágil, uma vez que não se constituem relações de confiança entre os operadores da política social e os moradores, tampouco uma apreensão e um envolvimento com a realidade local, o que confere uma baixa articulação entre os próprios serviços e entre os serviços e seu público, principalmente para empreenderem coletivamente ações em prol do bairro e da