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A associação de uma espiritualidade sadia, com base em uma antropologia cristã pode colaborar, na busca de um sentido da vida, para uma maturidade psicológica, princípio de intenção logoterápica.51

Com largo uso hoje, o termo maturidade é um conceito tomado da botânica e que passou a “significar plenitude antropológica, a harmonia e a plena realização das virtudes humanas” (Goya, 2009, 84). Assim podemos falar de um equilíbrio das forças psicológicas que nos ajudam a ter uma

50 Mêncio foi discípulo do Confúcio e viveu entre 371 – 289 a. C, apud Swidler, 1996, 53

51 “M. Szentmártoni escreve: ‘As novas estatísticas indicam que 70% dos adultos na civilização ocidental (as

estatísticas são feitas somente em tais países) são imaturos afetivamente, são primitivos do ponto de vista religioso e infantis do ponto de vista moral. Mailloux, fazendo próprio o pensamento de Tomás de Aquino, afirma que um grande número de pessoas permanece imaturo porque guiadas por determinismos psicológicos. Kohlberg afirma que 2/3 dos adultos da cultura ocidental raciocinam num nível primitivo sobre o juízo moral e permanecem entre 3 ou 4 graus da sua escala de seis graus.’ Nos Estados Unidos, a cada dia, 76 milhões de pessoas tomam tranqüilizantes neuro-sedativos” (Goya, 2009, 84 – notas).

107 postura diante da vida pelo sentido que nela podemos encontrar. Evidentemente o dinamismo do espírito que envolve o sujeito neste processo não poderá ser infantil, cujo expressão se revela muitas vezes no fanatismo de proporções as vezes fatais, quer seja para o sujeito, quer seja como consequências de suas atitudes.

O sujeito, depois de um processo de equilibrada maturação de todas as suas faculdades, capacidades, funções, chega a um estado de plenitude psicológica. Em tal estado de harmônica integração ele ‘domina ativamente o que lhe é circunstante, demonstra certa coesão de personalidade e está apto para perceber exatamente o mundo e a si mesmo’(Goya, 2009, 85).

Desta forma vemos que o que se pode esperar desta maturidade humana a que nos referimos com a descoberta do sentido a partir do dinamismo da espiritualidade cristã é justamente o reconhecimento e a acolhida do eu real, com todos os limites e grandezas, ou numa linguagem teológica, com os pecados e a santidade que uma pessoa possa ter. É reconhecer o positivo e o negativo na vida de todos nós, buscando o predomínio dos fatores positivos que são essenciais tanto para uma maturidade psicológica como espiritual.

5.1A Importância da Espiritualidade no Caminho para a Maturidade

Dentro do princípio desta busca de maturidade psicológica, a dimensão do espírito terá um papel dinamizador de singular importância. Em contrapartida o inverso também se torna verdadeiro, ou seja, se o resgate da dimensão do espírito nos possibilita uma cura das nossas neuroses e portanto, um equilíbrio psíquico, tal condição possibilitará uma espiritualidade mais autêntica e real, cuja resposta possa trazer sentido à nossa condição humana. Diferentemente, uma espiritualidade infantilista traz mais perturbação que libertação na nossa relação com Deus que geram instituições ou grupos religiosos de tal modo fundamentalista e distante da condição humana que distorcem a possibilidade de se tornarem meio para a autêntica espiritualidade como fonte de maturidade humana, gerando mais submissão e subserviência a uma doutrina do que integração e libertação. Talvez isso nos permita entender as teses de Freud e Marx com relação a religião e a angústia de Kierkegaard.

Se ao longo dos anos a vida espiritual não favorece em nós o sentido do real – quando as coisas e pessoas adquirem densidade existencial para nós – e o crescimento de nossa liberdade interior, então está sendo conduzida transversalmente. Se a vida espiritual, em vez de encaminhar-nos à maturidade, contribui para manter-nos num infantilismo psicológico, não se

108 construirá o sentido de Deus. A conformação paulatina à semelhança de Deus deve tornar-nos progressivamente mais verdadeiros e livres em meio aos seres humanos (Mondoni, 2000, 108).

Neste sentido, o ser humano, como consciência de si gerada pela maturidade psicológica, terá um dinamismo que não pode ser determinada apenas por pulsões corporais pois também será razão livre. O homem também sempre estará além de um condicionamento histórico que o submete e sujeita, pois o sentido da vida não lhe pode ser subestimado. “A consciência do tempo também é algo próprio do ser humano: ele é capaz de agir segundo um projeto e de projetar-se na esperança”. (Mondoni, 2000, 110). Possui uma capacidade reflexão e percepção que suplanta o meramente instintivo e assim pode considerar se o seu desejo é salutar ou prejudicial. Com diz Paulo: “ ‘Tudo é permitido’. Mas nem tudo convém. ‘Tudo é permitido’. Mas nem tudo edifica”. (1Cor 10, 23 )

Aqui a teoria de Frankl com a criação da Logoterapia terá um papel importante no sentido de que irá colaborar para o “regate” da dimensão do espírito, nos ajudando a perceber com a autotranscendência que somos mais que pulsões e matéria. “Não é preciso buscar a essência da Logoterapia na medicina, na psicologia ou na psiquiatria, embora ela tenha relação com as três ciências da saúde física e mental. Recordar e enfatizar a presença da espiritualidade no homem é que é a função da Logoterapia”(Bretones, 1999, 40). Mas justamente aí reside o diferencial que será determinante para a cura e portanto, a maturidade humana, uma vida cuja esperança se dá no encontro do sentido que a plenifica.

Da mesma forma que na poesia, também na psicologia é inadmissível rimar

Liebe (amor) com Triebe (instintos). Enquanto um eu for ‘impulsionado’ para

um tu por um id, não é possível falar de amor. No amor, nenhum eu é impulsionado por um id – no amor, um eu se ‘decide’ por um tu (Frankl, 2007, 33).

No pós-modernismo que vivemos, com os paradoxos que envolvem nossas sociedades, numa situação cultural que reflete, nos dizeres de Gilles Lipovetsky, uma situação de “hipermodernidade” caracterizada pelo “hiperconsumismo e hipernarcisismo”, cuja complexidade ultrapassa o consumismo e o narcisismo em si, podem revelar-se em buscas espirituais nada ortodoxas, exigindo até mesmo do próprio cristianismo um posicionar-se claramente diante de sua proposta de vida como geradora de sentido. Há esta necessidade de estar atento àquilo que é essencial ao espírito humano, cuja característica não se limita ao temporal e efêmero, aquilo que revela o que é especificamente humano e que a Igreja como depositária da fé tem o papel de ajudar a resgatar, voltando-se ininterruptamente ao seio de evangelho do mestre. Evidentemente ela nem sempre conseguiu

109 cumprir o seu papel, resumindo a essência do evangelho mais a aplicação de vivência cristã a partir de modos culturais que o assimilaram do que buscar no sentido evangélico o sentido da vida a ser descoberto em cada cultura em particular (inculturação).

profunda ‘nostalgia’ do Sagrado que emerge do âmago do homem contemporâneo, ainda que disso não se dê conta. Fruto de profundas dilacerações dentro e fora de si mesmo, as quais se amalgamam com as diversas crises hodiernas, o homem da sociedade pós-industrial parece ter sede de uma busca de sentido (Santana, 1999, 21).

A proposta cristã, portanto, pode ser colaboradora no processo de maturidade humana com a riqueza da espiritualidade que a sustenta.

5.2 O Fruto da Maturidade é o Amor

Já nos lembrava Agostinho Hipona: “Ama e faze o que quiseres”, a esta assertiva não nos imputava o santo a necessidade da maturidade gerada por uma autentica espiritualidade como fonte de alteridade? Evidente que sim. O sentido é descoberta pessoal, mas que não significa com isso um narcisismo inócuo como vimos anteriormente. Ele se dá na abertura que se faz em direção a algo ou alguém nos dirá Frankl. A espiritualidade cristã será por excelência a busca do outro pois ela é a experiência do amor que somente pode existir no encontro, na relação, dinamismo do próprio Deus em sua kenosis no qual o Filho se esvazia de sua condição divina para fazer-se um de nós e assim permitir o encontro e o amor.

“Ninguém liberta ninguém” dizia Paulo Freire, mas “ninguém se liberta sozinho” acrescenta Pedro Casaldáliga. O processo de cura pelo sentido se dá na pessoa, não é algo que é dado de fora ou que possa ser dado a ela por alguém. A psicoterapia, como o aconselhamento pastoral devem colaborar neste processo. Ao contemplarmos a prática cotidiana de Jesus encontramos como grande marco de sua atuação a solidariedade, este estar junto, sensível às dores da vida de cada um. Embora a ideia de divindade está sempre associada ao poder como força superior à condição humana, a experiência cristã mostra ao contrário um Deus que busca a condição humana e com isso nos mostra não somente que a proximidade é que permite o amor (vivido no afeto e não apenas na lei) como revela que a possibilidade de uma real transformação de vida se dá neste dinamismo da busca do outro e então, no amor, o sentido pode ser encontrado e o equilíbrio estabelecido.

Na aceitação do eu real, com os limites e as grandezas das quais somos portadores, o amor como ensinado pelo Cristo, permite a ruptura com um egoísmo destrutivo do qual somos formados,

110 particularmente fantasioso nos dias atuais, onde as pessoas são convidadas a uma projeção do eu em idealização falaciosas de uma sociedade profundamente egocêntrica. O pedido de renuncia de si mesmo e das coisas do mundo que Jesus nos propõe é altamente revelador da liberdade essencial para o equilíbrio psíquico, pois a realidade e não a fantasia é assumida e a dinâmica do amor passa a solidificar a existência portadora de sentido (Lc 14, 33 ; 9, 23). A pessoa assim amadurecida pelo amor produz uma diferença substancial para o relacionamento social uma vez que será capaz de entender o outro como procura entender a si mesmo e não penas rejeitá-lo como nos propõe o pensamento sartreano: “O outro é o inferno”. Não posso esquecer de que se não consigo viver a maturidade humana e espiritual, eu é que serei o inferno na vida do outro, mas se luto para que isso se realize na minha vida, há um novo horizonte a ser concretizado do qual o cristianismo traz elementos realmente profícuos de significação. Já dizia Mêncio: “A pessoa boa trata o não-amado da mesma forma como trata o amado”. Eis a proposta de Jesus! E esta talvez seja a perfeição52 que nos pede em seu evangelho, perfeição não enquanto possibilidade de não conter falhas em nossas vidas e nosso proceder, mas ter uma espiritualidade que nos permita transcender a uma possibilidade de vida que seja marcada por ideais diferenciadores dos puramente instintivos.

A teoria bem como a proposta logoterápica de Frankl com o resgate da dimensão do espírito permite trilhar este caminho do amor como dinâmica para a descoberta do sentido da vida apesar dos condicionantes da existência. “O ser humano precisa aprender a superar-se pelo amor em vez de tremer ante o medo de não ser amado”(Lukas, 2006, 42). Nesta fórmula imperativa da Logoterapia criada por Frankl está um grande contributo para o entendimento do sentido apesar de tudo e de uma contribuição para a compreensão da proposta de Jesus e seus paradoxos existenciais. Sem este amadurecimento e a descoberta do amor como princípio norteador da vida e da realidade que somos e em que vivemos, a pessoa corre o risco de encerrar-se numa cadeia repressiva criada por seus próprios sentimentos. “Quando uma pessoa não tem nenhum grande objetivo na sua vida, quando não tem um horizonte de futuro que lhe guie e dê sentido à sua vida, todo e qualquer limite é visto e sentido como algo repressivo ou opressivo”(Mo Sung, 2007, 124).

Para Lukas, o reconhecimento da espiritualidade como dimensão a ser valorizada na psicologia, irá produzir no ser humano o resgate de duas capacidades catalisadores de uma equilibrada e amadurecida: 1. Capacidade de autotranscendência: que será justamente a ultrapassagem do limite em direção a algo em que crê e que ama; 2. Capacidade de

52 O tema da perfeição no evangelho aparece em Mt 5, 43-48 e em Lc 6,27-28.32-35. O mandato do amor

pregado por Jesus pede uma superação da lei antiga que manda amar o próximo e odiar os inimigos. A proposta de amor incondicional é que torna o homem / mulher “semelhante” a Deus, cuja identidade original se vê resgatada em Jesus que nos convida a seremos “perfeitos como Deus é perfeito” e esta perfeição é justamente um identificar-se com Ele, homem maduro e equilibrado diante dos inevitáveis conflitos da vida.

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autodistanciamento: como possibilidade de formar-se a si mesmo sob o aspecto da credibilidade e da

valorização do amor, “pois quando o princípio da vida não amadurece, transformando-se em princípio de sentido, ficou atolado no princípio de prazer” ( 2006, 138).

Desta forma, a própria prática do amor deve encontrar nos princípios cristãos estruturas balizadores de uma conduta ética que não o permita cair num infantilismo romântico para que seja eficaz sua atuação em nossa vida. Nas palavras de Oskar Pfister dirigida a Freud vemos expressa esta acertiva: “Pois a diferença entre o amor livre e a libertinagem é muito imprecisa [...] a melhoria de nossas condições sociais, uma educação e uma atitude diante da vida mais saudáveis [é] que nos libertarão do flagelo massivo da neurose e da perversão”(Morano, 2008, 51).

Em suma, entendemos que a maturidade psicológica terá que contar uma espiritualidade também amadurecida pela fé que permite uma superação dos limites da existência como abertura ao outro, cujo relacionamento no amor frutifica no sentido que cura. Assim define nosso pensador:

O homem se torna ele próprio, o homem atua sobre ele mesmo, o homem é humano precisamente na medida em que ele não esteja preocupado consigo mesmo, ou alguma coisa dentro de si próprio, mas vivendo a sua atuotranscendência – em que ele esteja servindo a uma causa, cumprindo um desígnio, ou amando outro ser humano ( Frankl, 2010, 175).

Benzer Belgeler