Outro aspecto relevante, citado por Zimmermann e Cunningham (1991), diz respeito ao que os autores chamam de renascimento da visualização, uma vez que, como argumentam, a visualização não é uma invenção recente, sendo tão antiga quanto a própria Matemática. Atentam para a retomada do interesse das ciências, engenharias e, de maneira ainda modesta, da Matemática, pelo tema da visualização, a partir de um despertar de consciência da sua importância no cenário científico e social.
No panorama da Biologia e das relações sócio-culturais, a visão ocupa um lugar de centralidade, comparando-se a outros sentidos (ARCAVI, 1999). Remetendo-se ao aspecto sócio-cultural, Arcavi (1999) trata do que é patente em relação ao mundo em que vivemos, repleto de imagens, as quais são utilizadas para efeito de comunicação, utilizando-se de transporte de informação, entre outros instrumentos, embalagens plásticas e tecnologias diversas. O autor destaca a presença das imagens desde os tempos das cavernas, como também as implicações ocorridas a partir da mudança de foco da cultura de impressão escrita para a cultura visual, o que é corroborado por Carlos (2002), já referenciada no corpo deste trabalho.
Um dos motivos para esse fenômeno seria o impulso que o desenvolvimento tecnológico vem promovendo. De uma forma mais específica, a computação gráfica, a qual é essencialmente visual, tem permitido um grande desenvolvimento nos mais diversos campos de pesquisa em função da possibilidade de ampliação da capacidade de visualização.
Zimmermann e Cunningham (1991) informam que um relatório da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos aponta a visualização, principalmente a
partir da computação gráfica, como um importante instrumento que auxilia as descobertas científicas, através da promoção de reflexões concretas sobre o objeto de estudo.
Destacam a seguinte conclusão: “visualization offers a method of seeing the unseen” (ZIMMERMANN E CUNNIGHAM, 1991, p.2), ou seja, a visualização compreenderia um método que nos permitiria ver o não visível. Apesar do relatório se destinar mais para as ciências aplicadas, esses autores concluem que o teor do relatório é aplicável também à Matemática, às ciências em geral, à pesquisa e ao ensino.
Hershkowitz, Parzysz e Dormolen (apud COSTA, 2000, p. 177-178)
apontam duas razões porque nas últimas décadas se fala do “renascimento da visualização”: - na vida moderna a apresentação de fenômenos mudou de tabelas e fórmulas carregadas de números e símbolos para uma apresentação visual dinâmica no monitor do computador; - hoje em dia há mudanças na visão da matemática pelo que a matemática é vista como uma continuada “procura de modelos” e esta metáfora é seguramente visual.
Ademais, a visualização, segundo Zimmermann e Cunnigham (1991), tal qual a Geometria, relaciona-se com os mais diversos campos da Matemática, contendo aspectos históricos, filosóficos, psicológicos, pedagógicos e tecnológicos. Para exprimir a essência da visualização matemática, os autores referem-se ao entendimento sobre o que é Matemática, a partir do pensamento de Steen27 de que a Matemática, além de outras definições, é a ciência dos padrões. Sendo assim, argumentam que
Not all patterns can be visualized, but it is as natural to want to visualize a pattern as it is to want to hear a melody. If mathematics is the science of patterns, it is natural to try to find the most effective ways to visualize these patterns and to learn to use visualization creatively as a tool for understanding. This is the essence of mathematical visualization. (ZIMMERMANN e CUNNIGHAM, 1991, p.3).
Apesar de esses autores privilegiarem o uso do computador, principalmente o manuseio da computação gráfica, para facilitar a compreensão em Matemática, eles sugerem a ampliação do emprego de outras tecnologias que promovam as imagens,
tais como o vídeo, cinema, dentre outros. Essa tendência é confirmada por Flores (2012, p.34-35), ao defender “a ideia de que as tecnologias e softwares têm papel fundamental no processo de visualização, contribuindo para o desenvolvimento da capacidade do aluno para visualizar em matemática”.
Zimmermann e Cunnigham (1991) partem do princípio de que seria um equívoco trabalhar exclusivamente com as ferramentas computacionais. Na utilização desse recurso, ser capaz de visualizar matematicamente, de forma eficiente e sem comprometer o aprendizado, requer do indivíduo o desenvolvimento anterior ou simultâneo de outras habilidades mais simples, tais como desenhar uma figura utilizando lápis e régua, por exemplo, e interpretá-la com eficácia na representação de um problema matemático, pois a atividade de ver não garante o entendimento, ou seja, para esses pesquisadores, não devemos confundir visão com visualização.
Nesse sentido, Hershkowitz, Parzysz e Dormolen (apud COSTA, 2000, p.178 -179) relacionam alguns motivos para justificar a necessidade da escola de ensino básico investir em atividades que envolvam a visualização, são elas:
- a visualização é uma parte essencial da inteligência humana; - o desenvolvimento visual não ocorre segundo uma abordagem linear; - uma abordagem fenomenológica para a aprendizagem das matemáticas pode dar ao estudante uma melhor compreensão do espaço e da forma; - presume-se que outras formas de aprender geometria, diferentes da abordagem euclidiana, que realcem o pensamento visual e confiem nos poderes e dinâmicos das ferramentas tecnológicas se ajustarão às exigências na nova sociedade; porque nos movemos da visão que a matemática é uma estrutura lógica para aquela na qual a matemática é um processo de conjecturar e justificar ou refutar, ambientes experimentais para conjecturar, que envolvam o uso de objetos visuais deveriam jogar uma papel importante; - na nova visão da educação matemática, os estudantes deveriam estar activamente envolvidos na situação de aprendizagem que eles criaram e aceitaram como uma situação problemática dentro da sua realidade.
Portanto, a visualização passa a ter papel central no processo de ensino de Matemática. As atuais propostas curriculares com novas abordagens e práticas inovadoras de sala de aula e o consequente entendimento que decorre dessas, imprime uma condição de revalorização de seu lugar natural no cenário da Educação Matemática (ARCAVI, 1999), apesar da existência de algumas dificuldades no seu trato, que são abordadas a seguir.